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Tentativa de golpe na Bolívia: especialistas explicam crise no país

© Reuters TV/Proibida Repro­dução

Especialistas citam crise econômica, disputa política e ação isolada


Publicado em 27/06/2024 — 06:44 Por Rafael Cardoso — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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Tan­ques e sol­da­dos do Exérci­to inva­dem a entra­da do palá­cio pres­i­den­cial em La Paz, na Bolívia. Roteiro e ima­gens lem­bram as décadas de 1960 e 1970, quan­do ditaduras mil­itares se espal­haram pela Améri­ca do Sul. Mas a cena ocor­reu nes­ta quar­ta-feira (26) no país sul-amer­i­cano. Acon­tec­i­men­to sur­preen­dente ou des­fe­cho para um gov­er­no em crise? Espe­cial­is­tas em Relações Inter­na­cionais explicaram à Agên­cia Brasil o cenário que lev­ou à ten­ta­ti­va fra­cas­sa­da de golpe na Bolívia.

Ato isolado

Em primeiro lugar, existe um entendi­men­to comum de que o episó­dio des­ta quar­ta-feira (26) foi muito mais um ato iso­la­do do gen­er­al Juan José Zúñi­ga do que um movi­men­to bem plane­ja­do, com apoio de difer­entes forças soci­ais. O gen­er­al foi demi­ti­do nes­ta terça-feira (25) do car­go de coman­dante do Exérci­to, depois de ameaçar o ex-pres­i­dente Evo Morales.

“O gen­er­al teve um erro de cál­cu­lo políti­co. Achou que rece­be­ria algum respal­do ao ameaçar o Evo Morales. Mas o atu­al pres­i­dente boli­viano ban­cou a apos­ta e tirou o gen­er­al do coman­do do Exérci­to. E aí ele se viu numa situ­ação de iso­la­men­to e ten­tou o golpe de uma maneira muito impro­visa­da, sem par­tic­i­pação de out­ras lid­er­anças das Forças Armadas. E foi impor­tante ver que ele não teve apoio sig­ni­fica­ti­vo de nen­hum grupo social do país”, diz Mau­rí­cio San­toro, cien­tista políti­co e pro­fes­sor de Relações Inter­na­cionais.

Bolivian President Luis Arce speaks as Bolivia is facing a coup attempt, in La Paz, Bolivia, June 26, 2024, in this screen grab taken from a social media video. LUCHO ARCE VIA FACEBOOK/via REUTERS THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. MANDATORY CREDIT. NO RESALES. NO ARCHIVES. UNPROCESSED VERSION HAS BEEN PROVIDED SEPARATELY.
Pres­i­dente Luis Arce (ao cen­tro), jun­to com equipe de gov­er­no, denun­cia ten­ta­ti­va de golpe no país. Foto: Reuters/LUCHO ARCE VIA FACEBOOK/Proibida Repro­dução

“O Evo Morales já con­vo­cou uma greve ger­al e tem os movi­men­tos sindi­cais muito alin­hados com ele. O próprio pres­i­dente Luis Arce tam­bém veio a públi­co para pedir que a sociedade boli­viana se junte con­tra esse golpe. E setores da oposição se colo­caram con­tra o golpe. A própria Jea­nine Añez, que já foi pres­i­den­ta e opos­i­to­ra do Evo, disse que não acei­ta o que acon­te­ceu. O Luís Cama­cho, impor­tante líder con­tra o Evo Morales em 2019 falou que não acei­ta tam­bém. Então, esse movi­men­to de golpe parece iso­la­do. Muito mais uma ten­ta­ti­va do Exérci­to e do próprio Zúñi­ga de demon­strar poder, do que de fato quer­er impor um novo gov­er­no”, diz Arthur Mur­ta, pro­fes­sor de Relações Inter­na­cionais da Pon­tif­í­cia Uni­ver­si­dade Católi­ca (PUC) de São Paulo.

gen­er­al Zúñi­ga foi pre­so após lid­er­ar a ten­ta­ti­va de golpe.

Crise econômica e disputas políticas

Em segun­do lugar, o ato do gen­er­al pode ser enten­di­do a par­tir de prob­le­mas mais estru­tu­rais que o país enfrenta, como a dimen­são econômi­ca.

“A Bolívia está viven­do uma situ­ação econômi­ca muito difí­cil. O prin­ci­pal setor é o de gás nat­ur­al, que está enfrentan­do uma série de prob­le­mas. Isso lev­ou a uma que­da nas expor­tações, e as reser­vas inter­na­cionais da Bolívia estão muito peque­nas, em torno de US$ 3 bil­hões. O que é nada para as neces­si­dades de um país. Para com­parar, o Brasil que tem uma situ­ação bas­tante con­fortáv­el em ter­mos de reser­vas tem hoje mais de US$ 350 bil­hões. Isso sig­nifi­ca que a Bolívia está com mui­ta difi­cul­dade de impor­tar mes­mo pro­du­tos bási­cos para o dia a dia: ali­men­tos, remé­dios, com­bustíveis”, diz Mau­rí­cio San­toro.

“Os país­es andi­nos estão basea­d­os no extra­tivis­mo pesa­do e com os preços nas alturas. O Esta­do quer se apro­pri­ar de uma parte desse exce­dente econômi­co. E gru­pos nacionais e multi­na­cionais querem pegar abso­lu­ta­mente tudo. Mas não é como Sal­vador Allende. na déca­da de 70, que esta­va man­ten­do a com­pan­hia do cobre sob o con­t­role, ou esta­ti­zan­do empre­sas. Ago­ra é o con­trário, é uma admin­is­tração que quer se apro­pri­ar de parte dess­es exce­dentes para a real­iza­ção de políti­cas públi­cas. A classe dom­i­nante e as multi­na­cionais nem isso topam. Então nós ficamos sem­pre numa situ­ação lim­ite entre o Esta­do e essas forças soci­ais”, expli­ca o pro­fes­sor do Depar­ta­men­to de Econo­mia e Relações Inter­na­cionais da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de San­ta Cata­ri­na (UFSC), Nil­do Ouriques.

Do pon­to de vista das dis­putas políti­cas, as ten­sões entre difer­entes líderes e par­tidos do país con­tribuem para aumen­tar os riscos à democ­ra­cia.

“O com­po­nente políti­co dessa crise é o fato de que no ano que vem a Bolívia vai ter eleições pres­i­den­ci­ais e o gen­er­al que ten­tou o golpe hoje disse ontem que se o Evo Morales se apre­sen­tar como can­dida­to à presidên­cia, as Forças Armadas iri­am inter­vir e pren­der o Evo. Há poucos anos acon­te­ceu uma crise políti­ca semel­hante na Bolívia, em 2019, que ter­mi­nou com a deposição do Evo e a inter­venção dos mil­itares. Então, é uma feri­da que ain­da está aber­ta”, diz Mau­rí­cio San­toro.

“Se voltar­mos mais no tem­po, a déca­da de 1990 é rel­a­ti­va­mente estáv­el na Bolívia. As ten­sões começam com a chega­da ao poder do Evo Morales em 2006, que provo­ca frat­uras de poder. Ele começa a faz­er políti­ca redis­trib­u­ti­va de ren­da, nacionalizar os hidro­car­bone­tos, entre out­ras questões, que ger­am insat­is­fações com a elite. A Bolívia ela entra num cenário de pio­ra dessa esta­bil­i­dade democráti­ca, porque o Evo deses­ta­bi­liza um sis­tema ante­ri­or de poder, em que a pop­u­lação pobre indí­ge­na esta­va sub-rep­re­sen­ta­da. Isso faz crescer o movi­men­to rea­cionário, que se man­i­fes­ta até hoje”, diz Arthur Mur­ta.

Contexto regional

Para os pesquisadores, é pre­ciso con­sid­er­ar tam­bém um con­tex­to mais amp­lo na Améri­ca do Sul, com avanço de gru­pos e lid­er­anças de extrema-dire­i­ta, que rep­re­sen­tam o cresci­men­to de movi­men­tos autoritários e anti­democráti­cos. Em alguns casos recentes, hou­ve ten­ta­ti­vas de golpe igual­mente fra­cas­sadas.

“Essa ten­ta­ti­va de golpe faz parte de um con­tex­to mais amp­lo de crise da democ­ra­cia na Améri­ca Lati­na. Esse ano a gente teve na Guatemala uma ten­ta­ti­va de impedir a posse de um pres­i­dente eleito. Man­i­fes­tantes invadi­ram o Con­gres­so no Brasil no ano pas­sa­do em ten­ta­ti­va de golpe. Bom que a democ­ra­cia está resistin­do e mostran­do ter anti­cor­pos e ser mais resiliente. Mas é pre­ocu­pante que todas essas crises este­jam ocor­ren­do na região nos últi­mos anos”, diz Mau­rí­cio San­toro.

“O que foi pos­i­ti­vo hoje é que a respos­ta inter­na­cional foi muito forte na defe­sa da democ­ra­cia boli­viana. Todos os país­es da Améri­ca do Sul se man­i­fes­taram em maior ou menor grau em defe­sa da democ­ra­cia. Isso foi uma coisa impor­tante. A Orga­ni­za­ção dos Esta­dos Amer­i­canos tam­bém respon­deu de modo muito rápi­do e con­tun­dente”, acres­cen­tou.

Edição: Car­oli­na Pimentel

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