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Vítimas criticam acordo de órgãos públicos com a Braskem

Repro­du­ção: © Lui­za Leal / Divul­ga­ção

Mineradora custeou desocupação de bairros com risco de afundamento


Publi­ca­do em 20/12/2023 — 20:01 Por Luci­a­no Nas­ci­men­to — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Luís

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Repre­sen­tan­tes das víti­mas da ati­vi­da­de de explo­ra­ção de sal-gema da Bras­kem, em Maceió, cri­ti­ca­ram os acor­dos fecha­dos por órgãos públi­cos com a mine­ra­do­ra. Duran­te audi­ên­cia públi­ca da Comis­são de Meio Ambi­en­te e Desen­vol­vi­men­to Sus­ten­tá­vel da Câma­ra dos Depu­ta­dos sobre os impac­tos ambi­en­tais da ati­vi­da­de da empre­sa, eles afir­ma­ram que os mora­do­res das áre­as que tive­ram o solo afun­da­do não foram ouvi­dos duran­te as tra­ta­ti­vas ade­ri­ram aos acor­dos por se encon­tra­rem em situ­a­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de.

O Pro­gra­ma de Com­pen­sa­ção Finan­cei­ra (PCF) foi ins­ti­tuí­do pela Bras­kem após acor­do fir­ma­do em 2019 entre a Defen­so­ria Públi­ca da União (DPU), o Minis­té­rio Públi­co Fede­ral (MPF), a Defen­so­ria Públi­ca de Ala­go­as e o Minis­té­rio Públi­co de Ala­go­as e homo­lo­ga­do judi­ci­al­men­te em 2020.

Entre outros pon­tos, o acor­do garan­tiu que a Bras­kem cus­te­as­se todas as medi­das de deso­cu­pa­ção das pes­so­as da área de ris­co deli­mi­ta­da pela Defe­sa Civil e tam­bém a inde­ni­za­ção pelos danos mate­ri­ais e morais.

O acor­do não fixou valo­res, nem sobre danos morais ou mate­ri­ais, ape­nas garan­tiu um valor míni­mo de R$ 81,5 mil para imó­veis cujo valor de mer­ca­do fos­se infe­ri­or. Des­de a homo­lo­ga­ção, até o momen­to, foram tira­das da área de ris­co cer­ca de 60 mil pes­so­as e deso­cu­pa­dos 15 mil imó­veis.

O Coor­de­na­dor-Geral da Asso­ci­a­ção do Movi­men­to Uni­fi­ca­do das Víti­mas da Bras­kem (MUVB) Cás­sio Araú­jo, dis­se que hou­ve uma ten­ta­ti­va de aden­do ao acor­do em que os mora­do­res pro­pu­nham novos cri­té­ri­os para as ações de repa­ra­ção da empre­sa e que esse pedi­do foi inde­fe­ri­do pelo Minis­té­rio Públi­co Fede­ral, Minis­té­rio Públi­co de Ala­go­as e pela Defen­so­ria Públi­ca da União.

“Os minis­té­ri­os públi­cos esta­du­al e fede­ral e a Defen­so­ria Públi­ca da União nega­ram essa pos­si­bi­li­da­de, inde­fe­ri­ram o nos­so pedi­do e dis­se­ram que o que a Bras­kem esta­va fazen­do era mui­to bom, sob o argu­men­to da auto­a­de­são”, cri­ti­cou Araú­jo. “As pes­so­as, que esta­vam em um esta­do de alta vul­ne­ra­bi­li­da­de, que­ren­do resol­ver a sua situ­a­ção, aca­ba­vam acei­tan­do as pro­pos­tas inde­co­ro­sas, irri­só­ri­as que a empre­sa infra­to­ra esta­va fazen­do e as ins­ti­tui­ções res­pon­sá­veis por defen­der essas víti­mas, defen­di­am o que a Bras­kem esta­va fazen­do”, emen­dou.

Repre­sen­tan­te do Movi­men­to pela Sobe­ra­nia Popu­lar na Mine­ra­ção (MAM), em Maceió, Pau­lo César Mar­ques lem­brou que a mai­o­ria das rea­lo­ca­ções ocor­reu duran­te a pan­de­mia da covid-19 e que isso inter­fe­riu nas deci­sões dos mora­do­res.

“A gen­te tem que ana­li­sar a situ­a­ção em que o pes­so­al esta­va e o quan­to foi for­ça­do a acei­tar a rea­lo­ca­ção. Todo dia as pes­so­as acor­da­vam e pen­sa­vam que a casa pode­ria afun­dar e isso tudo dian­te de uma situ­a­ção de pan­de­mia”, pon­tu­ou.

Um dos pon­tos cri­ti­ca­dos pelos repre­sen­tan­tes foi o que cedeu à empre­sa as áre­as pri­va­das e públi­cas na região onde hou­ve a rea­lo­ca­ção. Pelo acor­do fir­ma­do, a empre­sa ficou proi­bi­da de edi­fi­car na área enquan­to hou­ver ins­ta­bi­li­da­de e qual­quer des­ti­na­ção futu­ra deve obser­var a neces­sá­ria esta­bi­li­za­ção defi­ni­ti­va do solo, medi­an­te apro­va­ção no pla­no dire­tor do muni­cí­pio.

“A trans­fe­rên­cia de pro­pri­e­da­de para a Bras­kem foi um ato inde­co­ro­so que nun­ca deve­ria ter acon­te­ci­do, isso jamais pode­ria ter sido fei­to” dis­se Araú­jo.

Para o repre­sen­tan­te das víti­mas, a empre­sa pode influ­en­ci­ar na deci­são de alte­ra­ção do pla­no dire­tor do muni­cí­pio, devi­do ao seu poder econô­mi­co. “Como é publi­co e notó­rio o poder de inter­fe­rên­cia do poder econô­mi­co no nos­so par­la­men­to, par­ti­cu­lar­men­te nas nos­sas câma­ras de vere­a­do­res, ela pode inter­fe­rir para poder fazer no futu­ro a explo­ra­ção econô­mi­ca da região”, obser­vou.

Notícia crime

O pre­si­den­te da Asso­ci­a­ção dos Empre­en­de­do­res e Víti­mas da Mine­ra­ção em Maceió, Ale­xan­dre Sam­paio dis­se que a asso­ci­a­ção entrou com uma notí­cia cri­me con­tra a Bras­kem, mas a medi­da não foi adi­an­te, por­que segun­do ele, o MPF dis­se que a asso­ci­a­ção não tinha legi­ti­mi­da­de para pro­ces­sar cri­mi­nal­men­te a empre­sa.

“Pas­sa­dos cin­co anos de quan­do o cri­me apa­re­ceu, o Minis­té­rio Públi­co ain­da não pro­ces­sou cri­mi­nal­men­te a empre­sa. O que nos cau­sa mui­to estra­nha­men­to”, afir­mou Sam­paio.

O pre­si­den­te dis­se ain­da que com o colap­so da mina 18, no últi­mo dia 10, soli­ci­tou nova­men­te ao MPF que a empre­sa fos­se pro­ces­sa­da por cri­me ambi­en­tal.

“O mun­do intei­ro viu o colap­so da mina 18, viu o man­gue afun­dan­do, viu vege­ta­ção sen­do supri­mi­da e afun­dan­do com o colap­so da mina 18 e pedi­mos a pri­são em fla­gran­te dos res­pon­sá­veis da Bras­kem”, dis­se. “Se um pes­ca­dor lá da lagoa [do Mun­daú] resol­ve fazer sua casi­nha do bar­co, pega um macha­do, cor­ta dez metros de man­gue para fazer sua casi­nha e alguém fil­ma isso, ele é pre­so e só é libe­ra­do após jul­ga­men­to”, iro­ni­zou Sam­paio que dis­se haver uma letar­gia do MPF para pro­ces­sar a empre­sa.

MPF

Duran­te a audi­ên­cia, a pro­cu­ra­do­ra-che­fe da Pro­cu­ra­do­ria da Repú­bli­ca em Ala­go­as, Rober­ta Lima Bom­fim, defen­deu o acor­do. Segun­do repre­sen­tan­te do MPF, não está haven­do uma com­pre­en­são ade­qua­da do que foi defi­ni­do.

“Essa área deso­cu­pa­da, esse pon­to é sem­pre ques­ti­o­na­do e, no nos­so enten­der, tem rece­bi­do uma com­pre­en­são não ade­qua­da. É impor­tan­te com­pre­en­der que essa área é um pas­si­vo da Bras­kem e não tem con­di­ção nenhu­ma [de explo­ra­ção]. O recen­te acon­te­ci­men­to da mina 18 é um exem­plo de que essa área não tem con­di­ção de explo­ra­ção. É um pas­si­vo da Bras­kem que deve ser supor­ta­do pela empre­sa e todos os cus­tos des­sa ges­tão”, afir­mou.

Para o defen­sor Públi­co da União Die­go Mar­tins Alves a situ­a­ção é iné­di­ta e não há ins­tru­men­to jurí­di­co para garan­tir a ime­di­a­ta rea­lo­ca­ção das pes­so­as em casos de “tra­gé­di­as ambi­en­tais com­ple­xas”. Ele refor­çou que a empre­sa ficou com os imó­veis, mas que, des­de o iní­cio, a Bras­kem foi infor­ma­da de que “não seria tole­rá­vel que ela se bene­fi­ci­as­se da pró­pria tor­pe­za” e que a Defen­so­ria ori­en­ta que a área deve ser dire­ci­o­na­da para uti­li­za­ção de inte­res­se públi­co.

“Enquan­to hou­ver ins­ta­bi­li­da­de do solo, a Bras­kem não pode­rá explo­rar a área eco­no­mi­ca­men­te. Se hou­ver a esta­bi­li­da­de do solo na região, a Bras­kem só pode­rá explo­rar a área se hou­ver per­mis­são pelo pla­no dire­tor do muni­cí­pio de Maceió. A Defen­so­ria Públi­ca da União está vigi­lan­te nes­sa situ­a­ção”, dis­se.

Nes­ta ter­ça-fei­ra (19), a DPU e o MPF divul­ga­ram nota defen­den­do o acor­do inde­ni­za­tó­rio fir­ma­do com a Bras­kem para repa­ra­ção dos atin­gi­dos pelo afun­da­men­to em bair­ros de Maceió. O docu­men­to é uma res­pos­ta ao gover­no de Ala­go­as, que no últi­mo dia 15 pediu ao Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral (STF) a inva­li­da­ção dos acor­dos extra­ju­di­ci­ais fir­ma­dos pela Bras­kem com órgãos públi­cos.

Edi­ção: Ali­ne Leal

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