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São Paulo avança em integração de sistemas de hipervigilância

Repro­du­ção: © Rove­na Rosa/Agência Basil

Pesquisador alerta quanto a protocolos com limites para uso de dados


Publi­ca­do em 27/01/2024 — 10:30 Por Dani­el Mel­lo — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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O gover­no de São Pau­lo tem apos­ta­do na inter­li­ga­ção de sis­te­mas de vigi­lân­cia de pre­fei­tu­ras, asso­ci­a­ções de mora­do­res e empre­sas em uma estra­té­gia apre­sen­ta­da como for­ma de com­ba­ter cri­mes. Des­de o ano pas­sa­do, o pro­gra­ma Mura­lha Pau­lis­ta tem fir­ma­do con­vê­ni­os para o for­ne­ci­men­to de ima­gens de câme­ras de segu­ran­ça para o gover­no esta­du­al.

Ao mes­mo tem­po, ao lon­go de 2023, o gover­no de São Pau­lo cor­tou ao menos R$ 37,3 milhões do pro­gra­ma de câme­ras cor­po­rais usa­das nas far­das da Polí­cia Mili­tar.

O pro­je­to teve iní­cio em 2021 e, para 2023, a pre­vi­são ini­ci­al era de que fos­sem inves­ti­dos R$ 152 milhões no sis­te­ma que moni­to­ra em tem­po real o tra­ba­lho dos poli­ci­ais.

Convênios

Segun­do a Secre­ta­ria de Esta­do da Segu­ran­ça Públi­ca, foram fir­ma­dos ter­mos com 630 muni­cí­pi­os e 25 enti­da­des pri­va­das para com­par­ti­lha­men­to de ima­gens de câme­ras de vigi­lân­cia. “Essa rede de segu­ran­ça inte­gra lei­to­res capa­zes de iden­ti­fi­car pla­cas de veí­cu­los e sub­me­ter a iden­ti­fi­ca­ção ao cru­za­men­to em bases de dados. A tec­no­lo­gia for­ta­le­ce a ação poli­ci­al, per­mi­tin­do loca­li­zar e pren­der cri­mi­no­sos”, afir­ma a pas­ta ao divul­gar o pro­gra­ma pelas redes soci­ais.

O sis­te­ma está ain­da inter­li­ga­do com o Cór­tex, pla­ta­for­ma do Minis­té­rio da Jus­ti­ça e Segu­ran­ça Públi­ca, que per­mi­te aces­so ao ban­co naci­o­nal de man­da­dos de pri­são e ao cadas­tro de pes­so­as físi­cas (CPF).

De acor­do com a secre­ta­ria do gover­no pau­lis­ta, o sis­te­ma pos­si­bi­li­tou a pri­são de 743 pes­so­as e a recu­pe­ra­ção de oito mil veí­cu­los rou­ba­dos.

Reedição

Lan­ça­do em 2023, o Mura­lha Pau­lis­ta é, em vári­os aspec­tos, uma ree­di­ção do sis­te­ma Detec­ta, apre­sen­ta­do pelo gover­no esta­du­al em 2014. “Quan­do você olha o que o sis­te­ma faz, era jus­ta­men­te o con­jun­to de pro­mes­sas que o pró­prio Detec­ta tinha de inte­gra­ção de vári­as coi­sas, den­tre elas, base de dados, base de dados cri­mi­nais, de car­ros rou­ba­dos, veí­cu­los  com algum tipo de blo­queio ou sus­pen­são, e isso inte­gra­do a um sis­te­ma de câme­ras com capa­ci­da­de de lei­tu­ra OCR [reco­nhe­ci­men­to ópti­co de carac­te­res], que é lei­tu­ra de pla­cas [de car­ros]”, com­pa­ra Alci­des Peron, pes­qui­sa­dor que inte­gra a Rede Lati­no-Ame­ri­ca­na de Estu­dos sobre Vigi­lân­cia, Tec­no­lo­gia e Soci­e­da­de (Lavits).

Os sis­te­mas que inte­gram vigi­lân­cia por câme­ras e bases de dados foram o tema de pós-dou­to­ra­do que Peron fez entre 2017 e 2021. Porém, ape­sar das seme­lhan­ças com o sis­te­ma ante­ri­or, o pes­qui­sa­dor des­ta­ca que o Mura­lha avan­ça quan­do pas­sa a inte­grar as câme­ras muni­ci­pais ao sis­te­ma.

A cone­xão com a pla­ta­for­ma Cor­tex tam­bém aumen­ta, segun­do Peron, a capa­ci­da­de do Mura­lha. “A ampli­tu­de de dados que ele con­se­gue cole­tar é enor­me”, enfa­ti­za. “Ago­ra, ele [Mura­lha] con­se­gue dar dados mais con­ci­sos, que podem levar até o CPF de uma pes­soa, que podem levar até infor­ma­ções mais sen­sí­veis sobre essa pes­soa e irem apro­fun­dan­do a par­tir de então”, acres­cen­ta.

Por um lado, o pes­qui­sa­dor ava­lia que o sis­te­ma per­mi­te a inte­gra­ção entre bases de dados, o que faci­li­ta o tra­ba­lho poli­ci­al e con­tor­na obs­tá­cu­los nas inves­ti­ga­ções. “Esse sis­te­ma aca­ba faci­li­tan­do o aces­so a infor­ma­ções que podem ser deter­mi­nan­tes para cer­tas inves­ti­ga­ções. Então, de um lado, essa ampli­tu­de pode melho­rar cer­tas ati­vi­da­des poli­ci­ais, prin­ci­pal­men­te por­que come­ça a entrar em peque­nos e médi­os muni­cí­pi­os tam­bém”, pon­tua.

Riscos

Essa ampli­a­ção do aces­so a infor­ma­ções, no entan­to, pre­ci­sa, de acor­do com Peron, ter pro­to­co­los com for­mas e limi­tes cla­ros para a uti­li­za­ção. “A gen­te tem o fato de que se ampli­fi­ca mui­to a quan­ti­da­de de infor­ma­ções à dis­po­si­ção de for­ças poli­ci­ais, mas nós não temos a infor­ma­ção sobre os limi­tes e o devi­do pro­ces­so legal ao qual o poli­ci­al pode­rá aces­sar essas infor­ma­ções, se exis­tem pro­to­co­los e se há limi­tes para a cir­cu­la­ção e aces­so des­ses dados”, aler­ta.

Sem essa nor­ma­ti­za­ção há, de acor­do com o espe­ci­a­lis­ta, o ris­co de mau uso des­ses dados. “Pode­ria se uti­li­zar o sis­te­ma, inclu­si­ve, para inves­ti­gar pes­so­as que não esta­ri­am liga­das a cri­me, inclu­si­ve, ati­vis­tas, pro­fes­so­res, pes­qui­sa­do­res, opo­si­ção”, exem­pli­fi­ca.

Câmeras corporais

Há ain­da, na ava­li­a­ção de Peron, uma inco­e­rên­cia na polí­ti­ca de segu­ran­ça do gover­no de São Pau­lo, que, ao mes­mo tem­po em que inves­te em vigi­lân­cia da popu­la­ção, tem des­mon­ta­do o pro­gra­ma de câme­ras cor­po­rais para poli­ci­ais mili­ta­res.

“São incon­gru­en­tes que a digi­ta­li­za­ção e todos os ris­cos da vigi­lân­cia cai­am como ônus para a soci­e­da­de, mas não gerem o seu con­tra­pon­to tam­bém para for­ças poli­ci­ais. De uma cer­ta manei­ra, a gen­te enxer­ga e faz uma vigi­lân­cia de fato só de um lado e não faz uma vigi­lân­cia do outro lado tam­bém”, com­pa­ra.

“Isso bei­ra bar­bá­rie”, cri­ti­ca o pes­qui­sa­dor sobre a redu­ção do pro­gra­ma de câme­ras cor­po­rais. Segun­do ele, exis­tem “deze­nas de estu­dos naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais” que com­pro­vam efi­cá­cia das câme­ras por­tá­teis usa­das nas far­das. “É mui­to impor­tan­te, seja para ini­bir uma ação de bru­ta­li­da­de poli­ci­al, seja para inclu­si­ve pro­te­ger o pró­prio poli­ci­al e gerar uma pro­va caso algo tenha desen­ca­de­a­do, algum ato mes­mo do poli­ci­al”, enfa­ti­za.

Enquan­to isso, o pes­qui­sa­dor diz que exis­te pou­ca com­pro­va­ção dos resul­ta­dos dos sis­te­mas de vigi­lân­cia com câme­ras cha­ma­das inte­li­gen­tes, que podem reco­nhe­cer pla­cas de car­ros ou mes­mo de mode­los mais avan­ça­dos com reco­nhe­ci­men­to faci­al. “Nós temos uma ausên­cia gigan­tes­ca de infor­ma­ções, um gran­de vazio de infor­ma­ções sobre a efi­cá­cia posi­ti­va do uso de sis­te­mas de reco­nhe­ci­men­to faci­al, de sis­te­mas de pre­di­ção de com­por­ta­men­to, de câme­ras inte­li­gen­tes. Há um vazio enor­me, tam­bém fru­to, em gran­de medi­da, da fal­ta de trans­pa­rên­cia dos gover­nos que fazem uso des­sas tec­no­lo­gi­as”, argu­men­ta.

Mudança de discurso

O gover­na­dor de São Pau­lo, Tar­cí­sio de Frei­tas, dis­se, na últi­ma segun­da-fei­ra (22), que pode ampli­ar o pro­gra­ma de câme­ras cor­po­rais den­tro do Mura­lha Pau­lis­ta. “A câme­ra cor­po­ral é um dos com­po­nen­tes de tec­no­lo­gia que se inte­gra ao Mura­lha Pau­lis­ta. Então, nós vamos ava­li­ar o uso des­sas câma­ras e a pos­si­bi­li­da­de até de ampli­a­ção”, anun­ci­ou.

Na oca­sião, o gover­na­dor afir­mou que serão fei­tos diver­sos inves­ti­men­tos em equi­pa­men­tos e pla­ta­for­mas para com­ba­ter o cri­me. “Nós vamos entrar com inves­ti­men­to mui­to for­te em moni­to­ra­men­to, mui­to for­te em tec­no­lo­gia, uma orga­ni­za­ção de dados em nuvem para que a gen­te pos­sa, por meio da inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al, ter uma apre­en­são de com­por­ta­men­to cri­mi­no­so, uma melhor dis­po­si­ção de efe­ti­vo”, acres­cen­tou.

Edi­ção: Kle­ber Sam­paio

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