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Mulheres cientistas revelam desafios da carreira

Repro­dução: © Arqui­vo pes­soal

Dia Internacional de Mulheres na Ciência mostra carreiras no setor


Pub­li­ca­do em 11/02/2022 — 07:02 Por Lud­mil­la Souza — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

Des­de meni­na, ela já dava aulas às bonecas sobre a estru­tu­ra do áto­mo e como dom­i­nar a trans­for­mação da matéria. Son­ha­va em ser pro­fes­so­ra, mas primeiro se for­mou em med­i­c­i­na, porque acred­i­tou que esse era o cam­in­ho de unir as aptidões. 

“Eu sem­pre quis ser pro­fes­so­ra, talvez pelo fato de min­ha mãe acred­i­tar que esse é o ofí­cio mais hon­ra­do, e tam­bém por acred­i­tar que ten­ho neces­si­dade de cuidar e ori­en­tar. Faz­er med­i­c­i­na foi o meio. Sem­pre me inter­es­sei pela ciên­cia da vida e do indi­ví­duo, e na min­ha cabeça de 18 anos, além de ser desafio para uma pes­soa comum como eu, iria me traz­er exper­iên­cias humanas extra­ordinárias, dig­nas de Tol­stoi, mas em cam­po de batal­ha hos­pi­ta­lar, em que o opo­nente e com­pan­heiro seria a doença”.

Foi assim que a cien­tista Rebec­ca Sti­val, pneu­mol­o­gista dos hos­pi­tais Marceli­no Cham­pag­nat e Uni­ver­sitário Caju­ru, em Curiti­ba (PR), e mes­tran­da em med­i­c­i­na inter­na pela Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Paraná, con­ta como ini­ciou a car­reira. Atual­mente, estu­da impactos e trata­men­tos de enfise­ma na doença pul­monar obstru­ti­va crôni­ca.

No Dia Inter­na­cional das Mul­heres e Meni­nas na Ciên­cia, comem­o­ra­do nes­ta sex­ta-feira (11), a Agên­cia Brasil con­ver­sou com duas cien­tis­tas para apre­sen­tar panora­ma sobre o mer­ca­do de tra­bal­ho na área e como as meni­nas de hoje podem se tornar cien­tis­tas.

Papel da mulher na ciência

As contribuições que as mul­heres podem ofer­e­cer à ciência, tec­nolo­gia e inovação são inúmeras, a começar pela resil­iên­cia, diz Rebec­ca. “A mul­her tem como pre­rrog­a­ti­va a resil­iên­cia. Por isso, o seu olhar para a ciên­cia se tor­na impor­tante. Acred­i­to que por ter­mos enorme capaci­dade de adap­tação, que inclu­sive é biológ­i­ca — bas­ta olhar para uma mul­her ges­tante, todas as vari­ações hor­mon­ais e mod­i­fi­cações cor­po­rais que ocor­rem ao lon­go de nove meses —  enfrenta­mos adver­si­dades e ger­amos soluções práti­cas rap­i­da­mente”.

Ela cita uma das mais famosas cien­tis­tas da história, Marie Curie, como  exem­p­lo de resil­iên­cia às frus­trações e respos­ta ráp­i­da e práti­ca às adver­si­dades. “Bas­ta lem­brar de sua con­tribuição para a real­iza­ção de radi­ografias durante a Primeira Guer­ra Mundi­al, que ben­efi­ciou muitas pes­soas em cam­po de batal­ha. Ela con­seguiu trans­for­mar con­hec­i­men­to de ban­ca­da em fer­ra­men­ta de util­i­dade públi­ca, out­ra car­ac­terís­ti­ca impor­tante de um cien­tista.

No entan­to, o cam­in­ho para con­quis­tar esse espaço não é fácil, e os home­ns ain­da são maio­r­ia na área. De acor­do com o relatório “A Jor­na­da do Pesquisador pela Lente de Gênero”, pub­li­ca­do pela empre­sa holan­desa Else­vi­er em 2020, a par­tic­i­pação de mul­heres nos mais diver­sos cam­pos da ciên­cia oscila entre 20%.

O Brasil figu­ra entre os mais próx­i­mos do equi­líbrio na pro­porção entre home­ns e mul­heres na auto­ria de arti­gos cien­tí­fi­cos, com 0,8 mul­her por cada homem. O desem­pen­ho é supe­ri­or ao do Reino Unido, com 0,6, e ao dos Esta­dos Unidos e da Ale­man­ha, ambos com 0,5.

Para a pro­fes­so­ra e coor­de­nado­ra de pós-grad­u­ação na Pon­tif­í­cia Uni­ver­si­dade Católi­ca do Paraná (PUCPR), Cristi­na Bae­na, os desafios podem ser resum­i­dos na questão da pro­du­tivi­dade. “Se você olha, a pro­du­tivi­dade anu­al das mul­heres é a mes­ma, mas ao lon­go da car­reira elas pro­duzem menos, porque ficam menos tem­po que os home­ns em papel de lid­er­ança na pro­dução acadêmi­ca e cien­tí­fi­ca. Isso ocorre por causa da difi­cul­dade da mul­her de se man­ter nes­sa car­reira jun­tan­do todas as respon­s­abil­i­dades que acu­mu­la”.

Para a professora Cristina Baena os desafios das mulheres podem ser resumidos na questão da produtividade
Repro­dução: Cristi­na Bae­na: desafios das mul­heres podem ser resum­i­dos na questão da pro­du­tivi­dade — Arqui­vo pes­soal

Na opinião da pesquisado­ra, há como incen­ti­var a car­reira da mul­her cien­tista. “São questões bási­cas: por exem­p­lo, a bol­sa da pesquisado­ra deve levar em con­sid­er­ação a mater­nidade. Hoje, a gente não tem estru­tu­ra para acol­her os fil­hos das pesquisado­ras nem em even­tos cien­tí­fi­cos, o que difi­cul­ta a pre­sença delas. É pre­ciso dar condições para essas mul­heres con­tin­uarem na car­reira, porque quan­do con­seguem, há impacto muito impor­tante na for­mação de recur­sos humanos e na pro­dução cien­tí­fi­ca”, defende Cristi­na, que pas­sou por esse desafio e divid­iu o tem­po entre a cri­ação de um fil­ho enquan­to fazia mestra­do, doutora­do e pós-doutora­do.

Muito antes da pan­demia, Cristi­na tin­ha roti­na muito comum à das mães que tra­bal­haram e ain­da tra­bal­ham em tripla jor­na­da em casa, dev­i­do ao dis­tan­ci­a­men­to social. “Hou­ve perío­do em que tive que faz­er muitas escol­has difí­ceis, sobre­tu­do finan­ceira­mente, porque vivia com a bol­sa de doutora­do. A min­ha recei­ta diminuiu muito porque a bol­sa no Brasil hoje tem val­or muito pequeno, e me lem­bro clara­mente de um perío­do em que tin­ha de respon­der e‑mails em inglês para líderes inter­na­cionais. Ao mes­mo tem­po, pre­cisa­va coz­in­har o fei­jão, tin­ha que ter­mi­nar a limpeza da casa e tin­ha que escr­ev­er um arti­go, ir à reunião da esco­la do meu fil­ho, então fui muito desafi­a­da em todos os sen­ti­dos. Acho que se a gente não tem mui­ta per­sistên­cia, não tem aju­da, apoio, é nat­ur­al que acabe desistin­do mais cedo da car­reira cien­tí­fi­ca.

Hoje, Cristi­na Bae­na é coor­de­nado­ra do ambu­latório pós-covid mon­ta­do pelo Hos­pi­tal Uni­ver­sitário Caju­ru, em parce­ria com a PUCPR, em Curiti­ba (PR), e coor­de­nado­ra do Cen­tro de Ensi­no, Pesquisa e Ino­vação dos hos­pi­tais Marceli­no Cham­pag­nat e Uni­ver­sitário Caju­ru. Ela par­ticipou de dezenas de estu­dos para com­preen­der o com­por­ta­men­to da covid-19. O ambu­latório que Bae­na coor­de­na estu­das as seque­las da doença e práti­cas para revert­er ess­es prob­le­mas.

Equidade na ciência

O últi­mo relatório do Fórum Econômi­co Mundi­al mostrou que a despro­porção de gênero no tra­bal­ho aumen­tou, e ape­nas daqui a 267 anos o equi­líbrio será alcança­do. Ou seja, a atu­al ger­ação de mul­heres cien­tis­tas ain­da não verá equidade na área, mas indi­ca os cam­in­hos para chegar lá.

Para Rebec­ca Sti­val, salários iguais são o primeiro pas­so. “Bus­car equiparação salar­i­al nas funções que a mul­her rep­re­sen­ta. Em 1928, [a escrito­ra] Vir­ginia Woolf já nos con­tou que só há pos­si­bil­i­dade de cri­ação depois de garan­ti­do o pão, a inde­pendên­cia finan­ceira. E é fato que a pesquisa no Brasil recebe pouco ou nen­hum finan­cia­men­to. Pesquisadores de ded­i­cação exclu­si­va são raros”.

A segun­da medi­da, com­ple­ta a cien­tista, é garan­tir equidade de aces­so às mul­heres, con­sideran­do seu papel intrínseco na per­pet­u­ação da espé­cie. “Ape­sar de dire­itos já adquiri­dos, mas ain­da não com­ple­ta­mente respeita­dos, o perío­do de ges­tação e cri­ação de uma cri­ança, mes­mo nos dias atu­ais — pas­mem — ain­da pode sig­nificar retro­ces­so profis­sion­al. E digo isso, pois já fui ques­tion­a­da, em entre­vista de aces­so a uma das min­has espe­cial­iza­ções, sobre o meu rela­ciona­men­to con­ju­gal e o meu dese­jo de ser mãe. Isso foi pelo menos uns 50 anos depois de min­ha mãe con­quis­tar o seu CPF”.

Já Cristi­na Bae­na, con­sid­era a longev­i­dade na car­reira um dos pon­tos para alcançar equidade. “Acho que vai haver cer­ta equidade na ciên­cia quan­do tiver­mos a mes­ma longev­i­dade de car­reira. E tam­bém quan­do a gente aqui no Brasil, prin­ci­pal­mente, parar de ouvir que a for­mação acadêmi­ca cien­tí­fi­ca não é con­sid­er­a­da tra­bal­ho. São mudanças cul­tur­ais que a sociedade deve resolver antes de ter­mos essa igual­dade”.

Pandemia

Mul­heres cien­tis­tas, até então con­heci­das somente no meio acadêmi­co, ficaram famosas no país pelo papel rel­e­vante na pesquisa sobre o novo coro­n­avírus e na divul­gação, desta­ca Cristi­na. “No Brasil, a gente pode citar a Ester Sabi­no, a Jaque­line de Jesus, que decod­i­ficaram o geno­ma dos primeiros casos de covid-19 em tem­po recorde — infor­mação que aju­dou o mun­do inteiro a com­bat­er a doença. Tive­mos na mídia tam­bém algu­mas cien­tis­tas que fiz­er­am papel muito impor­tante de comu­ni­cado­ra, como Natalia Paster­nak e Mar­gareth Dal­col­mo que são óti­mos exem­p­lo. A Mel­lanie Fontes Dutra é exce­lente exem­p­lo no Twit­ter. A Lua­na Araújo, com for­mação cien­tí­fi­ca, tam­bém se colo­cou de for­ma muito firme con­tra onda de fake news que esta­va toman­do con­ta do país naque­le momen­to”.

Ela acred­i­ta ain­da que out­ros exem­p­los servirão de inspi­ração. “Em níveis indi­vid­u­ais e den­tro dos hos­pi­tais, na pro­dução de con­hec­i­men­to rápi­do da pan­demia, tive­mos mul­heres com papéis fun­da­men­tais. Ten­ho a impressão de que isso aju­dou a inspi­rar algu­mas meni­nas que vêm na mul­her cien­tista a con­tribuição que pode ser dada à sociedade”.

Rebec­ca Sti­val reforça: “As mul­heres rep­re­sen­tam a maio­r­ia dos profis­sion­ais ded­i­ca­dos ao cuida­do das pes­soas, cuidar é uma pre­rrog­a­ti­va da mul­her. Somos aprox­i­mada­mente 79% da força de tra­bal­ho na área da saúde. Ape­sar de o Min­istério da Saúde ser ocu­pa­do por um homem, as batal­has na pan­demia foram lid­er­adas, em sua grande maio­r­ia, por mul­heres cien­tis­tas”.

Conselho

Rebec­ca dá um con­sel­ho às meni­nas que têm o son­ho de ser cien­tista. “Resil­iên­cia. Out­ras vier­am antes para garan­tir o que con­quis­ta­mos até ago­ra, temos que per­si­s­tir para asse­gu­rar ple­na equidade às que virão depois”.

Sônia Bae­na dá a mes­ma sug­estão fei­ta às alu­nas que ori­en­ta em pesquisas na uni­ver­si­dade. “Sobre­tu­do no Brasil hoje, a for­mação e a car­reira cien­tí­fi­ca devem ser plano quase famil­iar. Porque vai haver ausên­cias na família. É bom que alguém pos­sa cobrir esse papel, um par­ceiro ou equiv­a­lente, que ajude na cri­ação e na pre­sença com os fil­hos. É uma sen­sação de rec­om­pen­sa muito grande quan­do a gente percebe que con­seguiu pro­duzir con­hec­i­men­to, que é apli­ca­do na pon­ta e tem impacto na vida das pes­soas”, afir­ma.

Edição: Graça Adju­to

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