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Temporais: voluntários fazem mutirão de limpeza e distribuem doações

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

São Sebastião contabiliza 39 das 40 mortes no litoral norte de SP


Pub­li­ca­do em 20/02/2023 — 20:54 Por Daniel Mel­lo — Envi­a­do espe­cial — São Sebastião (SP)

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Durante esta segun­da-feira (20), parte dos moradores atingi­dos pelos estra­gos das chu­vas em São Sebastião, no litoral norte paulista, ten­tavam aces­sar as casas em meio a lama. O municí­pio con­tabi­liza 39 das 40 mortes cau­sadas pelos desliza­men­tos e enx­ur­radas no litoral norte. São 1,7 mil pes­soas desa­lo­jadas e 766 desabri­gadas na região.

São Sebastião (SP), 20-02-2023, Desmoronamento causado pelas chuvas no bairro Itatinga, conhecido como Topolândia, no litoral norte de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: Bair­ro Itatin­ga, con­heci­do como Topolân­dia, no litoral norte de São Paulo, após tem­po­ral. Foto: Rove­na Rosa/Agência Brasil — Rove­na Rosa/Agência Brasil

No bair­ro da Topolân­dia, em São Sebastião, vol­un­tários tra­bal­havam com o apoio de escav­adeiras e cam­in­hões para tirar a lama e o entul­ho das ruas. “Hoje, pas­sei o dia todo tiran­do lama da viela”, con­tou Car­los José de San­tana, que mora com a mul­her e o fil­ho ado­les­cente em uma das casas atingi­das.

Na madru­ga­da de domin­go, a família deixou a residên­cia com água aci­ma do joel­ho. Segun­do Car­los, que vive de vender quei­jo nas pra­ias, eles já descon­fi­avam que o tem­po­ral muito aci­ma do nor­mal pode­ria traz­er prob­le­mas. “Nós não dormi­mos nes­sa noite. Ficamos pre­ocu­pa­dos. Era mui­ta água. Mui­ta água mes­mo”, lem­bra. Os 682 milímet­ros de chu­vas reg­istra­dos na região são o maior acu­mu­la­do da história do país.

Mas, nem todos os moradores perce­ber­am de antemão o peri­go. A estu­dante Geo­vana Mandin­ga, de 19 anos, disse que, mes­mo com os sinais ini­ci­ais, a família não pre­viu que um desliza­men­to ia destru­ir a casa onde vivi­am.

“Lá em cima, tem uma bar­reira de ter­ra que, com a chu­va, desceu. Quan­do eu perce­bi, eram 3h. Só esta­va descen­do ter­ra. Pare­cia tran­qui­lo. Só que eu dor­mi e às 6h eu vi uma casa sendo lev­a­da para baixo, a casa da frente”, rela­ta.

Quan­do o desas­tre se mostrou imi­nente, a mãe, o padras­to, os qua­tro irmãos e os dois sobrin­hos ain­da bebês da jovem deixaram a casa levan­do o pouco que con­seguiram car­regar. “A gente pegou umas peças de roupa e doc­u­men­tos. A gente teve que pular o muro dos viz­in­hos para con­seguir [sair]. A gente ficou ilha­do algu­mas horas antes de descer todo mun­do”, con­ta.

Solidariedade

São Sebastião (SP), 20-02-2023, Desmoronamento causado pelas chuvas no bairro Itatinga, conhecido como Topolândia, no litoral norte de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: Desmoron­a­men­to cau­sa­do pelas chu­vas no bair­ro Itatin­ga, con­heci­do como Topolân­dia, no litoral norte de São Paulo — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Ape­sar de forte­mente afe­ta­dos pela catástrofe, a família ain­da encon­trou espaço para ser solidária com quem está em uma situ­ação pior. Geo­vana lev­ou o exce­dente das doações que rece­beu a uma esco­la que está abri­g­an­do pes­soas que tam­bém perder­am as casas. “Tudo o que sobrou, que a gente não tem onde colo­car, esta­mos levan­do para o fun­do social. Porque tem muitas famílias que a gente con­hece que perder­am [tudo] tam­bém”, diz a jovem, que está tem­po­rari­a­mente na residên­cia de par­entes.

Durante os tra­bal­hos de limpeza nas ruas do bair­ro, não param de chegar far­dos com água min­er­al e ali­men­tos que são orga­ni­za­dos em casas que não foram atingi­das ou em ten­das impro­visadas, algu­mas por igre­jas. “Esta­mos ten­tan­do aju­dar mais os vol­un­tários e os moradores que estão lá em cima. Eles não con­seguem faz­er comi­da, estão sem água”, diz Raís­sa Morais, morado­ra há 20 anos da região que faz parte de um dos gru­pos que orga­ni­za as doações.

Raís­sa, que tra­bal­ha como asses­so­ra de um vereador do municí­pio, disse que tam­bém par­ticipou da mobi­liza­ção para que empresários e moradores da cidade ofer­e­cessem o apoio as pes­soas atingi­das pelas chu­vas. “Começamos a movi­men­tar, lig­an­do para um, pedin­do para out­ro. Foi quan­do começou a chegar as doações para a gente”, diz.

A empre­ga­da domés­ti­ca Tatiana Pereira da Sil­va foi uma das ben­e­fi­ci­adas pelas doações da esco­la, que virou abri­go. Ela per­cor­ria as ruas enlameadas do bair­ro descalça. Ela, o mari­do e o fil­ho escaparam por pouco da tragé­dia.

“Quan­do eu abri a por­ta, a lama já esta­va entran­do na min­ha casa. Eu fiquei deses­per­a­da. Tran­quei tudo e sai cor­ren­do. A lama já esta­va no meio da canela quan­do a gente desceu”, con­ta.

Alertas

Assim como todas as pes­soas ouvi­das pela Agên­cia Brasil, ela afir­ma não ter rece­bido nen­hum aler­ta da prefeitu­ra ou da Defe­sa Civ­il.

Em entre­vista cole­ti­va hoje, o prefeito de São Sebastião, Felipe Augus­to, disse que a admin­is­tração munic­i­pal emi­tiu aler­tas a par­tir das 21h de sába­do, quan­do começaram as chu­vas na cidade. Segun­do ele, ape­sar de ter con­hec­i­men­to prévio de que o municí­pio rece­be­ria fortes chu­vas, o vol­ume sur­preen­deu.

“O que não se esper­a­va era a den­si­dade dessas chu­vas, que ultra­pas­saram 600 milímet­ros num cur­to espaço de tem­po. Às 3h [de domin­go], o Cen­tro de Coor­de­nação de Emergên­cia e de Con­tingên­cia foi ati­va­do. Nós nos reuni­mos no cen­tro opera­cional da prefeitu­ra, com a pre­sença do Cor­po de Bombeiros, coor­de­nan­do todas as ações e já receben­do os primeiros chama­dos de escor­rega­men­tos e alaga­men­tos”, disse.

O Cen­tro Nacional de Mon­i­tora­men­to e Aler­tas de Desas­tres Nat­u­rais (Cemaden) infor­mou que as defe­sas civis locais já tin­ham con­hec­i­men­to dos riscos de um even­to extremo no litoral norte des­de a últi­ma quin­ta-feira (16).

Bairros ilhados

São Sebastião (SP), 20-02-2023, Desmoronamento causado pelas chuvas no bairro Itatinga, conhecido como Topolândia, no litoral norte de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: São Sebastião, após maior vol­ume de chu­va da história do Brasil– Rove­na Rosa/Agência Brasil

Alguns bair­ros do municí­pio per­manecem ilha­dos dev­i­do aos desliza­men­tos que atin­gi­ram estradas fun­da­men­tais para o deslo­ca­men­to na região. A área que vai da Bar­ra do Sahy até Boiçu­can­ga só pode ser aces­sa­da por helicóptero ou pelo mar. É dessa for­ma que estão sendo feitos os res­gates e o envio de man­ti­men­tos para as pes­soas que estão iso­ladas nes­sa parte do municí­pio. Os estra­gos ain­da estão sendo avali­a­dos, mas, há indí­cios que tre­chos das rodovias Rio-San­tos e da Mogi-Bertio­ga foram com­ple­ta­mente destruí­dos.

Edição: Aline Leal

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