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Último episódio do podcast Golpe de 1964: Perdas e Danos já está no ar

Repro­du­ção: © Arte: EBC

A Radioagência Nacional reflete sobre o futuro interrompido pelo golpe


Publicado em 17/05/2024 — 10:25 Por Eliane Gonçalves — Radioagência Nacional — Brasília

O últi­mo epi­só­dio da pri­mei­ra tem­po­ra­da do pod­cast Per­das e Danos relem­bra o incên­dio da Vila Socó, fave­la de Cuba­tão (SP), para falar sobre o pro­je­to de refor­ma habi­ta­ci­o­nal que vinha sen­do dis­cu­ti­do antes do Gol­pe de 1964 e as polí­ti­cas que  a dita­du­ra colo­cou no lugar.

O incên­dio acon­te­ceu em 1984, no final do gover­no de João Batis­ta Figuei­re­do, o últi­mo pre­si­den­te mili­tar. Segun­do o Minis­té­rio Públi­co de São Pau­lo, o desas­tre dei­xou pelo menos 508 mor­tos e é o mai­or da his­tó­ria do Bra­sil. Mas como as inves­ti­ga­ções foram arqui­va­das, o núme­ro ofi­ci­al de mor­tes é bem menor: 93 pes­so­as.

O caso da Vila Socó é exem­plar do aban­do­no que as pes­so­as de bai­xa ren­da enfren­ta­ram ao lon­go de 21 anos de dita­du­ra em que as polí­ti­cas habi­ta­ci­o­nais pri­o­ri­za­ram os sis­te­mas de mora­dia vin­cu­la­das ao sis­te­ma finan­cei­ro:

“O cus­to da habi­ta­ção, na ver­da­de, não esta­va pre­vis­to no salá­rio do tra­ba­lha­dor. O tra­ba­lha­dor não ganha­va o sufi­ci­en­te para pagar uma mora­dia ade­qua­da”, afir­ma Nabil Bon­du­ki, urba­nis­ta e pro­fes­sor da USP.

A alter­na­ti­va para quem sem viu excluí­do do direi­to bási­co à mora­dia foi ape­lar para pro­ces­sos de “auto­cons­tru­ção”. Em que as eram cons­truí­das em eta­pas, com­pran­do aos pou­cos o mate­ri­al e erguen­do habi­ta­ções em lote­a­men­tos, legais ou clan­des­ti­nos, sem estru­tu­ras bási­cas para uma vida dig­na, como rede de água e esgo­to ou sis­te­ma de trans­por­te públi­co. As fave­las e inva­sões que já exis­ti­am antes, mas que pro­li­fe­ra­ram no perío­do, são resul­ta­do des­se pro­ces­so.

Essa exclu­são fica explí­ci­ta em Cuba­tão, o prin­ci­pal pólo petroquí­mi­co do país, onde meta­de dos habi­tan­tes vivia em fave­las.

“Debai­xo do telha­do quen­te” dis­cu­te a refor­ma habi­ta­ci­o­nal, uma das pro­pos­tas João Gou­lart em suas refor­mas de base, fio con­du­tor para esse pod­cast. A mudan­ça no setor habi­ta­ci­o­nal que tam­bém foi anun­ci­a­da no his­tó­ri­co comí­cio da Cen­tral do Bra­sil, em 13 de mar­ço de 1964:

“Den­tro de pou­cas horas, outro decre­to será tam­bém dado ao conhe­ci­men­to da Nação. Tra­ta-se do decre­to que vai regu­la­men­tar o pre­ço extor­si­vo e abo­mi­ná­vel dos apar­ta­men­tos que encon­tram-se vazi­os”.

Jan­go fala­va de um pro­ble­ma que se desen­ro­la­va des­de os tem­pos de Getú­lio Var­gas: o valor altís­si­mo dos alu­guéis. Uma con­sequên­cia da polí­ti­ca de con­ge­la­men­to dos alu­guéis e a bai­xa ofer­ta de imó­veis para alu­gar.

“Debai­xo Telha­do Quen­te” é o séti­mo epi­só­dio da tem­po­ra­da “Futu­ro Inter­rom­pi­do”. Os epi­só­di­os que ante­ce­dem esse que foi ao ar nes­ta quin­ta-fei­ra (16) tam­bém lan­ça­ram luz sobre as pro­pos­tas de polí­ti­cas públi­cas que esta­vam em deba­te no iní­cio dos anos de 1960 e que ser­vi­ram de esto­pim para que a direi­ta se unis­se e inter­rom­pes­se o pro­ces­so demo­crá­ti­co no Bra­sil

Refor­ma agrá­ria, refor­ma fis­cal, refor­ma edu­ca­ci­o­nal… As Refor­mas Estru­tu­rais de Base, apre­sen­ta­das por João Gou­lart no comí­cio na Cen­tral do Bra­sil, no dia 13 de mar­ço de 1964, foram o pon­to de par­ti­da da inves­ti­ga­ção.

Naque­la épo­ca, um país com qua­se 80 milhões de pes­so­as, mais de 40% de anal­fa­ba­tos sem direi­to ao voto, a mes­ma pro­por­ção de pes­so­as viven­do no cam­po, mas enfren­tan­do um sis­te­ma injus­to de dis­tri­bui­ção de ter­ras, ao mes­mo tem­po que o país vivia uma polí­ti­ca  indus­tri­a­li­za­ção que pro­vo­cou um êxo­do rural.

Essas são as his­tó­ri­as recu­pe­ra­das na pri­mei­ra tem­po­ra­da de Per­das e Danos e os pro­je­tos que inter­rom­pe­ram um pro­ces­so de país, como dis­se a jor­na­lis­ta Mari­lu­ce Mou­ra, no pri­mei­ro epi­só­dio, que foi ao ar no dia 1o de abril:

“Eu acho que 1964 inter­rom­peu um pro­ces­so de país, eu não tenho nenhu­ma dúvi­da dis­so.”

O pod­cast Per­das e Danos vai con­tar ain­da com uma segun­da tem­po­ra­da, que des­sa vez vai inves­ti­gar as empre­sas que apoi­a­ram a rup­tu­ra demo­crá­ti­ca e o que elas lucra­ram com isso. Nes­sa segun­da tem­po­ra­da, com data de lan­ça­men­to ain­da a ser defi­ni­da, o fio con­du­tor vão ser as pes­qui­sas sobre o tema coor­de­na­das pelo Cen­tro de Antro­po­lo­gia e Antro­po­lo­gia e Arque­o­lo­gia Foren­se (CAAF) da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de São Pau­lo (Uni­fesp).

Para ouvir o epi­só­dio Debai­xo do telha­do quen­te”  e todos os outros epi­só­di­os de Per­das e Danos, aces­se: aqui:

Ou con­fi­ra por abai­xo os já publi­ca­dos na Radi­o­a­gên­cia Naci­o­nal:

Tam­bém é pos­sí­vel ouvir pelo Spo­tify.

Edi­ção: Bea­triz Arco­ver­de

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