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Real completa 30 anos com desafio de manter poder de compra

Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Índice oficial de inflação, IPCA acumula 708% desde a criação da moeda


Publicado em 30/06/2024 — 10:21 Por Wellton Máximo e Mariana Tokarnia – Repórteres da Agência Brasil — Brasília e Rio de Janeiro

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Rio de Janeiro (RJ), 25/06/2024 - Renata Monteiro, 47 anos, funcionária pública, na feira livre do Largo do Machado, zona sul da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Rena­ta Mor­eira sente toda sem­ana o desafio que é man­ter o poder de com­pra — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Prestes a sair da feira do Largo do Macha­do, na zona sul do Rio de Janeiro, a servi­do­ra públi­ca Rena­ta Mor­eira, 47 anos, sente toda sem­ana o desafio da manutenção do poder de com­pra do real, que com­ple­ta 30 anos nes­ta segun­da-feira (1º). Cada vez mais a mes­ma quan­tia com­pra menos. “Com R$ 100, eu saía com pelo menos seis ou sete saco­las do mer­ca­do. Hoje em dia, sai com ape­nas uma. Fui ao hor­tifru­ti anteon­tem e gastei R$ 70. E nem com­prei tan­ta coisa”, con­sta­ta.

A redução do car­rin­ho de com­pras é sin­toma da inflação acu­mu­la­da nos últi­mos anos. De jul­ho de 1994, mês da cri­ação do real, a maio de 2024, a inflação ofi­cial pelo Índice Nacional de Preços ao Con­sum­i­dor Amp­lo (IPCA) acu­mu­la 708,01%, segun­do o Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE). Isso sig­nifi­ca que R$ 1 na cri­ação do real valem R$ 8,08 atual­mente. Ou que é pre­ciso gas­tar R$ 100 hoje para com­prar o mes­mo que R$ 12,38 com­pravam há três décadas.

Rio de Janeiro (RJ), 25/06/2024 - Marina de Souza, 80 anos, aposentada, na feira livre do Largo do Machado, zona sul da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Mari­na de Souza sente grad­ual­mente seu din­heiro per­den­do val­or — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Fre­quen­ta­do­ra da mes­ma feira no Largo do Macha­do, a aposen­ta­da Mari­na de Souza, 80 anos, tam­bém exper­i­men­ta a redução grad­ual do poder de com­pra. “Cada dia a gente vê que eles estão assim, aumen­tan­do os preços aos poucos. Todo mês, vêm R$ 2 a mais. Aí vai soman­do para você ver, né? E assim é que eles tiram da gente. O tomate, a banana, o arroz, que dava para faz­er uma boa feira com R$ 50, hoje não faz mais. Uma fol­hagem, que cus­ta­va R$ 1 há dez anos, hoje cus­ta R$ 4”, recla­ma. Ela sente que, de um ano para cá, o prob­le­ma piorou.

No aniver­sário de 30 anos, o real enfrenta o desafio de man­ter o poder de com­pra, num cenário de inflação glob­al cres­cente. “A inflação alta no pós-pan­demia [de covid19] é per­feita­mente explicáv­el e abrange todo o plan­e­ta. Tive­mos prob­le­mas sérios, de rompi­men­to de cadeias pro­du­ti­vas, uma mudança geopolíti­ca mundi­al, com guer­ras region­ais, e mudanças climáti­cas que pres­sion­am prin­ci­pal­mente a ofer­ta de ali­men­tos”, expli­ca a pro­fes­so­ra de econo­mia da Fun­dação Getulio Var­gas (FGV) Virene Matesco.

Econ­o­mista-chefe da Way Inves­ti­men­tos e pro­fes­sor do Ibmec, Alexan­dre Espíri­to San­to diz que a inflação pós-pan­demia é com­plexa, que desafia os Ban­cos Cen­trais em todo o mun­do. “Tive­mos um choque de ofer­ta, com a que­bra de cadeias pro­du­ti­vas no mun­do inteiro que ain­da estão se recom­pon­do. Além dis­so, os ban­cos cen­trais inje­taram muito din­heiro na econo­mia glob­al, din­heiro que ain­da está cir­cu­lan­do. A inflação no pós-pan­demia tem várias causas e ain­da vai durar muito tem­po”, diz.

Salários

Out­ra maneira de inter­pre­tar a inflação acu­mu­la­da de 708,01% seria diz­er que o real perdeu 87,62% do val­or em 30 anos. Isso, no entan­to, não quer diz­er que a pop­u­lação ten­ha fica­do mais pobre na mes­ma pro­porção. Isso porque o poder de com­pra é definido não ape­nas pelo nív­el de preços, mas tam­bém pela ele­vação dos salários.

“A inflação depende de muitos fatores. No médio e no lon­go pra­zo, a econo­mia se adap­ta às vari­ações, inclu­sive à alta recente do câm­bio que esta­mos exper­i­men­tan­do. Existe a reposição dos salários e a inter­ação do preço de um insumo com o restante da cadeia pro­du­ti­va”, diz o econ­o­mista Lean­dro Horie, do Depar­ta­men­to Inter­sindi­cal de Estatís­ti­ca e Estu­dos Socioe­conômi­cos (Dieese).

Na práti­ca, a reposição do poder de com­pra é influ­en­ci­a­da pelo cresci­men­to econômi­co. Em momen­tos de expan­são da econo­mia e de que­da do desem­prego, os tra­bal­hadores têm mais poder para nego­ciar rea­justes salari­ais. Segun­do o Dieese, 77% das nego­ci­ações salari­ais resul­taram em aumen­to real (aci­ma da inflação) em 2023. Até maio deste ano, o per­centu­al subiu para 85,2%. Com os rea­justes aci­ma da inflação, os preços se esta­b­ele­cem num nív­el mais alto, sem a pos­si­bil­i­dade de retornarem aos níveis ante­ri­ores.

Rio de Janeiro (RJ), 25/06/2024 - Feira livre do Largo do Machado, zona sul da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 25/06/2024 — Feira livre do Largo do Macha­do, zona sul da cidade. Foto — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Novos instrumentos

Em relação à inflação no pós-pan­demia, o econ­o­mista do Dieese con­cor­da com a com­plex­i­dade do prob­le­ma e diz que os instru­men­tos atu­ais de políti­ca mon­etária, como juros altos, têm sido insu­fi­cientes para segu­rar o aumen­to de preços. Isso porque a inflação não decorre ape­nas de exces­so de deman­da, mas de choques exter­nos sobre a econo­mia, como tragé­dias climáti­cas e ten­sões geopolíti­cas.

“No regime atu­al de metas de inflação, o Ban­co Cen­tral atua como se a inflação fos­se mera­mente de deman­da e ele­van­do juros para reprim­ir a deman­da inter­na. Só que a inflação, prin­ci­pal­mente nos tem­pos atu­ais, é de uma natureza de choque de ofer­ta, que a gente chama. A grande questão que tem de ser colo­ca­da, em nív­el glob­al, é que out­ras for­mas os gov­er­nos podem usar para segu­rar os preços, até porque a inflação envolve cen­te­nas de itens”, diz Horie.

Ao lon­go de três décadas, o real enfren­tou três picos de inflação anu­al de dois dígi­tos. O primeiro em 2002, quan­do o IPCA ficou em 12,53%, influ­en­ci­a­do pelas eleições pres­i­den­ci­ais daque­le ano. O segun­do ocor­reu em 2015, quan­do o índice atingiu 10,67%, após a reti­ra­da de sub­sí­dios sobre a ener­gia. O mais recente foi em 2021, quan­do a inflação encer­rou em 10,06%, após a fase mais agu­da da pan­demia de covid-19.

Perspectivas

Em 2024, a inflação começou o ano em desacel­er­ação. O IPCA, que acu­mula­va 4,51% nos 12 meses ter­mi­na­dos em janeiro, caiu para 3,69% nos 12 meses ter­mi­na­dos em abril. O índice, no entan­to, aceler­ou para 3,93% nos 12 meses ter­mi­na­dos em maio, por causa do impacto das enchentes no Rio Grande do Sul e da seca na região cen­tral do país. Para os próx­i­mos meses, a pre­visão é de novas altas, com alguns preços influ­en­ci­a­dos pela recente alta do dólar.

Rio de Janeiro (RJ), 25/06/2024 - Lucas de Andrade, 40 anos, produtor audiovisual, na feira livre do Largo do Machado, zona sul da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Lucas de Andrade sabe que muito da inflação é efeito da pan­demia de covid-19– Tânia Rêgo/Agência Brasil

Alheios às oscilações econômi­cas e aos debates teóri­cos, os con­sum­i­dores sen­tem os efeitos da inflação no bol­so. “A gente sabe que muito da inflação é um efeito colat­er­al da pan­demia, que vai rever­beran­do ao lon­go de toda a cadeia, mas acho que a comi­da, os bens de con­sumo em ger­al e os serviços tam­bém aumen­taram. Está tudo um pouco mais caro no ger­al. Todo mun­do vai aumen­tan­do o preço para ten­tar sobre­viv­er e con­seguir pagar o resto. As con­tas tam­bém”, diz o pro­du­tor audio­vi­su­al Lucas de Andrade, 40 anos.

Tam­bém cliente da feira do Largo do Macha­do, Lucas diz ter con­stata­do uma difer­ença notáv­el nos preços após voltar do Canadá, onde morou entre 2019 e 2021. “Estive fora do país, voltei e achei os preços bem absur­dos, com­para­n­do com a nos­sa real­i­dade de poder aquis­i­ti­vo no país, enfim, toda a desigual­dade que a gente vive”, opina.

*Matéria alter­a­da às 11h47 para acrésci­mo de infor­mações.

Edição: Aline Leal

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