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Rapper Sharylaine luta para abrir caminho para mulheres no hip hop

Repro­du­ção: © Arte/Agência Bra­sil

Artista avalia que machismo ainda é obstáculo a ser superado


Publi­ca­do em 14/11/2023 — 07:32 Por Dani­el Mel­lo — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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Repro­du­ção @Agência Bra­sil

Ao lon­go de 38 anos de car­rei­ra, a rap­per Shary­lai­ne não só lutou para abrir cami­nho no hip hop, mas tam­bém tra­ba­lhou para dei­xar as por­tas aber­tas para as mulhe­res que vie­ram depois. Para a artis­ta, mes­mo 40 anos após a che­ga­da des­sa cul­tu­ra ao Bra­sil, o machis­mo ain­da é um obs­tá­cu­lo a ser supe­ra­do. “É um pro­ble­ma mun­di­al, mas que nós mulhe­res come­ça­mos em vári­os luga­res, em vári­os momen­tos, a tra­ba­lhar isso, e tra­ba­lhar jun­tas, por­que a gen­te enten­de que só jun­tas nós con­se­gui­mos alcan­çar mais, dar mais pas­sos. Acho que esse é um pro­ces­so que não tem fim”, res­sal­ta.

Ape­sar das difi­cul­da­des, há ale­gria de ver que os diver­sos pro­je­tos cons­truí­dos nes­sa tra­je­tó­ria têm tor­na­do o ambi­en­te do hip hop mais aco­lhe­dor para as mulhe­res. “Me emo­ci­o­no de ter as meni­nas hoje em pata­ma­res melho­res, com aces­sos melho­res, pen­san­do e desen­vol­ven­do sua pro­du­ção. Não, neces­sa­ri­a­men­te, depen­den­do de um pro­du­tor para dizer o que ela vai ter que fazer”, acres­cen­ta a rap­per que par­ti­ci­pou da fun­da­ção, entre outras ini­ci­a­ti­vas, da Fren­te Naci­o­nal de Mulhe­res no Hip Hop.

Toda essa his­tó­ria come­çou no cen­tro de São Pau­lo, na Esta­ção São Ben­to de metrô, no iní­cio da déca­da de 1980. Além da boa loca­li­za­ção, Shary­lai­ne con­ta que o local foi esco­lhi­do por ques­tões prá­ti­cas. “O chão é bom, você poder dan­çar, de cer­ta for­ma, num espa­ço segu­ro, e tam­bém tinha aces­so à ener­gia elé­tri­ca, para não gas­tar tan­to com as pilhas”, con­ta a pio­nei­ra.

São Paulo (SP), 10/11/2023 - A rapper Sharylaine fala sobre a cultura Hip Hop no Largo de São Bento. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: Rap­per Shary­lai­ne diz que o machis­mo ain­da é um obs­tá­cu­lo a ser supe­ra­do na cul­tu­ra hip hop — Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Foi pela dan­ça que a artis­ta che­gou ao hip hop. Mas logo Shary­lai­ne pas­sou a empu­nhar o micro­fo­ne para fazer rimas. “Eu pen­sa­va assim: ‘não pos­so ser uma mulher que fala só sobre a ques­tão da mulher’. Por­que não é só isso. A gen­te não vive só isso. Pen­sar mun­do mes­mo, pen­sar polí­ti­ca, pen­sar a his­tó­ria do meu povo”, lem­bra.

Para a gra­va­ção do pro­gra­ma Cami­nhos da Repor­ta­gem, da TV Bra­sil, Shary­lai­ne vol­tou à esta­ção de metrô onde a cul­tu­ra hip hop tomou for­ma, reper­cu­tin­do em todo o país nos anos seguin­tes. Foi a par­tir dos encon­tros ali que a jovem rap­per, com 20 anos à épo­ca, inte­grou a cole­tâ­nea Cons­ci­ên­cia Black, volu­me 1, ao lado dos Raci­o­nais MC’s. “Eu nem ima­gi­na­va que aqui­lo ia ser tão impor­tan­te para a minha tra­je­tó­ria”, con­ta.

Con­fi­ra abai­xo os prin­ci­pais tre­chos da entre­vis­ta com Shary­lai­ne.

Agên­cia Bra­sil: Como sur­giu a ideia de fazer encon­tros de hip hop aqui na Esta­ção São Ben­to?
Shary­lai­ne: Foi uma ques­tão de ocu­pa­ção da gale­ra do bre­a­king, um espa­ço que via­bi­li­za­va: o chão é bom, você poder dan­çar, de uma cer­ta for­ma, num espa­ço segu­ro e tam­bém tinha aces­so à ener­gia elé­tri­ca, para não gas­tar tan­to com as pilhas. As pilhas para rádio eram mui­to gran­des e mui­to caras. Você pre­ci­sa­va às vezes de qua­tro, seis, oito pilhas para o rádio fun­ci­o­nar. Aqui era um pal­co, que 30 anos atrás a gen­te fez a mos­tra naci­o­nal que se tor­nou até inter­na­ci­o­nal, pelas pes­so­as que vie­ram. Nós fize­mos a mos­tra de bre­a­king com apoio do Gele­dés em par­ce­ria tam­bém com o Metrô de São Pau­lo.

Agên­cia Bra­sil: Como você come­çou como b‑girl?
Shary­lai­ne: Havia uma inten­ção de dan­çar. Eu anda­va com os meni­nos do bre­a­king, da gan­gue. Mas, era mais difí­cil pra mim dan­çar no chão. O que eu apren­di foi smurf dan­cing, que, hoje, a gale­ra cha­ma de dan­ça de rua, que é uma dan­ça mais no alto. Eu tive uma que­da no bas­que­te que zoou meu joe­lho e que invi­a­bi­li­za­va mes­mo.

Agên­cia Bra­sil: E como foi essa tran­si­ção da dan­ça pra ser MC?
Shary­lai­ne: Eu conhe­ço os meni­nos em 1985 no bai­le do meu tio, José Augus­to. Eu come­ço a acom­pa­nhá-los e, den­tro da gan­gue mes­mo, eu conhe­ci o rap. Eu falei: “Bom, isso é pos­sí­vel”. Come­cei a ensai­ar, can­tar o rap de um ami­go, até que eu resol­vi que a gen­te devia ir pro pal­co. Em 1986 fun­dei o Rap Girls, que é con­si­de­ra­do um dos pri­mei­ros ou o pri­mei­ro gru­po de rap femi­ni­no do Bra­sil.

Agên­cia Bra­sil: Até hoje tem bata­lhas de rimas aqui na par­te de cima da esta­ção, no Lar­go São Ben­to?
Shary­lai­ne: É uma reto­ma­da mes­mo do movi­men­to, por­que o movi­men­to sem­pre acon­te­ceu no âmbi­to cen­tral da cida­de. Dizer que hoje a gen­te tem bata­lha femi­ni­na é um avan­ço mui­to impor­tan­te por­que a cul­tu­ra hip hop con­ti­nua machis­ta, con­ti­nua mas­cu­li­na e, se a gen­te quer ter algum espa­ço nes­se lugar, nós pre­ci­sa­mos cri­ar este espa­ço.

Agên­cia Bra­sil: Como foi isso de ser mulher e se inse­rir nes­se mun­do machis­ta do hip hop?
Shary­lai­ne: Luta, por­que ain­da hoje há homens hip hop­pers, den­tro da cul­tu­ra que acre­di­tam que a mulher só é boa se ela rimar fei­to um homem. E tam­bém que o rap foi fei­to para homem. Eu já ouvi isso, e não estou falan­do de uma déca­da atrás, estou falan­do de 2023, quan­do a cul­tu­ra hip hop com­ple­ta 50 anos, mun­di­al­men­te falan­do, e 40 anos, no Bra­sil, e de pro­du­to­res que pro­du­zi­ram mulhe­res. Tem algu­ma coi­sa erra­da aí, né?

Eu fiquei bem cho­ca­da, mas, ao invés de me retrair, eu acho que me deu mais for­ça pra refor­çar a luta que eu já encam­pei ao lon­go do tem­po. Nós, mulhe­res, a gen­te aca­bou se orga­ni­zan­do em núcle­os, em gru­pos, nos quais as pes­so­as fala­vam pra gen­te: “Ago­ra vai ser o Clu­be da Lulu­zi­nha? Vocês estão que­ren­do divi­dir o movi­men­to?”. Não, a gen­te não está que­ren­do divi­dir, mas a gen­te não está se ven­do repre­sen­ta­da. A gen­te não está se ven­do reco­nhe­ci­da no pro­ces­so, por­que você vai ver homens citan­do homens como refe­rên­ci­as. Rara­men­te você vai ver um homem citan­do uma mulher como refe­rên­cia para o tra­ba­lho dele. Você pode falar naci­o­nal­men­te ou inter­na­ci­o­nal­men­te.

Agên­cia Bra­sil: Por falar em refe­rên­cia, a gen­te fala mui­to do Kool Herc como um gran­de pro­du­tor, mas a Cindy Camp­bell esta­va lá fazen­do a pro­du­ção da pri­mei­ra fes­ta de hip hop nes­se pio­nei­ris­mo. Qual é a impor­tân­cia da Cindy Camp­bell, ela te influ­en­ci­ou pra você estar nes­se lugar?
Shary­lai­ne: Não me influ­en­ci­ou, jus­ta­men­te por­que ela foi invi­si­bi­li­za­da. Eu conhe­ci três homens antes de saber que ela era o pivô dis­so tudo [da block party de 1973, em Nova York, que fun­dou a cul­tu­ra hip hop]. Déca­das depois eu fui saber da Cindy Camp­bell. Déca­das depois eu fui saber que a pro­du­to­ra do Sugar Hill Gang era uma mulher, a Sil­via Robin­son, que tam­bém ficou invi­si­bi­li­za­da no pro­ces­so. As pes­so­as sabi­am qual era o nome da gra­va­do­ra, mas nin­guém falou quem era a pro­du­to­ra, não se teve a neces­si­da­de de falar quem era o pro­du­tor por­que o pro­du­tor não era um homem. Ela ficou nes­se pro­ces­so de invi­si­bi­li­da­de. Esse é um pro­ces­so tan­to lá quan­to aqui é um pro­ces­so de cons­tru­ção.

Mes­mo lá, nes­se perío­do de cin­quen­te­ná­rio que a gen­te teve a opor­tu­ni­da­de de acom­pa­nhar cele­bra­ções. A gen­te per­ce­beu a invi­si­bi­li­da­de das mulhe­res. Então você teve, por exem­plo, um even­to no Yan­kee Sta­dium que as mulhe­res que foram foram con­vi­da­das por homens. Elas não esta­vam no flyer de divul­ga­ção. Isso não é um pro­ble­ma só do Bra­sil, é um pro­ble­ma mun­di­al, mas que nós mulhe­res come­ça­mos em vári­os luga­res, em vári­os momen­tos, tra­ba­lhar isso, e tra­ba­lhar jun­tas, por­que a gen­te enten­de que só jun­tas nós con­se­gui­mos alcan­çar mais, dar mais pas­sos. Acho que esse é um pro­ces­so que não tem fim.

Agên­cia Bra­sil: Con­ta um pou­co da his­tó­ria da fun­da­ção da a fren­te de mulhe­res do hip hop.
Shary­lai­ne: Eu sou cofun­da­do­ra do Femin­rap­pers, que nas­ceu em Gele­dés, o Ins­ti­tu­to da Mulher Negra. Tam­bém sou cofun­da­do­ra do Minas da Rima, que veio do embrião do Femi­ni­rap­pers, para pen­sar essa movi­men­ta­ção da mulher do rap na cena, mas abri­gan­do os outros ele­men­tos, e da Fren­te Naci­o­nal de Mulhe­res no Hip Hop — um cole­ti­vo de vári­os cole­ti­vos, que abri­ga mulhe­res de todos os ele­men­tos. Todos com um fun­da­men­to úni­co, que é pen­sar essa mulher no cená­rio, como que ela che­ga, como que ela é aco­lhi­da, o que a gen­te faz pra man­tê-la pra que ela não desis­ta, pra que ela con­ti­nue e como que a gen­te via­bi­li­za espa­ços pra ela mos­trar sua arte. Espa­ços res­pei­to­sos, que elas pos­sam colo­car o seu equi­pa­men­to e não ter o equi­pa­men­to sabo­ta­do por ter­cei­ros, para ver se real­men­te ela é boa.

Por­que, quan­do é a mulher na pro­du­ção, há sem­pre a ques­tão: “Será que ela é boa mes­mo?”. “Será que ela é com­pe­ten­te?”. Então, você tem algu­mas sabo­ta­gens pra tes­tar essas mulhe­res. E pos­so falar que é em todos os ele­men­tos da cul­tu­ra hip hop, não é só com a mulher MC, mas é uma pro­ble­má­ti­ca pra b‑girlbre­ak-girl, que dan­ça o bre­a­king, para a DJ, para a gra­fi­tei­ra, que mui­tas vezes tem uma pare­de pra ser gra­fi­ta­da e eles dei­xam um can­ti­nho pra ela. Ocu­pam todo o lugar e dei­xa só um pon­ti­nho pra ela. São sabo­ta­gens que a todo tem­po a gen­te ten­ta que­brar ou, de fato, cons­truir esse espa­ço pra gen­te con­se­guir fazer a cul­tu­ra.

Vozes Hip Hop arte
Repro­du­ção: Agên­cia Bra­sil

Agên­cia Bra­sil: Ain­da falan­do des­sas ini­ci­a­ti­vas de que você par­ti­ci­pou pra apoi­ar as mulhe­res no hip hop, em todos os ele­men­tos, você vê isso dan­do fru­tos, teve gen­te que con­se­guiu cres­cer melhor por­que tinha esse tipo de apoio?
Shary­lai­ne: Sim, eu me orgu­lho em dizer e até me emo­ci­o­no de ter as meni­nas hoje em pata­ma­res melho­res, com aces­sos melho­res, pen­san­do e desen­vol­ven­do sua pro­du­ção não neces­sa­ri­a­men­te depen­den­do de um pro­du­tor pra dizer o que ela vai ter que fazer. Sou mui­to feliz com isso, mas tam­bém tenho que dizer que Bra­sil afo­ra a coi­sa é mais difí­cil.

Em São Pau­lo, nós esta­mos cami­nhan­do. As meni­nas fora do que a gen­te cha­ma­ria gran­de cen­tro – que é São Pau­lo, Rio de Janei­ro, Bra­sí­lia, Rio Gran­de do Sul – têm uma difi­cul­da­de mai­or. Tem a ques­tão do assé­dio para poder par­ti­ci­par do even­to, o assé­dio para poder ser pro­du­zi­da musi­cal­men­te, enfim, isso ain­da é uma pro­ble­má­ti­ca que a gen­te está o tem­po todo em dis­cus­são para ver como a gen­te age. A ques­tão da vio­lên­cia que tam­bém par­te pra ações de femi­ni­cí­dio, que está den­tro da cul­tu­ra tam­bém. Faze­do­res da cul­tu­ra, homens, com­pa­nhei­ros, que são atu­an­tes na cul­tu­ra repro­du­zin­do esse machis­mo. A gen­te tam­bém sofre por esse lado.

Mas enten­der essa luta pra aque­las que não estão orga­ni­za­das. Enten­der que essa luta é pos­sí­vel. Aqui­lo que dizi­am: “Ah, jun­ta uma mulhe­ra­da no quar­to, ou elas vão ficar fofo­can­do ou vão ficar se matan­do”. Isso não exis­te. Lógi­co que somos dife­ren­tes, mas temos o que nos une, que são coi­sas gran­des e peque­nas. Sejam situ­a­ções difí­ceis que a gen­te pre­ci­sa lidar, ou sejam cami­nhos para sair de situ­a­ções, a gen­te tro­ca as nos­sas expe­ri­ên­ci­as e infor­ma­ções pra uma aju­dar a outra. E para uma não pas­sar pelo que a outra pas­sou. Não que a gen­te tenha a recei­ta per­fei­ta, mas são expe­ri­ên­ci­as que a gen­te tro­ca e vai se for­ta­le­cen­do.

Agên­cia Bra­sil: Vamos falar um pou­co da sua tra­je­tó­ria? Você par­ti­ci­pou de um dis­co que é um dos mais emble­má­ti­cos do hip hop bra­si­lei­ro, que é o Cons­ci­ên­cia Black. Que­ria que você falas­se o que foi pra você estar nes­se momen­to.
Shary­lai­ne: Não era pra eu ir sozi­nha, era pra ir Rap Girls eu e minha par­cei­ra City Lee, que não foi por­que ela desis­tiu, parou. Eu ain­da titu­be­ei se ia ou não gra­var. Eu tive aju­da dos ami­gos enfim, indo comi­go, me ins­cre­ven­do pra can­tar nos clu­bes e até para eu me sen­tir segu­ra. Aca­bei indo gra­var.

Foi bom por­que eu nem ima­gi­na­va que aqui­lo ia ser tão impor­tan­te para a minha tra­je­tó­ria que eu olho pra trás hoje e vejo. Mas foi num momen­to que eu ain­da era mui­to crua. Eu que­ria ter esco­lhi­do a minha bati­da, que­ria ter esco­lhi­do o meu sam­pler. Eu fui meio que impul­si­o­na­da pelo pro­du­tor exe­cu­ti­vo, pelo pro­du­tor da músi­ca a esco­lhas como uni-duni-tê. Acho que, se eu tives­se um pou­co mais de matu­ri­da­de, teria fei­to a músi­ca do jei­to que eu que­ria e ela teria pul­sa­do mais.

Mas foi mui­to impor­tan­te pra minha tra­je­tó­ria, eu agra­de­ço à equi­pe [da pro­du­to­ra] Zim­babwe por ter gos­ta­do pri­mei­ro do tra­ba­lho e acre­di­ta­do e inves­ti­do para eu poder estar lá e fir­mar a mar­ca de ter sido a pri­mei­ra mulher solo a gra­var, e acho que, ago­ra, com o reco­nhe­ci­men­to de âmbi­to naci­o­nal. Isso me ren­deu e me ren­de vári­os títu­los de reco­nhe­ci­men­to pela minha tra­je­tó­ria. Pos­so dizer que foi um gran­de pre­sen­te para quem fazia aqui­lo que gos­ta­va, por­que de fato a gen­te não tinha dimen­são do que podia ser. Pen­sar que 38 anos atrás eu esta­va só me diver­tin­do, não tinha uma expec­ta­ti­va de seri­e­da­de.

Agên­cia Bra­sil: Tem outros momen­tos que você des­ta­ca­ria como mar­cos da sua car­rei­ra?
Shary­lai­ne: Mar­co, acho que é em 1985 quan­do eu conhe­ci a cul­tu­ra, atra­vés da Gan­gue Nação Zulu. 1986, qua­do come­cei a can­tar e fui subir num pal­co pela pri­mei­ra vez pra can­tar um rap de minis­saia falan­do de polí­ti­ca. Em 1989, quan­do foi a gra­va­ção do dis­co. A che­ga­da em Gele­dés, que é o Ins­ti­tu­to da Mulher Negra, que foi um divi­sor de águas de enten­der o mun­do, enten­der o racis­mo, o machis­mo, o femi­nis­mo, a soci­e­da­de, a vio­lên­cia poli­ci­al. Conhe­cer sobre a cul­tu­ra negra, sobre os nos­sos ído­los e líde­res negros, a his­tó­ria do meu povo, isso tam­bém foi um gran­de divi­sor.

Acho que os três momen­tos, que eu cha­mo de três ondas des­se movi­men­to de mulhe­res, que foram o Femi­ni­rap­pers, Minas da Rima e a Fren­te Naci­o­nal de Mulhe­res no Hip Hop e de par­ti­ci­par dos embriões da Sema­na de Cul­tu­ra Hip Hop. Par­ti­ci­pei ali do embrião, das reu­niões para a gen­te come­çar a orga­ni­zar com a [orga­ni­za­ção não gover­na­men­tal] Ação Edu­ca­ti­va e depois ela se tor­nar lei [Lei muni­ci­pal 13.924 de 2004, que cri­ou a Sema­na do Hip Hop em São Pau­lo].

Agên­cia Bra­sil: Pen­san­do nes­ses qua­se 40 anos de car­rei­ra, quan­do você come­çou, o que te incen­ti­vou? Que assun­tos, que temas que te toca­vam, te afe­ta­vam, te fazi­am rimar? Ain­da são os mes­mos que te fazem rimar hoje?
Shary­lai­ne: Nes­ses 38 anos, foi um pro­ces­so de ir conhe­cen­do a cul­tu­ra hip hop. Você vê o hip hop em todo lugar. Olha que coi­sa mais lin­da: está nos pré­di­os, no cen­tro da cida­de, está nas comu­ni­da­des, nas casas, nas fave­las colo­ri­das que os gra­fi­tei­ros e gra­fi­tei­ras pro­mo­vem. Naque­la épo­ca, quer dizer, os pri­mei­ros con­ta­tos que eu tive com a escri­ta daque­la épo­ca era pen­sar em polí­ti­ca, pen­sar no mun­do, pen­sar fora da cai­xa, como jovem que nas­ceu na sua ado­les­cên­cia com liber­da­de, fora do perío­do de dita­du­ra. Era isso. Quan­do eu conhe­ço o Gele­dés é que isso se vol­ta mais para as ques­tões femi­ni­nas.

Eu pen­sa­va assim: “Não pos­so ser uma mulher que fala só sobre a ques­tão da mulher”. Por­que não é só isso. A gen­te não vive só isso. Pen­sar mun­do mes­mo, pen­sar polí­ti­ca, pen­sar a his­tó­ria do meu povo. Poder con­tar a his­tó­ria do meu povo atra­vés da minha rima, da minha leva­da. Falar sobre o que é o hip hop, por­que até hoje, depois de 40 anos, as pes­so­as ain­da têm dúvi­das.

Você vê as pes­so­as dis­cu­tin­do se são qua­tro ele­men­tos, se são cin­co ele­men­tos, se são nove, se são 20. Mes­mo lá fora tem essas incer­te­zas. Tem gen­te que come­mo­rou o 11 de agos­to lá fora [como data de ori­gem do hip hop], tem gen­te que vai come­mo­rar o 12 de novem­bro [data de fun­da­ção da Zulu Nati­on, por Afri­ka Bam­ba­a­taa] e tem gen­te que só vai come­mo­rar em 2024 [como data da reu­nião dos qua­tro ele­men­tos no Bra­sil]. Por quê? Por cau­sa des­sas diver­gên­ci­as, por cau­sa do conhe­ci­men­to de cada um, da vivên­cia que cada um tem e car­re­ga. Essa pro­du­ção, para mim, é mui­to ampla. Eu olho o mun­do. E aqui­lo que me agra­da ou que me inqui­e­ta, eu que­ro com­par­ti­lhar. É sobre isso.

Assista na TV Brasil ao Caminhos da Reportagem sobre o hip hop:

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

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