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Pandemia completa três anos com crianças entre os mais vulneráveis

Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

É falsa a ideia de que crianças não são do grupo de risco para covid


Pub­li­ca­do em 11/03/2023 — 12:01 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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A vaci­nação foi a fer­ra­men­ta de pre­venção que teve maior impacto no con­t­role da pan­demia de covid-19, que com­ple­ta hoje (11) três anos. Ape­sar dis­so, grande parte das cri­anças brasileiras ain­da não teve aces­so a essa pro­teção e elas são con­sid­er­adas por espe­cial­is­tas como vul­neráveis a casos graves e mortes pela doença.

Segun­do o Min­istério da Saúde, entre os bebês e cri­anças de seis meses a qua­tro anos de idade, a cober­tu­ra vaci­nal con­tra a covid-19 é de 25% na primeira dose e de 2,5% na segun­da.

O esque­ma bási­co para essa vaci­na tam­bém pre­vê uma ter­ceira dose, oito sem­anas após a D2, e só 0,1% do públi­co-alvo rece­beu essa apli­cação. Essa faixa etária foi a últi­ma a ter aces­so às vaci­nas, com a Pfiz­er baby, aprova­da pela Agên­cia Nacional de Vig­ilân­cia San­itária (Anvisa) em setem­bro do ano pas­sa­do. 

Pfizer Covid vacina para Crianças
Repro­dução: Pfiz­er Covid vaci­na para Cri­anças — Reuters/Eric Seals/Direitos reser­va­dos

Antes dis­so, cri­anças de três e qua­tro anos podi­am ser vaci­nadas com a Coro­n­aVac, aprova­da pela Anvisa para essa faixa etária em jul­ho de 2022. Ape­sar dis­so, somente 22,87% das cri­anças com três e qua­tro anos foram imu­nizadas com a primeira dose, e 10,2% rece­ber­am a segun­da dose, de acor­do dados envi­a­dos pelo Min­istério da Saúde à Agên­cia Brasil

Já na faixa etária mais vel­ha — de cin­co a onze anos — a primeira vaci­na aprova­da foi a Pfiz­er Pediátri­ca, ain­da em dezem­bro de 2021. A vaci­nação pro­pri­a­mente dita começou ape­nas em janeiro de 2022, com mais de um mês de atra­so, e, mais de um ano depois, a cober­tu­ra vaci­nal para a primeira dose é de 71,62% e a da segun­da dose, de 51,58%.

Risco de infecção

Com cober­turas tão abaixo da média da pop­u­lação brasileira, as cri­anças estão expostas à infecção pelo coro­n­avírus, cuja cir­cu­lação foi impul­sion­a­da pelas lin­hagens da vari­ante Ômi­cron.

O pres­i­dente da Sociedade Brasileira de Pedi­a­tria, Clóvis Con­stan­ti­no, disse que não foi pequeno o número de cri­anças que adoe­ceu e mor­reu por covid-19 ness­es três anos. Segun­do o Lab­o­ratório de Saúde da Infân­cia, da Fun­dação Oswal­do Cruz e da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na de Petrópo­lis do Cen­tro Arthur de Sá Earp Neto (Uni­fase), o Obser­va Infân­cia, mais de 1,8 mil cri­anças menores de cin­co anos mor­reram de covid-19 entre o iní­cio da pan­demia e out­ubro de 2022. 

“Ao con­trário do que se dizia, que a cri­ança não apre­sen­taria for­mas graves da doença, ela apre­sen­ta­va com uma cer­ta fre­quên­cia, inclu­sive, com casos de sín­drome infla­matória mul­ti­ssistêmi­ca (SIM) e com­pro­me­ti­men­to cardía­co”, disse Con­stan­ti­no, que tam­bém desta­ca os quadros de covid lon­ga.

“Se a cri­ança con­segue sobre­viv­er, tem a pos­si­bil­i­dade de covid lon­ga, prin­ci­pal­mente nas que tiver­am maiores com­pro­me­ti­men­tos, como a SIM, que é uma infla­mação ger­al do organ­is­mo que tem um tem­po muito lon­go de recu­per­ação”, afir­mou.

Con­stan­ti­no vê a dis­sem­i­nação de fake news [notí­cias fal­sas] como pon­to impor­tante para a hes­i­tação dos pais em vaci­nar seus fil­hos. Diante dis­so, o médi­co pedi­atra tran­quil­i­zou os respon­sáveis sobre algu­mas das dúvi­das mais fre­quentes: os efeitos adver­sos cau­sa­dos por essas vaci­nas não fogem à nor­mal­i­dade do que já era pre­vis­to para out­ros imu­nizantes, e a tec­nolo­gia desen­volvi­da para elas não foi cri­a­da da noite para o dia, mas fru­to de um salto tec­nológi­co que lev­ou muitos anos para estar pron­to e poder ser usa­do na pan­demia.

“O sub­stra­to biológi­co já esta­va pron­to há muito tem­po. Ape­nas fal­ta­va faz­er o sequen­ci­a­men­to do vírus, iden­ti­ficar a parte do vírus que seria usa­da e faz­er a adap­tação dessa platafor­ma biológ­i­ca que já esta­va pronta. Isso sig­nifi­ca uma alta segu­rança do pro­du­to. Não havia neces­si­dade nen­hu­ma de se duvi­dar”, expli­cou.  

O vice-pres­i­dente da Sociedade Brasileira de Imu­niza­ções, Rena­to Kfouri, lamen­tou que, pela primeira vez, pais bus­caram a imu­niza­ção para se pro­te­ger, mas não fiz­er­am o mes­mo para pro­te­ger seus fil­hos. O médi­co vê as notí­cias fal­sas espal­hadas sobre a vaci­nação como um ele­men­to impor­tante para esse prob­le­ma.

“Isso impactou bas­tante na pedi­a­tria e na con­fi­ança das pes­soas. É algo mais sele­ti­vo con­tra as vaci­nas de covid, mas aca­ba resp­in­gan­do nas out­ras vaci­nas, no con­ceito de vaci­nação, no val­or das vaci­nas. E talvez o maior pilar de um pro­gra­ma de vaci­nação é a con­fi­ança, não só na vaci­na, mas no poder públi­co”, salien­tou.  

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Idosos

Kfouri obser­vou que, ao lon­go da pan­demia, foi muito enfa­ti­za­do o risco de agrava­men­to da doença em idosos, e que essa com­para­ção com out­ros gru­pos como as cri­anças con­tribuiu para a invis­i­bi­liza­ção dessa faixa etária. O prob­le­ma cresce com a demo­ra na chega­da das vaci­nas para cri­anças, que só ficaram disponíveis em um momen­to em que a mor­tal­i­dade da pan­demia já havia pas­sa­do da sua pior fase.

“O mais jus­to não é com­parar a covid-19 na pedi­a­tria com a covid-19 no adul­to e no idoso, mas, sim, a covid-19 na pedi­a­tria com as out­ras infecções pediátri­c­as. Quan­do a gente vê isso, só a covid, soz­in­ha, faz mais víti­mas em cri­anças do que todas as doenças do cal­endário infan­til de imu­niza­ção. Se somar as mortes por todas as doenças imuno­previníveis, a covid-19, soz­in­ha, faz mais víti­mas”, garan­tiu. 

Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), zona norte do Rio. A cidade do Rio de Janeiro retoma hoje (25) sua campanha de aplicação da primeira dose da vacina contra a covid-19 em idosos da população em geral.
Repro­dução: Vaci­nação dri­ve thru na Uni­ver­si­dade Estad­ual do Rio de Janeiro (UERJ), zona norte do Rio — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Para o co-coor­de­nador do Obser­va Infân­cia, Cris­tiano Boc­col­i­ni, a ideia de que as cri­anças não são do grupo de risco para covid-19 é fal­sa.

“As cri­anças, com­para­das com adul­tos e idosos, têm um risco menor de ter a doença, mas elas não estão isen­tas de risco. Foi ven­di­da para a sociedade a ideia de que cri­ança não morre de covid. O ex-pres­i­dente falou isso, o ex-min­istro falou isso. E isso entrou em um sen­so comum. As cri­anças têm, sim, risco, e hoje ele pode ser pre­venido por medi­das de vaci­nação. Cada morte de cri­ança a par­tir de seis meses é uma morte pre­venív­el”, especi­fi­cou. 

Tam­bém co-coor­de­nado­ra do lab­o­ratório, Patrí­cia Boc­col­i­ni lem­brou que hou­ve atra­so na disponi­bi­liza­ção da vaci­na pediátri­ca para a pop­u­lação e a cri­ação de obstácu­los, inclu­sive com o gov­er­no fed­er­al lev­an­tan­do a hipótese de exi­gir a assi­natu­ra de ter­mo de con­sen­ti­men­to e respon­s­abil­i­dade para a vaci­nação das cri­anças.

“O gov­er­no [ante­ri­or] fez de tudo para com­plicar. Ele não só não aju­dou, como atra­pal­hou”, avaliou Patrí­cia. “A figu­ra cen­tral do Brasil [o ex-pres­i­dente Jair Bol­sonaro] sem­pre defend­eu que não iria se vaci­nar e que não iria vaci­nar sua fil­ha, que era uma cri­ança. Isso tudo para exem­pli­ficar que os pais têm a sua parcela de cul­pa, mas o cenário todo esta­va des­fa­voráv­el e con­tribuin­do para a hes­i­tação dess­es pais” recor­dou Patrí­cia.

Bebês recebem as vacinas do calendário básico de vacinação do SUS na Unidade Básica de Saúde - UBS Brás.
Repro­dução: Vaci­nas pro­tegem cri­anças con­tra a covid-19  (Rove­na Rosa/Agência Brasil)

Para a pesquisado­ra, é muito impor­tante a inclusão da vaci­na con­tra a covid-19 no cal­endário de vaci­nação da cri­ança, esta­b­ele­cen­do como uma obri­gação dos pais e respon­sáveis. 

“A vaci­nação está em destaque no Estatu­to da Cri­ança e do Ado­les­cente como um dire­ito da cri­ança, e isso não foi respeita­do. Só ago­ra o gov­er­no está dis­cutin­do a entra­da dela no cal­endário ofi­cial. Se é um dire­ito, ela tem que estar pre­sente nesse cal­endário”, acres­cen­tou.

O Obser­va Infân­cia desta­cou ain­da que, além das mortes e seque­las da covid lon­ga e os efeitos para a saúde men­tal do iso­la­men­to e do ensi­no remo­to, as cri­anças e ado­les­centes sofr­eram tam­bém com a per­da de seus pais durante a pan­demia. Um estu­do divul­ga­do no fim do ano pas­sa­do pelo grupo con­tabi­li­zou 40 mil cri­anças e ado­les­centes que ficaram órfãos de mãe no Brasil por causa da covid-19. 

“Nor­mal­mente as mães têm um papel cen­tral na orga­ni­za­ção famil­iar. Então, ocorre uma rel­a­ti­va des­or­ga­ni­za­ção famil­iar, muitas vezes com as cri­anças ten­do que ser ado­tadas ou tutoradas por par­entes ou out­ras pes­soas. E tem toda a questão da segu­rança social, como questões rela­cionadas à ren­da”, desta­cou Cris­tiano Boc­col­i­ni.

Crianças e adolescentes

Procu­ra­do pela Agên­cia Brasil, o Min­istério da Saúde adiantou que, na segun­da eta­pa do Movi­men­to Nacional pela Vaci­nação, que ocorre ago­ra em março, será reforça­da a importân­cia da vaci­nação con­tra covid-19 com foco nas cri­anças e ado­les­centes.

O min­istério afir­mou, tam­bém, que tra­bal­ha em con­jun­to com esta­dos e municí­pios para sen­si­bi­lizar a neces­si­dade da vaci­nação neste públi­co e esclare­cer os pais e respon­sáveis sobre a eficá­cia e segu­rança das vaci­nas e os riscos de doença e morte das pes­soas não vaci­nadas. Segun­do asses­so­ria de impren­sa do Min­istério da Saúde, ain­da em janeiro, a nova gestão ini­ciou as trata­ti­vas com lab­o­ratórios para ante­ci­par as entre­gas dos imu­nizantes, que estavam em fal­ta em todo o país.

“O Min­istério da Saúde reforça que a vaci­nação é a for­ma mais efi­ciente de sal­var vidas con­tra a covid-19.  A redução de óbitos e casos graves que o país vem reg­is­tran­do é reflexo da vaci­nação. Para que se man­ten­ha essa tendên­cia de que­da, é necessário que a pop­u­lação se vacine e com­plete o esque­ma vaci­nal com todas as dos­es recomen­dadas para cada faixa etária. Para mobi­lizar o país sobre a importân­cia da vaci­nação, o Min­istério da Saúde lançou o Movi­men­to Nacional pela Vaci­nação, que visa unir o país no propósi­to de ampli­ar as cober­turas vaci­nais em todas as faixas etárias. As vaci­nas são seguras e efi­cazes, pro­tegem cri­anças, adul­tos e idosos con­tra a doença”, esclare­ceu o min­istério.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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