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Pacto de silêncio: 12 militares e 2 civis ficam calados em depoimento

Repro­du­ção: Agên­cia Bra­sil / EBC

Todos recorreram ao direito de não produzirem provas contra si mesmos


Publicado em 15/03/2024 — 16:58 Por Eduardo Reina — repórter da Agência Brasil — São Paulo

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Dos 27 depoi­men­tos con­ce­di­dos à Polí­cia Fede­ral (PF) no inqué­ri­to que apu­ra a ten­ta­ti­va de gol­pe de Esta­do e sub­ver­são das elei­ções pre­si­den­ci­ais de 2022, 14 pes­so­as fica­ram em silên­cio ale­gan­do o direi­to cons­ti­tu­ci­o­nal de não pro­du­zi­rem pro­vas con­tra si mes­mos ou supos­ta “fal­ta de aces­so a todos os ele­men­tos de pro­va”. Todos eles inte­gram, de uma for­ma ou de outra, de acor­do com a pró­pria PF e rela­tó­rio do Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral (STF), núcle­os de pes­so­as que atu­a­ram den­tro do esque­ma gol­pis­ta.

Dos 14 que esti­ve­ram na PF, 12 são mili­ta­res, incluin­do o ex-pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro, e fazi­am par­te dos núcle­os de asses­so­ra­men­to dele ou ocu­pan­tes de car­gos no gover­no fede­ral. De civis, havia um padre e um advo­ga­do.

Jair Bol­so­na­ro e Bra­ga Net­to são as duas pes­so­as com mai­or posi­ci­o­na­men­to na hie­rar­quia no núcleo gol­pis­ta. Este últi­mo foi ex-minis­tro da Defe­sa de Bol­so­na­ro e can­di­da­to a vice-pre­si­den­te na cha­pa der­ro­ta­da nas elei­ções de 2022. Mili­tar da reser­va, Bra­ga Net­to foi minis­tro-che­fe da Casa Civil, de 2020 a 2021, e minis­tro da Defe­sa, de 2021 a 2022. Com lon­ga car­rei­ra mili­tar, exer­ceu o car­go de coman­dan­te mili­tar do Les­te entre 2016 e 2019. E em 2018, foi nome­a­do inter­ven­tor fede­ral na área de Segu­ran­ça Públi­ca no esta­do do Rio de Janei­ro.

A enor­me lis­ta de depo­en­tes que pre­fe­ri­am ficar cala­dos dian­te dos agen­tes da PF está o ex-coman­dan­te da Mari­nha Almir Gar­ni­er, que já havia sido secre­tá­rio-geral do Minis­té­rio da Defe­sa. Foi o almi­ran­te que colo­cou a Mari­nha à dis­po­si­ção de Bol­so­na­ro em caso de um gol­pe de Esta­do ser dado, con­for­me as inves­ti­ga­ções.

Pacto de silêncio

Tam­bém ex-inte­gran­te do minis­té­rio na ges­tão Bol­so­na­ro, o gene­ral Pau­lo Sér­gio Noguei­ra de Oli­vei­ra, do Exér­ci­to, exer­ceu o pac­to de silên­cio. Ele foi minis­tro da Defe­sa e depois coman­dan­te do Exér­ci­to, e teria rece­bi­do visi­tas do hac­ker Wal­ter Del­gat­ti em 2022. Para a PF, o gene­ral man­te­ve o mais abso­lu­to silên­cio. Mas Del­gat­ti con­tou à CPMI do 8 de janei­ro que man­te­ve con­ver­sa com Noguei­ra, além de ter rea­li­za­do cin­co reu­niões com téc­ni­cos do Minis­té­rio da Defe­sa para apon­tar “fra­gi­li­da­des” nas urnas elei­to­rais.

Outro que não depôs foi o gene­ral Augus­to Hele­no, ex-minis­tro do Gabi­ne­te de Segu­ran­ça Ins­ti­tu­ci­o­nal (GSI) e res­pon­sá­vel por fra­ses polê­mi­cas duran­te a reu­nião minis­te­ri­al gra­va­da em julho de 2022. Na oca­sião, o gene­ral da reser­va do Exér­ci­to Augus­to Hele­no afir­mou que se tiver que virar a mesa é antes das elei­ções. Dis­se tam­bém que era neces­sá­rio “agir con­tra deter­mi­na­das ins­ti­tui­ções e con­tra deter­mi­na­das pes­so­as”.

Mais um mili­tar do Exér­ci­to e tido como homem de con­fi­an­ça de Bol­so­na­ro na lis­ta dos qui­e­tos é o gene­ral da reser­va Mário Fer­nan­des, que ocu­pou car­gos na Secre­ta­ria-Geral da Pre­si­dên­cia da Repú­bli­ca. Em 2022, ele exer­ceu o car­go de Auto­ri­da­de de Moni­to­ra­men­to da Lei de Aces­so à Infor­ma­ção, ins­tru­men­to demo­crá­ti­co que esta­be­le­ce pro­ce­di­men­tos e pra­zos para que todos os órgãos públi­cos pres­tem infor­ma­ções aos cida­dãos, ins­tru­men­to bas­tan­te uti­li­za­do pela impren­sa.

Ronald Fer­rei­ra de Arau­jo Juni­or, tenen­te-coro­nel do Exér­ci­to, alvo da Ope­ra­ção Tem­pus Veri­ta­tuis, man­te­ve-se em silên­cio. Ele é inves­ti­ga­do por supos­ta par­ti­ci­pa­ção na orga­ni­za­ção cri­mi­no­sa que defen­deu um gol­pe mili­tar e por atu­ar na ela­bo­ra­ção da famo­sa “minu­ta do gol­pe”. O mili­tar tinha estrei­to rela­ci­o­na­men­to com o ex-aju­dan­te de ordens da Pre­si­dên­cia, coro­nel Mau­ro Cid. Depois de ter fica­do em silên­cio, a defe­sa de Ronald Fer­rei­ra pediu à PF que agen­das­se um novo depoi­men­to para que ele pudes­se depor. Ain­da não foi defi­ni­da data ou mes­mo a rea­li­za­ção da nova oiti­va.

Outro mili­tar do pac­to de silên­cio que atu­ou jun­to com o coro­nel Mau­ro Cid, o major das For­ças Espe­ci­ais do Exér­ci­to Rafa­el Mar­tins de Oli­vei­ra, nego­ci­ou o paga­men­to de R$ 100 mil para finan­ci­ar a via­gem de mani­fes­tan­tes a Bra­sí­lia para par­ti­ci­par do 8 de janei­ro de 2023, quan­do as sedes dos Três Pode­res foram inva­di­das e depre­da­das. Rafa­el Mar­tin foi pre­so em feve­rei­ro últi­mo duran­te ope­ra­ção da PF.

Mais um inte­gran­te da for­ça ter­res­tre que se man­te­ve cala­do fren­te à PF, em 22 de feve­rei­ro, é o tenen­te-coro­nel do Exér­ci­to Hélio Fer­rei­ra Lima. Ele é iden­ti­fi­ca­do em tro­cas de men­sa­gens com o ex-aju­dan­te de ordens de Bol­so­na­ro, Mau­ro Cid. Coman­da­va a 3ª Com­pa­nhia de For­ças Espe­ci­ais de Manaus do Coman­do Mili­tar da Amazô­nia (CMA). Foi exo­ne­ra­do no dia 14 de feve­rei­ro des­te ano.

Tam­bém per­deu o car­go públi­co, mas no gover­no esta­du­al de São Pau­lo, o major da reser­va do Exér­ci­to Ange­lo Mar­tins Deni­co­li. Ele foi alvo de bus­ca e apre­en­são da ope­ra­ção Tem­pus Veri­ta­tis. Antes de ser nome­a­do para atu­ar na Pro­desp, empre­sa públi­ca de tec­no­lo­gia da infor­ma­ção do gover­no Tar­cí­sio de Fei­tas, Deni­co­li ocu­pou pos­to na dire­ção do Minis­té­rio da Saú­de duran­te a ges­tão do gene­ral Edu­ar­do Pazu­el­lo.

Res­pon­sá­vel pelo supos­to sis­te­ma para­le­lo de inte­li­gên­cia, a Abin para­le­la, o coro­nel do Exér­ci­to Mar­ce­lo Cos­ta Câma­ra, segun­do a PF, não falou nada no dia 22 de feve­rei­ro. Ele tam­bém é cita­do nas inves­ti­ga­ções por supos­to envol­vi­men­to nas frau­des nos car­tões de vaci­na da famí­lia Bol­so­na­ro.

Ami­go pes­so­al de Bol­so­na­ro e fre­quen­ta­dor da resi­dên­cia do ex-pre­si­den­te no Rio de Janei­ro, o capi­tão refor­ma­do do Exér­ci­to Ail­ton Gon­çal­ves Mora­es Bar­ros man­te­ve-se em silên­cio dian­te das per­gun­tas sobre supos­ta ação gol­pis­ta. Ail­ton foi expul­so do Exér­ci­to depois de ter rece­bi­do puni­ções dis­ci­pli­na­res. Já foi inves­ti­ga­do por trá­fi­co de dro­gas. Ao dei­xar a car­rei­ra mili­tar, pas­sou a atu­ar como advo­ga­do. Na elei­ção de 2022, can­di­da­tou-se a depu­ta­do esta­du­al e ficou com uma suplên­cia na Assem­bleia flu­mi­nen­se. Na cam­pa­nha, apre­sen­ta­va-se como o “01 de Bol­so­na­ro”.

Civis

Os úni­cos civis do gru­po inves­ti­ga­do pela PF e alvo da Ope­ra­ção Tem­pus Veri­ta­tis, que tam­bém pre­fe­ri­ram silen­ci­ar no depoi­men­to, são o advo­ga­do Amau­ri Feres Saad e o padre da Igre­ja Cató­li­ca José Edu­ar­do de Oli­vei­ra e Sil­va.

Saad é cita­do na CPMI dos atos gol­pis­tas de 8 de janei­ro como “men­tor inte­lec­tu­al” da minu­ta do gol­pe encon­tra­da com o ex-minis­tro Ander­son Tor­res e tam­bém entre­gue a Bol­so­na­ro. De acor­do com rela­tó­rio do STF, o advo­ga­do inte­gra­va o cha­ma­do “núcleo jurí­di­co” do esque­ma gol­pis­ta. O papel do gru­po seria o “asses­so­ra­men­to e ela­bo­ra­ção de minu­tas de decre­tos com fun­da­men­ta­ção jurí­di­ca e dou­tri­ná­ria que aten­des­sem aos inte­res­ses gol­pis­tas do gru­po inves­ti­ga­do”.

Um outro inte­gran­te des­se “núcleo jurí­di­co”, o padre José Edu­ar­do de Oli­vei­ra e Sil­va, da Paró­quia São Domin­gos, na cida­de de Osas­co, região metro­po­li­ta­na de São Pau­lo, tam­bém invo­cou a Cons­ti­tui­ção Fede­ral para ficar em silên­cio em seu depoi­men­to.

O reli­gi­o­so foi alvo da Polí­cia Fede­ral em bus­ca e apre­en­são na ope­ra­ção da PF do dia 8 de feve­rei­ro.

Edi­ção: Caro­li­na Pimen­tel

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