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Musical Torto Arado estreia neste sábado no Rio de Janeiro

Montagem fica em cartaz até 15 de junho, no Teatro Riachuelo

Cristi­na Indio do Brasil – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 17/05/2025 — 10:32
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2025 – O musical Torto Arado, no Teatro Riachuelo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

O livro de Ita­mar Vieira Junior que ultra­pas­sou a mar­ca de 1 mil­hão de exem­plares ven­di­dos é a base para a cri­ação de Tor­to Ara­do – O Musi­cal, espetácu­lo que estreia, neste sába­do (17), às 20h, no Teatro Riachue­lo no cen­tro do Rio de Janeiro.

A turnê nacional começou com grande suces­so em Sal­vador e seguiu para São Paulo, com sessões lotadas nas duas cidades.

Em pal­co, 22 profis­sion­ais – sendo seis músi­cos e 16 atores – con­tam em duas horas e vinte min­u­tos uma história de vida e morte no sertão da Cha­pa­da Dia­man­ti­na, na Bahia. 

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2025 – O musical Torto Arado, no Teatro Riachuelo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Musi­cal Tor­to Ara­do, no Teatro Riachue­lo — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A pro­dução abor­da tra­bal­ho anál­o­go à escravidão, racis­mo, resistên­cia, sobre­vivên­cia e dis­pu­ta de ter­ra. O tex­to é uma adap­tação livre do livro Tor­to Ara­do, do escritor Ita­mar Vieira Junior, e abor­da ain­da o uni­ver­so da fé, magia, poe­sia e reli­giosi­dade.

Três artis­tas com atu­ação musi­cal e teatral inter­pre­tam per­son­agens de destaque na tra­ma. A can­to­ra e apre­sen­ta­do­ra Laris­sa Luz dá vida a Bib­iana, uma das heroí­nas da história. A atriz, can­to­ra, com­pos­i­to­ra e teatrólo­ga, Bár­bara Sut dá vida à Belonisia, irmã de Bib­iana.

As duas são netas de Donana, uma per­son­agem nova na adap­tação teatral, vivi­da pela atriz e can­to­ra Lil­ian Vales­ka, que não con­hecia o livro do Ita­mar Vieira Junior quan­do rece­beu o con­vite para par­tic­i­par da mon­tagem, em maio do ano pas­sa­do.

Lil­ian con­ta que quan­do começou a ler a obra e ter mais detal­h­es da mon­tagem ficou empol­ga­da:

“É uma per­son­agem que começa com uma idade. Vai pas­san­do o tem­po, e [ela] tem que ter mais peso no cor­po, na voz. A história é uma história que desafia qual­quer atriz. Tem muitas coisas na cabeça de Donana que ficam marte­lando durante a história inteira dela em cena que são sen­ti­men­tos, dores e con­fusões, que têm que apare­cer no espetácu­lo, durante as músi­cas. Acho muito impor­tante a gente inter­pre­tar a letra de uma músi­ca que é basea­da naque­la história”, disse à Agên­cia Brasil.

Para a Lil­ian Vales­ka, a estreia na Bahia teve mui­ta rep­re­sen­ta­tivi­dade.

“Muitas mul­heres que vier­am falar comi­go [depois do espetácu­lo] pas­saram por estas coisas todas. Dava para ver e ouvir o coração delas no olhar. Era uma coisa quente e ver­dadeira. Acho que foi sig­nif­i­cante começar este espetácu­lo na Bahia.”

A atriz Laris­sa Luz desta­ca out­ro pon­to pos­i­ti­vo da estreia em Sal­vador: “estru­tu­ral­mente é inco­mum a gente estrear grandes pro­duções em Sal­vador. Geral­mente a gente estreia em São Paulo ou no Rio. Então, deslo­car este eixo de foco de atenção, é impor­tante para a gente mostrar que a gente tam­bém tem pos­si­bil­i­dade e capaci­dade de faz­er nos­sas mon­ta­gens estrearem por lá. Pri­orizar o públi­co soteropoli­tano e ter a ener­gia do lugar, da Bahia”.

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2025 – O musical Torto Arado, no Teatro Riachuelo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Musi­cal Tor­to Ara­do, no Teatro Riachue­lo — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A intér­prete de Bib­iana des­ta out­ro aspec­to da mon­tagem: o elen­co majori­tari­a­mente baiano.

“Isso tudo é muito sim­bóli­co e dialo­ga tam­bém muito bem com o tema da peça. É uma peça que se pas­sa em uma cidade fic­tí­cia, mas na Bahia. Fala da região da Cha­pa­da e acho mais que jus­to a gente pri­orizar o públi­co baiano e estrear ten­do essa ener­gia”, con­tou Laris­sa à Agên­cia Brasil.

Foi a mãe de Laris­sa, pro­fes­so­ra de lit­er­atu­ra, que lhe apre­sen­tou e incen­tivou a leitu­ra da obra: “ela que me mostrou o livro e disse ‘você tem que ler, esse livro é muito espe­cial, muito mar­avil­hoso!’. A gente já tin­ha uma relação com o livro, eu e ela. Isso tudo me fez quer­er inter­pre­tar mais a Bib­iana que é uma per­son­agem que diz muito sobre a gente. É uma mul­her aguer­ri­da, destemi­da, com sede de justiça.”

Intér­prete de Belonisia, Bár­bara Sut já con­hecia o livro e era fã de Ita­mar Vieira Junior. Ao saber sobre a mon­tagem do musi­cal e audições para a escol­ha do elen­co, Bár­bara se ani­mou.

“Quan­do soube que pas­sei nas audições fiquei muito feliz, espe­cial­mente por ser a Belonisia, um per­son­agem que na leitu­ra me atrav­es­sou muito. Lem­bro de ficar muito toma­da pela nar­ra­ti­va dela, poder vivê-la e aju­dar a cri­ar essa per­son­agem no pal­co”

Para Bár­bara, a relação de Belonisia com a lin­guagem se impõe, já que a per­son­agem sofre um aci­dente no iní­cio da nar­ra­ti­va que a deixa impe­di­da de falar. “Como faz­er com que ela se comu­nique, pos­sa se expres­sar e o públi­co a enten­da de for­ma orgâni­ca e inter­es­sante ceni­ca­mente. Belonisia foi cri­a­da muito na sala de ensaio”, con­tou à reportagem, sobre o desen­volvi­men­to da per­son­agem.

Respon­sáv­el pela direção-ger­al, Elí­sio Lopes Júnior, tam­bém assi­na a dra­matur­gia com Aldri Anun­ci­ação e Fábio Espíri­to San­to. Para o dire­tor, a estreia em Sal­vador trouxe ao elen­co uma sen­sação de per­tenci­men­to.

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2025 – O diretor do musical Torto Arado, Elisio Lopes Jr, no Teatro Riachuelo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O dire­tor do musi­cal Tor­to Ara­do, Eli­sio Lopes Jr, no Teatro Riachue­lo — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

“Tem uma especi­fi­ci­dade tan­to da cul­tura negra, quan­to da cul­tura indí­ge­na e esse cul­to de fé é sem­pre can­ta­do e dança­do. Para mim, o DNA da cri­ação do espetácu­lo vem dis­so. A gente está falan­do da nos­sa própria cul­tura e não é um musi­cal com for­ma­to preesta­b­ele­ci­do e sim um musi­cal onde o uni­ver­so de toda a história está mis­tu­ra­do com o uni­ver­so da fé deles e da cul­tura pre­ta e indí­ge­na, que usa a dança e a músi­ca para pro­fes­sar sua fé”, obser­vou em entre­vista à Agên­cia Brasil.

O dire­tor con­ta que a junção de canções do Jarê (típi­cas da religião de matriz africana prat­i­ca­da na Cha­pa­da Dia­man­ti­na) com as músi­cas inédi­tas com­postas, exclu­si­va­mente, para o espetácu­lo, con­tam a história do musi­cal.

“[As canções] não são ilus­tra­ti­vas, não são ape­nas adornos. Fazem parte da nar­ra­ti­va dos sen­ti­men­tos dos per­son­agens. Essa con­strução da dra­matur­gia com a músi­ca em con­jun­to via­bi­li­zou con­tar a história de uma for­ma que a gente con­seguisse pri­orizar a tra­ma e não o for­ma­to.”

Receptividade

Para o dire­tor-ger­al, a recep­tivi­dade do públi­co até ago­ra, espe­cial­mente de pes­soas que ain­da não tin­ham lido o livro, é impres­sio­n­ante.

“Foi um movi­men­to muito forte para mim as pes­soas dizen­do ‘quero ler o livro, quero enten­der como é isso nas pági­nas’. Tem ain­da uma infor­mação ger­al nas duas exper­iên­cias: tan­to de quem leu como de quem não leu. As pes­soas estão inter­es­sadas em saber mais sobre a própria cul­tura. Como a gente traz um uni­ver­so que tem uma poéti­ca muito própria, é muito curioso, os cos­tumes, a for­ma de lidar, as enti­dades que apare­cem”, indi­cou Elí­sio Lopes Júnior.

“Sin­to que o brasileiro quer con­hecer as suas próprias histórias. Acho que é por aí.”

Processo

Rio de Janeiro (RJ), 15/05/2025 – O musical Torto Arado, no Teatro Riachuelo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Musi­cal Tor­to Ara­do no Teatro Riachue­lo — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Em 2021, Aldri Anun­ci­ação começou soz­in­ho o tra­bal­ho de trans­por o livro para o musi­cal e decupou a obra para iden­ti­ficar o que pode­ria resul­tar em cenas. Ini­cial­mente, con­tabi­li­zou 468 pos­si­bil­i­dades de cenas e as trans­for­mou em peque­nas fras­es. O proces­so de redução do que pode­ria ser sele­ciona­do chegou a 128 cenas.

Nesse pon­to, ele se jun­tou a Elí­sio e Fábio Espíri­to San­to com essas cenas sele­cionadas. Elí­sio fez out­ra redução, des­ta vez para 68 cenas, a fim de alcançar o sen­ti­do teatral e elen­car os per­son­agens mais rel­e­vantes.

“No teatro a gente não pode botar todas as per­son­agens do romance, então a gente ten­siona em Donana, que aca­ba se tor­nan­do pro­tag­o­nista tam­bém, Belonisia e Bib­iana, o trio con­du­tor dessa história. E tem a Salu, Zeca Chapéu Grande e Severo, per­son­agens que estão dan­do suporte incrív­el de coad­ju­vação dessa nar­ra­ti­va”, con­ta Aldri.

Elí­sio, Aldri e Fábio se dividi­ram para desen­volver as cenas. “O maior desafio da gente foi trans­for­mar e traz­er o diál­o­go para a cena jun­to com a prosó­dia e a con­strução de pen­sa­men­to de cada per­son­agem e car­ac­terís­ti­ca no modo de fala. Isso não tem no romance que é todo a par­tir das per­son­agens, mas em ter­ceira pes­soa. Traz­er isso para o modo dialógi­co foi um desafio a três. Eles entram no iní­cio de 2024, já no ano de estreia”, con­tou.

“O sig­nifi­ca­do maior de levar isso para o pal­co é a gente enten­der que grandes histórias de resistên­cia, de lutas, são muitas em nos­so país. Elas pre­cisam mes­mo estar no pal­co porque gan­ham relevân­cia para além do que a gente já sabe. Tem uma boa parte da pop­u­lação que não sabe dessas histórias de explo­ração, mas ain­da para os que já sabem levar para o pal­co sig­nifi­ca um pouco de tran­scen­der dores”, con­cluiu.

Músicas inéditas

Autor das com­posições inédi­tas apre­sen­tadas no espetácu­lo, o can­tor e com­pos­i­tor Jar­bas Bit­ten­court assi­na a direção musi­cal. Ele con­ta que o tra­bal­ho foi con­cen­tra­do em dois meses, em imer­são abso­lu­ta, para que tivesse o cuida­do necessário com o livro de Ita­mar e um trata­men­to respon­sáv­el e amoroso com a obra do escritor.

Jar­bas con­ta que algu­mas canções sur­gi­ram antes que as cenas exis­tis­sem, o que lhe pare­ceu bem inter­es­sante uma vez que geral­mente ocorre o con­trário: “nesse caso, Elí­sio em alguns momen­tos falou ‘essa cena ain­da vai ser escri­ta mas gostaria muito que você fizesse a canção, porque acho que canção pode inspi­rar a gente a escr­ev­er a cena.”

Jar­bas Bit­ten­court tra­bal­ha com cri­ação musi­cal de espetácu­los des­de 1996, à frente da direção musi­cal do Ban­do de Teatro Olo­dum, seu grupo de origem em Sal­vador, de onde saíram artis­tas como Éri­co Brás, Lázaro Ramos, Virgí­nia Rodrigues, Vald­inéia Sori­ano, a Edvana Car­val­ho. Na visão dele, a con­strução da músi­ca em espetácu­los musi­cais é o pon­to alto da car­reira de um com­pos­i­tor que tra­bal­ha com teatro.

“É como se fos­se a nos­sa sin­fo­nia. É o momen­to em que a gente colo­ca à pro­va a nos­sa capaci­dade de entendi­men­to e de con­strução de músi­ca enquan­to dra­matur­gia, enquan­to tex­to. Esse tra­bal­ho, eu gos­to de perce­ber e con­statar que a feitu­ra de um musi­cal como Tor­to Ara­do, assim como Amor Bara­to, que fiz uns anos atrás, ou até mes­mo a parte orig­i­nal de Ivone Lara, que tam­bém assi­no, é um exer­cí­cio de car­reira de uma vida inteira. É como se a gente se preparasse a vida inteira para este momen­to de dar um salto maior”, apon­tou à reportagem.

Jar­bas tam­bém comen­tou sobre a refer­ên­cia reli­giosa e sua influên­cia no musi­cal, que traz o rit­u­al do Jarê – cul­to especí­fi­co da Cha­pa­da Dia­man­ti­na.

“Ali se vê a fusão ou sed­i­men­tação daqui­lo que vem de matriz afro-brasileira. Até o can­domblé que está ali é o can­domblé con­go, a umban­da está ali pre­sente de algum jeito, o catoli­cis­mo. Musi­cal­mente falan­do a gente tem ali rit­mos da umban­da e do can­domblé que foram a primeira infor­mação musi­cal do que a gente ia tratar. A par­tir desse lugar afro sonoro do Recôn­ca­vo da Bahia a gente bus­cou ampli­ar o con­ceito da músi­ca para que ela con­ver­sasse com o que de fato o livro con­ver­sa, que é o inte­ri­or do Brasil inteiro. Acho que no livro, através da Cha­pa­da Vel­ha, Ita­mar con­seguiu se comu­nicar com o Brasil inteiro”, com­ple­tou.

O dire­tor e coreó­grafo Zebrin­ha é respon­sáv­el pela direção de movi­men­to do espetácu­lo. A cenografia ficou a car­go de Rena­ta Mota; o fig­uri­no com a design­er Bet­tine Sil­veira e a coor­de­nação ger­al é de Fer­nan­da Bez­er­ra, respon­sáv­el tam­bém pela ide­al­iza­ção do pro­je­to.

Programação

A tem­po­ra­da de Tor­to Ara­do – O Musi­cal segue em car­taz até 15 de jun­ho. Quin­tas e sex­tas às 20h, sába­dos às 16h e às 20h, e domin­gos às 16h.

Apre­sen­ta­do pelo Min­istério da Cul­tura e pelo Nubank, por meio da Lei Fed­er­al de Incen­ti­vo à Cul­tura, o espetácu­lo é real­iza­do pela Maré Pro­duções, Min­istério da Cul­tura e Gov­er­no Fed­er­al União e Recon­strução.

Os ingres­sos a R$ 40,00 podem ser com­pra­dos na platafor­ma ingresso.com ou na bil­hete­ria do teatro.

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