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País registra 50 mil casos a mais de violência contra idosos em 2023

Repro­du­ção: © Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil

Pesquisa cobre período de três anos e considera diversas variáveis


Publicado em 07/06/2024 — 17:50 Por Cristina Indio do Brasil – Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

As ocor­rên­ci­as de agres­sões con­tra ido­sos tive­ram aumen­to de qua­se 50 mil casos em 2023 na com­pa­ra­ção com o ano ante­ri­or.

De 2020 a 2023, as denún­ci­as noti­fi­ca­das che­ga­ram a 408.395 mil, das quais 21,6% ocor­re­ram em 2020, 19,8% em 2021, 23,5% em 2022 e 35,1% no ano seguin­te. Os núme­ros fazem par­te da pes­qui­sa Denún­ci­as de Vio­lên­cia ao Ido­so no Perío­do de 2020 a 2023 na Pers­pec­ti­va Bioé­ti­ca. A pes­qui­sa resul­tou em arti­go publi­ca­do em par­ce­ria pelas pro­fes­so­ras Ales­san­dra Cama­cho, da Esco­la de Enfer­ma­gem da Uni­ver­si­da­de Fede­ral Flu­mi­nen­se (UFF) e do Pro­gra­ma Aca­dê­mi­co em Ciên­ci­as do Cui­da­do da UFF, e Célia Cal­das, da Facul­da­de de Enfer­ma­gem da Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (UERJ).

Para tra­çar o per­fil dos ido­sos, foram ana­li­sa­das diver­sas variá­veis além da fai­xa etá­ria, como região do país, raça e cor, sexo, grau de ins­tru­ção, rela­ção entre sus­pei­to e víti­ma, e o con­tex­to em que a vio­la­ção ocor­reu.

O estu­do ana­li­sou infor­ma­ções dis­po­ní­veis no Pai­nel de Dados da Ouvi­do­ria Naci­o­nal de Direi­tos Huma­nos do Minis­té­rio dos Direi­tos Huma­nos e Cida­da­nia, com base em denún­ci­as de vio­lên­cia regis­tra­das de 2020 a 2023, de casos sus­pei­tos ou con­fir­ma­dos con­tra pes­so­as com ida­de igual ou supe­ri­or a 60 anos. Foram excluí­das dupli­ca­tas de noti­fi­ca­ções refe­ren­tes à mes­ma ocor­rên­cia.

O aumen­to de casos em 2023 sur­pre­en­deu a pro­fes­so­ra Ales­san­dra Cama­cho, que espe­ra­va por que­da nos índi­ces. Ela dis­se que, ao fina­li­zar a cole­ta de dados, no fim de mar­ço, rece­beu “com cer­ta per­ple­xi­da­de” o resul­ta­do, que mos­trou aumen­to sig­ni­fi­ca­ti­vo, prin­ci­pal­men­te em rela­ção ao ano de 2023. “Como exem­plo, em 2022, tive­mos 95 mil denún­ci­as, o que já era supe­ri­or aos dados de 2021, e em 2023, mais de 143 mil denún­ci­as.”

Em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil, Ales­san­dra des­ta­cou que a inten­ção, no iní­cio da pes­qui­sa, era veri­fi­car os regis­tros duran­te a pan­de­mia de covid-19. Embo­ra os núme­ros tenham sido rele­van­tes naque­le momen­to, hou­ve avan­ço nas denún­ci­as. “Os regis­tros de aumen­to já vinham ocor­ren­do antes da pan­de­mia. Duran­te a pan­de­mia, foram mai­o­res do que em 2019 e, depois dis­so, vêm  aumen­tan­do pro­gres­si­va­men­te.”

Segun­do a pes­qui­sa­do­ra, par­te des­se movi­men­to tem ori­gem no com­por­ta­men­to da soci­e­da­de. “As pes­so­as estão ten­do cora­gem de denun­ci­ar. Quan­to mais se divul­ga­rem essas infor­ma­ções, mais as pes­so­as vão denun­ci­an­do. Essa aná­li­se nos faz viven­ci­ar algu­mas supo­si­ções impor­tan­tes: a vio­lên­cia já acon­te­cia, mas ago­ra as pes­so­as, cien­tes des­sa situ­a­ção, por­que são diver­sos tipos de vio­lên­cia, estão bus­can­do os mei­os de denún­ci­as seja em dele­ga­ci­as, seja na pró­pria Ouvi­do­ria do Minis­té­rio dos Direi­tos Huma­nos e da Cida­da­nia. A soci­e­da­de pre­ci­sa se cons­ci­en­ti­zar, e creio que isso está acon­te­cen­do”, afir­mou.

Ales­san­dra res­sal­tou que hoje há faci­li­da­de para gra­var e regis­trar essas situ­a­ções, seja no âmbi­to resi­den­ci­al ou pri­va­do e até mes­mo em casos de  vio­lên­cia na rua. “Mui­tas pes­so­as têm ver­go­nha e rela­tam isso, mas, ao mes­mo tem­po, vis­lum­bro com a pos­si­bi­li­da­de de ampli­ar essa divul­ga­ção, já que as pes­so­as estão ten­do cora­gem de denun­ci­ar.”

De acor­do com Ales­san­dra, o Pai­nel do Minis­té­rio dos Direi­tos Huma­nos e da Cida­da­nia já ano­tou 74.620 denún­ci­as nes­te ano, o que indi­ca aumen­to de casos em rela­ção ao ano de 2023.

A Região Sudes­te foi a que regis­trou mai­or núme­ro de casos (53%) de 2020 a 2023. Em segui­da, apa­re­ce a Região Nor­des­te (19,9%). “A Região Sudes­te tem a mai­or con­cen­tra­ção de ido­sos. Os dados do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca (IBGE) já vêm mos­tran­do isso de manei­ra bem notó­ria. O Sudes­te teve no perío­do do estu­do (2020–2023) mais de 50% de denún­ci­as em rela­ção ao país intei­ro”, com­ple­tou.

Vulnerabilidade

Para a pro­fes­so­ra Ales­san­dra Cama­cho, a vul­ne­ra­bi­li­da­de dos ido­sos é um fator de asso­ci­a­ção entre a ida­de avan­ça­da e o mai­or per­cen­tu­al de denún­ci­as de vio­lên­cia rela­ci­o­na­do às pes­so­as de 80 anos ou mais.

Con­for­me a pes­qui­sa, o per­cen­tu­al máxi­mo dos casos (34%) foi regis­tra­do em 2023. “É impor­tan­te des­ta­car o ris­co de vio­lên­cia para pes­so­as de 80 anos ou mais, que são as mais vul­ne­rá­veis em ter­mos de pro­ble­mas físi­cos, e é pre­ci­so tam­bém aten­tar para esse dado, que pode­mos ten­tar ate­nu­ar dan­do uma rede de supor­te e apoio à famí­lia”, dis­se a pro­fes­so­ra, lem­bran­do que é uma fai­xa etá­ria que deman­da mais cui­da­dos e e ser­vi­ços.

Nas ques­tões de gêne­ro, as mulhe­res são mais sus­ce­tí­veis à vio­lên­cia, uma con­sequên­cia da desi­gual­da­de, inten­si­fi­ca­da com o enve­lhe­ci­men­to. No perío­do de 2020 a 2023, o sexo femi­ni­no res­pon­deu por mais de 67% das denún­ci­as noti­fi­ca­das. O núme­ro inclui aumen­to per­cen­tu­al no ano de 2022 equi­va­len­te a qua­se 70% dos casos regis­tra­dos. “Esse tam­bém é um dado rele­van­te por­que as mulhe­res alcan­ça­ram um quan­ti­ta­ti­vo de mais de 60% no perío­do estu­da­do, e isso se repe­tiu em 2024, o que só vem con­fir­mar que a mulher tem tam­bém situ­a­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de”, afir­mou a pro­fes­so­ra, que defen­de polí­ti­cas públi­cas para essa par­ce­la da popu­la­ção.

Raça e cor

A popu­la­ção bran­ca foi a mais atin­gi­da, com as ocor­rên­ci­as apre­sen­tan­do cres­ci­men­to ao lon­go dos anos. A segun­da mai­or par­ce­la foi a dos par­dos, que tam­bém mos­trou ten­dên­cia de aumen­to no perío­do ana­li­sa­do. Con­for­me a pes­qui­sa, há estu­dos que indi­cam ten­dên­cia de mini­mi­zar casos de vio­lên­cia no com­por­ta­men­to de par­dos e negros, pos­si­vel­men­te, por con­ta de expe­ri­ên­ci­as ante­ri­o­res seme­lhan­tes.

A pro­fes­so­ra cha­mou aten­ção para o fato de que, às vezes, quem faz a denún­cia, depen­den­do da cir­cuns­tân­cia, não con­se­gue evi­den­ci­ar qual é a raça ou cor da víti­ma. “Alguns dados ain­da são um pou­co mas­ca­ra­dos por cau­sa das cir­cuns­tân­ci­as da pes­soa que está denun­ci­an­do. Há uma difi­cul­da­de no item não decla­ra­do tam­bém. Não se pode infe­rir qual­quer tipo em detri­men­to da raça par­da, pre­ta, ama­re­la, indí­ge­na por­que não se sabe quais são os ele­men­tos cir­cuns­tan­ci­ais que estão levan­do a essa pes­soa a não efe­ti­var a denún­cia de manei­ra mais com­ple­ta.”

De acor­do com a pes­qui­sa, os casos de vio­lên­cia entre ido­sos ocor­rem em dife­ren­tes graus de esco­la­ri­da­de e ins­tru­ção, mas os anal­fa­be­tos, ou têm ensi­no fun­da­men­tal incom­ple­to, são mais pre­ju­di­ca­dos pela fal­ta de infor­ma­ção e os que sofrem mais ocor­rên­ci­as. Ain­da nes­te item, o núme­ro de casos não decla­ra­dos foi expres­si­vo e teve no ano pas­sa­do o seu per­cen­tu­al mais ele­va­do (73,16%).

Na mai­o­ria, os filhos são os sus­pei­tos em casos decla­ra­dos de vio­lên­cia con­tra ido­sos. No perío­do pes­qui­sa­do, eles repre­sen­ta­ram 47,78% em 2020, 47,07% em 2021, 50,25% em 2022 e 56,29% em 2023. O estu­do reve­lou que a mai­or par­te das denún­ci­as e vio­la­ções rela­ta­das ocor­re­ram na casa onde a víti­ma e o sus­pei­to resi­dem, ten­do na sequên­cia a casa da pró­pria víti­ma.

Medidas

Ales­san­dra res­sal­tou que é impor­tan­te con­ti­nu­ar com a aná­li­se anu­al das infor­ma­ções sobre vio­lên­cia con­tra ido­sos, bem como ampli­ar a divul­ga­ção do Pai­nel de Dados da Ouvi­do­ria Naci­o­nal de Direi­tos Huma­nos do Minis­té­rio dos Direi­tos Huma­nos e Cida­da­nia e as polí­ti­cas públi­cas des­ti­na­das a essa popu­la­ção, para mos­trar que os canais de denún­cia são efi­ci­en­tes. “Polí­ti­cas de aco­lhi­men­to, capa­ci­ta­ção de pro­fis­si­o­nais que fazem aco­lhi­men­to, não somen­te da área de saú­de, mas um poli­ci­al em uma dele­ga­cia, um pro­fis­si­o­nal da área jurí­di­ca que está auxi­li­an­do no momen­to de uma denún­cia, por­que pode ser uma vio­lên­cia patri­mo­ni­al em que o ido­so está pode sofrer dano finan­cei­ro.”

Uma for­ma mais dire­ta de denun­ci­ar casos de vio­lên­cia con­tra ido­sos é o Dis­que Direi­tos Huma­nos — Dis­que 100, ou por meio de dele­ga­ci­as dele­ga­ci­as pre­pa­ra­das espe­ci­al­men­te para aten­der essa par­ce­la da popu­la­ção, além do Minis­té­rio Públi­co, que tam­bém faz esse tipo de aco­lhi­men­to.

Em par­ce­ria com a Facul­da­de de Enfer­ma­gem da UERJ, a Esco­la de Enfer­ma­gem Auro­ra de Afon­so Cos­ta da UFF lan­çou uma car­ti­lha infor­ma­ti­va e edu­ca­ti­va sobre vio­lên­cia con­tra ido­sos. Na publi­ca­ção, é pos­sí­vel con­sul­tar a legis­la­ção bra­si­lei­ra sobre o tema, dados impor­tan­tes e os tipos de vio­lên­cia que são pra­ti­ca­dos con­tra ido­sos. Quem esti­ver inte­res­sa­do pode aces­sar este link.

A meto­do­lo­gia usa­da na pes­qui­sa é base­a­da nas dire­tri­zes do Strengthe­ning the Repor­ting of Obser­va­ti­o­nal Stu­di­es in Epi­de­mi­o­logy). Ales­san­dra Cama­cho infor­mou que a cole­ta de dados come­çou por vol­ta de janei­ro do ano pas­sa­do e foi con­cluí­da

Para dar mais visi­bi­li­da­de ao tema, a Orga­ni­za­ção Mun­di­al da Saú­de (OMS) defi­niu junho como mês da cons­ci­en­ti­za­ção da vio­lên­cia con­tra a pes­soa ido­sa.

Edi­ção: Nádia Fran­co

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