...
domingo ,14 abril 2024
Home / Noticias / Pesquisadores apontam desgaste na imagem de militares após ações da PF

Pesquisadores apontam desgaste na imagem de militares após ações da PF

Repro­du­ção: © Pau­lo Pinto/Agência Bra­sil

Brasil não tem tradição de investigar e punir militares


Publicado em 07/03/2024 — 07:15 Por Luiz Claudio Ferreira — Repórter da Agência Brasil — Brasília

ouvir:

Qua­se 60 anos depois do gol­pe mili­tar de 1964, mili­ta­res das For­ças Arma­das do Bra­sil se veem na con­di­ção de inves­ti­ga­dos por uma ten­ta­ti­va de gol­pe de Esta­do. A cor­po­ra­ção está dian­te de um des­gas­te de ima­gem pro­vo­ca­do por inves­ti­ga­ções iné­di­tas e pri­sões de mili­ta­res de altas paten­tes, na ava­li­a­ção de três pes­qui­sa­do­res ouvi­dos pela Agên­cia Bra­sil.

Para esses espe­ci­a­lis­tas, que estu­dam temas rela­ci­o­na­dos ao papel das For­ças Arma­das, a inves­ti­ga­ção con­du­zi­da pela Polí­cia Fede­ral sobre a ten­ta­ti­va de gol­pe de Esta­do e tam­bém as pri­sões auto­ri­za­das pelo Judi­ciá­rio fica­rão mar­ca­das na his­tó­ria e pas­sam “reca­dos” para a soci­e­da­de no que se refe­re ao res­pei­to à demo­cra­cia.

Nes­ta sema­na, veí­cu­los de impren­sa des­ta­ca­ram os depoi­men­tos à Polí­cia Fede­ral de ex-coman­dan­tes das três For­ças que pres­ta­ram escla­re­ci­men­tos como tes­te­mu­nhas da inves­ti­ga­ção sobre a ten­ta­ti­va de gol­pe. A PF não comen­ta inves­ti­ga­ções em anda­men­to. Outros mili­ta­res são inves­ti­ga­dos por even­tu­ais par­ti­ci­pa­ções nes­se epi­só­dio e em outros supos­tos cri­mes.

Para a pro­fes­so­ra Juli­a­na Biga­tão, coor­de­na­do­ra do Obser­va­tó­rio Bra­si­lei­ro de Defe­sa e For­ças Arma­das da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de São Pau­lo (Uni­fesp), as inves­ti­ga­ções devem gerar impac­tos na visão dos bra­si­lei­ros sobre a cor­po­ra­ção.

“É neces­sá­rio con­si­de­rar que se tra­ta de um fato iné­di­to esse tipo de inves­ti­ga­ção, inclu­si­ve as pri­sões pre­ven­ti­vas de mem­bros das For­ças Arma­das. O Bra­sil não tem uma tra­di­ção de inves­ti­gar e punir os mili­ta­res por cri­mes con­tra a demo­cra­cia”, afir­ma.

Na ava­li­a­ção do pro­fes­sor João Rober­to Mar­tins Filho, da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de São Car­los (Ufs­car), o ine­di­tis­mo do jul­ga­men­to de mili­ta­res pela Jus­ti­ça civil se dife­ren­cia de outro momen­to his­tó­ri­co, logo depois do gol­pe mili­tar de 1964, quan­do hou­ve pri­sões e demis­sões de mais de 6 mil mili­ta­res.

“Naque­le epi­só­dio, esses mili­ta­res, que tive­ram posi­ção con­trá­ria ao gol­pe, foram inves­ti­ga­dos e jul­ga­dos pelos pró­pri­os mili­ta­res, via IPM (Inqué­ri­to Poli­ci­al Mili­tar)”.

Ele des­ta­ca que a inves­ti­ga­ção de gene­rais do Exér­ci­to (a mais alta paten­te da For­ça) colo­ca o atu­al epi­só­dio em outro pata­mar.

Justiça

Inte­gran­te do Gru­po de Estu­dos em Defe­sa e Segu­ran­ça Inter­na­ci­o­nal (Gedes), a pro­fes­so­ra Ana Amé­lia Peni­do des­ta­ca que são mui­to raros os casos em que ofi­ci­ais com a paten­tes de gene­ral são con­de­na­dos, mes­mo na jus­ti­ça mili­tar. “Em geral, a jus­ti­ça ‘fun­ci­o­na’ para as bai­xas paten­tes”, con­si­de­ra a pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­da­de Esta­du­al de São Pau­lo (Unesp).

Ela enten­de que a inves­ti­ga­ção pas­sa uma “men­sa­gem” para a soci­e­da­de de que supos­tos cri­mes come­ti­dos por mili­ta­res devem ser obje­tos de inves­ti­ga­ção, assim como acon­te­ce com civis.

Para Juli­a­na, da Uni­fesp, é mui­to impor­tan­te que as inves­ti­ga­ções tenham ampla divul­ga­ção e é ain­da mais fun­da­men­tal a exis­tên­cia de “des­fe­chos” dos pro­ces­sos para que não exis­ta sen­sa­ção de impu­ni­da­de. Os espe­ci­a­lis­tas recor­dam que, por con­ta da Lei de Anis­tia (1979), nenhum mem­bro das For­ças Arma­das res­pon­deu por cri­mes no perío­do da dita­du­ra.

Imagem

Para os pes­qui­sa­do­res ouvi­dos pela Agên­cia Bra­sil, ain­da é cedo para se ter uma exa­ta dimen­são do impac­to des­ses epi­só­di­os na ima­gem das For­ças Arma­das.

“His­to­ri­ca­men­te, os mili­ta­res são bem quis­tos pela popu­la­ção. Não pelas atri­bui­ções mili­ta­res que eles têm, mas pelas ati­vi­da­des civis que eles aca­bam desem­pe­nhan­do”, afir­ma Ana Amé­lia.

Ela recor­da que os mili­ta­res bra­si­lei­ros fica­ram bas­tan­te conhe­ci­dos por ati­vi­da­des como trans­por­tes de ces­ta bási­ca e por outros ser­vi­ços como garan­tir água para áre­as de difí­cil aces­so. Ela enten­de, porém, que os ata­ques anti­de­mo­crá­ti­cos de 8 de janei­ro de 2023 têm fei­to com que a opi­nião favo­rá­vel venha cain­do.

O pro­fes­sor João Rober­to Mar­tins Filho enten­de que as For­ças pas­sam por uma cri­se de ima­gem e os atu­ais coman­dan­tes têm demons­tra­do inten­ção de que os últi­mos epi­só­di­os sejam supe­ra­dos. “Hou­ve os ofi­ci­ais gene­rais lega­lis­tas que aju­da­ram a evi­tar um gol­pe”.

Com a defla­gra­ção da Ope­ra­ção Tem­pus Veri­ta­tis, no dia 8 de feve­rei­ro, o Exér­ci­to infor­mou que esta­va acom­pa­nhan­do a Polí­cia Fede­ral e que pres­ta­ria todas as infor­ma­ções neces­sá­ri­as para a inves­ti­ga­ção.

“Esse posi­ci­o­na­men­to foi ade­qua­do den­tro de uma demo­cra­cia”, afir­mou Juli­a­na Biga­tão. Ela lem­bra que o Exér­ci­to exo­ne­rou de car­gos de coman­do mili­ta­res que foram alvos da ope­ra­ção da Polí­cia Fede­ral. “Os repre­sen­tan­tes dos altos esca­lões das For­ças Arma­das estão cola­bo­ran­do ou ado­tan­do uma posi­ção de que se inves­ti­gue o que foi fei­to. É uma sina­li­za­ção mui­to impor­tan­te e é a ati­tu­de espe­ra­da den­tro de um regi­me demo­crá­ti­co”, con­si­de­rou.

Para Ana Amé­lia, os mili­ta­res que resis­ti­ram ao dia 8 de janei­ro e à supos­ta ten­ta­ti­va de um gol­pe de Esta­do tive­ram pos­tu­ra ins­ti­tu­ci­o­nal. “Eu acho que a gen­te pre­ci­sa encon­trar medi­das para are­jar a caser­na. Para tor­nar o quar­tel mais pare­ci­do com o que acon­te­ce com a soci­e­da­de.”

Riscos da politização

A raiz do pro­ble­ma, na ava­li­a­ção de Juli­a­na, este­ve na poli­ti­za­ção das For­ças Arma­das duran­te o gover­no de Jair Bol­so­na­ro. “Tinham mais mili­ta­res em pos­tos gover­na­men­tais do que na épo­ca do pró­prio regi­me mili­tar”, recor­da.

Já Ana Peni­do defen­de a neces­si­da­de de mudan­ça no cená­rio de iso­la­men­to dos mili­ta­res nos quar­téis. Para ela, é neces­sá­ria inte­gra­ção dos mun­dos civil e mili­tar tan­to na for­ma­ção mili­tar quan­to no setor de inte­li­gên­cia, da jus­ti­ça e tam­bém do orça­men­to. Ela expli­ca que a poli­ti­za­ção não foi um epi­só­dio espe­ci­fi­ca­men­te bra­si­lei­ro.

“Em outros paí­ses tam­bém cos­tu­ma acon­te­cer esse grau de poli­ti­za­ção em ope­ra­ções, em tro­pas mais vin­cu­la­das a ope­ra­ções espe­ci­ais. Não é uma novi­da­de”.

Para o pro­fes­sor João Rober­to Mar­tins Filho, um exem­plo impor­tan­te é o da Ale­ma­nha que não admi­te vin­cu­la­ção das For­ças Arma­das a par­ti­dos polí­ti­cos, como ocor­reu em perío­do nazis­ta. “Hoje, lá, as For­ças são mais aber­tas cul­tu­ral­men­te e demo­crá­ti­cas”.

Con­sul­ta­do pela repor­ta­gem, o Minis­té­rio da Defe­sa não res­pon­deu aos pedi­dos de comen­tá­ri­os sobre as ava­li­a­ções dos pes­qui­sa­do­res a res­pei­to do momen­to de des­gas­te de ima­gem das For­ças Arma­das.

Edi­ção: Líli­an Beral­do

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

BNDES abre concurso em 2024 para 150 vagas de nível superior

Repro­du­ção: © Fer­nan­do Frazão/Agencia Bra­sil Edital deve ser divulgado no segundo semestre Publicado em 09/04/2024 …