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Urbanização de favelas é prioridade da Secretaria de Periferias

Repro­du­ção: © JoEd­son Alves

Prevenção de riscos também está na pauta, diz secretário


Publi­ca­do em 06/02/2023 — 07:13 Por Dani­el Mel­lo – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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Mili­tan­te do Movi­men­to dos Tra­ba­lha­do­res Sem Teto (MTST) des­de 2005, Gui­lher­me Simões assu­miu em janei­ro o coman­do da recém-cri­a­da Secre­ta­ria Naci­o­nal de Polí­ti­cas para Ter­ri­tó­ri­os Peri­fé­ri­cos, uma das cin­co secre­ta­ri­as que com­põem o Minis­té­rio das Cida­des. A pas­ta, cri­a­da ori­gi­nal­men­te em 2003, no pri­mei­ro gover­no do pre­si­den­te Luiz Iná­cio Lula da Sil­va, havia sido extin­ta pelo ex-pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro.

A secre­ta­ria vol­ta­da para cui­dar das regiões peri­fé­ri­cas é, no entan­to, uma novi­da­de que, segun­do Simões, aten­de a deman­das dos movi­men­tos soci­ais. Uma estru­tu­ra que, na visão do secre­tá­rio, une o pen­sa­men­to urba­nís­ti­co à vivên­cia dos ter­ri­tó­ri­os que ficam às mar­gens das gran­des cida­des.

“É uma con­fluên­cia des­sas for­mu­la­ções de urba­nis­tas, arqui­te­tos, com os inte­res­ses dos movi­men­tos que atu­am nas peri­fe­ri­as. O [pre­si­den­te] Lula aten­de essa deman­da e cria essa secre­ta­ria”, resu­me.

Como fun­ções, a secre­ta­ria deve tra­tar da urba­ni­za­ção das fave­las e da pre­ven­ção de ris­cos, como enchen­tes e des­li­za­men­tos de ter­ra. Ques­tões que Simões pre­ten­de abor­dar tan­to de for­ma emer­gen­ci­al, como estra­té­gi­ca, de lon­go pra­zo. “O que a gen­te tem obser­va­do nes­ses anos todos é que os ter­ri­tó­ri­os peri­fé­ri­cos fica­ram aban­do­na­dos e estão des­mo­bi­li­za­dos”, ava­lia.

Equipes de resgate trabalham na busca por vítimas do deslizamento de terra no Morro da Oficina, dez dias após as chuvas em Petrópolis.
Repro­du­ção: Duran­te as chu­vas de verão, fave­las na peri­fe­ria de gran­des cida­des de todo o país con­vi­vem com o ris­co de tra­gé­di­as decor­ren­tes de des­li­za­men­tos. Na ima­gem, des­li­za­men­to do Mor­ro da Ofi­ci­na, em Petró­po­lis, no ano pas­sa­do — Fer­nan­do Frazão/Agência Bra­sil

Nas­ci­do no Gra­jaú, na zona sul da capi­tal pau­lis­ta, Simões se apro­xi­mou da luta por mora­dia quan­do o MTST fez uma ocu­pa­ção no bair­ro. “Vim de uma famí­lia mui­to pobre e tive mui­ta difi­cul­da­de para sobre­vi­ver mes­mo, para ter comi­da na mesa, para morar. E isso, para além de ser um pro­ble­ma real, con­cre­to, sem­pre me mobi­li­zou mui­to, sem­pre mexeu mui­to comi­go”, con­ta.

Para ele, a fal­ta de mora­dia dig­na, que afe­ta milhões de famí­li­as no país, está dire­ta­men­te liga­da ao his­tó­ri­co escra­va­gis­ta do Bra­sil.

“A gen­te cos­tu­ma dizer que o 13 de maio [assi­na­tu­ra da Lei Áurea] veio e o 14 de maio é um dia que nun­ca aca­bou para a popu­la­ção negra. Fica­mos joga­dos sem direi­tos bási­cos, proi­bi­dos de par­ti­ci­par poli­ti­ca­men­te do país, proi­bi­dos de exer­cer direi­tos, proi­bi­dos de ser­mos cida­dãos. Essa situ­a­ção nun­ca foi resol­vi­da”, diz.

No movi­men­to por mora­dia, Simões aju­dou a expan­dir a atu­a­ção do MTST para além de São Pau­lo. “Hoje, o movi­men­to está atu­an­te em 14 esta­dos”, enfa­ti­za sobre o pro­ces­so que coor­de­nou. Tam­bém se for­mou em Ciên­ci­as Soci­ais pela Uni­ver­si­da­de Esta­du­al Pau­lis­ta e fez mes­tra­do na Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Rio de Janei­ro, com uma dis­ser­ta­ção em que ana­li­sa o pro­ces­so de urba­ni­za­ção do país a par­tir da obra do dra­ma­tur­go Plí­nio Mar­cos.

Ago­ra, como inte­gran­te do gover­no fede­ral, espe­ra esta­be­le­cer uma rela­ção cons­tru­ti­va com os movi­men­tos soci­ais. “Há uma con­vic­ção pro­fun­da de que esta­mos no cami­nho cer­to com o movi­men­to soci­al ten­do voz, e o gover­no afi­na­do com as pau­tas do movi­men­to soci­al”, afir­ma.

Simões espe­ra, inclu­si­ve, que par­te das solu­ções para os pro­ble­mas das fave­las e comu­ni­da­des peri­fé­ri­cas venha dos pró­pri­os ter­ri­tó­ri­os. “Tem mui­ta gen­te que enxer­ga a peri­fe­ria como se fos­se um ter­ri­tó­rio de aban­do­no, de ausên­cia. Mas, a peri­fe­ria é tam­bém um ter­ri­tó­rio de mui­ta potên­cia, de mui­ta dinâ­mi­ca”, diz.

Con­fi­ra os prin­ci­pais tre­chos da entre­vis­ta con­ce­di­da pelo secre­tá­rio à Agên­cia Bra­sil:

Agên­cia Bra­sil: Como você come­çou a mili­tar no Movi­men­to dos Tra­ba­lha­do­res Sem Teto (MTST)? Con­te um pou­co sobre como foi essa atu­a­ção.
Gui­lher­me Simões: Eu atuo no MTST des­de 2005. Conhe­ci esse movi­men­to em uma ocu­pa­ção na região sul de São Pau­lo, que é a região onde uma par­te da minha famí­lia vive. Des­de então, pas­sei a atu­ar no movi­men­to, a con­tri­buir inter­na­men­te na ocu­pa­ção, a aju­dar, e a par­tir de então não saí mais do movi­men­to. Des­de então, eu aju­dei a orga­ni­zar novas ocu­pa­ções e tam­bém con­tri­buí no pro­ces­so de naci­o­na­li­za­ção do movi­men­to. Hoje, o movi­men­to está atu­an­te em 14 esta­dos e eu tive, duran­te alguns anos, a tare­fa inter­na de coor­de­nar esse pro­ces­so. A minha tra­je­tó­ria no movi­men­to está rela­ci­o­na­da dire­ta­men­te à minha ori­gem soci­al. Sou nas­ci­do no bair­ro do Gra­jaú, em São Pau­lo. Vivo lá até hoje.

Agên­cia Bra­sil: O que fez com que você se apro­xi­mas­se do movi­men­to de luta por mora­dia?
Gui­lher­me Simões: Des­de sem­pre, como alguém que veio da peri­fe­ria, não de ouvi falar, mas de viver vári­os dos pro­ble­mas, inclu­si­ve o défi­cit habi­ta­ci­o­nal, sem­pre me inco­mo­dei. Sem­pre, de algu­ma for­ma, me indig­nei com a situ­a­ção soci­al do país. Vim de uma famí­lia mui­to pobre e tive mui­ta difi­cul­da­de para sobre­vi­ver mes­mo, para ter comi­da na mesa, para morar. E, isso, para além de ser um pro­ble­ma real, con­cre­to, sem­pre me mobi­li­zou mui­to. Sem­pre mexeu mui­to comi­go essa ques­tão da fal­ta de mora­dia, fal­ta de empre­go, fal­ta de dig­ni­da­de de manei­ra geral. Então, quan­do eu vi que tinha uma ocu­pa­ção em uma região que eu já conhe­cia, fui lá visi­tar para pres­tar soli­da­ri­e­da­de e de algu­ma for­ma ten­tar aju­dar aque­las pes­so­as que esta­vam em uma situ­a­ção que eu já tinha pas­sa­do algo pare­ci­do. Foi isso que me mobi­li­zou para atu­ar no movi­men­to.

Agên­cia Bra­sil: Você tam­bém atu­ou em um movi­men­to com recor­te raci­al, o Raiz da Liber­da­de. Como você vê que as duas pau­tas – da mora­dia e da ques­tão raci­al – estão inter­li­ga­das?
Gui­lher­me Simões: Se a gen­te fizer uma digres­são his­tó­ri­ca, a gen­te vai ver que no pós-abo­li­ção [da escra­vi­dão] no Bra­sil a popu­la­ção negra foi joga­da às ruas. A gen­te cos­tu­ma dizer que o 13 de Maio [assi­na­tu­ra da Lei Áurea] veio e o 14 de maio é um dia que nun­ca aca­bou para a popu­la­ção negra. Fica­mos joga­dos sem direi­tos bási­cos, proi­bi­dos de par­ti­ci­par poli­ti­ca­men­te do país, proi­bi­dos de exer­cer direi­tos, proi­bi­dos de ser­mos cida­dãos. Essa situ­a­ção nun­ca foi resol­vi­da. E a gen­te che­ga no sécu­lo 21 com um défi­cit habi­ta­ci­o­nal enor­me no país. Quan­do a gen­te vai obser­var mais de per­to esse défi­cit, a gen­te vai enten­der que ele está nas peri­fe­ri­as, que é jus­ta­men­te onde a popu­la­ção pre­ta do país foi parar nes­ses anos de aban­do­no, de sub­ci­da­da­nia. Está inter­li­ga­do na medi­da em que a popu­la­ção negra é a que mais pre­ci­sa de mora­dia. Assim como a popu­la­ção negra popu­la­ção está desas­sis­ti­da de direi­tos bási­cos e é a mais viti­ma­da pela vio­lên­cia do Esta­do. Então, a luta por mora­dia no nos­so país, sem dúvi­da, tem um viés antir­ra­cis­ta.

Agên­cia Bra­sil: A Secre­ta­ria de Ter­ri­tó­ri­os Peri­fé­ri­cos é uma estru­tu­ra com­ple­ta­men­te nova no gover­no. O que o você pen­sa em fazer daqui para fren­te ou já está fazen­do?
Gui­lher­me Simões: A secre­ta­ria é uma estru­tu­ra nova em que foi aten­di­do um pedi­do his­tó­ri­co dos movi­men­tos soci­ais que atu­am nas peri­fe­ri­as e daque­les que atu­am for­mu­lan­do a polí­ti­ca urba­na do país des­de a cri­a­ção do Minis­té­rio das Cida­des. Então, é uma con­fluên­cia des­sas for­mu­la­ções de urba­nis­tas, arqui­te­tos, com os inte­res­ses dos movi­men­tos que atu­am nas peri­fe­ri­as. O [pre­si­den­te] Lula aten­de essa deman­da e cria essa secre­ta­ria.

Qual o obje­ti­vo da secre­ta­ria? É bus­car fazer com que a peri­fe­ria este­ja no cen­tro da polí­ti­ca urba­na do nos­so país. Ten­do em vis­ta que a gen­te tem milhões de pes­so­as viven­do nas peri­fe­ri­as, em con­di­ções pre­cá­ri­as – para não dizer outra coi­sa –, é fun­da­men­tal que o país tenha polí­ti­cas espe­cí­fi­cas, des­ti­ne inves­ti­men­tos a par­tir des­sa vul­ne­ra­bi­li­da­de.

A secre­ta­ria tem duas atri­bui­ções: a urba­ni­za­ção de fave­las e de assen­ta­men­tos pre­cá­ri­os e tam­bém a ges­tão e pre­ven­ção de ris­cos e desas­tres, que está dire­ta­men­te liga­da à Secre­ta­ria de Defe­sa Civil. São duas coi­sas que se rela­ci­o­nam, mas que têm equi­pes pró­pri­as para tra­tar dos temas.

Então, tem três coi­sas que esta­mos pen­san­do: reto­mar uma coi­sa que esta­va aban­do­na­da no país nes­ses últi­mos anos, que são jus­ta­men­te as obras de urba­ni­za­ção que fica­ram para­das ou, com inves­ti­men­tos a con­ta-gotas, fica­ram depen­den­do de emen­da par­la­men­tar esse tem­po todo. Nós esta­mos toman­do par­te nes­se pro­ces­so, a equi­pe que esta­mos for­man­do, e fazen­do um pla­ne­ja­men­to de reto­ma­da. Essa é uma ques­tão essen­ci­al tan­to na urba­ni­za­ção quan­to na ges­tão de ris­cos. O país esta­va aban­do­na­do, des­go­ver­na­do. Esse é um desa­fio do ontem.

O segun­do desa­fio é a gen­te cons­truir uma estra­té­gia que seja de lon­go pra­zo, é vol­tar a ter um pla­no, um pro­je­to para as peri­fe­ri­as do pon­to de vis­ta da urba­ni­za­ção e da pre­ven­ção. A gen­te está viven­do nova­men­te o perío­do de chu­vas no Sudes­te, que é um perío­do mui­to difí­cil para mui­ta gen­te, com enchen­te, des­li­za­men­to. É um perío­do de mui­tas tra­gé­di­as. Nós pre­ci­sa­mos ter, ago­ra, um pla­no de emer­gên­cia e um pla­no para fren­te, que con­si­ga ter uma estra­té­gia de inclu­são e par­ti­ci­pa­ção soci­al nas peri­fe­ri­as. O que a gen­te tem obser­va­do nes­ses anos todos é que os ter­ri­tó­ri­os peri­fé­ri­cos fica­ram aban­do­na­dos e estão des­mo­bi­li­za­dos.

Um ter­cei­ro pon­to fun­da­men­tal para a nos­sa secre­ta­ria vai ser con­se­guir arti­cu­lar os ter­ri­tó­ri­os peri­fé­ri­cos em tor­no do que esses ter­ri­tó­ri­os já cons­tro­em auto­no­ma­men­te.

Tem mui­ta gen­te que enxer­ga a peri­fe­ria como se fos­se um ter­ri­tó­rio de aban­do­no, de ausên­cia. Mas, a peri­fe­ria é tam­bém um ter­ri­tó­rio de mui­ta potên­cia, de mui­ta dinâ­mi­ca.

Tem gru­pos cul­tu­rais, cole­ti­vos polí­ti­cos, movi­men­tos soci­ais e asso­ci­a­ções comu­ni­tá­ri­as. A peri­fe­ria auto-orga­ni­za solu­ções que mui­tas vezes não têm nenhum estí­mu­lo por par­te do Esta­do. Esse é tam­bém um desa­fio para nós, como cons­truir uma polí­ti­ca urba­na a par­tir da par­ti­ci­pa­ção.

Agên­cia Bra­sil: Como você vê que o movi­men­to soci­al e o pen­sa­men­to do urba­nis­mo podem se aju­dar? Como é pos­sí­vel pro­du­zir polí­ti­ca jun­tos?
Gui­lher­me Simões: Acho que his­to­ri­ca­men­te há uma rela­ção de mui­ta con­ver­gên­cia entre aque­les que for­mu­lam a polí­ti­ca urba­na no nos­so país. Feliz­men­te exis­te um gru­po mui­to diver­so, mais pro­gres­sis­ta, que pen­sa polí­ti­ca urba­na. Esse gru­po que cons­ti­tuiu o Minis­té­rio das Cida­des 20 anos atrás. É com esse gru­po que os movi­men­tos soci­ais vêm dia­lo­gan­do nes­ses últi­mos anos. Se você pen­sar no Esta­tu­to das Cida­des, na cri­a­ção de vári­os des­ses movi­men­tos urba­nos, nós esta­mos falan­do de três ou qua­tro déca­das de diá­lo­go per­ma­nen­te.

Então, eu acho que exis­te uma sim­bi­o­se mui­to impor­tan­te no país que a gen­te quer reto­mar, que foi dei­xa­da para trás nos últi­mos seis anos. A Secre­ta­ria das Peri­fe­ri­as é a expres­são des­sa sim­bi­o­se e pre­ci­sa, para dar cer­to, ter a con­tri­bui­ção tan­to de quem está for­mu­lan­do, quan­to de quem está viven­ci­an­do o pro­ble­ma no ter­ri­tó­rio. Eu sou mui­to oti­mis­ta sobre essa rela­ção.

Brasília (DF) - 02.02.2023 - Guilherme Simões, secretário de Periferias do Ministério das Cidades - Entrevista à Agência Brasil. Foto: Joedson Alves
Repro­du­ção: Gui­lher­me Simões assu­miu a Secre­ta­ria Naci­o­nal de Polí­ti­cas para Ter­ri­tó­ri­os Peri­fé­ri­cos, do Minis­té­rio das Cida­des, em janei­ro  / Joed­son Alves/Agência Bra­sil

Agên­cia Bra­sil: Você vem do movi­men­to de mora­dia, os pro­ble­mas com os quais você vai lidar estão rela­ci­o­na­dos à mora­dia, mas a secre­ta­ria não se des­ti­na a lidar com mora­dia. Como vai fun­ci­o­nar a inter­fa­ce com as áre­as do gover­no que vão lidar com essa ques­tão espe­cí­fi­ca?
Gui­lher­me Simões: Tem uma rela­ção mui­to for­te a pro­du­ção habi­ta­ci­o­nal com o pro­ces­so de urba­ni­za­ção. Nós vamos ter que fazer esse esfor­ço. Vou pro­cu­rar o Secre­tá­rio Naci­o­nal de Habi­ta­ção. Mas há um parên­te­se aqui: o Minis­té­rio [das Cida­des] está em pro­ces­so de for­ma­ção. Vis­to que ele está sen­do recri­a­do, nós esta­mos nes­se momen­to de for­ma­ção das equi­pes e das secre­ta­ri­as. Então, tem que ter uma paci­ên­cia his­tó­ri­ca.

Mas tem que pro­cu­rar, sim. Já tenho con­ver­sa­do com alguns ser­vi­do­res para enten­der a rela­ção entre as obras de habi­ta­ção e de urba­ni­za­ção. Onde que a gen­te tem que se jun­tar. Ago­ra, o que está evi­den­te para nós é que o Minha Casa, Minha Vida será uma das pri­o­ri­da­des do gover­no já a par­tir des­te ano. E, sen­do um pro­gra­ma do Minis­té­rio das Cida­des, sem dúvi­da que os pro­ces­sos de urba­ni­za­ção, as inter­ven­ções do minis­té­rio nas comu­ni­da­des, nas peri­fe­ri­as, serão neces­sá­ri­as. Não se faz pro­du­ção habi­ta­ci­o­nal sem urba­ni­za­ção.

Agên­cia Bra­sil: Você vem do movi­men­to soci­al, mas ago­ra está no gover­no. Você tem medo das cobran­ças que podem vir?
Gui­lher­me Simões: Não tenho medo, não. Acho que o movi­men­to soci­al tem que exer­cer o papel de movi­men­to soci­al. Nós pas­sa­mos seis anos por gover­nos ten­tan­do calar os movi­men­tos, cri­mi­na­li­zar os movi­men­tos, ten­tan­do tra­tar os movi­men­tos como caso de polí­cia. E, evi­den­te­men­te, esse novo gover­no Lula está tra­tan­do os movi­men­tos soci­ais com o mai­or res­pei­to. Tra­tan­do como se deve tra­tar movi­men­tos orga­ni­za­dos que estão nos seus ter­ri­tó­ri­os de mobi­li­za­ção, de luta, tra­zen­do as pau­tas e apon­tan­do o que o gover­no tem que aten­der.

Os paí­ses demo­crá­ti­cos têm a rela­ção com a soci­e­da­de civil cada vez mais azei­ta­da. É nes­se cami­nho que a gen­te tem que estar. Não há medo! Há uma con­vic­ção pro­fun­da de que esta­mos no cami­nho cer­to com o movi­men­to soci­al ten­do voz e o gover­no afi­na­do com as pau­tas do movi­men­to soci­al.

Agên­cia Bra­sil: Sobre o orça­men­to, exis­tem recur­sos dis­po­ní­veis para fazer os pro­je­tos emer­gen­ci­ais de redu­ção de ris­cos nas peri­fe­ri­as?
Gui­lher­me Simões: A gen­te está toman­do par­te da situ­a­ção, e esta­mos mui­to pre­o­cu­pa­dos. A tran­si­ção, além de orga­ni­zar um pla­no de gover­no para esse pri­mei­ro ano, teve que bri­gar para que hou­ves­se uma PEC [Pro­pos­ta de Emen­da Cons­ti­tu­ci­o­nal] para que pudes­se pagar o que o Bol­so­na­ro não tinha empe­nha­do de recur­sos para este ano. Ali, ficou cla­ro que todas as áre­as, todos minis­té­ri­os vão sair no pre­juí­zo, no sen­ti­do que esta­mos pagan­do uma con­ta, her­dan­do um lega­do ter­rí­vel, em que cer­ta­men­te o inves­ti­men­to ide­al não vai ser pos­sí­vel.

Tam­bém por esse esfor­ço que foi fei­to da tran­si­ção, da arti­cu­la­ção do gover­no, vamos ter recur­sos dis­po­ní­veis para lidar com obras para­das, para fazer o bási­co. E, ao mes­mo tem­po, para­le­la­men­te a isso, fazer o pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co, de lon­go pra­zo para os pró­xi­mos anos. Este ano, o orça­men­to para as obras de urba­ni­za­ção está em tor­no de R$ 500 milhões. É um orça­men­to que pare­ce gran­de, mas é bas­tan­te limi­ta­do se pen­sar em um país como Bra­sil e as neces­si­da­des que exis­tem.

Agên­cia Bra­sil: O pro­gra­ma Minha Casa, Minha Vida tinha uma moda­li­da­de em que as obras eram rea­li­za­das por enti­da­des da soci­e­da­de civil. Pode­mos pen­sar em uma linha pare­ci­da tam­bém para as obras de ges­tão de ris­cos e urba­ni­za­ção?
Gui­lher­me Simões: Essa, sem dúvi­da, é uma das linhas que vamos defen­der, de que for­mas pode­mos ter par­ce­ri­as com enti­da­des que tenham a capa­ci­da­de, por­que é algo que pre­ci­sa obe­de­cer deter­mi­na­dos cri­té­ri­os. A ideia não é só que a gen­te aumen­te o Minha Casa, Minha Vida, mas tam­bém na nos­sa secre­ta­ria, na urba­ni­za­ção e pre­ven­ção de ris­cos, para que a gen­te con­si­ga aju­dar as enti­da­des ter­ri­to­ri­ais a gerir obras e miti­gar os pro­ble­mas nos ter­ri­tó­ri­os. Essa é uma coi­sa que já esta­mos deter­mi­nan­do para a equi­pe: como con­se­guir fazer isso pelo Fun­do de Desen­vol­vi­men­to Soci­al ou outras for­mas de exe­cu­tar o orça­men­to. Mas com a con­vic­ção de que só o gover­no não vai dar con­ta dos desa­fi­os.

Agên­cia Bra­sil: Par­ce­ria com o setor pri­va­do, com gran­des empre­sas, tam­bém são uma opção?
Gui­lher­me Simões: A gen­te está enten­den­do ain­da o fun­ci­o­na­men­to da máqui­na, o minis­té­rio ain­da está em pro­ces­so de for­ma­ção. Alguns secre­tá­ri­os sequer foram nome­a­dos. A gen­te está mui­to ali­nha­do com o que o pre­si­den­te Lula e tam­bém o minis­tro [das Cida­des] Jader [Filho] colo­cam. A par­tir des­sa rela­ção – uma rela­ção hie­rár­qui­ca –, é que a gen­te vai agir. E nós pre­ci­sa­mos pri­o­ri­zar os ter­ri­tó­ri­os peri­fé­ri­cos na polí­ti­ca urba­na. Se hou­ver enten­di­men­to de outros seto­res de que isso é uma pri­o­ri­da­de e pode haver inves­ti­men­tos públi­cos, nós vamos sen­tar e dia­lo­gar de uma for­ma que não com­pro­me­ta as ins­ti­tui­ções e a rela­ção do gover­no com os ter­ri­tó­ri­os.

Edi­ção: Deni­se Gri­e­sin­ger

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