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MPT recebe mais de 6 mil denúncias de escravidão e tráfico de pessoas

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© Acervo/MPT Mato Gros­so do Sul (Repro­du­ção)

Vítimas viviam sem direitos e condições dignas de trabalho


Publi­ca­do em 28/01/2021 — 06:00 Por Clau­dia Felc­zak — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil * — Bra­sí­lia

No fim do ano pas­sa­do, a his­tó­ria de Mada­le­na Gor­di­ni­a­no, que pas­sou qua­se toda uma vida tra­ba­lhan­do em con­di­ções seme­lhan­tes à escra­vi­dão, cho­cou o Bra­sil. A mulher, que, aos 8 anos de ida­de, foi pedir um peda­ço de pão e aca­bou ser­vin­do a uma famí­lia por 38 anos, nun­ca rece­beu salá­rio nem direi­tos tra­ba­lhis­tas, vivia reclu­sa, foi for­ça­da a casar e che­gou até a pedir comi­da e sabo­ne­te para vizi­nhos. O cal­vá­rio só che­gou ao fim em novem­bro de 2020, quan­do, após denún­cia, ela foi res­ga­ta por audi­to­res fis­cais do tra­ba­lho em um apar­ta­men­to na cida­de de Patos de Minas (MG). Vivia num cômo­do, que não tinha sequer jane­las.

Mada­le­na foi res­ga­ta­da em 2020, ple­no sécu­lo 21. Mas, como ela, mui­tas pes­so­as ain­da sofrem situ­a­ções seme­lhan­tes àque­las vivi­das pelos escra­vos no perío­do colo­ni­al. Tra­ba­lho for­ça­do, jor­na­da exaus­ti­va, con­di­ções degra­dan­tes, ser­vi­dão por dívi­da são algu­mas das carac­te­rís­ti­cas do que se cha­ma tra­ba­lho escra­vo moder­no. Só nos últi­mos cin­co anos (2016–2020), o Minis­té­rio Públi­co do Tra­ba­lho (MPT) rece­beu mais de 6 mil denún­ci­as rela­ci­o­na­das aos temas tra­ba­lho escra­vo e ali­ci­a­men­to e trá­fi­co de tra­ba­lha­do­res.

De acor­do com o vice-coor­de­na­dor naci­o­nal de Com­ba­te ao Tra­ba­lho Escra­vo e Enfren­ta­men­to ao Trá­fi­co de Pes­so­as (Cona­e­te), do MPT, Ital­var Medi­na, só no ano pas­sa­do, mais de 900 tra­ba­lha­do­res foram res­ga­ta­dos de situ­a­ções aná­lo­gas ao tra­ba­lho escra­vo.  “A gran­de par­te das situ­a­ções ocor­reu no meio rural, sobre­tu­do nas ati­vi­da­des de café, car­vo­a­ri­as e plan­tio e colhei­ta de cebo­la. Mas tam­bém tive­mos res­ga­tes urba­nos em ofi­ci­nas de cos­tu­ra e tra­ba­lho domés­ti­co”. Segun­do Medi­na, as víti­mas do tra­ba­lho escra­vo moder­no são pes­so­as em situ­a­ção de alta vul­ne­ra­bi­li­da­de soci­al, bai­xa esco­la­ri­da­de, com pou­cas opor­tu­ni­da­des de empre­go e bai­xa cons­ci­ên­cia de seus direi­tos. “Elas são ilu­di­das por pro­mes­sas de óti­mas con­di­ções de tra­ba­lho e remu­ne­ra­ção, mui­tas vezes leva­das a sair do seu esta­do de ori­gem e quan­do che­gam ao seu des­ti­no, per­ce­bem que a situ­a­ção não é como foi pro­me­ti­da”, diz.

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Fla­gran­te de escra­vi­dão moder­na em Mato Gros­so do Sul, no muni­cí­pio de Bela vis­ta — Acervo/MPT Mato Gros­so do Sul (Repro­du­ção)

O vice-coor­de­na­dor naci­o­nal da Cona­e­te des­ta­ca o per­fil des­ses escra­vos moder­nos: 70% dos res­ga­ta­dos são par­dos ou negros “o que inclu­si­ve é reve­la­dor da per­sis­tên­cia do racis­mo estru­tu­ral no país, pois a cor de hoje ain­da refle­te a dos escra­vos de anti­ga­men­te”, ana­li­sa. A mai­o­ria deles são homens e com grau de esco­la­ri­da­de bai­xo. O esta­do de Minas Gerais é o que pos­sui mais casos de tra­ba­lhos aná­lo­gos à escra­vi­dão.

Histórias

A escra­vi­dão moder­na tira dos tra­ba­lha­do­res direi­tos bási­cos como água potá­vel, ali­men­ta­ção, higi­e­ne e con­di­ções dig­nas de tra­ba­lho. A ser­vi­do­ra do Minis­té­rio Públi­co do Tra­ba­lho do Mato Gros­so do Sul, Naya­ra Lima Xavi­er, acom­pa­nhou diver­sas dili­gên­ci­as no esta­do e pre­sen­ci­ou situ­a­ções degra­dan­tes. Numa delas, em 2019, os tra­ba­lha­do­res esta­vam alo­ja­dos em bar­ra­cos impro­vi­sa­dos com lona e galhos de árvo­res. Não havia ilu­mi­na­ção e estru­tu­ras de madei­ra mon­ta­das no chão de ter­ra ser­vi­am como cama. Como não exis­tia banhei­ro, os tra­ba­lha­do­res tinham que fazer suas neces­si­da­des fisi­o­ló­gi­cas no mato. “A água uti­li­za­da para con­su­mo, banho e pre­pa­ro de ali­men­tos era colhi­da de um cór­re­go e tra­zi­da em galões de lubri­fi­can­tes. Tinha um aspec­to tur­vo e bar­ro­so.”, lem­bra.  Além dis­so, pela fal­ta de ener­gia elé­tri­ca, as car­nes fica­vam pen­du­ra­das em varais para secar, sujei­tan­do-se ao con­ta­to com sujei­ra e con­ta­mi­nan­tes diver­sos.

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Tra­ba­lha­do­res em Por­to Mur­ti­nho não tinha sequer água potá­vel. — Acervo/MPT Mato Gros­so do Sul (Repro­du­ção)

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Tra­ba­lha­do­res tam­bém não tinham onde arma­ze­nar ali­men­tos- Acervo/MPT Mato Gros­so do Sul (Repro­du­ção)

Ouça a maté­ria da Radi­o­a­gên­cia Naci­o­nal sobre tra­ba­lho escra­vo femi­ni­no

Conscientização e Denúncias

Para mar­car o Dia Naci­o­nal de Com­ba­te ao Tra­ba­lho Escra­vo, o MPT rea­li­za uma live sobre tra­ba­lho escra­vo e trá­fi­co de pes­so­as, hoje às 18h, pelo canal TVMPT, no You­Tu­be.

Denún­ci­as de prá­ti­cas de tra­ba­lho aná­lo­go à escra­vi­dão podem ser rea­li­za­das por meio do Dis­que 100, pelo site do Minis­té­rio Públi­co do Tra­ba­lho, nas sedes do MPT e pelo apli­ca­ti­vo do MPT Par­dal.

* Com infor­ma­ções do Minis­té­rio Públi­co do Tra­ba­lho e Minis­té­rio Públi­co do Tra­ba­lho do Mato Gros­so do Sul

 

Edi­ção: Fábio Mas­sa­li

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