...
sábado ,15 junho 2024
Home / Cultura / Museu da Língua Portuguesa inaugura mostra sobre línguas africanas

Museu da Língua Portuguesa inaugura mostra sobre línguas africanas

Repro­du­ção: © Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Exposição confirma presença africana no dia a dia do povo brasileiro


Publicado em 24/05/2024 — 07:48 Por Elaine Patrícia Cruz — Repórter da Agência Brasil — São Paulo

Fofo­ca, can­ji­ca, mole­que, marim­bon­do e caçu­la. Algu­mas pes­so­as podem não saber, mas todas essas pala­vras – que já estão abso­lu­ta­men­te incor­po­ra­das ao por­tu­guês escri­to, fala­do e vivi­do no Bra­sil – são,em rea­li­da­de, de ori­gem afri­ca­na. E é isso o que apre­sen­ta a nova expo­si­ção em car­taz no Museu da Lín­gua Por­tu­gue­sa, que será inau­gu­ra­da nes­ta sex­ta-fei­ra (24) na capi­tal pau­lis­ta. A cura­do­ria é do músi­co e filó­so­fo Tiga­ná San­ta­na.

Cha­ma­da de Lín­guas Afri­ca­nas que Fazem o Bra­sil, a mos­tra con­fir­ma a pre­sen­ça afri­ca­na no dia a dia do povo bra­si­lei­ro em diver­sas for­mas como nos expres­sa­mos: seja pela pala­vra escri­ta ou fala­da, seja pela ento­na­ção, pelo voca­bu­lá­rio ou até mes­mo pela for­ma como cons­truí­mos nos­sos pen­sa­men­tos.

Duran­te o per­cur­so, o visi­tan­te vai se depa­rar não só com expe­ri­ên­ci­as ver­bais, mas tam­bém com expe­ri­ên­ci­as não ver­bais que serão apre­sen­ta­das por meio de víde­os, sons e ins­ta­la­ções imer­si­vas. A ideia é que o públi­co não só conhe­ça mais sobre as lín­guas afri­ca­nas, mas tam­bém pos­sa sen­ti-las, “sor­ven­do o que se ouve e o que se vê”.

“É impos­sí­vel falar de lín­guas afri­ca­nas no Bra­sil sem con­si­de­rar essas outras dimen­sões de lin­gua­gem e sem con­si­de­rar as impli­ca­ções do cor­po nis­so. Essa é uma opor­tu­ni­da­de para a gen­te falar como a lín­gua se faz pre­sen­te nos tam­bo­res, nos gra­dis, na dimen­são arqui­tetô­ni­ca, nas estam­pas e no jogo de búzi­os”, dis­se o cura­dor, em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil.

São Paulo (SP), 21/05/2024 - Mostra Línguas Africanas que Fazem o Brasil, com curadoria de Tiganá Santana, no Museu da Língua Portuguesa. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: São Pau­lo — Mos­tra Lín­guas Afri­ca­nas que Fazem o Bra­sil é inau­gu­ra­da no Museu da Lín­gua Por­tu­gue­sa — Foto Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Essa pre­sen­ça pode­rá ser sen­ti­da tam­bém em outras mani­fes­ta­ções cul­tu­rais como a arqui­te­tu­ra, as fes­tas popu­la­res e os ritu­ais reli­gi­o­sos. E até em can­ções bas­tan­te popu­la­res como Escra­vos de Jó, joga­vam caxan­gá. O tre­cho des­sa can­ção, que apa­re­ce em uma par­te da expo­si­ção, mos­tra que o “jó” advém das lín­guas quim­bun­do e umbun­do e quer dizer “casa”, “escra­vos de casa”.

“Escra­vi­za­dos ladi­nos, cri­ou­los e mulhe­res negras, que rea­li­za­vam tra­ba­lho domés­ti­co e fala­vam tan­to o por­tu­guês de seus senho­res quan­to a lín­gua dos que rea­li­za­vam tra­ba­lhos exter­nos, foram a pon­te para a afri­ca­ni­za­ção do por­tu­guês e para o apor­tu­gue­sa­men­to dos afri­ca­nos no sen­ti­do lin­guís­ti­co e cul­tu­ral”, dis­se Tiga­ná San­ta­na, com base nas pes­qui­sas da pro­fes­so­ra Yeda Pes­soa de Cas­tro.

Legado

As lín­guas dos habi­tan­tes de ter­ras da Áfri­ca Sub­sa­a­ri­a­na — como o ioru­bá, eve-fom e as do gru­po ban­tu — têm par­ti­ci­pa­ção deci­si­va na con­fi­gu­ra­ção do por­tu­guês fala­do no Bra­sil e em nos­sa cul­tu­ra de for­ma geral. De acor­do com o Museu da Lín­gua Por­tu­gue­sa, essa é uma his­tó­ria e uma rea­li­da­de que nos foram lega­das por cer­ca de 4,8 milhões de pes­so­as afri­ca­nas que foram tra­zi­das de for­ma vio­len­ta para o Bra­sil entre os sécu­los 16 e 19, duran­te o perío­do de regi­me escra­vo­cra­ta.

“Essa expo­si­ção é foca­da na pre­sen­ça das lín­guas afri­ca­nas no por­tu­guês escri­to, pen­sa­do e vivi­do no Bra­sil. Mui­to mais do que influên­ci­as, essas lín­guas são cons­ti­tui­ção de como a gen­te pen­sa, do que a gen­te fala, como a gen­te escre­ve. Enfim, essa é uma opor­tu­ni­da­de para que pos­sa­mos falar de lín­gua a par­tir de outro lugar, tra­zer à tona essas pre­sen­ças que a colo­ni­a­li­da­de e o racis­mo tra­ta­ram de dis­so­ci­ar da nos­sa cons­ci­ên­cia e é um acon­te­ci­men­to que che­ga pela neces­si­da­de”, dis­se o cura­dor. Ele lem­brou que essa é , pro­va­vel­men­te, a pri­mei­ra vez em que há uma mos­tra dedi­ca­da às lín­guas afri­ca­nas no país. “Isso já deve­ria ter che­ga­do há mui­to tem­po e em vári­os luga­res do Bra­sil”, acres­cen­tou.

São Paulo (SP), 21/05/2024 - Mostra Línguas Africanas que Fazem o Brasil, com curadoria de Tiganá Santana, no Museu da Língua Portuguesa. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: São Pau­lo — Mos­tra Lín­guas Afri­ca­nas que Fazem o Bra­sil é aber­ta no Museu da Lín­gua Por­tu­gue­sa — Foto Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

A mos­tra tam­bém dis­cu­te a ausên­cia do ensi­no de lín­guas afri­ca­nas nos cur­rí­cu­los bra­si­lei­ros. “Essas lín­guas afri­ca­nas não são uma abs­tra­ção. As pes­so­as pen­sam com base nelas. Antes de a gen­te ter uma lín­gua-cul­tu­ra luso-bra­si­lei­ra, essa lín­gua se afri­ca­ni­zou. Ela se afri­ca­ni­zou para ser bra­si­lei­ra. É por isso que a gen­te fala caçu­la e não ben­ja­mim; é por isso que a gen­te fala cochi­lar, não fala dor­mi­tar; é por isso que a gen­te tem fofo­ca, que vem de òfó­fó do Yoru­bá. E é por isso que temos as duplas nega­ções e a que­da do ‘r’ dos ver­bos no infi­ni­ti­vo, que são uma pre­sen­ça do tron­co lin­guís­ti­co ban­tu. A lín­gua bra­si­lei­ra e os cor­pos que falam essa lín­gua fun­da­men­tal­men­te são cons­ti­tuí­dos por pre­sen­ças afri­ca­nas”, dis­se o cura­dor.

Percurso

Entre espe­lhos e búzi­os sus­pen­sos, conec­tan­do o mun­do físi­co e o espi­ri­tu­al, a mos­tra tem iní­cio com a apre­sen­ta­ção de pala­vras oriun­das de lín­guas afri­ca­nas e que fazem par­te do nos­so coti­di­a­no. O públi­co será rece­bi­do com 15 pala­vras que foram impres­sas em estru­tu­ras ovais de madei­ra e que estão pen­du­ra­das pela sala. Cami­nhan­do entre essas estru­tu­ras, o visi­tan­te pode­rá ouvir essas mes­mas pala­vras gra­va­das pelas vozes de pes­so­as que resi­dem no ter­ri­tó­rio da Esta­ção da Luz, onde o museu está loca­li­za­do.

Seguin­do pelo espa­ço expo­si­ti­vo, os adin­kras apa­re­cem espa­lha­dos pelas pare­des. Os adin­kras são sím­bo­los uti­li­za­dos como sis­te­ma de escri­ta pelo povo Ashan­ti, que habi­ta paí­ses como Cos­ta do Mar­fim, Gana e Togo, na Áfri­ca. Eles podem repre­sen­tar des­de dife­ren­tes ele­men­tos da cul­tu­ra até sen­ten­ças pro­ver­bi­ais intei­ras em um úni­co ide­o­gra­ma.

À pare­de de adin­kras seguem-se duas vide­oins­ta­la­ções da artis­ta visu­al Ali­ne Mot­ta, que fazem com que o públi­co pas­se entre um cor­re­dor de pro­je­ções e se sin­ta par­te da obra. A pri­mei­ra vide­oins­ta­la­ção é pro­je­ta­da no chão. Nela a artis­ta des­ta­ca for­mas mile­na­res de gra­fi­as cen­tro-afri­ca­nas, espe­ci­fi­ca­men­te as do povo bakon­go, pre­sen­te em ter­ri­tó­ri­os como o ango­la­no. Já a segun­da obra é pro­je­ta­da em duas pare­des e foi cri­a­da exclu­si­va­men­te para o museu. Nela são apre­sen­ta­dos qua­tro pro­vér­bi­os em qui­con­go, umbun­do, ioru­bá e quim­bun­do, que são tra­du­zi­dos para o por­tu­guês. Entre eles está o pro­vér­bio Luar Cla­ro não é Sol.

São Paulo (SP), 21/05/2024 - Mostra Línguas Africanas que Fazem o Brasil, com curadoria de Tiganá Santana, no Museu da Língua Portuguesa. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: São Pau­lo — Mos­tra Lín­guas Afri­ca­nas que Fazem o Bra­sil, com cura­do­ria de Tiga­ná San­ta­na, é aber­ta no Museu da Lín­gua Por­tu­gue­sa — Foto Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Além dis­so, a expo­si­ção apre­sen­ta um mapa dos flu­xos lin­guís­ti­cos, escul­tu­ras de Rebe­ca Cara­piá, teci­dos da desig­ner Goya Lopes e uma obra do mul­ti­ar­tis­ta J. Cunha, além de foto­gra­fi­as. Há ain­da uma ceno­gra­fia cons­ti­tuí­da por tam­bo­res e uma pro­je­ção cri­a­da pela artis­ta Ali­ne Mot­ta, que explo­ra tre­chos do tex­to Racis­mo e Sexis­mo na Cul­tu­ra Bra­si­lei­ra, da inte­lec­tu­al Lélia Gon­za­les, que cunhou a expres­são pre­tu­guês.

A expo­si­ção se encer­ra com tele­vi­so­res exi­bin­do regis­tros de mani­fes­ta­ções cul­tu­rais afro-bra­si­lei­ras e uma sala imer­si­va e inte­ra­ti­va, que sur­pre­en­de­rá o públi­co com pro­je­ções artís­ti­cas quan­do forem enun­ci­a­das pala­vras como axé, afo­xé e zum­bi.

Programação especial

Além do espa­ço expo­si­ti­vo, a mos­tra se com­ple­ta com uma pro­gra­ma­ção para­le­la. Entre elas estão um clu­be lite­rá­rio e um sarau, infor­mou Rober­ta Sarai­va, dire­to­ra téc­ni­ca do museu.

A expo­si­ção Lín­guas Afri­ca­nas que Fazem o Bra­sil fica­rá em car­taz até janei­ro do pró­xi­mo ano, com entra­da gra­tui­ta aos sába­dos. Mais infor­ma­ções sobre ela podem ser obti­das no site do Museu da Lín­gua Por­tu­gue­sa.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Plano Nacional de Cultura tem primeira consulta pública

Repro­du­ção: © Jose Cruz/Agência Bra­sil Propostas podem ser entregues até 7 de abril Publicado em …