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Museus do Rio oferecem visitas mediadas para surdos

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Pessoas com deficiência visual também serão atendidas


Pub­li­ca­do em 07/06/2022 — 06:22 Por Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil  — Rio de Janeiro

Um dos ante­braços é colo­ca­do à frente do cor­po, na hor­i­zon­tal. O out­ro ante­braço, sobre ele, traça uma lin­ha diag­o­nal. Este é o sinal, em lín­gua brasileira de sinais (Libras), do Museu do Aman­hã, local­iza­do no cen­tro da cidade do Rio. É com a apre­sen­tação desse sinal que começou a visi­ta medi­a­da ao museu, des­ti­na­da aos estu­dantes do Insti­tu­to Nacional de Edu­cação de Sur­dos (Ines), na últi­ma sex­ta-feira (3). A visi­ta faz parte do pro­je­to Entre Museus Acessíveis, que tem como obje­ti­vo pro­mover o aces­so à cul­tura de for­ma inclu­si­va. 

Os vis­i­tantes não só per­cor­rem o museu e todo o acer­vo inter­a­ti­vo, como debatem, em Libras, a importân­cia do que estão con­hecen­do e de que for­ma esse con­teú­do se rela­ciona com a própria vida. “Este é o Museu do Aman­hã. O que é esse aman­hã? Quan­do a gente fala aman­hã, isso não sig­nifi­ca ape­nas o dia, tem, out­ro con­ceito. É faz­er uma reflexão sobre o futuro”, diz o edu­cador do Museu do Aman­hã, Bruno Bap­tista, que con­duz a visi­ta. Ele foi tam­bém aluno do Ines. Os estu­dantes logo sinal­izam em respos­ta ao que acred­i­tam ser impor­tante nesse aman­hã: “Amazô­nia”, “Flo­restas”, afir­mam. “É um pouco dis­so tudo que vamos ver aqui hoje”, diz Bap­tista.

O pro­je­to Entre Museus Acessíveis começou no dia 18 de maio, que é o Dia Inter­na­cional dos Museus, e segue até novem­bro deste ano. O foco é em vis­i­tantes com defi­ciên­cia visu­al e em sur­dos. Por enquan­to, fazem parte do pro­je­to o Museu do Aman­hã, com vis­i­tas medi­adas às sex­tas-feiras, e o Museu da Repúbli­ca, local­iza­do no Catete, zona sul do Rio, com vis­i­tas às quar­tas-feiras.

A ger­ente de Edu­cação do Museu do Aman­hã e respon­sáv­el pelo pro­je­to, Cami­la Oliveira, expli­ca que ofer­e­cer vis­i­tas medi­adas não é ape­nas pro­por­cionar uma tradução. “Esta­mos ofer­e­cen­do aces­si­bil­i­dade ati­tu­di­nal, ou seja, aces­si­bil­i­dade rela­cional. A gente tra­bal­ha com obje­tos medi­adores para que ess­es con­ceitos pos­sam chegar não só pelo fato de eu diz­er o que tem aqui, mas de exper­i­men­tar o que tem aqui”, diz.

Durante a visi­ta, Bruno Bap­tista com­par­til­ha um pouco da própria vivên­cia. Ele con­ta que já teve ouvintes que se assus­taram quan­do ele disse que era sur­do. “Como você se sen­tiria? Eu sou sur­do e estou aqui tra­bal­han­do, ten­ho orgul­ho. É mel­hor quan­do há inter­ação. Vejam a Cami­la, ela é ger­ente e está aqui apren­den­do Libras. Ela vai evoluin­do todos os dias”, afir­ma aos vis­i­tantes, que respon­dem com aplau­sos.

Acessibilidade nos museus

Além de Bap­tista, os vis­i­tantes são acom­pan­hados pela edu­cado­ra do Museu Eduar­da Emer­ick. Duda, como pref­ere ser chama­da, é a primeira biólo­ga cega for­ma­da no Brasil. “Tem sido uma exper­iên­cia mar­avil­hosa. Eu gos­to muito de estar em con­ta­to com pes­soas difer­entes e com difer­entes questões”, diz. Ela, inclu­sive, está apren­den­do Libras e tam­bém sinal­iza para os vis­i­tantes.

Segun­do a edu­cado­ra, que já tra­bal­hou em mais dois museus na cidade, a aces­si­bil­i­dade é ain­da um prob­le­ma. “Os museus em si trazem essa difi­cul­dade por terem muito acer­vo dis­pos­to em vit­rines ou exposições de arte que, geral­mente, são quadros ou escul­turas, algo em que não se pode tocar. É impor­tante que a gente entre em con­ta­to com o setor educa­ti­vo dos museus, antes da visi­ta, para ver se tem alguém que pode nos rece­ber. É muito impor­tante ter a figu­ra do medi­ador”.

No Brasil, de acor­do com o Cen­so do Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE), cer­ca de 24% da pop­u­lação têm algu­ma defi­ciên­cia. A aces­si­bil­i­dade aos museus para todas as pes­soas está pre­vista no Estatu­to de Museus, Lei 11.904/2009.

Colo­car isso em práti­ca é ain­da um desafio. Segun­do Cami­la, a aces­si­bil­i­dade ple­na a museus pas­sa pela neces­si­dade de super­ar várias bar­reiras, entre elas a arquitetôni­ca, uma vez que muitos edifí­cios são anti­gos e têm lim­i­tações para refor­mas.  “A gente pen­sa muito em aces­si­bil­i­dade arquitetôni­ca, com ele­vador, ram­pa. Mas, e para essa pes­soa chegar até aqui? Ela vai ter aces­so ao con­teú­do que está sendo colo­ca­do, que tipos de aces­so essa pes­soa vai ter?”, ques­tiona a ger­ente.

Além dos pré­dios, há ain­da a neces­si­dade de for­mação de equipe para rece­ber pes­soas com defi­ciên­cias. “Eu pre­ciso ter, pen­sar em uma for­mação de públi­co e enten­der por que é tão impor­tante essas pes­soas vis­itarem os museus. A importân­cia não está nec­es­sari­a­mente em con­hecer o museu. A gente tem perce­bido muito ness­es encon­tros que não é só sobre os con­teú­dos dos museus, mas a capaci­dade de relação que essas pes­soas muitas vezes são lim­i­tadas a ter”, diz Cami­la.

O pro­je­to é um pas­so na direção de maior aces­si­bil­i­dade. De acor­do com Cami­la, a intenção é ampli­ar a medi­ação nos museus para incluir out­ras defi­ciên­cias e out­ros museus no cir­cuito.

Do museu para a sala de aula

Na últi­ma sex­ta-feira, os estu­dantes do Insti­tu­to Nacional de Edu­cação de Sur­dos (Ines) deixaram o Museu do Aman­hã empol­ga­dos. “Eu apren­di muito, estou pen­san­do em como aju­dar, como ensi­nar, como desen­volver para o futuro”, afir­mou a estu­dante do 7º ano Vitória Sil­va.

O que os estu­dantes apren­der­am no Museu do Aman­hã será lev­a­do para debate em sala de aula. “A gente recol­he um pouco desse mate­r­i­al antes da vis­i­tação para que os alunos, quan­do vierem, ten­ham con­hec­i­men­to do que vão encon­trar. E não paramos por aqui. Peg­amos todo esse tra­bal­ho e lev­a­mos para den­tro da sala de aula a fim de tra­bal­har, de modo inter­dis­ci­pli­nar, de modo que asse­gure mel­hor con­hec­i­men­to”, diz o coor­de­nador do Ines, Sid­nei Reis, que acom­pan­hou a visi­ta.

Além do con­teú­do que apren­der­am, ficou tam­bém o exem­p­lo de Bap­tista, con­heci­do como Tubarão. “Estou ven­do o Tubarão como medi­ador e como ele con­segue faz­er esse tra­bal­ho. Estou olhan­do para ele e me ven­do tam­bém como futu­ra medi­ado­ra. Estou estu­dan­do, quero me desen­volver, con­seguir me for­mar para, no futuro, tra­bal­har igual ao tubarão”, afir­ma a estu­dante do 8º ano Isado­ra Car­val­ho.

O pro­je­to de mobi­liza­ção social e cul­tur­al Entre Museus Acessíveis é um des­do­bra­men­to do pro­gra­ma Entre Museus, pro­movi­do pelo Museu do Aman­hã des­de 2017, em con­jun­to com mais de 20 museus do Rio de Janeiro. O pro­gra­ma é volta­do para capac­i­tar e incluir a pop­u­lação local na fruição cul­tur­al, incentivando‑a a entrar no mun­do da ciên­cia, das artes e da cul­tura e, assim, con­stru­ir e expandir cam­in­hos para a cidada­nia ple­na.

O Entre Museus Acessíveis con­ta com patrocínio da Fon­da­tion Engie e con­vi­da pes­soas com defi­ciên­cia visu­al e a comu­nidade sur­da a ocu­parem a cidade e os museus. As pes­soas e insti­tu­ições inter­es­sadas em faz­er agen­da­men­tos para gru­pos de 15 a 20 pes­soas podem solic­i­tar pelo e‑mail [email protected].

Além das vis­i­tas sem­anais no Museu do Aman­hã e no Museu da Repúbli­ca, há, no últi­mo sába­do do mês, um tra­je­to de bici­cle­ta pela orla, com edu­cadores e intér­pretes de Libras e bici­cle­tas adap­tadas, além de instru­tores, para o públi­co com defi­ciên­cia visu­al. O pas­seio é ofer­e­ci­do, pref­er­en­cial­mente, para os par­tic­i­pantes das vis­i­tas medi­adas daque­le mês, mas, em caso de disponi­bil­i­dade, poderá ser real­iza­da com out­ros gru­pos.

Edição: Graça Adju­to

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