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Prevenção a desastres esbarra em falta de projetos técnicos locais

Repro­du­ção: © Rafa Neddermeyer/Agência Bra­sil

Para pesquisadora, recursos irão mudar após tragédia no RS


Publicado em 27/05/2024 — 07:28 Por Gilberto Costa — Repórter da Agência Brasil — Brasília

A tra­gé­dia cli­má­ti­ca no Rio Gran­de do Sul cha­mou a aten­ção para a neces­si­da­de de refor­ço no Orça­men­to e nas polí­ti­cas públi­cas vol­ta­das para a pre­ven­ção e a recu­pe­ra­ção de desas­tres. Os recur­sos dire­ci­o­na­dos para essa área depen­dem de pro­je­tos téc­ni­cos de pre­fei­tu­ras e gover­nos esta­du­ais para serem efe­ti­va­men­te libe­ra­dos. O aler­ta é da pro­fes­so­ra de Ges­tão de Polí­ti­cas Públi­cas na Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo e pes­qui­sa­do­ra asso­ci­a­da ao Cen­tro de Estu­dos da Metró­po­le, Úrsu­la Peres.

De 2010 a 2023, de cada R$ 10 auto­ri­za­dos pelo Con­gres­so Naci­o­nal para pro­gra­mas e ações dire­ta­men­te rela­ci­o­na­dos à essa área, R$ 6,5 foram efe­ti­va­men­te gas­tos.

Os dados são do Sis­te­ma Inte­gra­do de Admi­nis­tra­ção Finan­cei­ra (Sia­fi) e foram sis­te­ma­ti­za­dos pela orga­ni­za­ção não gover­na­men­tal (ONG) Con­tas Aber­tas.

De acor­do com Úrsu­la Peres, pro­gra­mas e ações de pre­ven­ção e recu­pe­ra­ção de desas­tres são des­pe­sas dis­cri­ci­o­ná­ri­as e não obri­ga­tó­ri­as — como são os gas­tos em saú­de, edu­ca­ção e pre­vi­dên­cia soci­al. Ano a ano, a dis­po­ni­bi­li­da­de de recur­sos depen­de de deci­são do Poder Legis­la­ti­vo e do que for empe­nha­do pelos órgãos públi­cos. “O fato de ter isso mais no cam­po da dis­cri­ci­o­na­ri­e­da­de colo­ca menos pres­são na exe­cu­ção dos recur­sos.”

A segun­da ques­tão apon­ta­da pela pes­qui­sa­do­ra é o fato de a apli­ca­ção do dinhei­ro ser local. “Boa par­te des­ses recur­sos exi­ge inte­ra­ção com esta­dos ou muni­cí­pi­os para exe­cu­ção.”

Isso tam­bém faz com que gover­nos esta­du­ais e pre­fei­tu­ras muni­ci­pais tenham de ela­bo­rar e implan­tar pro­je­tos téc­ni­cos para pre­ven­ção e recu­pe­ra­ção de desas­tres.

“Os muni­cí­pi­os no Bra­sil são mui­to hete­ro­gê­ne­os. A mai­or par­te tem estru­tu­ra menor e menos capa­ci­da­de de desen­vol­vi­men­to de pro­je­tos.” “Pro­je­tos em áre­as de ris­co impli­cam em lici­ta­ções com­ple­xas. São áre­as com topo­gra­fia com­pli­ca­da. Para além dis­so, é neces­sá­rio retor­nar pro­ces­sos de con­tra­ta­ção que é mais com­pli­ca­do, fazer medi­ção e con­tro­le”, deta­lha.

Úrsu­la Peres ain­da assi­na­la que o teto dos gas­tos públi­cos, cri­a­do pela Emen­da Cons­ti­tu­ci­o­nal nº 95/2016, esta­be­le­ceu o con­ge­la­men­to de gas­tos das des­pe­sas pri­má­ri­as, “que, em fun­ção da sua mode­la­gem, aca­ba espre­men­do tudo aqui­lo que não é obri­ga­tó­rio”, uma vez que “ter orça­men­to auto­ri­za­do não é garan­tia de que a ação vá ser exe­cu­ta­da.”

Nos últi­mos 14 anos, o ápi­ce dos inves­ti­men­tos em pre­ven­ção e recu­pe­ra­ção de desas­tres ocor­reu em 2013, com R$ 6,8 bilhões repas­sa­dos pelo gover­no Dil­ma Rous­seff.

Os inves­ti­men­tos che­ga­ram ao menor pata­mar em 2021, gover­no Bol­so­na­ro, com R$ 1,3 bilhão trans­fe­ri­do. Em 2024, no ter­cei­ro man­da­to de Lula, a dota­ção orça­men­tá­ria ini­ci­al era de R$ 2,6 bilhões, o mai­or valor des­de 2018.

Nova agenda

A pro­fes­so­ra e pes­qui­sa­do­ra ava­lia que o retor­no a pata­ma­res anti­gos de pre­vi­são e exe­cu­ção orça­men­tá­ri­as pode levar tem­po. “Não é de uma hora para outra que vol­ta a ter um orça­men­to no mes­mo volu­me.”

Peres acre­di­ta que a cala­mi­da­de no Rio Gran­de do Sul pro­vo­que “alte­ra­ções na agen­da orça­men­tá­ria”, “mudan­ças na tra­je­tó­ria de des­pe­sas pre­ven­ção e recu­pe­ra­ção de desas­tres” e novas per­cep­ções entre ges­to­res locais e seus elei­to­res. “Mui­tos pre­fei­tos não acre­di­ta­vam em ris­cos de gran­des tem­pes­ta­des e inun­da­ções”, assim como par­te da soci­e­da­de “não esta­va escla­re­ci­da para a cri­se cli­má­ti­ca que o pla­ne­ta está viven­do.”

A espe­ci­a­lis­ta ain­da con­si­de­ra que o equi­lí­brio nas con­tas públi­cas é bené­fi­co para todo o país, mas é neces­sá­rio pen­sar nas con­sequên­ci­as do ajus­te fis­cal para par­te da popu­la­ção que resi­de nas peri­fe­ri­as e estão mais sujei­tas a enchen­tes e des­mo­ro­na­men­to de ter­ra. “As pes­so­as que têm mais recur­sos não moram nes­sas áre­as. Temos que pen­sar se esta­mos agin­do com equi­da­de ou não.”

Por fim, Úrsu­la Peres acre­di­ta que o país pre­ci­sa bus­car “sus­ten­ta­bi­li­da­de econô­mi­ca, soci­al e ambi­en­tal” e para isso terá, por exem­plo, de rever a matriz ener­gé­ti­ca — o que exi­gi­rá inves­tir em eco­no­mia ver­de. “Pre­ci­sa de recur­sos no orça­men­to ago­ra que vai nos gerar fru­tos no futu­ro e até de mais arre­ca­da­ção.”

Rio Grande do Sul

Pai­nel do Tri­bu­nal de Con­tas da União (TCU) sobre recur­sos para ges­tão de ris­cos e desas­tres, publi­ca­do na inter­net, com dados de 2012 a 2024, con­ta­bi­li­za que nes­se perío­do foram libe­ra­dos pelo gover­no fede­ral para o Rio Gran­de do Sul cer­ca de R$ 593,6 milhões.

O pre­si­den­te do TCU, Bru­no Dan­tas, que este­ve em Por­to Ale­gre no iní­cio de maio, pro­me­teu “fle­xi­bi­li­zar a buro­cra­cia, visan­do a um aten­di­men­to rápi­do e efe­ti­vo às pes­so­as. “For­ça-tare­fa do tri­bu­nal acom­pa­nha a con­tra­ta­ção de obras de infra­es­tru­tu­ra, medi­das e os recur­sos apli­ca­dos para as ati­vi­da­des de defe­sa civil e a con­for­mi­da­de das medi­das do gover­no fede­ral no Rio Gran­de do Sul com a legis­la­ção.”

Em nota à Agên­cia Bra­sil, o Minis­té­rio das Cida­des infor­ma que des­ti­na­rá recur­sos a “todas as pro­pos­tas de obras de con­ten­ção de encos­tas” envi­a­das pelo esta­do do Rio Gran­de do Sul para muni­cí­pi­os nas áre­as de ris­co alto ou mui­to alto. Segun­do o minis­té­rio, “esses empre­en­di­men­tos são fun­da­men­tais para a redu­ção do ris­co de desas­tres e pro­por­ci­o­nam con­di­ções mais dig­nas e segu­ras de mora­dia para a popu­la­ção.”

O novo PAC pre­vê a con­tra­ta­ção de obras de dre­na­gem (orça­men­to de R$ 4,8 bilhões) e para con­ten­ção de encos­tas (orça­men­to de R$ 1,7 bilhão) para todo o país. O valor para a con­ten­ção de encos­tas já está libe­ra­do para a con­tra­ta­ção por par­te dos muni­cí­pi­os

O Novo Ban­co de Desen­vol­vi­men­to (NDB, na sigla em inglês), tam­bém conhe­ci­do como Ban­co do Brics, anun­ci­ou que vai des­ti­nar US$ 1,115 bilhão, cer­ca de R$ 5,750 bilhões, para o Rio Gran­de do Sul. Em par­ce­ria com o BNDES, serão libe­ra­dos US$ 500 milhões, sen­do US$ 250 milhões pre­vis­tos para peque­nas e médi­as empre­sas e US$ 250 milhões para obras de pro­te­ção ambi­en­tal, infra­es­tru­tu­ra, água, tra­ta­men­to de esgo­to e pre­ven­ção de desas­tres.

O gover­no fede­ral tam­bém publi­cou uma Medi­da Pro­vi­só­ria que cria o Auxí­lio Recons­tru­ção, bene­fí­cio des­ti­na­do a quem vive em áre­as afe­ta­das pela catás­tro­fe no Rio Gran­de do Sul. O tex­to tem vali­da­de ime­di­a­ta, mas pre­ci­sa ser apro­va­do pelo Con­gres­so Naci­o­nal. O apoio finan­cei­ro con­sis­te no paga­men­to de par­ce­la úni­ca no valor de R$ 5.100 às famí­li­as atin­gi­das.

Outra medi­da pro­vi­só­ria cri­ou a Secre­ta­ria Extra­or­di­ná­ria da Pre­si­dên­cia da Repú­bli­ca para Apoio à Recons­tru­ção do Rio Gran­de do Sul, ocu­pa­da pelo minis­tro Pau­lo Pimen­ta, já nome­a­do ao car­go por meio de decre­to pre­si­den­ci­al.

A atu­a­ção da pas­ta será o enfren­ta­men­to da cala­mi­da­de públi­ca e o apoio à recons­tru­ção do esta­do, por meio da coor­de­na­ção das ações a serem exe­cu­ta­das pela admi­nis­tra­ção públi­ca fede­ral dire­ta e indi­re­ta, em con­jun­to com a Casa Civil da Pre­si­dên­cia da Repú­bli­ca.

As atri­bui­ções inclu­em o pla­ne­ja­men­to das ações, arti­cu­la­ção com os minis­té­ri­os e com os demais órgãos e enti­da­des fede­rais, gover­no esta­du­ais e muni­ci­pais do Rio Gran­de do Sul, inter­lo­cu­ção com a soci­e­da­de civil, inclu­si­ve para o esta­be­le­ci­men­to de par­ce­ri­as, bem como da pro­mo­ção de estu­dos téc­ni­cos jun­to a uni­ver­si­da­des e outros órgãos ou enti­da­des espe­ci­a­li­za­dos, públi­cos e pri­va­dos.

Edi­ção: Caro­li­na Pimen­tel

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