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Projeto mapeia locais com vulnerabilidade climática e sugere soluções

Pesquisadores da UFF estudam os fenômenos das últimas seis décadas

Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 08/11/2025 — 15:36
Rio de Janeiro
PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 05.05.2024 - Chuvas no Rio Grande do Sul - Fotos gerais enchente em Porto Alegre. Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini
Repro­dução: © Gus­ta­vo Mansur/Palácio Pira­ti­ni

Com a aju­da da inteligên­cia arti­fi­cial (IA), entre out­ras fer­ra­men­tas, o pro­je­to da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense (UFF) Riskcli­ma iden­ti­fi­ca as áreas do Brasil mais vul­neráveis aos extremos climáti­cos e os prob­le­mas soci­ais cau­sa­dos por eles. Com essas infor­mações, são pro­postas soluções especí­fi­cas para cada local­i­dade para mel­ho­rar a qual­i­dade de vida da pop­u­lação.

Por vezes, as soluções são sim­ples, como um lem­brete con­stante para a pop­u­lação beber água. “Isso pode sal­var vidas”. Em áreas de ondas de calor inten­sas, é comum as pes­soas infartarem, prin­ci­pal­mente idosos, e a desidratação está entre os fatores neg­a­tivos.

Finan­cia­do pelo Con­sel­ho Nacional de Desen­volvi­men­to Cien­tí­fi­co e Tec­nológi­co (CNPq), o pro­je­to Riskcli­ma foi cri­a­do em 2022 e tem duração pre­vista até 2026. Os pesquisadores vêm obser­van­do o que está ocor­ren­do com o cli­ma nas últi­mas seis décadas e fazen­do pro­jeções climáti­cas.

“A ideia é cri­ar um relatório exec­u­ti­vo e, de algu­ma maneira, ten­tar faz­er com que ele pos­sa con­tribuir para cri­ação de políti­cas públi­cas”, diz o coor­de­nador do pro­je­to Riskcli­ma, Már­cio Catal­di, pro­fes­sor do Lab­o­ratório de Mon­i­tora­men­to e Mod­e­lagem do Sis­tema Climáti­co (Lam­moc) da UFF.

Como funciona o projeto

Os pesquisadores do Riskcli­ma inves­tigam quais são os fenô­menos extremos mais fre­quentes e mais inten­sos que podem, de acor­do com a vul­ner­a­bil­i­dade, oca­sion­ar algum tipo de risco. A par­tir da avali­ação dos peri­gos prevale­centes em cada zona do país anal­isa­da, é real­iza­do um lev­an­ta­men­to das ações cabíveis para mit­i­gar o impacto climáti­co em cada área.

Uma das fer­ra­men­tas uti­lizadas no pro­je­to, é a IA, usa­da para ade­quar os mod­e­los climáti­cos do Painel Inter­gov­er­na­men­tal sobre Mudanças Climáti­cas (IPCC) para uma real­i­dade brasileira atu­al. O IPCC con­ta com mod­e­los uti­liza­dos pelo mun­do todo, que vão indicar a mudança climáti­ca daqui a 20 anos.

A IA é uti­liza­da para sele­cionar os mod­e­los mais efi­cazes de pre­visão do cli­ma pre­sente. Por exem­p­lo, se um mod­e­lo faz uma sim­u­lação sat­is­fatória, mas subes­ti­ma a chu­va, a IA apren­derá e apli­cará esse con­hec­i­men­to num próx­i­mo cenário.

Resultados encontrados

Na Região Norte, por exem­p­lo, onde vai ocor­rer, na próx­i­ma sem­ana, a 30ª Con­fer­ên­cia das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáti­cas (COP30), em Belém, no Pará, a pesquisa tem obser­va­do ondas de calor inten­so. “A gente tem obser­va­do o aumen­to das ondas de calor e desen­volveu durante o pro­je­to um índice de onda de calor, que tin­ha apli­ca­do na Europa. Quan­do a gente apli­ca esse índice para o Brasil, para nos­sa sur­pre­sa, a região onde as ondas de calor estão mais inten­sas nos últi­mos dez anos foi a Região Norte. Elas aumen­taram em todo o país, mas na Região Norte foi onde elas mais aumen­taram. Então, isso foi um resul­ta­do que a gente não tin­ha con­hec­i­men­to. Foi um pouco assus­ta­dor, porque é a região onde você tem menos capaci­dade de adap­tação”, expli­cou Catal­di nes­ta sex­ta-feira (7) à Agên­cia Brasil.

Catal­di defende que a Região Norte tem que ser dis­cu­ti­da por vários níveis de con­hec­i­men­to. As pop­u­lações mais ribeir­in­has, mais tradi­cionais, não querem, por exem­p­lo, ações muito inva­si­vas. De acor­do com o pro­fes­sor da UFF, essas pop­u­lações estão acos­tu­madas a lidar com a vari­abil­i­dade nat­ur­al do cli­ma.

“Então, não dá para você chegar com ven­ti­lador, um ger­ador elétri­co para elas. Você tem que ten­tar tra­bal­har com soluções que elas aceit­em. Mas, para isso, é pre­ciso primeiro tra­bal­har com essas pop­u­lações a nív­el de uma edu­cação ambi­en­tal, mostrar que a vari­abil­i­dade nat­ur­al do cli­ma que elas estão acos­tu­ma­dos a lidar não existe mais. Todos os antepas­sa­dos deles sem­pre lidaram com as oscilações do cli­ma, mas a for­ma como o cli­ma está oscilan­do hoje é difer­ente. Então, eles pre­cisam sim de adap­tações tec­nológ­i­cas ou adap­tações que sejam cria­ti­vas, mas são adap­tações difer­entes. Esse é o primeiro desafio. São essas pop­u­lações muito tradi­cionais”, apon­tou o pro­fes­sor.

Enchentes no Sul

Já na Região Sul, as chu­vas são a maior pre­ocu­pação. Ali, o pro­je­to Riskcli­ma anal­isa o aumen­to dos blo­queios atmos­féri­cos. “Isso sig­nifi­ca que quan­do a gente tem um blo­queio na Região Sud­este, as frentes frias não con­seguem avançar para o Sud­este. Elas ficam paradas no Sul, como acon­te­ceu em abril e iní­cio de maio do ano pas­sa­do”. O pesquisador se ref­ere às enchentes que deixaram 184 mortes no Rio Grande do Sul em 2024.

Már­cio Catal­di lem­brou que, este ano, o fenô­meno acon­te­ceu tam­bém, mas com menos inten­si­dade. “O prob­le­ma todo é que esse parece ser o padrão nor­mal a par­tir de ago­ra”. O pesquisador avaliou que pre­cisa ser feito um lev­an­ta­men­to, por exem­p­lo, de áreas de inun­dação.

Em Por­to Ale­gre, por exem­p­lo, grande parte das áreas inun­dadas são super­fí­cies favoráveis a inun­dações nor­mal­mente, em razão da posição geográ­fi­ca em que se encon­tram. Már­cio Catal­di a tragé­dia fna cidade foi agrava­da pela fal­ta de manutenção e inop­erân­cia das com­por­tas com­por­tas na cap­i­tal gaúcha.

Catal­di indi­cou que é necessário lidar com ess­es prob­le­mas de for­ma séria, cri­ar políti­cas e tra­bal­har com a leg­is­lação para que essas políti­cas sejam con­tin­u­adas. “Não pode ser uma coisa de um gov­er­no porque aí chega out­ro e diz que isso aqui não me inter­es­sa. Não pode ser”.

Seca

No Sud­este e no Cen­tro-Oeste, a seca prevalece dev­i­do à ausên­cia de chu­va. Arti­go pub­li­ca­do pelos pesquisadores do Riskcli­ma na Revista Nature mostra que o primeiro pas­so mais grave da seca é que a umi­dade do solo vai dimin­uin­do. Isso acon­tece porque durante anos con­sec­u­tivos vem choven­do menos do que a média. Foram usa­dos sen­sores de satélites da NASA para mostrar isso.

Catal­di desta­cou que Sud­este e o Cen­tro-Oeste con­stituem a região mais pop­u­losa do país, a região de maior agri­cul­tura, onde estão os grandes reser­vatórios de ener­gia. Por isso, o pesquisador desta­ca a neces­si­dade de ciên­cia e tomadores de decisão pen­sarem em for­ma de colo­car a água como pri­or­i­dade nacional. “Cada setor exige uma solução especí­fi­ca”.

Por exem­p­lo, é pre­ciso otimizar a irri­gação, a ger­ação de água dos aquífer­os, otimizar as ger­ações de ener­gias alter­na­ti­vas, ren­ováveis, como a eóli­ca e a solar, e preser­var a ger­ação hídri­ca. “Porque ela tem que ser usa­da quan­do você não tiv­er out­ras fontes de ger­ação na base, porque os reser­vatórios, há muito tem­po, não con­seguem atin­gir níveis muito altos. Tem uma série de soluções que têm que ser pen­sadas para cada setor. Porque a gente está falan­do de abastec­i­men­to de água humana e para ani­mais, agri­cul­tura, ou seja, tudo deman­da ener­gia. É neces­si­dade bási­ca da pop­u­lação brasileira”. Por isso, a questão da seca e do agrava­men­to da seca é um pon­to muito impor­tante para ser trata­do com urgên­cia, sinal­i­zou Catal­di.

Tam­bém no Nordeste, na região da Caatin­ga, do sertão, no semi­ári­do, o prin­ci­pal prob­le­ma é o agrava­men­to da seca cam­in­han­do para um proces­so de deser­ti­fi­cação, que se encon­tra já avançan­do. “É uma região que era seca, mas que está fican­do mais seca”.

Saúde pública

Todos ess­es prob­le­mas climáti­cos acar­retam impactos tam­bém na saúde públi­ca, var­ian­do entre as regiões. Os blo­queios atmos­féri­cos, por exem­p­lo, estão mais fre­quentes na Região Sud­este. A pesquisa da UFF está estu­dan­do o quan­to ess­es blo­queios atmos­féri­cos afe­tam a qual­i­dade do ar, porque eles apri­sion­am os polu­entes próx­i­mo da super­fí­cie.

“Um pon­to que a gente vai ver é uma pio­ra da qual­i­dade do ar, com o aumen­to dess­es blo­queios. Out­ro pon­to impor­tante é a questão de calor. Quan­do você tem uma per­da de água muito grande, durante um episó­dio de onda de calor, o sangue fica mais vis­coso; é como se ele ficas­se mais fácil de embo­lar e, aí, isso facili­ta a coag­u­lação, resul­ta em trom­bose e ataque cardía­co”. Essa desidratação abrup­ta aca­ba geran­do ataques cardía­cos.

O pro­fes­sor disse que o número de mortes por desidratação na Europa é absur­do. Na últi­ma onda de calor, reg­istra­da em 2023, ocor­reram 70 mil mortes, infor­mou. “A gente tem que tomar cuida­do, porque por mais que o Brasil este­ja acos­tu­ma­do com as ondas de calor, é pre­ciso tra­bal­har para essa hidratação, prin­ci­pal­mente com os idosos”.

Már­cio Catal­di salien­tou que tam­bém os cuidadores e respon­sáveis pelos idosos devem estar infor­ma­dos da neces­si­dade de todos se hidratarem. Esse é um grande desafio, admi­tiu. São coisas do cotid­i­ano para os quais a gente pre­cisa ficar mais aler­ta.

Próximos passos

Antes do encer­ra­men­to do pro­je­to, pre­vis­to para 2026, será apre­sen­ta­do às autori­dades do Brasil um relatório exec­u­ti­vo com pro­postas de soluções, visan­do a toma­da de providên­cias e a elab­o­ração de políti­cas públi­cas que aju­dem a sanar ess­es difer­entes prob­le­mas climáti­cos.

“O impor­tante é sen­tar com as autori­dades, mostrar a urgên­cia de imple­men­tação dessas políti­cas e nos colo­car à dis­posição, como uni­ver­si­dade públi­ca, para aju­dar a começar a mit­i­gar os prob­le­mas climáti­cos”, afir­mou Catal­di. “Não dá pra esper­ar”, ressaltou.

Catal­di argu­men­tou que não se deve esper­ar 2050, porque os peri­gos climáti­cos já estão acon­te­cen­do ago­ra. O obje­ti­vo, enfa­ti­zou, é tra­bal­har com o nív­el de con­hec­i­men­to que se tem, para que essas soluções sejam adap­tadas e come­cem a faz­er efeito, isto é, come­cem a mel­ho­rar todos os prob­le­mas climáti­cos, até começar a mit­i­gar.

O pesquisador esclare­ceu ain­da que mes­mo se os país­es deix­as­sem de emi­tir hoje os gas­es de efeito est­u­fa, o cli­ma não voltaria ao que era antes. “Ain­da demor­aria duas décadas para retornar o equi­líbrio. Então, o que a gente quer faz­er é ten­tar mostrar onde as ações de mit­i­gação dev­e­ri­am ser pri­or­itárias”.

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