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MPF pede arquivamento de projeto que proíbe casamento homoafetivo

Repro­du­ção: © Lula Marques/ Agên­cia Bra­sil

Texto está em tramitação na Câmara dos Deputados


Publi­ca­do em 24/09/2023 — 12:34 Por Andreia Ver­dé­lio – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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A Pro­cu­ra­do­ria Fede­ral dos Direi­tos do Cida­dão (PFDC), órgão do Minis­té­rio Públi­co Fede­ral (MPF), pediu a rejei­ção e o arqui­va­men­to do pro­je­to de lei que quer proi­bir a união civil de pes­so­as do mes­mo sexo no Bra­sil. De acor­do com a pro­cu­ra­do­ria, além de incons­ti­tu­ci­o­nal, a pro­pos­ta afron­ta prin­cí­pi­os inter­na­ci­o­nais e repre­sen­ta retro­ces­so no que diz res­pei­to aos direi­tos e garan­ti­as fun­da­men­tais das pes­so­as LGBTQIA+.

O tex­to está em tra­mi­ta­ção na Câma­ra dos Depu­ta­dos. Em nota públi­ca envi­a­da à Casa na sex­ta-fei­ra (22), a pro­cu­ra­do­ria ava­lia que negar a pos­si­bi­li­da­de de união civil homo­a­fe­ti­va sig­ni­fi­ca dizer que os homos­se­xu­ais teri­am menos direi­tos que os hete­ros­se­xu­ais, “cri­an­do uma hie­rar­quia de seres huma­nos com base na ori­en­ta­ção sexu­al”.

Para a pro­cu­ra­do­ria, esse enten­di­men­to seria con­trá­rio a pre­cei­tos cons­ti­tu­ci­o­nais, como o da dig­ni­da­de do ser huma­no e a proi­bi­ção de qual­quer for­ma de dis­cri­mi­na­ção. “Essa ideia coli­de fron­tal­men­te com a essên­cia da Cons­ti­tui­ção da Repú­bli­ca Fede­ra­ti­va do Bra­sil, a qual bus­ca estru­tu­rar uma nação em que a con­vi­vên­cia entre os dife­ren­tes seja pací­fi­ca e harmô­ni­ca”, diz a nota.

“Uma even­tu­al apro­va­ção des­se pro­je­to não sig­ni­fi­ca ape­nas o Esta­do assu­mir que exis­te um mode­lo cor­re­to de casa­men­to e que este mode­lo seria o hete­ros­se­xu­al. Sig­ni­fi­ca tam­bém dizer que o Esta­do reco­nhe­ce as pes­so­as não hete­ro­nor­ma­ti­vas como cida­dãs e cida­dãos de segun­da clas­se, que não podem exer­ci­tar todos os seus direi­tos, em fun­ção de sua ori­en­ta­ção sexu­al”, des­ta­cou a pro­cu­ra­do­ria.

A Pro­cu­ra­do­ria Fede­ral dos Direi­tos do Cida­dão citou dados do IBGE que apon­tam que, ape­nas em 2021, 9,2 mil casais de mes­mo sexo for­ma­li­za­ram sua união está­vel em car­tó­rio. Caso o pro­je­to se tor­ne lei, o órgão do MPF aler­ta que novas uniões esta­rão veda­das ou não sur­ti­rão os efei­tos legais dese­ja­dos, “cri­an­do evi­den­te e injus­ti­fi­ca­do dese­qui­lí­brio entre pes­so­as homo e hete­ros­se­xu­ais”.

Além dis­so, de acor­do com a nota, a união civil é um ato volun­tá­rio e pri­va­do, “cuja essên­cia é con­cre­ti­zar uma par­ce­ria entre duas pes­so­as para uma vida em comum”. “Nes­se sen­ti­do, pou­co impor­ta a ori­en­ta­ção sexu­al de quem está se unin­do, e isso não diz res­pei­to a toda cole­ti­vi­da­de, em um Esta­do demo­crá­ti­co que garan­ta as liber­da­des fun­da­men­tais, em espe­ci­al as dos indi­ví­du­os”, diz.

Na ava­li­a­ção da pro­cu­ra­do­ria, o pro­je­to ten­ta cer­ce­ar o direi­to de esco­lha dos indi­ví­du­os, em situ­a­ção que se refe­re emi­nen­te­men­te à esfe­ra pri­va­da.

A vota­ção do Pro­je­to de Lei 5.167/2009 esta­va na pau­ta do dia 19 na Comis­são de Pre­vi­dên­cia, Assis­tên­cia Soci­al, Infân­cia, Ado­les­cên­cia e Famí­lia da Câma­ra dos Depu­ta­dos, mas foi adi­a­da para a pró­xi­ma quar­ta-fei­ra (27). Pelo acor­do entre as lide­ran­ças par­ti­dá­ri­as, antes de colo­car o tex­to em vota­ção, a comis­são rea­li­za­rá uma audi­ên­cia públi­ca na ter­ça-fei­ra (26) para deba­ter o tema.

Histórico

Em 2011, o Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral (STF) equi­pa­rou as rela­ções entre pes­so­as do mes­mo sexo às uniões está­veis entre homens e mulhe­res, reco­nhe­cen­do, assim, a união homo­a­fe­ti­va como núcleo fami­li­ar. A deci­são foi toma­da no jul­ga­men­to da Ação Dire­ta de Incons­ti­tu­ci­o­na­li­da­de 4277 e da Argui­ção de Des­cum­pri­men­to de Pre­cei­to Fun­da­men­tal 132.

Além dis­so, o STF enten­deu que não há na Cons­ti­tui­ção um con­cei­to fecha­do ou redu­ci­o­nis­ta de famí­lia, nem qual­quer for­ma­li­da­de exi­gi­da para que ela seja con­si­de­ra­da como tal. Em 2013, o Con­se­lho Naci­o­nal da Jus­ti­ça (CNJ) deter­mi­nou que todos os car­tó­ri­os do país rea­li­zas­sem os casa­men­tos homo­a­fe­ti­vos.

“A deci­são do STF tra­tou de asse­gu­rar a equi­da­de de tra­ta­men­to entre casais héte­ro e homo­a­fe­ti­vos. Per­mi­tiu a côn­ju­ges homos­se­xu­ais o esta­be­le­ci­men­to de união civil por meio de con­tra­to reco­nhe­ci­do pelo Esta­do, garan­tin­do-lhes direi­tos como heran­ça, com­par­ti­lha­men­to de pla­nos de saú­de, direi­tos pre­vi­den­ciá­ri­os e outros, já reco­nhe­ci­dos aos con­sor­tes hete­ros­se­xu­ais”, expli­cou a pro­cu­ra­do­ria.

O tex­to em dis­cus­são na Câma­ra dos Depu­ta­dos, de rela­to­ria do depu­ta­do Pas­tor Euri­co (PL-PE), pre­ten­de incluir no Arti­go 1.521 do Códi­go Civil o seguin­te tre­cho: “Nos ter­mos cons­ti­tu­ci­o­nais, nenhu­ma rela­ção entre pes­so­as do mes­mo sexo pode equi­pa­rar-se ao casa­men­to ou a enti­da­de fami­li­ar”. Atu­al­men­te, o Arti­go 1.521 enu­me­ra os casos em que o casa­men­to não é per­mi­ti­do, como nos casos de união entre pais e filhos ou entre pes­so­as já casa­das.

Na jus­ti­fi­ca­ti­va, o rela­tor afir­ma que o casa­men­to “repre­sen­ta uma rea­li­da­de obje­ti­va e atem­po­ral, que tem como pon­to de par­ti­da e fina­li­da­de a pro­cri­a­ção, o que exclui a união entre pes­so­as do mes­mo sexo”.

Para a pro­cu­ra­do­ria, o PL rela­ti­vi­za a lai­ci­da­de do Esta­do bra­si­lei­ro, ao se base­ar em argu­men­tos fun­da­dos numa visão cris­tã do casa­men­to, tido como ins­ti­tui­ção vol­ta­da à gera­ção de des­cen­den­tes. “A impo­si­ção de um viés reli­gi­o­so geral a esco­lhas par­ti­cu­la­res nos leva em dire­ção a uma teo­cra­cia ou a tota­li­ta­ris­mos, nos fazen­do retro­ce­der alguns sécu­los no tem­po”, diz o docu­men­to.

Para o depu­ta­do Pas­tor Euri­co, ao vali­dar a união homo­a­fe­ti­va, o STF teria usur­pa­do a com­pe­tên­cia do Con­gres­so Naci­o­nal de regu­la­men­tar o tema. A pro­cu­ra­do­ria tam­bém reba­teu o argu­men­to ava­li­an­do que a Supre­ma Cor­te exer­ceu sua com­pe­tên­cia inter­pre­ta­ti­va do direi­to, ao fir­mar enten­di­men­to de que a cita­ção expres­sa a homem e mulher na Cons­ti­tui­ção de 1988 decor­reu da neces­si­da­de de se expli­ci­tar o pata­mar de igual­da­de de direi­tos entre as par­tes do casal.

Caso seja apro­va­do na Comis­são de Pre­vi­dên­cia, Assis­tên­cia Soci­al, Infân­cia, Ado­les­cên­cia e Famí­lia, o pro­je­to segue para a Comis­são de Cons­ti­tui­ção e Jus­ti­ça (CCJ), em cará­ter con­clu­si­vo. Ou seja, não pre­ci­sa­ria ir ao ple­ná­rio em caso de nova apro­va­ção, seguin­do dire­to para apre­ci­a­ção do Sena­do. Só iria ao ple­ná­rio se ao menos 52 depu­ta­dos assi­nas­sem um recur­so nes­se sen­ti­do.

O ambi­en­te na CCJ, no entan­to, é menos favo­rá­vel do que na comis­são ante­ri­or, já que é pre­si­di­do por Rui Fal­cão (PT-SP), da base gover­nis­ta e con­trá­ria ao pro­je­to. E a ele cabe deci­dir quais pro­je­tos entram na pau­ta da CCJ.

Edi­ção: Fer­nan­do Fra­ga

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