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Padastro de menor se diz inocente e questiona manobras médicas

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Dr. Jairinho foi interrogado no processo da morte de Henry Borel


Pub­li­ca­do em 13/06/2022 — 18:04 Por Léo Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

O médi­co e ex-vereador da cap­i­tal flu­mi­nense Jairo Souza San­tos Junior, con­heci­do como Dr. Jair­in­ho, foi inter­ro­ga­do hoje (13) na 2ª Vara Crim­i­nal do Rio de Janeiro e se defend­eu das acusações pela morte do meni­no Hen­ry Borel, de 4 anos de idade. Ele se declar­ou inocente e apre­sen­tou sua ver­são para os fatos, ques­tio­nan­do os pro­ced­i­men­tos médi­cos ado­ta­dos no Hos­pi­tal Bar­ra D’Or.

“Juro por Deus que nun­ca encostei em uma cri­ança”, afir­mou. Jair­in­ho vivia um rela­ciona­men­to com Monique Medeiros, mãe de Hen­ry Borel, quan­do o meni­no mor­reu. O caso ocor­reu no dia 8 de março do ano pas­sa­do no aparta­men­to onde os três moravam, na Bar­ra da Tiju­ca, na zona oeste do Rio de Janeiro.

O lau­do de necróp­sia do Insti­tu­to Médi­co-Legal (IML) indi­cou que a cri­ança tin­ha fer­i­men­tos pelo cor­po e que a causa da morte foi “hemor­ra­gia inter­na e lac­er­ação hep­áti­ca”. Foram lis­tadas lesões hemor­rág­i­cas na cabeça, lesões no nar­iz, hematomas no pun­ho e abdô­men, con­tusões no rim e nos pul­mões, além de hemor­ra­gia inter­na e rompi­men­to do fíga­do.

Em maio do ano pas­sa­do, Jair­in­ho e Monique Medeiros foram denun­ci­a­dos pelo Min­istério Públi­co do Rio de Janeiro (MPRJ) pela morte da cri­ança. Os dois se tornaram réus e são jul­ga­dos no Tri­bunal de Júri por homicí­dio tripla­mente qual­i­fi­ca­do, tor­tu­ra, fraude proces­su­al e coação no cur­so do proces­so. Monique é acu­sa­da ain­da por fal­si­dade ide­ológ­i­ca.

Denúncia

Na denún­cia, o MPRJ endos­sou con­clusões do inquéri­to con­duzi­do pela Polí­cia Civ­il. “Os inten­sos sofri­men­tos físi­cos e men­tais a que era sub­meti­da a víti­ma como for­ma de cas­ti­go pes­soal e medi­da de caráter pre­ven­ti­vo con­sis­ti­am em agressões físi­cas per­pe­tradas pelo denun­ci­a­do Jairo Souza San­tos Junior”, diz o doc­u­men­to.

Monique é apon­ta­da como coau­to­ra do crime por omis­são, pois tin­ha o dev­er de pro­teção e vig­ilân­cia. “Sendo con­hece­do­ra das agressões que o menor de idade sofria do padras­to e estando ain­da pre­sente no local e dia dos fatos, nada fez para evitá-las ou afastá-lo do nefas­to con­vívio com o denun­ci­a­do Jairo”, reg­is­tra a denún­cia.

Em sua ver­são, Jair­in­ho afir­ma que, na noite dos fatos, Hen­ry des­per­tou duas ou três vezes enquan­to ele e Monique assis­ti­am tele­visão. Emb­o­ra o meni­no cos­tu­masse acor­dar, seria mais do que o habit­u­al. O ex-vereador disse ter toma­do remé­dios para dormir, os quais usa há mais de 15 anos, e adorme­ceu quan­do Monique foi faz­er com­pan­hia ao fil­ho. Mais tarde, foi acor­da­do pela mãe da cri­ança, quan­do Hen­ry estaria res­pi­ran­do mal e com as mãos geladas. Nesse momen­to, ambos o levaram ao Hos­pi­tal Bar­ra D’Or.

“Fui acu­sa­do, como médi­co, de não prestar socor­ro. Mas quan­do você vê uma cri­ança pas­san­do mal e você tem um hos­pi­tal a 5 min­u­tos da sua por­ta, acho que é muito mais viáv­el levá-la pra lá do que socor­rê-la den­tro de casa”, disse Jair­in­ho, assi­na­lan­do que tam­bém não exer­cia a med­i­c­i­na há bas­tante tem­po. Ele disse ain­da que, na noite ante­ri­or, Monique obteve de Leniel Borel, pai de Hen­ry, a infor­mação de que o meni­no havia vom­i­ta­do. “Não estou fazen­do pré-jul­ga­men­to. Mas se meu fil­ho vom­i­ta, eu levo pro hos­pi­tal. Ou ligo pro pedi­atra que seja rotineiro. Porque vômi­to é sem­pre sin­toma de algu­ma coisa”, disse.

Segun­do Jair­in­ho, nem os profis­sion­ais do hos­pi­tal e nem famil­iares que acom­pan­haram o atendi­men­to notaram sinais de vio­lên­cia na cri­ança. Ele sus­ten­ta que se hou­vesse qual­quer lesão aparente, seria relata­do. “Não é pos­sív­el entrar em um hos­pi­tal do porte do Bar­ra D’Or com uma cri­ança machu­ca­da sem que nen­hu­ma ati­tude seja toma­da. Ninguém falou em morte vio­len­ta. Isso veio depois. Até o dia do velório, foi trata­do como morte aci­den­tal”.

Na ver­são apre­sen­ta­da pelo ex-vereador, hou­ve abor­dagem médi­ca inad­e­qua­da e Hen­ry foi sub­meti­do há duas horas de mas­sagem cardía­ca, quan­do a con­du­ta mais indi­ca­da seria cirúr­gi­ca. Ele sug­eriu que a equipe do plan­tão noturno de domin­go para segun­da-feira não estivesse prepara­da para um caso grave. “Toda mas­sagem car­dior­res­pi­ratória pode causar lesão. Isso faz parte da lit­er­atu­ra médi­ca”, argu­men­tou.

Jair­in­ho pediu para ter aces­so às câmeras inter­nas do Hos­pi­tal Bar­ra D’Or e a um raio‑x que foi cita­do no pron­tuário. Segun­do ele, ess­es mate­ri­ais provari­am sua inocên­cia. Ele se defend­eu ain­da da sus­pei­ta de ter ten­ta­do usar de sua influên­cia para con­seguir uma lib­er­ação ráp­i­da do cor­po, medi­ante um con­ta­to com Pablo dos San­tos Menezes, exec­u­ti­vo do Insti­tu­to D’Or.

“Como políti­co, esta­mos a todo momen­to pegan­do o tele­fone para ten­tar resolver as coisas da mel­hor maneira e da for­ma mais célere. E naque­le momen­to esta­va a avó do Hen­ry, dona Rosân­gela, dizen­do ‘pelo amor de Deus, me tira dessa cena e vamos acabar com isso’. E eu ligo pro Pablo para ten­tar agilizar o óbito. E isso foi vis­to como algo crim­i­noso. O próprio Pablo disse que não se sen­tiu coagi­do”.

Confusão

Horas antes de começar o inter­ro­gatório, o ex-vereador des­ti­tu­iu seis advo­ga­dos. Sua defe­sa con­tin­u­ou sendo coman­da­da por Cláu­dio Dalle­done e Flávia Fróes, que não inte­gram o mes­mo escritório dos des­ti­tuí­dos. Ini­ci­a­da a audiên­cia, hou­ve um impasse entre os defen­sores de Jair­in­ho e a juíza Eliz­a­beth Macha­do Louro. Os cin­co advo­ga­dos que­ri­am se ficar de pé em frente à mag­istra­da, que ale­gou se sen­tir afronta­da e insis­tia para que eles se sen­tassem. O imbróglio durou mais de 20 min­u­tos. Estran­hamen­tos já havi­am ocor­ri­do em audiên­cia ante­ri­or, quan­do hou­ve bate-boca entre os advo­ga­dos e a juíza.

No inter­ro­gatório, Jair­in­ho se negou a respon­der per­gun­tas do MPRJ e dos advo­ga­dos que rep­re­sen­tam Leniel Borel, que foi aceito no proces­so como assis­tente de acusação. Assim, ape­nas sua própria defe­sa apre­sen­tou ques­tion­a­men­tos.

Antes de nar­rar os fatos do dia da morte da cri­ança, o ex-vereador elo­giou Monique como mul­her e mãe, se disse reli­gioso e afir­mou que cresceu em uma família amorosa. Disse ain­da que sem­pre gos­tou de cri­anças e que muitos ami­gos de seus três fil­hos sem­pre fre­quen­tavam e dormi­am em sua casa. Ain­da segun­do Jair­in­ho, foi ele quem escol­heu para o Hen­ry o mel­hor quar­to do aparta­men­to onde moravam e tam­bém que insis­tiu para matriculá-lo numa boa esco­la. Ele tam­bém rela­tou momen­tos em que o meni­no man­i­festou car­in­ho por ele. “Quem seria capaz de faz­er mal a uma cri­ança? Esse não é o meu per­fil. Essa roupa não me cabe”, disse.

A defe­sa de Monique tem sus­ten­ta­do que o rela­ciona­men­to entre ambos não era saudáv­el e que ela foi víti­ma de agressões. Na ver­são de Jair­in­ho, eles se davam bem. “Teve ciúmes um do out­ro? Claro que sim. Ciúmes mútu­os. Mas pos­so afir­mar que 99% do tem­po era mar­avil­hoso”.

Processo

Jair­in­ho e Monique estão pre­sos des­de abril do ano pas­sa­do. Mas em abril deste ano, a mãe do meni­no obteve autor­iza­ção para ficar em prisão domi­cil­iar, com tornozeleira eletrôni­ca.

O inter­ro­gatório de Dr. Jair­in­ho havia sido ante­ri­or­mente agen­da­do para o dia 1º de jun­ho. No entan­to, foi adi­a­do com base em um habeas cor­pus obti­do pelos seus advo­ga­dos. Foi garan­ti­do a ele o dire­ito de ser ouvi­do ao menos 5 dias após o per­i­to assis­tente Sami El Jun­di, con­trata­do pela defe­sa.

Sami El Jun­di foi ouvi­do no dia 1º de jun­ho. Ele defend­eu a hipótese de erro médi­co no Hos­pi­tal Bar­ra D’Or. Tam­bém con­sider­ou ain­da que a autóp­sia foi fal­ha e de má qual­i­dade. Na ocasião, tam­bém foi ouvi­do o per­i­to legista do IML Leonar­do Huber Tauil. Ele sus­ten­tou que a prin­ci­pal hipótese para a morte de Hen­ry são agressões sofridas pelo meni­no e descar­tou que isso pos­sa ter ocor­ri­do por manobras de ressus­ci­tação.

Mes­mo após o depoi­men­to dos per­i­tos, a defe­sa ten­tou sus­pender o inter­ro­gatório de Jair­in­ho, pedin­do que antes fos­sem mar­cadas audiên­cias para que algu­mas teste­munhas fos­sem nova­mente ouvi­das. A solic­i­tação foi nega­da na sem­ana pas­sa­da pelo desem­bar­gador Joaquim Domin­gos de Almei­da Neto, da 7ª Câmara Crim­i­nal.

Encer­ra­do o inter­ro­gatório de Jair­in­ho, será aber­to pra­zo de cin­co dias para con­sid­er­ações do MPRJ. Em segui­da, o mes­mo perío­do será con­ce­di­do para os advo­ga­dos assis­tentes da acusação e para as defe­sas de Monique e Jair­in­ho. As partes poderão apre­sen­tar ain­da as ale­gações finais e então a juíza Eliz­a­beth Macha­do Louro vai decidir se os réus vão ou não a júri pop­u­lar.

Agên­cia Brasil solic­i­tou um posi­ciona­men­to ao Hos­pi­tal Bar­ra D’Or, mas ain­da não obteve retorno.

Edição: Fer­nan­do Fra­ga

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