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Pesquisadores da UFRJ identificam fenômeno inédito no sistema solar

Repro­du­ção: © ESA/divulgação

É muito parecido com o planeta Plutão, diz professor Bruno Morgado


Publi­ca­do em 12/02/2023 — 10:13 Por Ala­na Gan­dra — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

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Pes­qui­sa­do­res do Obser­va­tó­rio de Valon­go, da Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Rio de Janei­ro (UFRJ), des­co­bri­ram um anel em tor­no de um peque­no cor­po do sis­te­ma solar, defi­ni­do como um obje­to trans­ne­tu­ni­a­no, e mui­to pare­ci­do com o pla­ne­ta Plu­tão e, como este, can­di­da­to a ser um pla­ne­ta anão. “Pode ser pen­sa­do como um pri­mo mais novo menor de Plu­tão”, dis­se à Agên­cia Bra­sil o pro­fes­sor Bru­no Mor­ga­do, do Obser­va­tó­rio de Valon­go e pri­mei­ro autor da pes­qui­sa, publi­ca­da na revis­ta inter­na­ci­o­nal Natu­re.

Inda­ga­do sobre o que essa des­co­ber­ta repre­sen­ta para a ciên­cia, Mor­ga­do expli­cou que é mui­to inte­res­san­te por­que, até dez anos atrás, só se conhe­cia esse tipo de estru­tu­ra em vol­ta dos pla­ne­tas gigan­tes. A loca­li­za­ção do anel é o fator dife­ren­ci­al. “A gen­te tem os anéis de Satur­no, que são lin­dos; tem os anéis de Ura­no, de Netu­no, de Júpi­ter”. O pro­fes­sor recor­dou que em 2013, há dez anos por­tan­to, foi des­co­ber­to por um bra­si­lei­ro o pri­mei­ro sis­te­ma de anéis em tor­no de um peque­no cor­po do sis­te­ma solar, que foi o aste­roi­de Cha­ri­klo. Em 2017, des­co­briu-se o segun­do exem­plo, em tor­no do pla­ne­ta anão Hau­mea e, ago­ra, foi des­co­ber­to esse ter­cei­ro exem­plo, que é em tor­no do obje­to cha­ma­do Qua­o­ar.

Limite de Roche

Bru­no Mor­ga­do escla­re­ceu, entre­tan­to, que o anel em tor­no do Qua­o­ar é dife­ren­te e ines­pe­ra­do, por­que ele se encon­tra mui­to dis­tan­te do pró­prio obje­to Qua­o­ar. “Essa dis­tân­cia faz com que seja uma sur­pre­sa mui­to gran­de a exis­tên­cia dele, por­que exis­te uma coi­sa que é um limi­te conhe­ci­do como Limi­te de Roche”. O Limi­te de Roche é uma teo­ria desen­vol­vi­da em 1850 pelo astrô­no­mo fran­cês Édou­ard Roche que defi­ne a dis­tân­cia de 1.750 quilô­me­tros (km) para que um dis­co de par­tí­cu­las se man­te­nha no for­ma­to de um anel. Para além des­sa linha, acre­di­ta­va-se que o dis­co come­ça­ria a se aglu­ti­nar e aca­ba­ria por for­mar um saté­li­te natu­ral, uma lua. Essa teo­ria tam­bém é apli­ca­da em exo­pla­ne­tas e em dife­ren­tes pes­qui­sas. No caso de Qua­o­ar, que tem ape­nas 555 km de exten­são, o anel está loca­li­za­do a 4.100 km de seu cor­po cen­tral.

“Ima­gi­na que você tenha aí um saté­li­te natu­ral, uma lua. Se essa lua se apro­xi­ma do seu pla­ne­ta em cuja vol­ta ela está rodan­do e atra­ves­sa esse Limi­te de Roche, as for­ças gra­vi­ta­ci­o­nais são tão for­tes que vão fazer com que essa lua se que­bre em milhões de peda­ci­nhos. Isso vai for­mar um anel”. Mas se você tem um cami­nho inver­so, de um anel que come­ça a se afas­tar do cor­po prin­ci­pal e atra­ves­sa esse Limi­te de Roche, o que se espe­ra que acon­te­ça é que esse anel vai come­çar a se jun­tar e se tor­nar um saté­li­te natu­ral nova­men­te, uma lua. “Essa é uma das manei­ras que a gen­te vê e acre­di­ta como vári­os obje­tos do sis­te­ma solar se for­ma­ram, a nos­sa lua e outras luas dos pla­ne­tas gigan­tes”.

O pro­fes­sor obser­vou, con­tu­do, que o anel do Qua­o­ar se encon­tra mui­to além des­se Limi­te de Roche. “Então, ele não deve­ria exis­tir. Deve­ria ter se tor­na­do uma lua há mui­to tem­po. Essa é a gran­de sur­pre­sa e a gran­de novi­da­de do tra­ba­lho. Os pes­qui­sa­do­res não têm ain­da a res­pos­ta sobre a razão de aque­le anel se encon­trar ali”. Bru­no Mor­ga­do acre­di­ta que somen­te com mui­tos estu­dos vai se obter a res­pos­ta.

Dis­se que a pes­qui­sa traz evi­dên­cia de que algo está vio­lan­do o Limi­te de Roche e como ele era conhe­ci­do. Os estu­dos terão con­ti­nui­da­de para que os pes­qui­sa­do­res enten­dam melhor o que está acon­te­cen­do. “Por­que, de um lado, o mais pro­vá­vel é que esse pro­ces­so de for­ma­ção de uma lua seja mais com­ple­xo do que se con­si­de­ra­va e que outros fenô­me­nos físi­cos pre­ci­sam ser leva­dos em con­si­de­ra­ção. O Qua­o­ar pode estar reve­lan­do isso para a gen­te: quais são os fenô­me­nos físi­cos que antes a gen­te con­si­de­ra­va, rela­ci­o­na­do ao Limi­te de Roche conhe­ci­do hoje, e quais seri­am os valo­res mais cor­re­tos, ou seja, qual con­cei­to físi­co que está fal­tan­do para ser con­si­de­ra­do que não havia sido antes”.

Observação

O tra­ba­lho lide­ra­do pelo pro­fes­sor Bru­no Mor­ga­do, do Obser­va­tó­rio do Valon­go, uni­da­de aca­dê­mi­ca vin­cu­la­da ao Cen­tro de Ciên­ci­as Mate­má­ti­cas e da Natu­re­za da UFRJ, abor­da a par­te obser­va­ci­o­nal. “Nos­so tra­ba­lho foi mos­trar a exis­tên­cia des­se anel e levar para a comu­ni­da­de cien­tí­fi­ca os parâ­me­tros des­se anel, como loca­li­za­ção, sua lar­gu­ra, esse pon­to mais obser­va­ci­o­nal, o que a gen­te obser­vou e viu, embo­ra não dire­ta­men­te”.

A pes­qui­sa reu­niu cien­tis­tas de ins­ti­tui­ções inter­na­ci­o­nais e astrô­no­mos ama­do­res de todo o mun­do. “A gen­te tem cola­bo­ra­do­res ao lon­go do mun­do intei­ro”. Mor­ga­do escla­re­ceu que esses obje­tos são mui­to peque­nos e estão mui­to lon­ge, não sen­do pos­sí­vel obser­vá-los dire­ta­men­te, mes­mo uti­li­zan­do os melho­res teles­có­pi­os do mun­do, como o saté­li­te arti­fi­ci­al James Webb. “Ele não é capaz de ver em deta­lhes esses peque­nos cor­pos”.

Para con­se­guir deter­mi­nar esses parâ­me­tros físi­cos, são neces­sá­ri­os méto­dos indi­re­tos. A téc­ni­ca usa­da para isso é deno­mi­na­da ocul­ta­ção este­lar. É tal como acon­te­ce em um eclip­se, em que a lua pas­sa na fren­te do sol e pro­je­ta uma som­bra na Ter­ra. “Se você está no lugar cer­to e na hora cer­ta, vai ver o sol desa­pa­re­cen­do por alguns ins­tan­tes e, depois rea­pa­re­cen­do. Na físi­ca, o pro­ces­so é rela­ti­va­men­te o mes­mo. Nós temos as estre­las no céu e um peque­no cor­po que, em deter­mi­na­do momen­to, vai pas­sar na fren­te de uma estre­la. A gen­te fica medin­do essa estre­la e vai vê-la pis­can­do, desa­pa­re­cen­do por um peque­no inter­va­lo de tem­po e, depois, rea­pa­re­cen­do. Esses even­tos vão acon­te­cer em dife­ren­tes luga­res do mun­do”.

O estu­do lide­ra­do por Mor­ga­do con­tou com obser­va­do­res espa­lha­dos nas Ilhas Caná­ri­as, Ilha de La Pal­ma, Aus­trá­lia, Namí­bia e tam­bém com o teles­có­pio espa­ci­al Che­ops, vol­ta­do para exo­pla­ne­tas, fora do sis­te­ma solar. É fei­ta a pre­vi­são de quan­do e onde esse even­to vai acon­te­cer, os obser­va­do­res são con­tac­ta­dos nas regiões e pede-se que as pes­so­as obser­vem em cola­bo­ra­ção com os cien­tis­tas. No final do dia, é uma cola­bo­ra­ção glo­bal, que envol­ve pes­so­as do mun­do intei­ro. Cada even­to vai acon­te­cer em um deter­mi­na­do local do pla­ne­ta, indi­cou o pro­fes­sor da UFRJ.

A pes­qui­sa terá con­ti­nui­da­de não só obser­van­do Qua­o­ar, mas usan­do a téc­ni­ca em outros obje­tos celes­tes para ten­tar encon­trar outros anéis pelo sis­te­ma solar. “Pos­si­vel­men­te, exis­tem outros que pre­ci­sam ser des­co­ber­tos. Vai ser inte­res­san­te enten­der todos esses sis­te­mas e per­ce­ber que os anéis, no final do dia, aca­bam apa­re­cen­do com dife­ren­tes for­ma­tos e tipos e que tudo isso vai tra­zer con­tri­bui­ções sobre como o sis­te­ma solar se for­mou e se tor­nou o que é hoje”. Bru­no Mor­ga­do infor­mou ain­da que não se che­ga­rá a uma res­pos­ta ain­da este ano. “É um pro­je­to de lon­go pra­zo”, con­cluiu.

Edi­ção: Valé­ria Agui­ar

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