...
domingo ,14 abril 2024
Home / Noticias / Só com luta de negros foi possível abolir escravidão, diz especialista

Só com luta de negros foi possível abolir escravidão, diz especialista

Repro­du­ção: © Bibli­o­te­ca Naci­o­nal

Para sociólogo, data mais relevante é 20 de novembro, e não 13 de maio


Publi­ca­do em 13/05/2022 — 06:04 Por Dani­el Mel­lo – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

O fim da escra­vi­dão lega­li­za­da no Bra­sil foi um pro­ces­so cons­truí­do por pes­so­as negras, um pon­to que espe­ci­a­lis­tas con­si­de­ram fun­da­men­tal ser lem­bra­do no dia 13 de maio, data da abo­li­ção da escra­vi­dão.

“Ao lon­go das últi­mas déca­das, têm aumen­ta­do as per­cep­ções sobre a ação polí­ti­ca dos escra­vi­za­dos, inclu­si­ve o pró­prio 13 de maio”, enfa­ti­za o psi­có­lo­go Már­cio Fari­as, que coor­de­na a cole­ção Cló­vis Mou­ra na Edi­to­ra Dan­da­ra.

O 13 de maio é alvo de dis­pu­tas por ser uma data ofi­ci­al usa­da como uma espé­cie de “ação reden­to­ra de uma eli­te, dos seto­res domi­nan­tes, fren­te ao que foi o hor­ror da escra­vi­dão”, diz Fari­as. Segun­do o pes­qui­sa­dor, por isso, os movi­men­tos negros pre­ci­sa­ram con­tes­tar a cele­bra­ção no sen­ti­do em que a abo­li­ção esta­va sen­do apre­sen­ta­da como uma benes­se con­ce­di­da pela monar­quia à popu­la­ção negra.

“Tal­vez seja uma data das mais emble­má­ti­cas naqui­lo que são as dis­pu­tas de pro­je­tos de país colo­ca­dos, de um lado, por seto­res das eli­tes domi­nan­tes, clas­ses pos­sui­do­ras de rique­zas e poder, e por outro lado tam­bém refle­te como os seto­res da clas­se tra­ba­lha­do­ra, ao lon­go do sécu­lo 20, foram se posi­ci­o­nan­do fren­te a essa data, como uma pla­ta­for­ma de dis­pu­ta de pro­je­to de soci­e­da­de”, comen­ta.

O his­to­ri­a­dor Rafa­el Domin­gos Oli­vei­ra, que faz par­te do Núcleo de Estu­dos e Pes­qui­sas da Afro-Amé­ri­ca, des­ta­ca que a pro­mul­ga­ção da Lei 3.353, em 13 de maio de 1888, acon­te­ce em um con­tex­to his­tó­ri­co amplo, que envol­ve sécu­los de luta das pes­so­as escra­vi­za­das. “O per­cur­so his­tó­ri­co até ela [Lei Áurea] foi mui­to mais lon­go e, se qui­ser­mos ser rigo­ro­sos, come­çou com a pri­mei­ra pes­soa a ser escra­vi­za­da e que, cer­ta­men­te, ten­tou resis­tir de todas as for­mas à nova con­di­ção a que esta­va sen­do sub­me­ti­da. Des­de então, foram mui­tas as estra­té­gi­as de resis­tên­cia — indi­vi­du­al e cole­ti­va – de que as popu­la­ções escra­vi­za­das lan­ça­ram mão para con­quis­tar sua liber­da­de.”

Primeiro movimento social

De acor­do com o his­to­ri­a­dor, a pres­são para o fim da escra­vi­dão veio de diver­sas for­mas, des­de a resis­tên­cia dire­ta até os movi­men­tos que luta­vam a par­tir da impren­sa, da polí­ti­ca e do Judi­ciá­rio. “A con­tri­bui­ção dos movi­men­tos abo­li­ci­o­nis­tas foi, sem dúvi­da, fun­da­men­tal para isso. Outro fator foi a ten­são cons­tan­te cau­sa­da pela vio­lên­cia da escra­vi­dão, ten­são geral­men­te resu­mi­da no medo que a clas­se senho­ri­al cul­ti­va­va de que revol­tas e rebe­liões pudes­sem eclo­dir a qual­quer momen­to”, lem­bra.

“Há uma pes­qui­sa fei­ta pela pro­fes­so­ra [da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo] Ange­la Alon­so que mos­tra que o pri­mei­ro movi­men­to soci­al bra­si­lei­ro foi o movi­men­to abo­li­ci­o­nis­ta. Ela per­cor­re, no livro dele, o perío­do de 1868 a 1888 mos­tran­do as dife­ren­tes estra­té­gi­as e táti­cas do movi­men­to soci­al abo­li­ci­o­nis­ta para que se che­gas­se em 1888 com a abo­li­ção”, acres­cen­ta o soció­lo­go e cura­dor de conhe­ci­men­to na Ines­plo­ra­to, Túlio Cus­tó­dio.

No entan­to, em rela­ção à luta con­tra a escra­vi­dão e pelos direi­tos da popu­la­ção negra, o soció­lo­go con­si­de­ra mais impor­tan­te o 20 de novem­bro, Dia da Cons­ci­ên­cia Negra, data da mor­te de Zum­bi, líder do Qui­lom­bo dos Pal­ma­res. “Nós temos o 20 de novem­bro como uma data mais fun­da­men­tal, por­que é uma data que conec­ta com a gran­de luta, ou com uma pers­pec­ti­va mais ampla da luta con­tra a escra­vi­dão, con­tra o racis­mo, con­tra a situ­a­ção das pes­so­as negras em um con­tex­to colo­ni­al e racis­ta do Bra­sil”, enfa­ti­za.

Porém, é pre­ci­so, segun­do Cus­tó­dio, lem­brar que pro­mul­ga­ção da lei que encer­rou o perío­do escra­vis­ta no país não foi uma ini­ci­a­ti­va da prin­ce­sa Isa­bel, res­pon­sá­vel pela assi­na­tu­ra do docu­men­to ofi­ci­al, mas, sim uma luta de mui­tos anos de figu­ras negras impor­tan­tes, como José do Patro­cí­nio, Luiz Gama e André Rebou­ças.

Sem direitos

Ape­sar dos esfor­ços dos abo­li­ci­o­nis­tas, o pro­ces­so de abo­li­ção, no entan­to, aca­bou pro­mo­ven­do a desi­gual­da­de raci­al no Bra­sil pelas déca­das seguin­tes até os dias atu­ais, diz Domin­gos Oli­vei­ra. “O pro­je­to de redis­tri­bui­ção de ter­ras, defen­di­do por André Rebou­ças e Joa­quim Nabu­co, que pode­ria per­fei­ta­men­te ser enten­di­do hoje como refor­ma agrá­ria, esta­ria asso­ci­a­do à eman­ci­pa­ção da popu­la­ção escra­vi­za­da. O pro­je­to, como sabe­mos, nun­ca foi para a fren­te e, até hoje, o Bra­sil é um dos úni­cos paí­ses de for­ma­ção agro­ex­por­ta­do­ra que nun­ca rea­li­zou a refor­ma agrá­ria”, exem­pli­fi­ca Oli­vei­ra sobre as pro­pos­tas que che­ga­ram a ser dis­cu­ti­das à épo­ca.

A for­ma como a abo­li­ção foi fei­ta não garan­tiu, segun­do Fari­as, dig­ni­da­de e direi­tos, mui­to menos repa­ra­ção às pes­so­as que sofre­ram com a escra­vi­dão. “Esse pro­je­to foi o vito­ri­o­so. Um pro­je­to em que as cida­da­ni­as foram muti­la­das para que uma nova for­ma de explo­ra­ção do tra­ba­lho do pon­to de vis­ta for­mal se ins­tau­ras­se, mas man­ten­do for­mas arcai­cas de rela­ções soci­ais”, res­sal­ta.

“É só pen­sar na [Rua] 25 de Mar­ço”, exem­pli­fi­ca Fari­as, ao falar da região de comér­cio popu­lar no cen­tro da capi­tal pau­lis­ta. “Você tem lá toda uma tec­no­lo­gia dis­po­ní­vel para com­pra, con­su­mo, mas as pes­so­as que ven­dem, em geral, estão em con­di­ções de tra­ba­lho bem pre­cá­ri­as. Em uma pon­ta, o mais alto nível da pro­du­ção, e em outra, as rela­ções mais arcai­cas de tra­ba­lho. Essa é uma ima­gem que retra­ta quais são os refle­xos do 13 de maio ain­da hoje. Um pro­je­to que a rela­ção de supe­rex­plo­ra­ção da for­ça de tra­ba­lho está mui­to rela­ci­o­na­da com o racis­mo”, res­sal­ta.

Mes­mo con­si­de­ran­do o con­tex­to adver­so, o pes­qui­sa­dor des­ta­ca a capa­ci­da­de de orga­ni­za­ção dos movi­men­tos negros que man­ti­ve­ram a luta por direi­tos no sécu­lo 20 e con­ti­nu­am nes­tas pri­mei­ras déca­das do 21. “A popu­la­ção negra, mes­mo colo­ca­da em posi­ção de infor­ma­li­da­de, pere­ne de supe­rex­plo­ra­ção enquan­to clas­se tra­ba­lha­do­ra pós-13 de maio, ela se orga­ni­zou, se asso­ci­ou. Teve espa­ços de asso­ci­a­ção que per­mi­ti­ram a ela não só se recons­ti­tuir como gru­po soci­al, enquan­to clas­se, mas, aci­ma de tudo, ree­la­bo­rar pro­je­tos”, acres­cen­ta Fari­as.

Edi­ção: Nádia Fran­co

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

BNDES abre concurso em 2024 para 150 vagas de nível superior

Repro­du­ção: © Fer­nan­do Frazão/Agencia Bra­sil Edital deve ser divulgado no segundo semestre Publicado em 09/04/2024 …