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TV quilombola ajuda comunidade a preservar memória de lutas

Repro­dução: © TV Quilombo/Divulgação

Projeto de jovens negros desafia negligência da mídia tradicional


Pub­li­ca­do em 14/09/2023 — 07:18 Por Rafael Car­doso — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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“Cuida­do com meu pé, vocês não estão ven­do que eu tô fazen­do uma reportagem? Podem parar só um minutin­ho? Não vão cor­tar o meu pé.”

É com essa mis­tu­ra de humor e fran­queza que o repórter Raimun­do Quilom­bo abor­da os entre­vis­ta­dos nos arredores da igre­ja do Quilom­bo Ram­pa, em Vargem Grande, Maran­hão, onde vivem cer­ca de 500 pes­soas. O grupo cap­ina o chão para os fes­te­jos de São Bar­tolomeu e entra no cli­ma descon­traí­do do repórter. Todos já estão acos­tu­ma­dos com o esti­lo de cober­tu­ra da TV Quilom­bo, que des­de 2017 acom­pan­ha o dia a dia da comu­nidade.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação
Repro­dução: Raimun­do Quilom­bo (foto) e o pri­mo William Car­doso tiver­am a ideia de cri­ar um sis­tema de comu­ni­cação do Quilom­bo Ram­pa — TV Quilombo/Divulgação

Cansa­dos de serem invisíveis para a mídia tradi­cional, Raimun­do e o pri­mo William Car­doso decidi­ram cri­ar um sis­tema de comu­ni­cação local. Havia muitas histórias para con­tar. Des­de as ances­trais, que reme­tem ao iní­cio do sécu­lo 19, quan­do os quilom­bos eram cen­tros de resistên­cias de escrav­iza­dos fugi­tivos, até os dias atu­ais, em que a pop­u­lação local enfrenta novos desafios de aces­so aos serviços públi­cos.

No dia em que se comem­o­ram os 190 anos de surg­i­men­to da impren­sa negra no Brasil, é pre­ciso lem­brar tam­bém de out­ras for­mas de comu­ni­cação que aju­dam a preser­var a memória e divul­gar as lutas do povo negro.

“A cober­tu­ra que a grande mídia ain­da faz ref­er­entes aos quilom­bos e à pop­u­lação pre­ta em ger­al ain­da é muito defasa­da, não mostra o que a gente real­mente é. Ain­da temos muito o que avançar. Por isso, a importân­cia de cri­ar veícu­los como a TV Quilom­bo, a par­tir da visão da comu­nidade. Porque ninguém mel­hor do que con­tar a tua própria história do que tu mes­mo. Então, quan­do tem essa nar­ra­ti­va do out­ro sobre a tua real­i­dade, ou vai sair de for­ma erra­da ou de for­ma incom­ple­ta”, expli­ca Raimun­do.

Criatividade e improvisação

No começo de tudo, Raimun­do e William não tin­ham equipa­men­tos para gravar as cober­turas que fazi­am no quilom­bo. Nada de celu­lar, com­puta­dor, micro­fone ou câmera de vídeo. Nas palavras deles, o que tin­ha era só a força de von­tade mes­mo. Era usar a imag­i­nação e a cria­tivi­dade para inter­a­gir com as pes­soas. Quan­do con­seguiram o primeiro celu­lar, ele foi adap­ta­do a uma câmera de papelão.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação
Repro­duçãol: “Bam­bu drone” usa­do pela equipe da TV Quilom­bo — TV Quilombo/Divulgação

Vier­am out­ros mate­ri­ais impro­visa­dos e ances­trais da comu­nidade. Micro­fones de grave­to, que, mes­mo sem cap­tar áudio, davam mais cred­i­bil­i­dade às entre­vis­tas. O bam­bu foi usa­do para con­stru­ir um tripé para a câmera e o “bam­bu drone”, uma vara de 10 met­ros em que o celu­lar é amar­ra­do com cipó. Os recur­sos aju­daram tan­to a esta­bi­lizar a imagem quan­to a gravar even­tos por uma per­spec­ti­va do alto.

“Ess­es mate­ri­ais mod­er­nos é que têm que se adap­tar à nos­sa real­i­dade e não o con­trário. E, quan­do você inverte a lóg­i­ca, indi­ca que a maior tec­nolo­gia sem­pre foi e sem­pre será a ances­tral. Porque é a úni­ca comu­ni­cação que não fal­ha. A gente colo­ca os mate­ri­ais ances­trais no meio da TV como uma for­ma das pes­soas mais vel­has olharem e se sen­tirem rep­re­sen­tadas”, diz Raimun­do.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação
Repro­dução: Cer­ca de 500 pes­soas vivem no Quilom­bo Ram­pa, em Vargem Grande (MA) — TV Quilombo/Divulgação

Essa escol­ha aju­dou a que­brar a resistên­cia da comu­nidade, que no começo olha­va descon­fi­a­da para a ini­cia­ti­va dos jovens. Com o tem­po, as pes­soas pas­saram a chamá-los para faz­er as cober­turas e reg­is­trar os even­tos. Mais um sinal de suces­so da ini­cia­ti­va é que a equipe aumen­tou de dois para 40 jovens. Eles tra­bal­ham tan­to na TV, quan­to na Rádio Quilom­bo e nas redes soci­ais.

Formação profissional

Na equipe da TV Quilom­bo, não há jor­nal­is­tas profis­sion­ais, com diplo­ma uni­ver­sitário. A pos­si­bil­i­dade de estu­dar e ter esse tipo de for­mação está no hor­i­zonte, até para que o tra­bal­ho con­tin­ue crescen­do e sur­jam out­ras opor­tu­nidades de tra­bal­ho. A maior lim­i­tação nesse momen­to é ausên­cia de deter­mi­nadas insti­tu­ições e serviços na região. Enquan­to não podem con­tar com uma uni­ver­si­dade mais acessív­el, os comu­ni­cadores do quilom­bo recor­rem aos apren­diza­dos ances­trais.

“Não temos uma for­mação acadêmi­ca de jor­nal­is­tas. Mas temos nos­sa for­mação de comu­ni­cadores pop­u­lares, a par­tir da nos­sa real­i­dade e ter­ritório. Uma comu­ni­cação que a gente já nasce com ela. As comu­nidades man­têm viva a questão da oral­i­dade e da pas­sagem de saberes de uma ger­ação para a out­ra. Tudo a gente apren­deu de for­ma autôno­ma a par­tir da neces­si­dade, ten­tan­do romper com essas bar­reiras tam­bém”, con­ta Raimun­do.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação
Repro­dução: Cria­tivi­dade é uma das mar­cas da equipe da TV Quilom­bo  — TV Quilombo/Divulgação

O grupo não usa uma lin­guagem téc­ni­ca, nem tem um man­u­al de redação. O esti­lo de comu­ni­cação vai se desen­vol­ven­do jun­to com a comu­nidade, no próprio proces­so de con­strução das reporta­gens. Isso aju­da a cri­ar uma iden­ti­fi­cação maior com a TV e até a inspi­rar out­ros quilom­bos, que chamam a equipe para par­tic­i­par de cober­turas, fes­tas e entre­vis­tas com anciãos locais. Recen­te­mente, a equipe da TV Quilom­bo tam­bém teve a opor­tu­nidade de ir além do esta­do, cobrindo a Mar­cha das Mar­gari­das em Brasília. Lá, além do even­to, par­ticipou de um encon­tro para falar sobre racis­mo ambi­en­tal e traz­er exper­iên­cias da relação da comu­nidade com a natureza.

Para aper­feiçoar o tra­bal­ho que vem sendo feito, os jovens pedem doações via Pix no site ofi­cial. No momen­to, não con­tam com nen­hum tipo de patrocínio ou apoio mais con­sis­tente. Mas isso não impede que man­ten­ham a mis­são de doc­u­men­tar, preser­var e divul­gar a cul­tura quilom­bo­la.

“É muito difí­cil as pes­soas apoiarem esse tipo de pro­je­to que denun­cia racis­mo, vio­lação de dire­itos, racis­mo ambi­en­tal e todas as for­mas de pre­con­ceito que exis­tem con­tra comu­nidades quilom­bo­las. Se fos­se depen­der de aju­da finan­ceira, o pro­je­to nem tin­ha nasci­do. Nesse mun­do mod­er­no, para ter equipa­men­to e inter­net mel­hores, temos nos­sos desafios. Ain­da mais quan­do não temos aces­so a políti­cas públi­cas de finan­cia­men­to”, anal­isa Raimun­do. “O mais impor­tante é que a gente vem crescen­do sem mudar o nos­so jeito de faz­er comu­ni­cação pop­u­lar.”

Edição: Juliana Andrade

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