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Rio Grande do Sul quer evitar que doenças se alastrem após enchentes

Repro­dução: © Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Águas das chuvas destruíram inúmeros medicamentos


Publicado em 19/06/2024 — 09:34 Por Douglas Corrêa — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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O Rio Grande do Sul, atingi­do pelas enchentes dos últi­mos 45 dias, tem tra­bal­ha­do para evi­tar que doenças como a tuber­cu­lose se alas­trem e atin­jam a pop­u­lação que pas­sou várias sem­anas con­viven­do com o frio e alaga­men­tos.

O hos­pi­tal sanatório Pater­non, da rede estad­ual de saúde, é refer­ên­cia no trata­men­to da doença. A coor­de­nado­ra do Pro­gra­ma Estad­ual de Con­t­role da Tuber­cu­lose da Sec­re­taria de Esta­do e Saúde, Car­la Jar­czews­ki, ado­tou providên­cias jun­to a abri­gos para o con­t­role da doença.

“A gente sabe que a situ­ação de aglom­er­ação favorece o con­tá­gio. Des­de o iní­cio da enchente temos acen­tu­a­do muito a bus­ca de quem tem sin­tomas res­pi­ratórios, tosse, suores noturnos, fal­ta de apetite e ema­grec­i­men­to, que são car­ac­terís­ti­cas do nos­so sin­tomáti­co res­pi­ratório, prin­ci­pal­mente a tosse, com ou sem catar­ro. Essas pes­soas, quan­do iden­ti­fi­cadas que têm o diag­nós­ti­co feito, e enquan­to aguardam, elas devem usar más­cara comum para não con­t­a­m­i­nar out­ras pes­soas”, expli­cou.

Acres­cen­tou que “muitas pes­soas que estavam toman­do a med­icação [con­tra tuber­cu­lose] no domicílio acabaram per­den­do o remé­dio. Assim como perder­am a casa, ficaram sem os doc­u­men­tos e medica­men­tos. Assim, foi pedi­do para rein­sti­tuir a med­icação, no menor espaço de tem­po pos­sív­el”, expli­cou”.

“A aglom­er­ação favorece o con­tá­gio. Nós, des­de o iní­cio das enchentes, temos [pri­or­iza­do] muito a bus­ca de quem tem sin­tomas res­pi­ratórios, tosse, expec­to­ração, suores noturnos, fal­ta de apetite, ema­grec­i­men­to, que são car­ac­terís­ti­cas do nos­so sin­tomáti­co res­pi­ratório, prin­ci­pal­mente a tosse, com ou sem catar­ro. Essas pes­soas, quan­do iden­ti­fi­cadas com o seu diag­nós­ti­co, elas devem usar más­cara comum para não con­t­a­m­i­nar out­ras pes­soas”, frisou Car­la.

Para ela, ain­da é muito cedo para se iden­ti­ficar se a situ­ação das enchentes no Rio Grande do Sul pode ter aumen­ta­do os casos de tuber­cu­lose no esta­do. Ela esclare­ceu que a tuber­cu­lose é uma doença de noti­fi­cação com­pul­sória, mas como não é uma doença agu­da que ten­ha noti­fi­cação online, muitas vezes o diag­nós­ti­co é feito e demo­ra um pouco para esse dado migrar para o Sis­tema de Infor­mação de Agravos de Noti­fi­cação (Sinan).

“Ain­da é muito cedo. Temos des­de o iní­cio das enchentes 45 dias e ain­da não se pode tra­bal­har com esse tipo de indi­cador. Os números ter­e­mos provavel­mente no fim do ano, quan­do a gente começa a fechar os casos no sis­tema” disse Clara Jar­czews­ki, dire­to­ra téc­ni­ca do Hos­pi­tal Sanatório Pater­non.

População em situação de rua

Os casos de pes­soas em situ­ação de rua com diag­nós­ti­co de tuber­cu­lose no Rio Grande do Sul têm cresci­do des­de 2017, quan­do hou­ve 188 ocor­rên­cias da doença. Esse número vem aumen­tan­do grada­ti­va­mente até 2022 quan­do foram ano­tadas 250 víti­mas, um per­centu­al pouco maior de 5%.

As víti­mas vivem fora do domicílio e “temos mui­ta difi­cul­dade por ser um trata­men­to que dura no mín­i­mo seis meses. Então, é um recorte da nos­sa pop­u­lação mais expos­ta ao baci­lo”.

Essa pes­soa em situ­ação de rua tem 56 vezes mais chances de con­trair tuber­cu­lose do que a pop­u­lação em ger­al. O hos­pi­tal sanatório Pater­non é a reta­guar­da assis­ten­cial do Pro­gra­ma de Con­t­role da Tuber­cu­lose no Rio Grande do Sul.

“Ess­es pacientes nun­ca vão com o trata­men­to até o fim. Nos últi­mos anos, os indi­cadores vêm se com­pli­can­do. Temos casos com piores des­fe­chos, no entan­to, aque­las ocor­rên­cias em que con­seguimos obter suces­so [envolvem] os abor­da­dos por equipes mul­ti­dis­ci­pli­nares”, enfa­ti­zou.

Medicamentos

Car­la disse, ain­da, que as enchentes não atin­gi­ram o depósi­to de medica­men­tos da Sec­re­taria de Saúde. Já  Por­to Ale­gre perdeu muitos medica­men­tos para várias doenças em decor­rên­cia das enchentes. A coor­de­nado­ra afir­mou, tam­bém, que o esta­do repôs o estoque para cidades atingi­das pelas cheias dos rios.

“Nós tive­mos o apoio da esfera fed­er­al que nos envi­ou um quan­ti­ta­ti­vo maior [de remé­dios] porque todas essas med­icações para tuber­cu­lose são encon­tradas uni­ca­mente no SUS [Sis­tema Úni­co de Saúde] e  recebe­mos um reforço do Min­istério da Saúde. Em segui­da, repas­samos para os municí­pios de acor­do com o número de casos noti­fi­ca­dos”, acen­tu­ou.

Controle da tuberculose

No Rio Grande do Sul, a situ­ação epi­demi­ológ­i­ca da tuber­cu­lose se man­tém sob con­t­role. Des­de o iní­cio dos anos 2000, o esta­do tem mais ou menos cin­co mil novas ocor­rên­cias por ano, o que dá uma taxa de incidên­cia em torno de 42 casos por 100 mil habi­tantes.

“O nos­so prob­le­ma aqui é que não con­seguimos levar o trata­men­to até o final, e a nos­sa taxa de cura, na pop­u­lação em ger­al, ain­da é baixa, de 58%. O Min­istério da Saúde e os organ­is­mos inter­na­cionais pre­conizam que, para a doença estar sob con­t­role, dev­eríamos curar 85% da pop­u­lação. Nós aqui temos um número des­fa­voráv­el em ter­mos de taxa de cura, teria de ser mel­hor”, opinou Car­la.

Para a pro­fes­so­ra, pesquisado­ra da Fiocruz e tit­u­lar da Acad­e­mia Nacional de Med­i­c­i­na, Mar­gareth Dal­col­mo, a tuber­cu­lose é uma doença que his­tori­ca­mente tem uma incidên­cia maior em pes­soas em situ­ação de rua por uma questão de adesão.

“O trata­men­to é lon­go, tem que durar no mín­i­mo seis meses, e essas pes­soas migram de um local para out­ro. Elas ten­dem a aban­donar o trata­men­to de maneira muito fre­quente. Assim, para tratar morador de rua há uma logís­ti­ca muito com­plexa e nem todas as sec­re­tarias da saúde têm condições de faz­er. Isto é, levar remé­dios diari­a­mente para pes­soas até porque elas não estão todos os dias nos mes­mos locais. Este é o primeiro prob­le­ma. A incidên­cia é maior e depois porque moradores de rua cos­tu­mam ter out­ras comor­bidades asso­ci­adas. Isso é muito fre­quente”, obser­vou.

Canoas (RS), 21/05/2024 – CHUVAS/ RS - ABRIGO - Abrigo para pessoas atingidas pela enchente, na ULBRA, em Canoas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Repro­dução: Chu­vas desabri­garam mil­hares de pes­soas no Rio Grande do Sul      foto -  Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Para a estu­diosa da tuber­cu­lose, que o que acon­te­ceu no Rio Grande do Sul não foi uma questão especí­fi­ca ape­nas para os moradores de rua, porque o esta­do tem mui­ta gente que está em abri­gos e que vai ficar em abri­gos por uma situ­ação pro­lon­ga­da.

Assim, o pro­gra­ma de tuber­cu­lose do esta­do “é tradi­cional­mente muito efi­ciente, ou seja, tem pes­soas qual­i­fi­cadas, a Sec­re­taria de Saúde cos­tu­ma tra­bal­har de for­ma ade­qua­da, porém, a logís­ti­ca nesse momen­to ficou muito com­plexa com pes­soas que provavel­mente poderão ter inter­rompi­do o trata­men­to porque o remé­dio não é dado de uma vez só, ele é dado diari­a­mente, sem­anal­mente e às vezes men­salmente, depen­den­do da situ­ação de cada paciente. Então, a nos­sa pre­ocu­pação é grande com relação a essas pes­soas que estão em abri­gos”, disse.

Transmissão respiratória

Para a pesquisado­ra, da mes­ma maneira como as víti­mas podem se con­t­a­m­i­nar com out­ras doenças de trans­mis­são res­pi­ratória como, por exem­p­lo, por vírus sin­ci­cial res­pi­ratório, doenças como lep­tospirose podem atin­gir quem está expos­to na água con­t­a­m­i­na­da ou na lama. Isso é muito fre­quente em locais onde há enchentes. A lep­tospirose cau­sou algu­mas mortes no Rio Grande do Sul, disse Mar­gareth Dal­col­mo.

Ela afir­mou, tam­bém, que na tuber­cu­lose pul­monar os sin­tomas mais fre­quentes são febre, tosse, febre nor­mal­mente que ocorre de noite, sudorese notur­na, ema­grec­i­men­to, cansaço e per­da de peso. Se hou­ver, por exem­p­lo, qual­quer sin­toma res­pi­ratório, tosse por secreção por mais de uma sem­ana, deve-se procu­rar um serviço de saúde.

Se hou­ver “qual­quer sin­toma res­pi­ratório como tosse por mais de uma sem­ana [as pes­soas] devem procu­rar um serviço de saúde. É claro que podem ser out­ras coisas tam­bém, podem ser muitas doenças. Elas têm que ir a um serviço de saúde para faz­er o teste rápi­do mol­e­c­u­lar. O diag­nós­ti­co é feito em até 24 horas”, final­i­zou.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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