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Na pandemia, abraços deixam de ser presenciais e se tornam virtuais

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Repro­du­ção: © Chris­ti­a­na Rivers/Unsplash

No Dia Mundial do Abraço especialistas destacam a importância do gesto


Publi­ca­do em 22/05/2021 — 08:30 Por Ala­na Gan­dra — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

“O melhor lugar do mun­do. É den­tro de um abra­ço”, a músi­ca da ban­da minei­ra Jota Quest fala sobre uma das prin­ci­pais expres­sões de cari­nho que é lem­bra­da nes­te sába­do (22): o abra­ço. A letra con­ti­nua, e mos­tra tudo que esse peque­no ges­to pode fazer: “Tudo que a gen­te sofre. Num abra­ço se dis­sol­ve. Tudo que se espe­ra ou sonha. Num abra­ço a gen­te encon­tra”.

A pre­si­den­te da Fede­ra­ção Lati­no-Ame­ri­ca­na de Aná­li­se Bio­e­ner­gé­ti­ca (Fla­ab), Edna Lopes, dis­se à Agên­cia Bra­sil que, pen­san­do no abra­ço de uma for­ma mais ampla, quan­do abra­ça­mos alguém, ou quan­do somos abra­ça­dos, “A gen­te se conec­ta com o cam­po afe­ti­vo ínti­mo  no cor­po de ambas as pes­so­as. A res­pi­ra­ção, o rit­mo car­día­co podem se har­mo­ni­zar em um abra­ço demo­ra­do”. Edna expli­cou que o abra­ço pode aco­lher vári­as emo­ções, como tris­te­za e medo. Pode dar limi­tes à rai­va; pode ampli­ar as sen­sa­ções pra­ze­ro­sas, amo­ro­sas, de todo tipo de amor vivi­do, como amor fili­al, fra­ter­no, entre casais e até com ani­mais. Para ela, o abra­ço é a expres­são do vín­cu­lo que nós esta­be­le­ce­mos com as pes­so­as, mas tam­bém com tudo que está no mun­do, com tudo que nos envol­ve.

Sinais corporais

A pro­fes­so­ra do Ins­ti­tu­to de Psi­co­lo­gia (IP) da Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (Uerj), Edna Pon­ci­a­no, expli­cou à Agên­cia Bra­sil que a expe­ri­ên­cia emo­ci­o­nal é toda mani­fes­ta­da por sinais cor­po­rais que indi­cam se o que a pes­soa está viven­do é bom ou ruim. “Nes­se sen­ti­do, o abra­ço entra como uma for­ma de sina­li­zar que uma coi­sa boa está acon­te­cen­do”. Des­ta­cou que isso se refe­re ao abra­ço con­sen­su­al, em que há con­sen­ti­men­to de ambas as par­tes e que vai comu­ni­car um bem-estar.

De acor­do com Edna, des­de bebê, o ser huma­no tem diver­sas sen­sa­ções afe­ti­vas e, embo­ra não pos­sa falar, seu cor­po já se expres­sa e o adul­to que cui­da já per­ce­be essa expres­são. À medi­da que vai cres­cen­do, o bebê demons­tra tris­te­za, ale­gria, rai­va. “E o abra­ço entra em todas essas situ­a­ções, no sen­ti­do de pro­pi­ci­ar um con­for­to para a inten­si­da­de da expe­ri­ên­cia emo­ci­o­nal que ocor­re no cor­po. Os bebês são aca­len­ta­dos no abra­ço”. A cri­an­ça sen­te o cor­po do adul­to que o aca­len­ta, como já sen­do um abra­ço.

O que gera essa sen­sa­ção de cal­ma é o ner­vo vago, que vai subin­do des­de a par­te bai­xa da bar­ri­ga, como ramos que não têm uma line­a­ri­da­de cla­ra, e vão se espa­lhan­do, pas­san­do pelas vís­ce­ras, estô­ma­go, cora­ção, larin­ge, farin­ge e pul­mão.

“O ner­vo vago tem a ver com o abra­ço, por­que quan­do você abra­ça, você encos­ta o seu ner­vo vago com o da outra pes­soa. Se resu­me em encos­tar a bar­ri­ga com a bar­ri­ga e o pei­to com o pei­to da outra pes­soa, que é o abra­ço. Isso acon­te­ce com os bebês e dá a sen­sa­ção de cal­ma e, depois, con­ti­nua sen­do impor­tan­te na vida adul­ta”.

O abra­ço faz par­te do com­por­ta­men­to dos bra­si­lei­ros que, ago­ra, no dis­tan­ci­a­men­to soci­al, inven­tam mei­os de se tocar com os coto­ve­los ou mãos fecha­das. “É uma carac­te­rís­ti­ca cul­tu­ral. Mas nada subs­ti­tui o abra­ço, por­que não toca o ner­vo vago e não dá aque­la sen­sa­ção de cal­ma­ria”, asse­gu­rou Edna Pon­ci­a­no.

Abraços em tempos de pandemia

Para o pro­fes­sor de psi­co­lo­gia médi­ca da Pós Gra­du­a­ção em Psi­qui­a­tria da Pon­ti­fí­cia Uni­ver­si­da­de Cató­li­ca do Rio de Janei­ro (PUC Rio), Luiz Gui­lher­me Pin­to, a situ­a­ção que o mun­do está viven­do nes­te momen­to, por con­ta da pan­de­mia do novo coro­na­ví­rus, é mui­to par­ti­cu­lar. Segun­do ele boa par­te da popu­la­ção que está toman­do todos os cui­da­dos reco­men­da­dos pelas auto­ri­da­des sani­tá­ri­as “está care­cen­do de abra­ços”.

É o caso da pro­fes­so­ra apo­sen­ta­da Maria das Dores, que mora no Dis­tri­to Fede­ral e é mãe da Pris­cil­la, que mora em Sid­ney na Aus­trá­lia. Os voos de um país para o outro duram cer­ca de 30 horas. Já no iní­cio da entre­vis­ta a apo­sen­ta­da dis­pa­rou: “Quan­do você fala do abra­ço, che­ga me aper­ta o cora­ção! O quan­to sin­to fal­ta! Nos­sa!”. Mes­mo com pedi­dos de que “só não valia cho­rar”, a apo­sen­ta­da não con­se­guiu con­ter as lágri­mas, dis­se.

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Repro­du­ção: Maria das Dores mata a sau­da­de de for­ma vir­tu­al Acer­vo Pes­so­al

Isso por­que Maria das Dores já esta­va com pas­sa­gem com­pra­da para o mês de abril para come­mo­rar o ani­ver­sá­rio do neti­nho mais velho, Henry. Quan­do veio a pan­de­mia, ela sou­be que outro neti­nho esta­ria a cami­nho e como teve de alte­rar a data da pas­sa­gem, mar­cou para junho, quan­do o peque­no Ben­ja­min nas­ce­ria. “Depois dis­so, já remar­quei minha pas­sa­gem duas vezes. Meu vis­to per­deu a vali­da­de! Minha pas­sa­gem a empre­sa dis­se que vai reem­bol­sar, só não sei quan­do.”, dis­se ela, que comen­tou que o cus­to emo­ci­o­nal é mui­to mai­or, pois não pôde acom­pa­nhar nem o nas­ci­men­to nem o tra­ta­men­to do neto que che­gou a ir para a UTI. Os pre­sen­tes que ela com­prou ain­da estão no Bra­sil: rou­pi­nhas para bebê, brin­que­dos. “Essa é uma situ­a­ção que eu nun­ca ima­gi­nei, nin­guém ima­gi­nou! Sin­to fal­ta de brin­car com meus netos, de abra­çar, de estar pre­sen­te!”, desa­ba­fa.

Para ame­ni­zar a sau­da­de, Maria das Dores recor­re ao bate papo vir­tu­al: “Hoje mes­mo, à noi­te, minha filha vai fazer cha­ma­da de vídeo entre­gan­do um pre­sen­te que eu com­prei e man­dei entre­gar lá. É uma armi­nha de bolha de sabão. Estou sonhan­do com esse momen­to”, rela­ta.

Já  per­so­nal trai­ner Henia Aqui­no con­se­guiu rea­li­zar o sonho de vol­tar a abra­çar a mãe, já vaci­na­da. “Depois de um ano e meio eu dei o pri­mei­ro abra­ço na minha mãe por­que ela já tomou as duas doses da vaci­na. Eu tenho toma­do todos os meus cui­da­dos e esse abra­ço foi mui­to bom”, come­mo­rou.

Saúde Mental

Na ava­li­a­ção do psi­có­lo­go Mar­cel­lo San­tos, do Con­se­lho Regi­o­nal de Psi­co­lo­gia do Rio de Janei­ro (CRP-RJ), o abra­ço é a poe­sia do mun­do sem pala­vras. “É aque­le momen­to em que você envol­ve o outro e o outro te envol­ve. É o momen­to em que você aco­lhe aqui­lo que o outro está tra­zen­do. Você aco­lhe o outro incon­di­ci­o­nal­men­te no seu abra­ço e isso faz com que o sujei­to se sin­ta den­tro de um cli­ma de hos­pi­ta­li­da­de, de cor­di­a­li­da­de, de afe­to. Como falam em algu­mas cul­tu­ras, é o cho­que de cora­ções”.

San­tos refor­çou que o abra­ço requer uma cer­ta inti­mi­da­de que, às vezes, ocor­re naque­le úni­co momen­to, como acon­te­ce mui­tas vezes em jogos de fute­bol, quan­do os tor­ce­do­res se abra­çam para come­mo­rar um gol do seu time. Ou no Ano Novo, em que pes­so­as des­co­nhe­ci­das uma das outras aca­bam abra­çan­do alguém para ter um con­ta­to. “É o encon­trar com o outro. Nes­se sen­ti­do, é mui­to bom para a saú­de men­tal, se pen­sar que a saú­de men­tal não é só uma ques­tão do orga­nis­mo, mas de um con­tex­to que vai des­de o aces­so aos ser­vi­ços até a boa vida em famí­lia, o lazer, o encon­tro, o con­ta­to com o outro, de for­mas sau­dá­veis”, dis­se San­tos.

Ato de afeto

Os psi­có­lo­gos da Eurek­ka, cen­tro de dis­tri­bui­ção de empre­sas emer­gen­tes, foca­do em saú­de e bem-estar, com for­te atu­a­ção em psi­co­te­ra­pia e medi­ci­na, comen­tam a impor­tân­cia do abra­ço, ato de afe­to que pode dimi­nuir sin­to­mas como depres­são, pâni­co, soli­dão, aban­do­no, entre outros sen­ti­men­tos que têm aba­la­do emo­ci­o­nal­men­te a popu­la­ção.

Para o psi­có­lo­go Hen­ri­que Sou­za, cofun­da­dor da Eurek­ka, embo­ra se sai­ba que o cená­rio atu­al tem afas­ta­do pes­so­as e pro­vo­ca­do uma série de pro­ble­mas psi­co­ló­gi­cos, a demons­tra­ção de cari­nho con­ti­nua sen­do mui­to impor­tan­te, prin­ci­pal­men­te entre famí­li­as, cri­an­ças e ido­sos. Na sua ava­li­a­ção, abra­çar alguém na pan­de­mia não sig­ni­fi­ca ape­nas o con­ta­to físi­co. Essa ação pode acon­te­cer de diver­sas for­mas, des­de inda­gar se a pes­soa está bem até aju­dar em algo que ela pre­ci­se.

“Exis­tem vári­as for­mas de abra­çar uma pes­soa. Você pode come­çar se envol­ven­do na cau­sa dela, per­gun­tan­do se ela está bem, se pre­ci­sa de algo para aque­la sema­na, se os fami­li­a­res dela estão bem. Pode fazer uma cha­ma­da de vídeo para esta­be­le­cer mais con­ta­to ou até mes­mo dar supor­te para algo que aque­la pes­soa pre­ci­sa naque­la sema­na, como ir à far­má­cia, mer­ca­do, pada­ria, e pou­par o outro da expo­si­ção”, des­ta­cou Sou­za.

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Edi­ção: Clau­dia Felc­zak

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