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Sambódromo do Rio completa 40 anos com evolução de desfiles

Repro­du­ção: © Rafa­el Catarcione/RioTur

Novo palco acabou com incertezas de sambistas e melhorou espetáculo


Publi­ca­do em 10/02/2024 — 09:02 Por Cris­ti­na Índio do Bra­sil – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

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O Sam­bó­dro­mo do Rio com­ple­ta 40 anos em 2024, e o pal­co de apre­sen­ta­ção das esco­las de sam­ba tem mui­ta his­tó­ria que reve­la a alma de sam­bis­tas. Antes da cons­tru­ção da Pas­sa­re­la do Sam­ba, os com­po­nen­tes das esco­las con­vi­vi­am com incer­te­zas até saber onde seria o local dos des­fi­les.

A estreia da dis­pu­ta pelo cam­pe­o­na­to foi na Pra­ça Onze, no cen­tro, em 1932. A esco­lha do local não foi por aca­so. Lá se reu­nia a comu­ni­da­de negra para for­ta­le­cer a cul­tu­ra afri­ca­na. Depois, nas diver­sas mudan­ças, os des­fi­les pas­sa­ram pela Can­de­lá­ria, pelas ave­ni­das Rio Bran­co, Pre­si­den­te Var­gas e Antô­nio Car­los, além da Rua Marquês de Sapu­caí, onde está atu­al­men­te. Em comum, todos esses locais tinham o cen­tro da cida­de.

A esco­lha da área que rece­be­ria as agre­mi­a­ções ao lon­go dos anos não era o úni­co pro­ble­ma. Supe­ra­da essa eta­pa, ain­da havia o trans­tor­no de todo ano com a mon­ta­gem das arqui­ban­ca­das metá­li­cas, acres­ci­da da ansi­e­da­de para ver se seria con­cluí­da a tem­po do car­na­val. Outro fator em comum era o tumul­to no trân­si­to já pro­ble­má­ti­co da capi­tal. Os moto­ris­tas pre­ci­sa­vam ter paci­ên­cia por­que os tra­je­tos eram alte­ra­dos, e tudo só se resol­via quan­do, final­men­te, as estru­tu­ras eram des­mon­ta­das.

Passarela definitiva

Brasília (DF) 20/11/2023 sessão solene em homenagem ao Dia da Consciência Negra na Câmara dos Deputados. Porta-Bandeira, Vilma Nascimento, batizada como o
Repro­du­ção: Vil­ma Nas­ci­men­to diz que pediu ao gover­na­dor Bri­zo­la um local defi­ni­ti­vo para os des­fi­les — Lula Marques/Agência Bra­sil

Ape­sar do cená­rio um tan­to caó­ti­co, as esco­las com­pen­sa­vam o públi­co com gran­des apre­sen­ta­ções. Toda essa con­fu­são ter­mi­nou em 1984, quan­do final­men­te os sam­bis­tas pude­ram ter um lugar para cha­mar de seu. O pedi­do ao gover­no da épo­ca para a cons­tru­ção par­tiu de um casal de sam­bis­tas bem conhe­ci­dos: a len­dá­ria por­ta-ban­dei­ra da Por­te­la Vil­ma Nas­ci­men­to e seu mari­do, Mazi­nho, que mais tar­de teve seu tra­ba­lho de pla­ne­ja­men­to dos des­fi­les reco­nhe­ci­do pela Liga Inde­pen­den­te das Esco­las de Sam­ba do Rio de Janei­ro (Lie­sa), res­pon­sá­vel pelo Gru­po Espe­ci­al, con­si­de­ra­do a eli­te do car­na­val cari­o­ca.

“Todo ano a gen­te fica­va na dúvi­da: tava che­gan­do o car­na­val, e a gen­te não sabia onde ia ser o des­fi­le. Era mui­to pre­o­cu­pan­te. Arma­va e desar­ma­va a arqui­ban­ca­da. Era hor­rí­vel”, comen­tou a por­ta-ban­dei­ra em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil.

Pedido atendido

O des­fi­le no ano de inau­gu­ra­ção do sam­bó­dro­mo teve um gos­to espe­ci­al. “Para mim, foi uma gló­ria. Eu dis­se: ‘estou rea­li­za­da’. Eu e meu mari­do pedi­mos ao [então gover­na­dor do esta­do, Leo­nel] Bri­zo­la, e ele fez. Cada ano que eu entro ali, agra­de­ço a Deus, ao papai do céu. Cada vez que eu boto o pé na ave­ni­da, para mim, é uma ale­gria mui­to gran­de. Des­de os 7 anos eu lido com sam­ba”, comen­tou a por­ta-ban­dei­ra, tam­bém conhe­ci­da como Cis­ne da Pas­sa­re­la.

Vil­ma con­tou que, por meio do ami­go Pedro Valen­te, fez o pedi­do para a cons­tru­ção de um local úni­co para os des­fi­les che­gar ao gover­na­dor Bri­zo­la, que gos­tou da ideia e incum­biu o vice, o antro­pó­lo­go e edu­ca­dor Darcy Ribei­ro, de levar a tare­fa adi­an­te. O resul­ta­do foi um pro­je­to do arqui­te­to Oscar Nie­meyer, inau­gu­ra­do com capa­ci­da­de para rece­ber 60 mil pes­so­as. “Pedi­mos ao Pedro Valen­te que falas­se com o Bri­zo­la, que era o gover­na­dor na épo­ca. O Bri­zo­la achou bom, e o Darcy fez ali onde é a pas­sa­re­la, mas foi a pedi­do meu e do Mazi­nho”, reve­lou.

Para Vil­ma, outra van­ta­gem do Sam­bó­dro­mo são os ensai­os téc­ni­cos que pre­ce­dem os des­fi­les ofi­ci­ais no car­na­val. “Isso é óti­mo. As esco­las come­çam a se armar no ensaio téc­ni­co. Ali é que dá para ver o que vai dar cer­to ou não. É uma expe­ri­ên­cia. Eu ado­ro o ensaio téc­ni­co. A gen­te tem mui­to con­ta­to com o públi­co. O sam­bis­ta ver­da­dei­ro ado­ra ensaio téc­ni­co”, afir­mou a sam­bis­ta, que, per­to de com­ple­tar 86 anos em junho, não se apre­sen­ta mais como por­ta-ban­dei­ra, mas não per­de um ensaio e mui­to menos um des­fi­le.

Empol­ga­do com a pro­pos­ta, Nie­meyer foi logo aler­ta­do de que pre­ci­sa­ria fazer alte­ra­ções no tra­ça­do para incluir algu­mas carac­te­rís­ti­cas das apre­sen­ta­ções das esco­las, como, por exem­plo, recu­os para a bate­ria. São dois, um logo no iní­cio da pis­ta, antes do Setor 2 o outro entre os seto­res 9 e 11. Ao se pre­pa­rar para a esco­la pisar na ave­ni­da, pri­mei­ro entram os com­po­nen­tes da bate­ria, que já fazem a ale­gria do públi­co do Setor 1, um dos seto­res popu­la­res do Sam­bó­dro­mo.

Significado

A memó­ria mais anti­ga que o car­na­va­les­co da Impe­ra­triz Leo­pol­di­nen­se, Lean­dro Viei­ra, tem do Sam­bó­dro­mo é sua estru­tu­ra arqui­tetô­ni­ca como pal­co para o car­na­val que, ain­da cri­an­ça, via da TV de casa no subúr­bio do Rio. “Pro­por algo que des­fi­la­ria naque­le lugar foi algo mági­co. Eu esta­ria com meu tra­ba­lho, minha gen­te, minhas idei­as, no mes­mo pal­co onde deze­nas de artis­tas de quem sou fã esti­ve­ram e seguem estan­do”, con­tou por meio de men­sa­gem à Agên­cia Bra­sil.

Para Lean­dro Viei­ra, estar à fren­te do enre­do de uma esco­la e ain­da ser cole­ci­o­na­dor de títu­los é se jun­tar a tan­tos outros artis­tas que con­tam his­tó­ri­as do Bra­sil. “Ser cam­peão ali é somar um pou­co da minha tra­je­tó­ria à tra­je­tó­ria de tan­tos outros artis­tas que fize­ram daque­le pal­co o pal­co de suas pro­pos­tas para pen­sar, tra­du­zir e inven­tar um Bra­sil que nos redi­ma das feri­das e nos orgu­lhe enquan­to nação”, afir­mou o car­na­va­les­co,

Lean­dro tem no Gru­po Espe­ci­al tem dois cam­pe­o­na­tos pela Man­guei­ra e um na Impe­ra­triz e, ain­da na mes­ma esco­la, ganhou o títu­lo na Série Ouro, o que per­mi­tiu o retor­no da Impe­ra­triz à eli­te do car­na­val cari­o­ca.

Mudanças

Sambódromo do Rio de Janeiro. Foto: Rafael Catarcione/Riotur

Repro­du­ção: Evo­lu­ção do som e da ilu­mi­na­ção dão mais bri­lho aos des­fi­les da noi­te até o rai­ar do dia — Rafa­el Catarcione/RioTur

O mai­or espe­tá­cu­lo da ter­ra, como são cha­ma­dos os des­fi­les das esco­las de sam­ba do Rio de Janei­ro, foi evo­luin­do com o pas­sar dos anos. O esque­ma de som foi fican­do cada vez mais poten­te para per­mi­tir que toda a esco­la acom­pa­nhas­se o sam­ba de qual­quer setor do enre­do. Jun­to com o som, hou­ve o avan­ço da ilu­mi­na­ção para dar mais bri­lho aos des­fi­les da noi­te até o rai­ar do dia.

“Nenhu­ma esco­la ter­mi­na [o des­fi­le] depois das 5h30 da manhã. Dia escu­ro para todas elas, sem exce­ção. Todas elas obe­de­cem ao regu­la­men­to, e tem pena­li­da­des tam­bém. Se tiver um car­ro que­bra­do é outra coi­sa, aci­den­te de per­cur­so, mas, den­tro da nor­ma­li­da­de, os des­fi­les come­çam e ter­mi­nam na hora cer­ta todos os anos”, infor­mou o pre­si­den­te da Lie­sa, Jor­ge Per­lin­gei­ro, à Agên­cia Bra­sil.

Camarotes

Com o tem­po, foi aumen­tan­do o núme­ro de cama­ro­tes e tam­bém os pre­ços de cada um. Gran­des mar­cas pas­sa­ram a pagar pelos espa­ços para rea­li­zar even­tos que se dis­tan­ci­am dos des­fi­les. É comum atu­al­men­te ter shows de artis­tas fora do uni­ver­so dos des­fi­les e enquan­to as esco­las se apre­sen­tam na ave­ni­da.

“Os cama­ro­tes são mui­to luxu­o­sos. É uma outra vida lá den­tro. Uma outra fes­ta. Não per­mi­te a todos ficar no para­pei­to para assis­tir a esco­la pas­sar”, dis­se o radi­a­lis­ta e apre­sen­ta­dor da Rádio Naci­o­nal Rubem Con­fe­te, sam­bis­ta e espe­ci­a­lis­ta em esco­las de sam­ba.

“O des­fi­le sofreu uma trans­for­ma­ção incrí­vel. Vejo hoje como uma gran­de fes­ta soci­al. As esco­las ganha­ram visi­bi­li­da­de e foi bom para o com­po­nen­te que faz a sua fes­ta par­ti­cu­lar”, com­ple­tou, assi­na­lan­do que o Gru­po Espe­ci­al se trans­for­mou em uma indús­tria com gran­de fatu­ra­men­to. Atu­al­men­te, os recur­sos são obti­dos, entre outras fon­tes, com a ven­da da trans­mis­são, de ingres­sos e con­tra­tos com patro­ci­na­do­res, além dos recur­sos repas­sa­dos pela pre­fei­tu­ra do Rio e pelo gover­no do esta­do.

O tem­po tam­bém tem mos­tra­do que, com a evo­lu­ção dos des­fi­les e das dimen­sões dos car­ros ale­gó­ri­cos, cada vez mais com­pri­dos, altos e com novas tec­no­lo­gi­as de movi­men­ta­ção, há neces­si­da­de de alte­ra­ções no pla­ne­ja­men­to.

Para os car­na­va­les­cos, esta é uma pre­o­cu­pa­ção. Ale­xan­dre Lou­za­da, cam­peão seis vezes no Rio, com a Man­guei­ra, a Vila Isa­bel, a Bei­ja-Flor e a Moci­da­de Inde­pen­den­te e duas em São Pau­lo, com a Vai-Vai, este ano está à fren­te do enre­do Uni­dos da Tiju­ca, O Con­to de Fados. Ele dis­se que, embo­ra o Sam­bó­dro­mo tenha sido de rele­vân­cia indis­cu­tí­vel para as esco­las de sam­ba, por ser um espa­ço per­ma­nen­te que per­mi­te ensai­os mais per­to da rea­li­da­de, o espe­tá­cu­lo evo­luiu. As agre­mi­a­ções tive­ram que se adap­tar, mas pre­ci­sam de mais.

“São neces­sá­ri­os ajus­tes no espa­ço de con­cen­tra­ção, algu­mas coi­sas deve­ri­am melho­rar, tais como a reti­ra­da ou a sus­pen­são daque­la pas­sa­re­la de pedes­tres para que as esco­las con­si­gam mon­tar suas ale­go­ri­as com segu­ran­ça e em tem­po hábil”, res­sal­tou, em men­sa­gem pedi­da pela Agên­cia Bra­sil, refe­rin­do-se à impos­si­bi­li­da­de da mon­ta­gem total das ale­go­ri­as mais altas por cau­sa da pas­sa­re­la, o que só pode ser con­cluí­do depois os car­ros pas­sam por ela.

Lou­za­da propôs ain­da um estu­do para per­mi­tir que todas as esco­las se con­cen­trem ape­nas do lado cha­ma­do de Cor­rei­os, por estar pró­xi­mo da sede da empre­sa no Rio. Em geral, os pro­ble­mas de entra­da dos car­ros na ave­ni­da ocor­rem na con­cen­tra­ção do outro lado, cha­ma­do de Balan­ça, por ser per­to do edi­fí­cio que tem esse nome. “Se solu­ci­o­nar a con­cen­tra­ção, dimi­nu­em bas­tan­te esses aci­den­tes de per­cur­so.”

De acor­do com o car­na­va­les­co, até ago­ra, as mudan­ças fica­ram ape­nas no for­ma­to dos des­fi­les, que tive­ram o tem­po redu­zi­do. Lou­za­da cri­ti­cou ain­da o regu­la­men­to, que, para ele, a cada ano se tor­na mais rígi­do e dis­tan­te do con­jun­to que antes era o fator dife­ren­ci­al das esco­las.

“Hoje o jul­ga­men­to é um caça-erros ou defei­tos, peque­nos deta­lhes que aca­bam por reti­rar uma esco­la da com­pe­ti­ção. Vale o cri­té­rio de cada jul­ga­dor ava­li­ar o que real­men­te é rele­van­te para reti­rar um ou mais déci­mos”, afir­mou.

Para o pre­si­den­te da Lie­sa, o tem­po tam­bém trou­xe a orga­ni­za­ção dos des­fi­les, que antes não eram cro­no­me­tra­dos. Eram comuns os atra­sos das esco­las.

Segun­do Per­lin­gei­ro, a redu­ção no núme­ro de com­po­nen­tes con­tri­buiu para a orga­ni­za­ção dos des­fi­les com um pla­ne­ja­men­to melhor. “Hoje as esco­las têm de 3.200 a 3.500 com­po­nen­tes por­que não dá para colo­car mais pelo tama­nho dos car­ros [ale­go­ri­as] e das fan­ta­si­as, pelas para­das para apre­sen­ta­ção de comis­são de fren­te; de mes­tre-sala e por­ta-ban­dei­ra; bate­ria. A gen­te não pode aumen­tar mais o tem­po: 70 minu­tos é um tem­po exce­len­te. Esta foi a evo­lu­ção do car­na­val”, pon­tu­ou.

Torcidas

Jor­ge Per­lin­gei­ro dis­se que a pre­sen­ça das tor­ci­das não deter­mi­na mais o volu­me de ven­das de ingres­sos. “Eu vejo hoje que não é mais a tor­ci­da da esco­la que aumen­ta ou dimi­nui públi­co. O exem­plo mai­or é o Sába­do das Cam­peãs. Até uns 10 anos atrás, só ven­día­mos ingres­sos para o des­fi­le das cam­peãs depois da apu­ra­ção de quar­ta-fei­ra. O inte­gran­te espe­ra­va para ver se sua esco­la ganha­ria, ou se viria entre as seis, para depois com­prar o ingres­so”, afir­mou.

Para o pre­si­den­te da Lie­sa, o suces­so na ven­da de ingres­sos nes­te ano, tan­to para os dias dos des­fi­les ofi­ci­ais quan­to para o Sába­do das Cam­peãs, com­pro­va que o públi­co gos­ta mes­mo é do espe­tá­cu­lo, sem se impor­tar com quais esco­las vão se apre­sen­tar.

Edi­ção: Nádia Fran­co

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