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Prolongamento de ofensiva israelense em Gaza levará à radicalização

Repro­du­ção: © For­ças Isra­e­len­ses de Defesa/Divulgação via REUTERS

Até agora, mais de 20,6 mil pessoas morreram e 54,5 mil foram feridas


Publi­ca­do em 28/12/2023 — 08:42 Por Bru­no de Frei­tas Mou­ra — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

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O pro­lon­ga­men­to da ofen­si­va isra­e­len­se em Gaza pode ter como con­sequên­cia a radi­ca­li­za­ção da popu­la­ção pales­ti­na e for­ta­le­cer o ter­ro­ris­mo. A ava­li­a­ção é de espe­ci­a­lis­tas ouvi­dos pela Agên­cia Bra­sil na estei­ra da decla­ra­ção do che­fe do Esta­do-Mai­or isra­e­len­se, Her­zi Hale­vi, de que “a guer­ra con­ti­nu­a­rá por mui­tos meses”.

Os ata­ques de Isra­el come­ça­ram após a série de aten­ta­dos ter­ro­ris­tas do Hamas, em 7 de outu­bro. Des­de então, segun­do o Minis­té­rio da Saú­de de Gaza, mais de 20,6 mil pes­so­as mor­re­ram, e 54,5 mil foram feri­das. A Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das (ONU) afir­ma que as con­di­ções huma­nas são catas­tró­fi­cas. Qua­se todos os 2,8 milhões de habi­tan­tes de Gaza foram des­lo­ca­dos.

Brasília (DF) 28/12/2023 – Michel Gherman (Centro de estudos do Antissmitismo da Universidade de Jerusalém) - Prolongamento de ofensiva israelense em Gaza levará à radicalização.Foto: Michel Gherman/Arquivo Pessoal
Repro­du­ção:  Michel Gher­man (Cen­tro de estu­dos do Antis­s­mi­tis­mo da Uni­ver­si­da­de de Jeru­sa­lém). Foto: Michel Gherman/Arquivo Pes­so­al

Para o pro­fes­sor Michel Gher­man, do Cen­tro de Estu­dos do Antis­se­mi­tis­mo da Uni­ver­si­da­de de Jeru­sa­lém, há atu­al­men­te qua­tro fato­res que podem ditar os rumos da ofen­si­va. Um deles é o cená­rio inter­no. Gher­man cita que 80% dos isra­e­len­ses são a favor da saí­da do pri­mei­ro-minis­tro Ben­ja­min Netanyahu.

Des­sa for­ma, segun­do o espe­ci­a­lis­ta, “a úni­ca pos­si­bi­li­da­de para o pre­mi­er se man­ter no poder é, pri­mei­ro, ado­tar um dis­cur­so pró-guer­ra, de res­pos­ta para o 7 de outu­bro”.

“A segun­da ques­tão é alar­gar ao máxi­mo pos­sí­vel essa guer­ra. Ou seja, a pers­pec­ti­va de fim da guer­ra é uma pers­pec­ti­va abso­lu­ta­men­te trá­gi­ca para Ben­ja­min Netanyahu”, ava­lia Gher­man, que tam­bém é pro­fes­sor de soci­o­lo­gia da Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Rio de Janei­ro (UFRJ).

Envolvimento regional

Outro fator deter­mi­nan­te para o futu­ro da ofen­si­va é o ris­co de outros gru­pos arma­dos, como o liba­nês Hez­bol­lah e o ieme­ni­ta houthis — ambos apoi­a­dos pelo Irã — se envol­ve­rem no con­fli­to. O Hez­bol­lah tem acen­tu­a­do os ata­ques con­tra Isra­el.

O pro­fes­sor Gher­man expli­ca que, há cer­ca de uma sema­na, não se acre­di­ta­va nes­sa opção. Mas que o cená­rio mudou depois que o Irã acu­sou Isra­el de matar o con­se­lhei­ro mili­tar da Guar­da Revo­lu­ci­o­ná­ria, Seyyed Razi Mou­sa­vi, em um ata­que aéreo na Síria.

“A gen­te está em uma con­fi­gu­ra­ção entre uma guer­ra em Gaza e uma guer­ra regi­o­nal. A gen­te não sabe para onde é que vai”, con­tex­tu­a­li­za.

Eleição americana

No con­ti­nen­te ame­ri­ca­no está o ele­men­to que mais pode cola­bo­rar para o fim das ofen­si­vas, segun­do o espe­ci­a­lis­ta. A pre­o­cu­pa­ção do pre­si­den­te dos Esta­dos Uni­dos, Joe Biden, que enfren­ta­rá elei­ções em 2024. Os Esta­dos Uni­dos já deram sinais de que Isra­el pre­ci­sa mode­rar a ofen­si­va, prin­ci­pal­men­te pre­ser­van­do civis.

“Biden quer resol­ver a situ­a­ção, o mais rapi­da­men­te pos­sí­vel, para entrar no ano elei­to­ral ten­do que se pre­o­cu­par com as ques­tões inter­nas e não com uma guer­ra no Ori­en­te Médio que pode ser de gran­des pro­por­ções”, ana­li­sa.

Den­tro do pró­prio Hamas há for­ças que dis­pu­tam o cami­nho a seguir em rela­ção à ofen­si­va. O pro­fes­sor do Cen­tro de Estu­dos do Antis­se­mi­tis­mo da Uni­ver­si­da­de de Jeru­sa­lém ndi­ca que há um racha no gru­po. Enquan­to os inte­gran­tes do Hamas na Fai­xa de Gaza pre­fe­rem con­ti­nu­ar a guer­ra, inte­gran­tes do gru­po extre­mis­ta exi­la­dos em outros paí­ses, prin­ci­pal­men­te no Catar, bus­cam resol­ver a ques­tão com nego­ci­a­ção, com o intui­to de pode­rem par­ti­ci­par de um futu­ro gover­no na Fai­xa de Gaza.

Política x guerra

Em um arti­go de opi­nião publi­ca­do no jor­nal ame­ri­ca­no Wall Stre­et Jour­nal na segun­da-fei­ra (25), Netanyahu rei­te­rou três pré-requi­si­tos para a paz: o Hamas deve ser des­truí­do, Gaza deve ser des­mi­li­ta­ri­za­da e a soci­e­da­de pales­ti­na deve ser des­ra­di­ca­li­za­da.

No entan­to, para Michel Gher­man, o alon­ga­men­to da ofen­si­va tem pos­si­bi­li­da­de nula de cri­ar uma des­ra­di­ca­li­za­ção.

“O mas­sa­cre do 7 de outu­bro tam­bém pro­du­ziu, ao que tudo indi­ca, um pro­ces­so de radi­ca­li­za­ção da soci­e­da­de isra­e­len­se, e o que está acon­te­cen­do em Gaza ago­ra tam­bém está pro­mo­ven­do um pro­ces­so de radi­ca­li­za­ção da soci­e­da­de pales­ti­na. Você tem um núme­ro de órfãos impres­si­o­nan­te”.

“As guer­ras não resol­vem pro­ble­mas polí­ti­cos. A polí­ti­ca resol­ve os pro­ble­mas polí­ti­cos. A guer­ra cria pro­ble­mas polí­ti­cos. Uma guer­ra des­sas pro­por­ções, sem estra­té­gia para sair da guer­ra, como se a guer­ra fos­se a pró­pria estra­té­gia dela mes­mo, aca­ba cri­an­do uma radi­ca­li­za­ção dos dois lados da fron­tei­ra”, pon­tua.

“Des­ra­di­ca­li­za­ção se cria com pro­pos­tas polí­ti­cas para tirar o foco do pro­ces­so da guer­ra e colo­cá-lo em uma estra­té­gia de solu­ção polí­ti­ca.

Extremismo

O pro­fes­sor de rela­ções inter­na­ci­o­nais Vite­lio Brus­to­lin, da Uni­ver­si­da­de Fede­ral Flu­mi­nen­se (UFF), acre­di­ta que a radi­ca­li­za­ção é uma con­sequên­cia pla­ne­ja­da e dese­ja­da pelo gru­po Hamas, que teria ela­bo­ra­do o mas­sa­cre de 7 de outu­bro por dois anos. Brus­to­lin diz que os ter­ro­ris­tas acre­di­ta­vam nes­sa pos­si­bi­li­da­de, base­a­dos em rea­ções agres­si­vas isra­e­len­ses ocor­ri­das após ata­ques dos extre­mis­tas em 2009 e 2014.

Brasília (DF) 28/12/2023 – Professor da UFF, Vitelio Brustolin - Prolongamento de ofensiva israelense em Gaza levará à radicalização.Foto: Vitelio Brustolin/Arquivo Pessoal
Repro­du­ção: Pro­fes­sor Vite­lio Brustolin/Arquivo Pes­so­al

“O que o Hamas que­ria era exa­ta­men­te uma ação con­tun­den­te de Isra­el. Quan­to mais efei­to cola­te­ral essa ação gerar, quan­to mais víti­mas civis, mais for­ta­le­ce a cau­sa ter­ro­ris­ta do Hamas”, ana­li­sa.

Brus­to­lin, que tam­bém atua como pes­qui­sa­dor na uni­ver­si­da­de de Har­vard, nos Esta­dos Uni­dos, faz ques­tão de dife­ren­ci­ar os obje­ti­vos do Hamas da cau­sa pales­ti­na.

“A cau­sa pales­ti­na é uma cau­sa de paz, uma casa de solu­ção de dois esta­dos”, enfa­ti­za.

“A gen­te viu na nego­ci­a­ções dos acor­dos de Oslo, por exem­plo, na déca­da de 90, enquan­to a Auto­ri­da­de Pales­ti­na nego­ci­a­va, o Hamas pro­mo­via aten­ta­dos explo­din­do ôni­bus com civis. Os ter­ro­ris­tas se sui­ci­da­vam nes­ses aten­ta­dos, mas era jus­ta­men­te para inter­rom­per as nego­ci­a­ções de paz. O Hamas quer exa­ta­men­te isso, pro­mo­ver a cau­sa do ter­ro­ris­mo”, afir­ma.

“Mes­mo que Isra­el ven­ça mili­tar­men­te o Hamas, o que mui­to pro­va­vel­men­te acon­te­ce­rá, a guer­ra em si aca­ba retro ali­men­tan­do o ter­ro­ris­mo, e isso foi pla­ne­ja­do pelo Hamas. Eles não ligam em con­su­mir os seus inte­gran­tes des­de que a cau­sa do exter­mí­nio de Isra­el pre­va­le­ça”, diz Brus­to­lin.

Negociações

O pro­fes­sor da UFF con­tex­tu­a­li­za que fora dos ter­ri­tó­ri­os isra­e­len­ses e pales­ti­nos há nego­ci­a­ções e pres­sões para o fim da ofen­si­va na Fai­xa de Gaza. Ele cita a medi­a­ção do Egi­to, que pas­sa por acor­dos de ces­sar fogo; tro­ca de pri­si­o­nei­ros pales­ti­nos pelos cer­ca de 100 isra­e­len­ses man­ti­dos reféns pelo Hamas; for­ma­ção de um gover­no com par­ti­ci­pa­ção da Auto­ri­da­de Naci­o­nal Pales­ti­na — reco­nhe­ci­da pela comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal; e, por fim, saí­da das tro­pas isra­e­len­ses.

Por enquan­to, nenhum dos dois lados aca­tou a pro­pos­ta. “Mas tam­bém não des­car­tou com­ple­ta­men­te uma nego­ci­a­ção, o que, pro­va­vel­men­te, vai levar a novas roda­das de nego­ci­a­ções diplo­má­ti­cas”, espe­ra.

“O Ismail Haniyeh, líder do Hamas que está no Catar, foi ao Egi­to para nego­ci­ar. Então exis­te uma ten­ta­ti­va de nego­ci­a­ção”, com­ple­ta.

Netanyahu

Já sobre o cená­rio inter­no elei­to­ral em Isra­el, Brus­to­lin não inter­pre­ta que o pri­mei­ro-minis­tro Ben­ja­min Netanyahu tenha inte­res­se polí­ti­co em uma guer­ra lon­ga. Ele cita pres­sões no orça­men­to domés­ti­co, como o cus­to esti­ma­do em mais US$ 14 bilhões pre­vis­tos para os pró­xi­mos dois meses.

“Aca­ba mexen­do com a eco­no­mia do país, mas tam­bém sen­si­bi­li­zan­do as famí­li­as”, res­sal­ta, acres­cen­tan­do que o país tem cen­te­nas de milha­res de pes­so­as mobi­li­za­das para a guer­ra.

Fora dis­so há a pres­são inter­na­ci­o­nal con­tra a ofen­si­va. Brus­to­lin lem­bra que a Assem­bleia-Geral da ONU apro­vou, no últi­mo dia 12, uma reso­lu­ção que pede ces­sar-fogo ime­di­a­to e o envio de aju­da para a Fai­xa de Gaza. De 193 paí­ses, 153 vota­ram a favor, incluin­do o Bra­sil. A Assem­bleia-Geral não tem poder impo­si­ti­vo, mas há uma reper­cus­são polí­ti­ca.

O aces­so de aju­da huma­ni­tá­ria tam­bém foi apro­va­do por reso­lu­ção do Con­se­lho de Segu­ran­ça (CS) da ONU. Inte­gran­te per­ma­nen­te do CS, os Esta­dos Uni­dos, prin­ci­pal ali­a­do de Isra­el, se abs­ti­ve­ram de votar, ou seja, não usa­ram o poder de vetar o tex­to.

Brus­to­lin des­ta­ca que há diver­gên­ci­as entre Biden e Netanyahu sobre o tra­ta­men­to dado à Fai­xa de Gaza.

“Eles tro­ca­ram far­pas há pou­cos dias sobre a estra­té­gia que Isra­el vem uti­li­zan­do. Os Esta­dos Uni­dos con­si­de­ram des­pro­por­ci­o­nal o uso da for­ça nes­te momen­to”.

Sobre o des­fe­cho, o cená­rio é de inde­fi­ni­ção, ten­den­do a um pro­lon­ga­men­to, segun­do o pes­qui­sa­dor. “Na melhor das hipó­te­ses, que leve sema­nas, o que é mui­to impro­vá­vel. Em uma hipó­te­se mais rea­lis­ta, essa guer­ra ain­da vai durar meses”, ava­lia.

Edi­ção: Maria Clau­dia

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