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Rincon Sapiência oferece oportunidades para jovens talentos do rap

Repro­du­ção: © Arte sobre foto de Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Rapper diz que trabalho envolve ajuda mútua, esforço e criatividade


Publi­ca­do em 16/11/2023 — 07:30 Por Dani­el Mel­lo — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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Arte Vozes do Hip Hop 50 anos - Entrevista Soberana Ziza. Arte: EBC

Sem dei­xar de lado o tra­ba­lho auto­ral, o rap­per Rin­con Sapi­ên­cia tem se dedi­ca­do a apoi­ar jovens talen­tos da zona les­te pau­lis­ta­na, onde nas­ceu e cres­ceu. “É uma opor­tu­ni­da­de que eu não tive, de sair andan­do de casa e ir para um estú­dio, no qual eu pos­sa pro­du­zir, gra­var, pas­sar minhas vozes. Isso aí eu não tinha con­di­ção”, con­ta o artis­ta sobre a estru­tu­ra que bus­ca for­ne­cer aos novos MCs.

Essa for­ma de cons­tru­ção, com aju­da mútua, esfor­ço e cri­a­ti­vi­da­de, ape­sar das situ­a­ções nem sem­pre favo­rá­veis, é tam­bém, segun­do Rin­con, par­te do hip hop.

“Se você pegar as minú­ci­as da his­tó­ria da cul­tu­ra, sem­pre tem alguém agin­do, empre­en­den­do, fazen­do acon­te­cer. Então, a ideia hip hop é mui­to impor­tan­te para o jovem de peri­fe­ria”, enfa­ti­zou duran­te a gra­va­ção do pro­gra­ma Cami­nhos da Repor­ta­gem, da TV Bra­sil.

Rin­con con­ta que ain­da tra­ba­lha­va no setor de tele­mar­ke­ting, quan­do lan­çou, em 2009, o sin­gle Ele­gân­cia. Com o suces­so, deci­diu aban­do­nar os tra­ba­lhos for­mais e focar na car­rei­ra musi­cal. A can­ção, que saiu acom­pa­nha­da de um vide­o­cli­pe, explo­ra a impor­tân­cia da moda e do esti­lo para a cul­tu­ra hip hop e para os jovens de peri­fe­ria. “É sobre auto­es­ti­ma tam­bém, é sobre esté­ti­ca tam­bém”, defen­de a res­pei­to do papel que esses ele­men­tos têm na for­ma­ção da auto­es­ti­ma da juven­tu­de.

São Paulo (SP), 10/11/2023 - O rapper Rincon Sapiência, que lançou os álbuns Galanga Livre e Mundo Manicongo, fala sobre a cultura Hip Hop. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: “Meu tra­ba­lho não fun­ci­o­na se eu não esti­ver conec­ta­do com a que­bra­da”, diz Rin­con Sapi­ên­cia — Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Cone­xão que acon­te­ce, na visão do artis­ta, por­que são as peri­fe­ri­as que aces­sam cada vez mais os recur­sos de pro­du­ção, que têm deter­mi­na­do os rumos do hip hop. “Quem indi­ca as ten­dên­ci­as, o esti­lo de pro­du­ção, a gira do momen­to, o que está sen­do fei­to, são os artis­tas da que­bra­da”, enfa­ti­za.

O con­tex­to atu­al tam­bém pede novas for­mas de comu­ni­ca­ção, na opi­nião do artis­ta, espe­ci­al­men­te para tra­tar de temas his­to­ri­ca­men­te pelo rap, como a denún­cia das con­di­ções soci­ais. “Há espa­ço, sim, à crí­ti­ca soci­al, a tra­zer infor­ma­ção para as pes­so­as, mas des­de que essa infor­ma­ção seja leva­da de fato às pes­so­as, que não seja algo que pare­ça que você quer impor algo que você quer, que soe mora­lis­ta”, ava­lia.

Con­fi­ra os prin­ci­pais tre­chos da entre­vis­ta com Rin­con Sapi­ên­cia.

Agên­cia Bra­sil: Na músi­ca Pon­ta de Lan­ça, você can­ta: “A depen­der de mim, a cul­tu­ra MC ain­da vive”. Eu que­ria saber como é que você entrou nes­sa cul­tu­ra, que MCs te influ­en­ci­a­ram para ser um mes­tre de cerimô­nia?
Rin­con Sapi­ên­cia: Eu me conec­tei com a cul­tu­ra hip hop des­de cri­an­ça, por con­ta do meu irmão mais velho, que sem­pre ouvia rap, a cul­tu­ra que tem os qua­tro ele­men­tos, e eu me apai­xo­nei pelos qua­tro ele­men­tos. O DJ era um pou­co mais difí­cil, por con­ta de equi­pa­men­tos e esse tipo de coi­sa. Mas, eu fazia gra­fi­te, ten­ta­va dan­çar bre­ak e prin­ci­pal­men­te gos­ta­va de com­por, de escre­ver. Foi a par­te que eu mais con­se­gui me desen­vol­ver tam­bém.

O rap­per que me influ­en­ci­ou inclu­si­ve a dar car­rei­ra de MC foi o Xis, isso [em] mea­dos de 99, por con­ta do dis­co dele Seja como For. Ele tinha lan­ça­do a músi­ca De Esqui­na, que já tinha fei­to minha cabe­ça. Eu ama­va essa músi­ca, amo. Quan­do saiu o dis­co, eu ado­rei mais ain­da, aí saiu o vide­o­cli­pe com ima­gens na minha que­bra­da, na Cohab – 1 [con­jun­to habi­ta­ci­o­nal cons­truí­do pelo gover­no esta­du­al], aí eu gos­tei mui­to. Os Raci­o­nais tam­bém, obvi­a­men­te, for­ma­ram mui­to o nos­so cará­ter, a gen­te que é de que­bra­da. Mas, quan­do eu vi os Raci­o­nais eu sen­ti uma cer­ta dis­tân­cia do que eles fala­vam, da pro­fun­di­da­de, com a minha ida­de, que eu tinha 15 anos e tudo mais. Então, o Xis foi o cara que eu con­se­gui visu­a­li­zar que eu pode­ria fazer rap, falar de outras coi­sas, de outras for­mas dife­ren­tes e por aí foi.

Quan­do eu falo da cul­tu­ra do MC, é de valo­ri­zar o mes­tre de cerimô­nia, aque­le que ten­ta dar seu melhor, apre­sen­tar téc­ni­cas de rima, que quer botar pra que­brar em cima do pal­co, que gos­ta de inte­ra­gir com o públi­co, que se movi­men­ta, que cha­ma aten­ção exer­cen­do a fun­ção de MC.

Agên­cia Bra­sil: Qual papel você acha que a bata­lha de rima tem na for­ma­ção do MC?
Rin­con Sapi­ên­cia: Eu peguei mui­to o fre­esty­le, mas não neces­sa­ri­a­men­te bata­lhas, era um momen­to onde a gen­te fazia ses­sões de fre­esty­le, prin­ci­pal­men­te no cen­tro de São Pau­lo, mea­dos… Nos­sa, vou ser ruim com a data, tal­vez 2003, 2004, quan­do tinha, na Gale­ria Oli­do, a ban­da Cen­tral Acús­ti­ca, era uma ban­da de três inte­gran­tes, bate­ria, gui­tar­ra, bai­xo. O MC era o Kamal e ele, ale­a­to­ri­a­men­te, con­vi­da­va pes­so­as pra can­tar um tre­cho de algu­ma rima. Era livre, na ver­da­de. Eu esta­va sem­pre lá, as quin­tas-fei­ras, e eu me des­ta­ca­va fazen­do fre­esty­le.

A par­tir dis­so eu me conec­tei com mui­ta gen­te, eu lem­bro quan­do o KL Jay aper­tou a minha mão e falou que eu man­da­va bem. Eu lem­bro os deta­lhes míni­mos, eu cons­truin­do tijo­li­nho por tijo­li­nho. Lógi­co que eu já can­ta­va antes dis­so, mas essa épo­ca foi uma épo­ca que eu con­se­gui apa­re­cer. A gen­te não tinha con­di­ção de gra­var, então fazer fre­esty­le era uma for­ma de a gen­te apa­re­cer, por­que você não pre­ci­sa­va ter uma gra­va­ção, era uma for­ma de a gen­te per­for­mar, can­tar e con­se­guir mos­trar o tra­ba­lho.

Com a cres­cen­te das bata­lhas, logo em segui­da veio o perío­do da [Esta­ção] San­ta Cruz, o [rap­per] Emi­ci­da, que se des­ta­cou mui­to, entre outros rap­pers tam­bém. Essa fase tal­vez seja o momen­to em que esta­va mais efer­ves­cen­te essa ideia de bata­lhas. Eu apoio mui­to, por­que ima­gi­no que, para mui­ta gen­te des­sa épo­ca, foi uma for­ma de ter o seu pri­mei­ro con­ta­to com o rap, de poder can­tar e tam­bém de poder assis­tir. Por­que é algo na rua, é algo que é na voz ali, é só você colar, trom­bar, rapa­zi­a­da, aque­la coi­sa toda assim. Eu sou um cara que, por mais que não tenha o hábi­to de fre­quen­tar, apoia mui­to essa ideia das bata­lhas e acho que é mui­to neces­sá­rio pra cul­tu­ra.

Agên­cia Bra­sil: Você tro­cou em dois pon­tos inte­res­san­tes. Você falou des­sa impor­tân­cia des­sa cena do cen­tro, você esta­va ali na Gale­ria Oli­do, per­to de outros pon­tos, como a 24 de Maio, São Ben­to, que são pon­tos que têm impor­tân­cia his­tó­ri­ca na cul­tu­ra hip hop da cida­de de São Pau­lo. Mas você tam­bém falou que você sen­tia impor­tân­cia de falar da que­bra­da, de ver a que­bra­da repre­sen­ta­da na músi­ca. Como é que a que­bra­da está no seu tra­ba­lho, está nas suas can­ções?
Rin­con Sapi­ên­cia: São perío­dos. Esse perío­do do iní­cio dos anos 2000 foi um perío­do onde os gran­des expo­en­tes do rap que a gen­te conhe­ce aca­ba­ram dan­do um tem­po, os gru­pos fica­ram um tem­po sem lan­çar músi­cas. Então aque­les nomes de refe­rên­cia, que eram extre­ma­men­te influ­en­tes nos anos 1990, nos anos 2000, tive­ram essa vira­da. Então, o rap tam­bém se refor­mu­lou no que diz sen­ti­do à esté­ti­ca, ao dis­cur­so, e aca­bou mudan­do tam­bém a área de atu­a­ção, se tor­nou um movi­men­to um pou­co menor e aca­bou se con­cen­tran­do no cen­tro duran­te um perío­do.

Mas, com toda essa vira­da, o rap aca­bou ganhan­do uma pro­por­ção que está des­de o under­ground na rua até o gran­de mer­ca­do da músi­ca. Vide os artis­tas aí que alcan­çam núme­ros incrí­veis nes­se pro­ces­so. Já faz alguns anos que a que­bra­da está mui­to conec­ta­da, está mui­to infor­ma­da, aces­san­do inter­net. Está ten­do recur­sos tam­bém de pro­du­ção musi­cal, de poder gra­var e fazer as coi­sas. O momen­to do rap é a que­bra­da, por mais que você pos­sa falar: “Mas eu fui para tal even­to, tinha o pes­so­al de uma outra clas­se soci­al.” Ok, mas a base, quem indi­ca as ten­dên­ci­as, o esti­lo de pro­du­ção, a gira do momen­to, o que está sen­do fei­to, são os artis­tas da que­bra­da.

O fato de eu estar pró­xi­mo da que­bra­da, onde eu sou nas­ci­do e cri­a­do, e, natu­ral­men­te, já é minha natu­re­za. Tam­bém pró­xi­mo de outros artis­tas, tem fei­to eu con­se­guir me reno­var mui­to, eu con­se­guir me man­ter conec­ta­do com o que está acon­te­cen­do. É o que está me fazen­do con­ti­nu­ar pro­du­ti­vo tam­bém. Eu diria que meu tra­ba­lho não fun­ci­o­na se eu não esti­ver conec­ta­do com a que­bra­da.

Ago­ra, a gen­te tem uma cena de rap indí­ge­na, tem gen­te pro­du­zin­do a par­tir da temá­ti­ca LGBT, da sua pró­pria rea­li­da­de. Como é que você vê aí o rap e o hip hop nes­sa ques­tão da plu­ra­li­da­de de vozes? Qual­quer movi­men­to cul­tu­ral come­ça de uma for­ma, mas ele muda de acor­do com a soci­e­da­de. E a ideia prin­ci­pal, ima­gi­no eu, do iní­cio da cul­tu­ra hip hop foi essa plu­ra­li­da­de. Ele come­ça com os pre­tos, com a músi­ca pre­ta, com a influên­cia do sound sys­tem da Jamai­ca. O DJ Kool Herc fez uma fes­ta, que eles cha­mam de block party, uma fes­ta na rua. É uma cul­tu­ra pre­ta, mas, pelo fato de estar na que­bra­da, aca­bou con­tem­plan­do os lati­nos tam­bém, aca­bou con­tem­plan­do que a vida do imi­gran­te fora do seu país sem­pre é uma luta tam­bém, de algu­ma for­ma.

Ele [o hip hop] sem­pre con­tem­plou aque­les menos ouvi­dos, menos repre­sen­ta­dos. E eu acho que nos dias de hoje esse recor­te tá tam­bém den­tro do LGBT, dos indí­ge­nas. Eu acho que o hip hop pre­ci­sa ser um supor­te tam­bém pra essas pes­so­as. Eu acho neces­sá­rio.

Vozes Hip Hop arte
Repro­du­ção: @Agência Bra­sil

 

Agên­cia Bra­sil: Em Ele­gân­cia, que, jun­to com o vide­o­cli­pe, foi o pri­mei­ro tra­ba­lho seu a ganhar gran­de reper­cus­são, você fala que “pre­to for­ma­do, sem­pre peri­go­so, paga um pou­co nos panos, mas é vai­do­so”. Tra­zer auto­es­ti­ma para a juven­tu­de pre­ta e peri­fé­ri­ca tam­bém é uma for­ma de enfren­tar o racis­mo?
Rin­con Sapi­ên­cia: Com cer­te­za, por­que o hip hop no iní­cio aqui no Bra­sil pegou mui­to nes­sa veia, que foi mui­to impor­tan­te, inclu­si­ve, ele pegou mui­to essa veia soci­al. Mui­ta influên­cia dos movi­men­tos pre­tos de fora do Bra­sil, do Black Panther [Pan­te­ras Negras, ati­vis­tas con­tra o racis­mo nos EUA]. Tinha as ban­das tam­bém que can­ta­vam isso, Public Enemy [gru­po de rap nor­te-ame­ri­ca­no] e tudo mais.

Mas par­te dos sig­nos do hip hop tam­bém envol­ve o com­por­ta­men­to, a ati­tu­de e a auto­es­ti­ma tam­bém. Tan­to é que você vai ver uma foto anti­ga dos anos 1990, 1980, eles estão sem­pre posan­do, sem­pre aque­la mar­ra, sem­pre aque­le esti­lo de rou­pa. É sobre auto­es­ti­ma tam­bém, é sobre esté­ti­ca tam­bém. Não é somen­te isso, mas é sobre as cor­ren­tes, o ouro, a pos­tu­ra, o jei­to que dan­ça, a mar­ra, o jei­to que posa, que anda, que se com­por­ta. Então, tra­zer auto­es­ti­ma, fazen­do hip hop, é você fazer hip hop.

Agên­cia Bra­sil: Você acha que o hip hop tam­bém tem um lugar de abrir pos­si­bi­li­da­des para essa juven­tu­de peri­fé­ri­ca, abrir hori­zon­tes?
Rin­con Sapi­ên­cia: É uma for­ma de abrir pos­si­bi­li­da­des, sim. Por­que é isso, o hip hop tem os qua­tro ele­men­tos — DJ, MC, o bre­ak, o gra­fi­te — mas eu acre­di­to mui­to que o hip hop é uma ideia. Essa ideia do faça você mes­mo, de você não depen­der. Eles [pio­nei­ros da cul­tu­ra] não tinham, por exem­plo, con­di­ção de mon­tar uma ban­da com bate­ria, tudo. Eles pega­vam tre­chos livres de algu­ma músi­ca, fazi­am esse tre­cho se repe­tir, usa­vam isso pra dan­çar, pra can­tar em cima. Não tinha um lugar pra expor seus qua­dros, sua arte, uma gale­ria. Eles iam pra rua, para o trem, gra­fi­ta­vam e tal, dan­ça­vam na rua.

A ideia de fazer acon­te­cer por você mes­mo é hip hop. De você cres­cer e tra­zer alguém pra per­to de você, isso é hip hop tam­bém. Para além do que é deter­mi­na­do como qua­tro ele­men­tos, ser hip hop é você empre­en­der, você aju­dar seu par­cei­ro, você fazer algu­ma coi­sa pelo seu par­cei­ro, você fazer algu­ma coi­sa pela sua que­bra­da, você tra­zer a auto­es­ti­ma, é você se empo­de­rar de algu­ma for­ma. Se você pegar des­de o iní­cio, sem­pre tem alguém que puxou a pri­mei­ra fes­ta, tem alguém que levou o mate­ri­al de tal artis­ta para uma deter­mi­na­da gra­va­do­ra e con­se­gui­ram lan­çar. Se você pegar as minú­ci­as da his­tó­ria da cul­tu­ra, sem­pre tem alguém agin­do, empre­en­den­do, fazen­do acon­te­cer. Então, a ideia hip hop é mui­to impor­tan­te para o jovem de peri­fe­ria.

Agên­cia Bra­sil: A crí­ti­ca soci­al esta­va ali na ori­gem do rap, do hip hop, mas depois a gen­te vai se expan­din­do, abrin­do esse leque de pos­si­bi­li­da­des. Mas, hoje, a crí­ti­ca soci­al ain­da tem lugar no rap con­tem­po­râ­neo?
Rin­con Sapi­ên­cia: Eu acho que a soci­e­da­de con­tem­po­râ­nea em si se dis­põe menos a falar sobre. Tal­vez a ideia soci­al, hoje em dia, ela é apli­ca­da de uma for­ma dife­ren­te do que era apli­ca­da antes. Eu acre­di­to que tenha espa­ço, sim, des­de que você con­si­ga esta­be­le­cer um con­ta­to, um diá­lo­go com as pes­so­as. O que eu pen­so é que alguns dis­cur­sos, da for­ma que era fei­ta anos atrás, para se comu­ni­car com os jovens hoje em dia, são um pou­co dife­ren­te. Então, acho que achan­do essa veia de falar com os jovens, de esta­be­le­cer um con­ta­to, uma comu­ni­ca­ção com eles, acho que é pos­sí­vel.

Acho que tam­bém essa mani­fes­ta­ção soci­al tal­vez ela já este­ja acon­te­cen­do, mas com outros dis­cur­sos, com uma outra for­ma de ser, de rebel­dia, vamos dizer assim, de outras manei­ras. Mas eu acre­di­to que há espa­ço, sim, à crí­ti­ca soci­al, a tra­zer infor­ma­ção para as pes­so­as, mas des­de que essa infor­ma­ção seja leva­da de fato às pes­so­as, que não seja algo que pare­ça que você quer impor algo que você quer, que soe mora­lis­ta. Às vezes, quan­do a gen­te não toma cui­da­do, pare­ce que você é o pai cha­to, aque­le cara, não, isso aí não, não sei o que e tal. Tem que saber con­ver­sar com os jovens e com as pes­so­as no geral. Acer­tan­do isso, essa comu­ni­ca­ção, nos dias de hoje, é pos­sí­vel, sim, tra­zer esse dis­cur­so.

Agên­cia Bra­sil: Hoje, o que te inte­res­sa aí no rap e no hip hop? No que você tá tra­ba­lhan­do hoje?
Rin­con Sapi­ên­cia: Eu con­ti­nuo fazen­do minhas coi­sas, pro­du­zin­do. Me sin­to ain­da ins­pi­ra­do a pro­du­zir, a com­por, a falar, a gra­var e tudo. Tenho fei­to meus tra­ba­lhos, tenho tido uma expe­ri­ên­cia nova, que é de agên­cia artis­ta. A gen­te está tra­ba­lhan­do com três artis­tas aqui da que­bra­da, são dois MCs, o Bre­no­ve e o Fran­ça e um pro­du­tor musi­cal que se cha­ma Hiroshi. Todos eles aqui da região, da que­bra­da e todos eles mui­to talen­to­sos, todos eles jovens.

Quan­do eu digo jovens, a gen­te já tem uma for­ma jovem de se por­tar, de se comu­ni­car, de fazer a músi­ca, de falar. Então, não seria uma exten­são do Rin­con e sim novos artis­tas. Eu acho que a gen­te pre­ci­sa dar opor­tu­ni­da­de a novos artis­tas e isso está sen­do bem legal, sim. Na ver­da­de, se eu tives­se ain­da mais recur­sos, eu esta­ria agre­gan­do mui­to mais artis­tas além deles três. Por­que conhe­ço mui­ta gen­te talen­to­sa aqui na região. Eu acho que eu me ins­pi­ro, con­ti­nuo ins­pi­ra­do a dizer coi­sas por con­ta das minhas expe­ri­ên­ci­as pes­so­ais mes­mo, mas essa ener­gia jovem tam­bém que eu vejo neles, musi­cal­men­te tam­bém, me ins­pi­ra mui­to tam­bém.

Agên­cia Bra­sil: Quan­do você deci­de apoi­ar esses jovens, você pen­sa em apoi­os que você teve no pas­sa­do? Você acha que teve figu­ras que foram impor­tan­tes pra você no pas­sa­do pra você che­gar onde você che­gou hoje?
Rin­con Sapi­ên­cia: Eu tive figu­ras ins­pi­ra­do­ras. Des­de pes­so­as que eu não conhe­ço, como Xis , Raci­o­nais, Cons­ci­ên­cia Huma­na, o De Menos Cri­me, o Sis­te­ma Negro, que me ins­pi­ra­vam mui­to, até gru­pos da região, o Raci­o­cí­nio Negro, o De Olho no Cri­me, Con­tra Sis­te­ma, o Men­tes Cri­mi­nais, o Códi­go 44, o Fac­ção X, mui­to gru­po aqui da região. Eu mui­to novo, eles já mais velhos, fazen­do as coi­sas me ins­pi­ra­ram mui­to.

Mas, de toda for­ma, para eu ter aces­so a com­pu­ta­do­res, pro­du­ção musi­cal e vári­as coi­sas, eu sem­pre tinha que sair da que­bra­da, ir até um ami­go na zona nor­te, no cen­tro ou em outra região, que não fos­se a Cohab 1. Quan­do eu vejo vári­os artis­tas da Cohab 1, mui­to bons, talen­to­sos, o que eu pen­so? Que eu pos­so dar opor­tu­ni­da­de para eles terem o melhor deles, mas sem pre­ci­sar sair e ir lá para não sei aon­de para fazer a para­da deles. Acho que a gen­te pode con­cen­trar por aqui mes­mo e con­ti­nu­ar fazen­do as coi­sas. Isso é uma opor­tu­ni­da­de que eu não tive. De sair andan­do de casa e ir para um estú­dio do qual eu pos­sa pro­du­zir, gra­var, pas­sar minhas vozes, isso aí eu não tinha con­di­ção.

A gen­te tem o nos­so QG, que é aqui pró­xi­mo tam­bém, e os mole­ques ficam lá dire­to, pro­du­zin­do, gra­van­do e estão com a men­te fres­ca. O rit­mo deles de pro­du­ção é incrí­vel, de fazer músi­ca toda sema­na. Toda hora man­dan­do no What­sApp escu­ta essa, escu­ta essa. Toda hora sai coi­sa nova e eu fico feliz por isso. Lógi­co que é um tra­ba­lho de for­mi­gui­nha, ain­da não somos aque­la pro­du­to­ra com um apor­te enor­me, mas a gen­te se vê com o recur­so de poder pro­por­ci­o­nar a par­te artís­ti­ca, pelo menos, que é de eles gra­va­rem, roda­rem o vide­o­cli­pe, colo­ca­rem as para­das na rua. Então, mui­to em bre­ve, a gen­te vai estar colo­can­do na rua e apre­sen­tan­do o tra­ba­lho deles por aí.

Agên­cia Bra­sil: O que você vê hoje como mar­cos na sua car­rei­ra?
Rin­con Sapi­ên­cia: Tive­ram dois for­tes. O pri­mei­ro é o Ele­gân­cia [lan­ça­men­to da músi­ca e vide­o­cli­pe], que é quan­do eu saio do tele­mar­ke­ting e vejo um cami­nho na músi­ca. Falo: “Ó, tem cami­nho, músi­ca tem cami­nho”. Eu paro de tram­par for­mal­men­te e come­ço a inves­tir, tra­ba­lhar com arte, ganhar o dinhei­ro, mes­mo pou­co, com músi­ca. O [sin­gle] Pon­ta de Lan­ça é quan­do esse pro­je­to meio que dá cer­to, quan­do fir­ma. É quan­do eu come­ço a fazer shows de fato, ter agen­da, ter equi­pe, ter um tra­ba­lho mais estru­tu­ra­do.

Agên­cia Bra­sil: Você usa diver­sos sím­bo­los de reli­gião afro-bra­si­lei­ra, qual papel a espi­ri­tu­a­li­da­de tem no seu tra­ba­lho?
Rin­con Sapi­ên­cia: Tem um papel for­te, por­que eu me aden­tro na reli­gião de fato, como um filho, mui­to recen­te­men­te. É de dois anos pra cá, na pan­de­mia, me tor­no filho mes­mo. Antes eu era um estu­dan­te de livros, sim­pa­ti­zan­te. Mas, [hoje], enten­den­do algu­mas coi­sas, ela já agia des­de antes na minha vida. A minha cabe­ça, o meu ori­xá de cabe­ça, tudo isso já atu­a­va na minha vida, na par­te artís­ti­ca tam­bém. Eu que des­co­nhe­cia. Con­for­me eu fui me aden­tran­do, fui ven­do a influên­cia que tinha.

Assista na TV Brasil ao Caminhos da Reportagem sobre hip hop:

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

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