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Violência contra idosas: quando o trabalho doméstico vira escravidão

Repro­dução: © Ana Luiza/Arquivo Pes­soal

Maria de Moura, de 87 anos, trabalhou 72 anos para uma família


Publicado em 15/06/2024 — 10:34 Por Cristina Indio do Brasil — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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A fal­ta de um olhar para o tra­bal­ho do cuida­do de pes­soas de famílias empre­gado­ras ou domés­ti­co, real­iza­do por idosas que desem­pen­haram funções análo­gas à escravidão em áreas rurais, difi­cul­ta a iden­ti­fi­cação de vio­lên­cia con­tra esta parcela de mul­heres. A con­clusão é da procu­rado­ra do Min­istério Públi­co do Tra­bal­ho, Juliane Mon­et­ti, que atua na área de com­bate a este tipo de tra­bal­ho há 15 anos.

Segun­do a procu­rado­ra, ante­ri­or­mente era comum encon­trar nas oper­ações de fis­cal­iza­ção, em áreas rurais, home­ns em condições análo­gas à escravidão. Mas, no caso de mul­heres, não havia res­gates. De acor­do Juliane Mon­et­ti, elas estavam desem­pen­han­do funções na coz­in­ha das próprias casas para ali­men­tar os tra­bal­hadores da pro­priedade. Segun­do a procu­rado­ra, a jus­ti­fica­ti­va era de que essas mul­heres não estavam pre­stando serviços para as famílias e, por isso, não eram incluí­das na condição de tra­bal­ho anál­o­go à escravidão.

“Um tra­bal­ho exer­ci­do no âmbito domés­ti­co tam­bém é um tra­bal­ho. Tem uma questão de gênero muito forte, porque mul­heres que estão tra­bal­han­do com as famílias e são lev­adas peque­nas para tra­bal­har de babá, depois viram fax­ineira, coz­in­heira e no final da vida fica cuidan­do dos mais vel­hos, isso era muito nat­u­ral­iza­do”, expli­cou, indi­can­do que, hoje, os casos de tra­bal­ho do cuida­do já estão sendo mais foco de atenção.

De acor­do com a procu­rado­ra, neste caso, a defe­sa das pes­soas é diz­er que a mul­her é como uma pes­soa da família, mas, na ver­dade, “ela não está no inven­tário, não vai ser herdeira, não foi para a esco­la, não tem uma profis­são, não tem liber­dade para faz­er uma viagem de férias. Essa pes­soa está ali ape­nas para servir fazen­do o tra­bal­ho do cuida­do. Acho que a sociedade amadure­ceu esse olhar e pas­sou a perce­ber que essas mul­heres nes­sa condição, a maio­r­ia é de idosas, é explo­ração do tra­bal­ho”, afir­mou.

Caso Maria de Moura

Uma situ­ação de vio­lên­cia con­tra idosos que chamou mui­ta atenção quan­do foi descober­ta é a de Maria de Moura, de 87 anos. Em 2022, depois de uma oper­ação do Min­istério Públi­co do Tra­bal­ho do Rio de Janeiro (MPT-RJ) em con­jun­to com o Min­istério do Tra­bal­ho e Emprego, ela foi res­gata­da da casa de uma família, para a qual, por 72 anos, desem­pen­hou funções de domés­ti­ca. Os fis­cais, que chegaram ao local depois de uma denún­cia, con­stataram que a idosa esta­va em situ­ação análo­ga à escravidão.

Ana Luiza de Moura Lima, de 42 anos, sobrin­ha de Maria, disse que a história da tia começa quan­do, aos 12 anos, ela foi trazi­da de Vas­souras com o argu­men­to de que faria com­pan­hia à fil­ha dos patrões dos pais de Maria que tam­bém esta­va se mudan­do para o Rio. Eles tra­bal­havam na fazen­da daque­la família, no municí­pio do cen­tro-sul do esta­do do Rio. Com o pas­sar dos anos, a promes­sa de que teria uma vida igual à da meni­na não foi cumpri­da e, na ver­dade, Maria era domés­ti­ca da casa, no bair­ro de Maria da Graça, na zona norte da cap­i­tal flu­mi­nense, e nem mes­mo fre­quen­tou esco­las.

“O mes­mo trata­men­to da meni­na, dari­am para a min­ha tia. Esco­la, ali­men­tação, eram duas cri­anças. Min­ha avó, ven­do, pelo menos, um fil­ho ter edu­cação, deixou a min­ha tia vir. Min­ha tia, negra, longe da família e pobre fica­va em casa enquan­to a out­ra ia estu­dar e, ali, acon­te­ceu, virou empre­ga­da do lar. A min­ha tia não tem esco­lar­i­dade, muito mal sabe escr­ev­er o nome”, rev­el­ou Ana Luiza à Agên­cia Brasil.

A meni­na cresceu, e quan­do casou se mudou para o bair­ro do Méi­er, tam­bém na zona norte, levan­do Maria, que con­tin­u­ou com os tra­bal­hos de domés­ti­ca e cuidan­do da família da patroa. Ana Luiza sus­pei­ta que a tia era induzi­da a escon­der a condição de vida. “Sem­pre que a gente entra­va no assun­to carteira assi­na­da, bene­fí­cios, ela fala­va ‘isso é comi­go, eles fazem tudo dire­it­in­ho’. Nun­ca deu espaço para a gente brigar por ela sobre isso”, rela­tou, acres­cen­tan­do que o patrão acu­ou a tia no car­ro, no momen­to em que ela esta­va sendo res­gata­da. “Uma pes­soa que fez isso na frente das autori­dades, imag­i­na o que fazia quan­do estavam só ela e eles”.

Os par­entes ain­da con­seguiam ter algum tipo de con­ta­to com ela, que, quan­do era mais nova, chega­va a se encon­trar espo­radica­mente com a mãe, em Vas­souras, nas vezes em que os patrões iam à fazen­da e, quan­do podia ir soz­in­ha, per­mane­cia no máx­i­mo por dois dias. No entan­to, durante a pan­demia, as difi­cul­dades de falar com a tia se agravaram, e ela nem aten­dia o celu­lar.

“Na pan­demia, perdemos o con­ta­to total, e quan­do eu lig­a­va, o tele­fone só toca­va e ninguém aten­dia”, disse acres­cen­tan­do que isso acon­te­ceu até o dia em que o patrão, neto do casal que trouxe Maria para o Rio, aten­deu, e ao ser ques­tion­a­do por Ana Luiza sobre o que esta­va ocor­ren­do, respon­deu que não esta­va acon­te­cen­do nada.

Segun­do a sobrin­ha, quan­do a tia foi res­gata­da no Méi­er, ela apre­sen­ta­va sinais de demên­cia e de com­pro­me­ti­men­to da visão no olho dire­ito, em con­se­quên­cia de uma cirur­gia de catara­ta mal­suce­di­da e com o out­ro já não enx­er­ga­va. Foi assim que a idosa chegou à casa da sobrin­ha, na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, onde pas­sou a morar com a família. A idosa perdeu as forças nas per­nas e atual­mente não con­segue cam­in­har.

“Hoje o meu sen­ti­men­to é de revol­ta. Ten­ho hoje uma escra­va viva den­tro do meu lar. Infe­liz­mente é triste, mas essa é a real­i­dade. Ela abdi­cou da vida dela, tra­bal­hou a vida toda para bran­cos. Uma negra que, des­de lá de trás, tra­bal­hou para bran­co a vida toda. Ela rece­beu todos os maus tratos que um escra­vo rece­bia lá atrás dos patrões. Eles diziam que ela fazia parte da família. Isso não acon­te­cia, porque quan­do se faz parte da família, usa todos os cômo­d­os da casa, todos os veícu­los. Ela só era empre­ga­da, e sem­pre foi. Nós, os par­entes, não podíamos chegar lá sem avis­ar, porque a casa não era dela”, desabafou Ana Luiza.

Denúncia

A procu­rado­ra do Min­istério Públi­co do Tra­bal­ho, Juliane Mon­et­ti, con­tou que a família de dona Maria ten­ta­va con­ta­to, mas o patrão a repelia e não deix­a­va. Para estar com ela, tin­ha que ser na pre­sença dele. Nem para falar no celu­lar, ele deix­a­va. “Real­mente era uma vio­lên­cia con­stante não só pela explo­ração do tra­bal­ho, mas tam­bém a vio­lên­cia psi­cológ­i­ca. A família [dela] foi denun­cian­do a um órgão e out­ro, até que chegou ao Min­istério Públi­co do Tra­bal­ho. Aí, con­seguimos faz­er uma oper­ação que res­ga­tou a tra­bal­hado­ra dessa condição de vio­lên­cia. Essa é uma situ­ação que a gente tem ver­i­fi­ca­do, em casos de explo­ração em tra­bal­ho domés­ti­co que se repete”, infor­mou em entre­vista à Agên­cia Brasil.

A procu­rado­ra iden­ti­fi­cou que o caso tem com­po­nentes de gênero e de idade, comuns em condições em que a tra­bal­hado­ra já con­vive com a família nes­sa situ­ação de tra­bal­ho domés­ti­co há muitos anos. Situ­ação que aca­ba se repetindo porque a sociedade vai nat­u­ral­izan­do.

“O que é impor­tante é que a gente divulgue os casos que exis­tem para que as pes­soas perce­bam que isso é irreg­u­lar, é ile­gal, é um crime e que a sociedade pos­sa denun­ciar situ­ações como essa. Quan­do você percebe que existe uma pes­soa con­viven­do com uma família e está ali ape­nas para prestar serviço e servir, os dire­itos tra­bal­his­tas e a cidada­nia não são respeita­dos”, com­ple­tou.

Ressarcimento

Como se tra­ta de uma grave vio­lação de dire­itos humanos, e foi con­fig­u­ra­do tra­bal­ho anál­o­go à escravidão, não incide a pre­scrição. Por isso, o MPT propôs uma ação em que pede o paga­men­to das ver­bas tra­bal­his­tas de todo o perío­do des­de que foi morar com a família. “Além dis­so, a gente tam­bém pede ind­eniza­ções por danos morais cau­sa­dos para a tra­bal­hado­ra pela vida toda ded­i­ca­da a este tra­bal­ho sem dig­nidade, com desre­speito aos dire­itos mais bási­cos de cidada­nia e dire­itos humanos. Mas, infe­liz­mente, por maior que seja a ind­eniza­ção que ela ven­ha a rece­ber, isso não repara uma vida toda nes­sa situ­ação”, disse a procu­rado­ra do MPT.

Depois de denún­cia do Min­istério Públi­co Fed­er­al, em março de 2024, a Justiça tornou réus mãe e fil­ho. Os dois eram patrões de dona Maria. “A gente está bus­can­do os dire­itos tra­bal­his­tas dela e toda essa doc­u­men­tação, toda a con­fig­u­ração do crime, tudo isso foi encam­in­hado ao Min­istério Públi­co Fed­er­al, que entrou com ação penal con­tra os réus. Eles estão respon­den­do na Justiça Fed­er­al como réus pela explo­ração de crime de sub­mis­são de tra­bal­hador à condição análo­ga à escravidão”, com­ple­tou Juliane Mon­et­ti.

Em 2017, a procu­rado­ra atu­ou em out­ro caso, no inte­ri­or de Minas Gerais. Dessa vez, uma sen­ho­ra de 67 anos, que o cartão da aposen­ta­do­ria fica­va na mão da patroa e, ain­da, era obri­ga­da a com­prar a sua comi­da na ven­da do pai da empre­gado­ra. Ela tam­bém não podia sair nos fins de sem­ana, porque tin­ha que cuidar dos netos da família. “Era uma sen­ho­ra viú­va que não tin­ha para onde ir e acabou cain­do nes­sa situ­ação de explo­ração deste tra­bal­ho”, rela­tou, defend­en­do a divul­gação dos canais de denún­cias para incen­ti­var a sociedade a faz­er os reg­istros.

Edição: Aécio Ama­do

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