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Violências contra idosos podem ter diferentes facetas

Repro­dução: © Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Denúncias de violações cresceram em 2023 em comparação ao ano passado


Pub­li­ca­do em 15/06/2023 — 06:43 Por Luiz Clau­dio Fer­reira — repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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Sol­ta o som! Vamos dançar!

O cuidador de idosos bus­ca ani­mar o grupo. Eles estão no Lar dos Vel­hin­hos Maria Madale­na, em Brasília, uma insti­tu­ição de lon­ga per­manên­cia de idosos na cap­i­tal fed­er­al, con­ve­ni­a­da ao sis­tema públi­co de pro­teção de pes­soas aci­ma dos 60 anos de idade em situ­ação de vul­ner­a­bil­i­dade. Lá, em out­ros lares de acol­hi­men­to e nas ruas brasileiras, há histórias de difer­entes tipos de vio­lên­cias invis­i­bi­lizadas. Nes­ta quin­ta-feira (15), é Dia Mundi­al de Con­sci­en­ti­za­ção sobre a Vio­lên­cia con­tra a Pes­soa Idosa.

O som é o pagode, que ani­ma Maria*, de 75 anos. “Eu gos­to de dançar, de ouvir. Só não sei can­tar”. Nasci­da em uma cidade do inte­ri­or nordes­ti­no, ela foi empre­ga­da domés­ti­ca até se aposen­tar e mora­va em região per­iféri­ca da cap­i­tal fed­er­al. “Eu fiquei viú­va muito jovem. Eu tra­bal­ha­va em casa de família”.

Antes de ser acol­hi­da no Lar dos Vel­hin­hos, vivia soz­in­ha e con­ta­va com apoio de ami­gos. “Um dia, uma pes­soa ficou pre­ocu­pa­da comi­go porque achou que eu não esta­va viven­do bem, porque não fazia as três refeições. Foi assim que esse ami­go me inscreveu no Lar e me acol­her­am há três anos nesse lugar mar­avil­hoso”.

O sor­riso de Maria diminui quan­do cita que o úni­co fil­ho não a visi­ta.

“Ele gan­ha pouco tam­bém. Ficou com min­has coisas. Mas meu fil­ho não quer nem saber de mim”.

O psicól­o­go do Lar dos Vel­hin­hos Leonar­do Tavares afir­ma que os idosos chegam às casas em difer­entes situ­ações de vul­ner­a­bil­i­dade e que é pre­ciso uma atenção indi­vid­u­al­iza­da a cada deman­da. “Cada pes­soa que chega aqui é como um uni­ver­so. São muitas histórias e nos­so papel é garan­tir a indi­vid­u­al­i­dade de cada idoso”. A insti­tu­ição tem hoje 92 idosos acol­hi­dos. “Diante da neces­si­dade e do cresci­men­to pop­u­la­cional, há no Dis­tri­to Fed­er­al cin­co espaços, o que ain­da é pouco”, con­sid­era.

O Lar faz per­ma­nente cam­pan­ha para doações finan­ceiras, de roupas, móveis e agasal­hos.

Abandono e negligência

Histórias de aban­dono e neg­ligên­cia fazem parte do cam­in­ho de vio­lên­cia a que estão sub­meti­dos os idosos. Segun­do dados cole­ta­dos pela Ouvi­do­ria do Min­istério dos Dire­itos Humanos e da Cidada­nia, nos primeiros cin­co meses de 2023, pelo cam­in­ho de denún­cias do Disque 100 (incluin­do tele­fone, e‑mail e redes soci­ais), o Brasil con­tabi­li­zou 37.441 casos de neg­ligên­cia, 19.987 de aban­dono, 129.501 de vio­lên­cia físi­ca, 120.351 de vio­lên­cia psi­cológ­i­ca e 15.211 de vio­lên­cia finan­ceira. Hou­ve um aumen­to em todos eles se com­para­dos aos números do mes­mo perío­do do ano pas­sa­do.

Arte violência contra idosos

O secretário nacional dos Dire­itos Humanos da Pes­soa Idosa, Alexan­dre da Sil­va, avalia que os números vin­ham sendo sub­no­ti­fi­ca­dos e que o aumen­to no número de denún­cias pode sig­nificar maior con­fi­ança nas insti­tu­ições por parte do públi­co a respeito de futuras providên­cias. “Um dos nos­sos focos neste mês alu­si­vo ao enfrenta­men­to da vio­lên­cia con­tra o idoso (Jun­ho Vio­le­ta) é a maior divul­gação do Disque 100”. Ele recon­hece que alguns gru­pos, por difer­entes vul­ner­a­bil­i­dades soci­ais, podem estar mais expos­tos à vio­lên­cia.

Ele diz que os dados têm mostra­do que a idade na qual ocorre a vio­lên­cia está começan­do des­de os 60 anos de idade. “A gente entende que vários cenários podem ser cau­sadores dessa vio­lên­cia, não só o âmbito famil­iar, mas tam­bém das insti­tu­ições. A nos­sa pri­or­i­dade é tirar essa pes­soa idosa da cena da vio­lên­cia”.

Pandemia e violência dentro de casa

O secretário con­tex­tu­al­iza que o perío­do da pan­demia expôs difi­cul­dades extremas para os idosos. “Nós temos, infe­liz­mente ain­da, a con­statação de que boa parte dessa vio­lên­cia ocorre den­tro de casa.”

O médi­co-geron­tól­o­go Alexan­dre Kalache, um dos prin­ci­pais pesquisadores brasileiros do assun­to, avalia que a pan­demia expôs difer­entes vio­lên­cias con­tra os idosos.

“A pan­demia nos prestou, de uma for­ma per­ver­sa, o fla­grante que o país pre­cisa dar saltos gigan­tescos para que a gente com­bata o idadis­mo, o pre­con­ceito con­tra o idoso. No Brasil, o vel­ho é sem­pre o out­ro”.

O pesquisador é pres­i­dente do Cen­tro Inter­na­cional da Longev­i­dade (Inter­na­tion­al Longevi­ty Cen­tre, ILC Brazil) e co-dire­tor do Age Friend­ly Insti­tute, basea­do em Boston (Esta­dos Unidos). “A avali­ação que eu faço sobre as políti­cas para o enfrenta­men­to da vio­lên­cia, da neg­ligên­cia e aban­dono é que nós temos hoje uma opor­tu­nidade históri­ca para retomar aqui­lo que vin­ha sendo feito e que infe­liz­mente sofreu um lap­so”. Para ele, nos últi­mos anos, não hou­ve reais políti­cas públi­cas de pro­teção a esse grupo da sociedade.

Ele leva em con­ta que o Brasil será um dos três país­es que mais rap­i­da­mente irá envel­he­cer até o ano de 2050. Chi­na e Tailân­dia estão entre as nações que pre­cisam tam­bém se orga­ni­zar para pro­por­cionar dig­nidade a uma faixa etária que não para de crescer. Lev­an­ta­men­to do Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE) mostrou que pes­soas com 60 anos ou mais chegaram a 31,23 mil­hões de pes­soas.

“Real­mente nós perdemos muito tem­po. Como você pode jus­ti­ficar que um país que tem 3% da pop­u­lação mundi­al seja respon­sáv­el por 11% das mortes pela covid-19. Hou­ve muito desleixo porque as prin­ci­pais víti­mas da pan­demia eram pes­soas idosas”, afir­mou Kalache.

Além dis­so, as víti­mas prin­ci­pais estavam entre as pop­u­lações mais car­entes. “Ribeir­in­has, fave­la­dos, pop­u­lação negra e indí­ge­nas, quilom­bo­las… A vul­ner­a­bil­i­dade no Brasil é da desigual­dade social. Você se tor­na um idoso entre aspas, não por ter cumpri­do um deter­mi­na­do número de anos, mas por você ter comor­bidades”.

O secretário Alexan­dre da Sil­va entende que as soluções pas­sam por ações educa­ti­vas.

“É necessário enten­der que muitas vezes essa vio­lên­cia começa pequenin­in­ha, com um apeli­do, com o uso inde­v­i­do do din­heiro da pes­soa idosa. Mas envolve tam­bém ações físi­cas, psi­cológ­i­cas, sex­u­ais, e o aumen­to das vio­lên­cias pat­ri­mo­ni­ais”.

Ele diz que o gov­er­no vai apre­sen­tar uma série de ações para min­i­mizar as vio­lên­cias, e for­t­ale­cer as parce­rias com esta­dos e municí­pios.

“O impor­tante é que o idoso nun­ca se cale. Ele nun­ca deve con­sen­tir com nen­hum tipo de vio­lên­cia”. Para isso, segun­do ori­en­ta o secretário, é pos­sív­el a todos os cidadãos encon­trarem algum órgão com um serviço de saúde ou um espaço socioas­sis­ten­cial, como os Cras e Creas, que são os cen­tros de refer­ên­cia de assistên­cia social.

O pesquisador Alexan­dre Kalache lem­bra que quan­do era dire­tor na Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde do Depar­ta­men­to de Envel­hec­i­men­to, hou­ve um estu­do em 12 país­es, incluin­do o Brasil, e que a tôni­ca prin­ci­pal era a obser­vação da vio­lên­cia insti­tu­cional nes­sas nações. “Eu me lem­bro de uma sen­ho­ra na Jamaica que disse não ter cor­agem de faz­er per­gun­tas para uma enfer­meira. No Canadá, out­ra idosa citou momen­to de um con­strang­i­men­to. Um out­ro sen­hor, nesse mes­mo estu­do, me disse que um gri­to dói mais do que um tapa na cara”.

Con­strang­i­men­to que out­ro idoso, Gabriel Ximenes, de 82 anos, que vive de um salário  mín­i­mo de aposen­ta­do­ria e de vigiar car­ros em Brasília, sen­tiu quan­do foi  pedir um emprés­ti­mo em um ban­co. Entre as dívi­das, pre­cisa ten­tar pagar a con­ta d´água da cas­in­ha de dois cômo­d­os que mora em Águas Lin­das de Goiás (GO), a 40 quilômet­ros de onde vigia car­ros. “Me falaram que eu não con­seguiria por causa da idade”. Foi emb­o­ra e, por isso, pre­cisa tra­bal­har de domin­go a domin­go. A esposa e o fil­ho esper­am diari­a­mente pelas moedas que recol­he.

Para o secretário Alexan­dre da Sil­va, não cabe somente ao idoso chamar atenção pelos con­strang­i­men­tos, pre­con­ceitos ou out­ras vio­lên­cias por quais pas­sa. “Esse apoio é um dev­er não só da víti­ma, mas de toda a sociedade”, afir­ma Alexan­dre da Sil­va

No Lar dos Vel­hin­hos, Maria* lamen­ta a fal­ta de vis­i­tas, mas desco­briu novos ami­gos. “Eu não paro de falar. Por mim, dançaria todos os dias. Claro que ten­ho saudades. Mas o nos­so momen­to é tam­bém aproveitar a vida, né?”.

* O nome da entre­vis­ta­da e algu­mas infor­mações do Lar dos Vel­hin­hos não foram men­ciona­dos para garan­tir a pri­vaci­dade da idosa.

Edição: Car­oli­na Pimentel

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