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Um mês após tragédia, famílias de São Sebastião vivem incerteza

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Cerca de mil pessoas continuam alojadas em pousadas e hotéis da região


Pub­li­ca­do em 19/03/2023 — 11:16 Por Bruno Boc­chi­ni — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Um mês após fortes chu­vas e desliza­men­tos deixarem 65 pes­soas mor­tas e uma desa­pare­ci­da no litoral Norte do esta­do de São Paulo, as famílias atingi­das enfrentam o luto pela per­da de seus entes queri­dos e a incerteza sobre o futuro. Aprox­i­mada­mente mil pes­soas que tiver­am suas casas destruí­das, ou tor­nadas inabitáveis pelo mar de lama, vivem hoje tem­po­rari­a­mente em pou­sadas e hotéis con­ve­ni­a­dos ao gov­er­no do esta­do. O con­vênio, de 30 dias, ter­mi­na nas próx­i­mas sem­anas. 

Mui­ta gente preferiu ir para casa de par­entes ou se esta­b­ele­cer em quar­tos empresta­dos, e não sabe até quan­do terá um teto. “Eu estou de favor em um quar­to em Juque­hy, em tem­po de enlouque­cer, de sair sem des­ti­no, sabe? Estou abal­a­do, não sei qual o des­ti­no da min­ha vida. Não sei o que vai acon­te­cer. Assim, é mui­ta incerteza, só promes­sa”, con­ta Edval­do Guil­herme San­tos Neto, de 39 anos, que teve que aban­donar a casa em que mora­va em São Sebastião, na Vila Sahy, o bair­ro mais atingi­do pela catástrofe.

Entre a noite de 18 de fevereiro e a man­hã seguinte, dia 19, choveu na região mais de 600 milímet­ros. O acu­mu­la­do, segun­do o Cen­tro Nacional de Pre­visão de Mon­i­tora­men­to de Desas­tres (Cemaden), foi o maior já reg­istra­do no país. O grande vol­ume de água dev­as­tou parte das cidades da região, cau­sou mortes, desliza­men­tos de encostas, alaga­men­tos, destru­iu casas e estradas.

Guil­herme, sua esposa e fil­ho, estão abri­ga­dos hoje em uma pou­sa­da no bair­ro de Juque­hy, em São Sebastião, em um quar­to empresta­do, pelo perío­do de um mês, por uma ami­ga. A casa dele, na Vila Sahy, resis­tiu aos desliza­men­tos, mas está inter­di­ta­da pelas autori­dades. Na casa viz­in­ha, todos mor­reram, com exceção de um famil­iar, sal­vo pelos próprios moradores.

A casa de Guil­herme rece­beu da Defe­sa Civ­il o selo de risco laran­ja – usa­do quan­do a mora­dia não poderá voltar a ser habita­da até uma avali­ação das autori­dades. O ade­si­vo amare­lo é uti­liza­do para con­struções em situ­ação de mon­i­tora­men­to, e o ver­mel­ho, para casas con­de­nadas, que dev­erão ser destruí­das.

“Eu não ten­ho psi­cológi­co para voltar para min­ha casa, mes­mo se eles lib­er­arem. E a Defe­sa Civ­il não dá um pra­zo de quan­do vai ser lib­er­a­da. Fiz um emprés­ti­mo no Itaú e já sujei meu nome. Não sei o que faz­er. Estou endi­vi­da­do pela min­ha casa, onde eu não pos­so morar. Não rece­bi nen­hum amparo, nen­hu­ma garan­tia de que eu vou rece­ber algum val­or desse imóv­el, se ele não for lib­er­a­do.”

Ele afir­ma que, após a tragé­dia, fez cadas­tro tan­to na Com­pan­hia de Desen­volvi­men­to Habita­cional e Urbano do Esta­do de São Paulo (CDHU) e no Cen­tro de Refer­ên­cia de Assistên­cia Social (Cras) da cidade. “Fize­mos uns dez cadas­tros que eu nem sei para que que é. Eu sei que cadas­tro foi o que eu mais fiz e, até hoje, ninguém nun­ca me ligou nem para per­gun­tar se eu pre­ciso de um acom­pan­hamen­to psi­cológi­co. Até ago­ra esta­mos sobre­viven­do da doação de ces­tas bási­cas.”

Guil­herme diz que ele e a esposa tin­ham deix­a­do os empre­gos pouco antes do desas­tre, para ten­tar ini­ciar um negó­cio próprio de comér­cio pela inter­net. As mer­cado­rias com­pradas por eles ficaram den­tro da casa e foram per­di­das. Ele con­ta que nun­ca rece­beu nen­hum tipo de avi­so das autori­dades de que sua casa esta­va em área de risco. Além das casas que foram destruí­das pelos desliza­men­tos, a Defe­sa Civ­il con­de­nou out­ras 230 mora­dias no municí­pio, que serão der­rubadas nos próx­i­mos dias.

“Se hoje está essa situ­ação em São Sebastião é porque, infe­liz­mente, o poder públi­co não fez um pro­gra­ma de habitação para o municí­pio. Isso quem paga é a gente. Eu moro na Vila Sahy há 25 anos e a prefeitu­ra nun­ca fez um pro­gra­ma de drenagem das encostas, nun­ca fez um pro­gra­ma de habitação, nun­ca chegou na min­ha por­ta e falou assim: aqui é área de risco.”

Após enfrentarem a lama dos desliza­men­tos para ten­tar sal­var os viz­in­hos, a esposa de Guil­herme começou a sen­tir sin­tomas de lep­tospirose: diar­reia e dores nas artic­u­lações. Ela procurou um serviço médi­co e rece­beu o diag­nós­ti­co de virose.

“Min­ha esposa ain­da está com diar­reia, o cor­po doen­do, porque ela teve con­ta­to com a água con­t­a­m­i­na­da. A gente tirou lama, tirou cor­po dos escom­bros e da lama”.

A prefeitu­ra de São Sebastião afir­ma que não existe sur­to da doença na cidade. A admin­is­tração munic­i­pal recon­hece, no entan­to, que hou­ve um “aumen­to de noti­fi­cações de casos da doença” após as fortes chu­vas. “Em fevereiro, foram noti­fi­ca­dos 19 casos e, em março, 17 casos, que aguardam resul­ta­do. Até o momen­to, não há casos con­fir­ma­dos de lep­tospirose.”

A Sec­re­taria de Saúde do municí­pio disse que chegou a reg­is­trar um aumen­to de aprox­i­mada­mente 30% nos atendi­men­tos a pacientes com gas­troen­terite — uma irri­tação no sis­tema diges­ti­vo que causa, entre out­ros sin­tomas, diar­reia — nas unidades de saúde do municí­pio, prin­ci­pal­mente na Cos­ta Sul.

“No entan­to, essa tendên­cia não se con­soli­dou. É comum nes­ta época do ano, dev­i­do ao cli­ma quente, que as pes­soas apre­sen­tem alguns prob­le­mas intesti­nais. O recente aumen­to de casos levan­tou um aler­ta no municí­pio, espe­cial­mente após as últi­mas chu­vas.”

A prefeitu­ra ori­en­ta que, caso a pes­soa apre­sente algum sin­toma, deve procu­rar a unidade de saúde mais próx­i­ma, inclu­sive os hos­pi­tais de Clíni­cas da Cos­ta Sul, local­iza­do em Boiçu­can­ga, e a unidade da região cen­tral.

Parcerias

A admin­is­tração munic­i­pal infor­mou que fez parce­rias com o gov­er­no fed­er­al e estad­ual, por meio da Com­pan­hia de Desen­volvi­men­to Habita­cional e Urbano (CDHU) e do pro­gra­ma Min­ha Casa, Min­ha Vida para a con­strução de mais de 900 imóveis, entre casas e aparta­men­tos, que serão des­ti­na­dos às famílias que perder­am suas casas. A Defe­sa Civ­il, difer­ente­mente da prefeitu­ra, diz que serão con­struí­das 518 unidades habita­cionais.

Três ter­renos já estão em fase de ter­raple­nagem, nos bair­ros da Topolân­dia e Vila Sahy. Segun­do a gestão estad­ual, as primeiras unidades habita­cionais dev­erão ficar prontas em até 150 dias. Até lá, segun­do a Defe­sa Civ­il, as pes­soas que estão hoje abri­gadas em cer­ca de 20 hotéis e pou­sadas serão insta­l­adas tem­po­rari­a­mente em vilas de pas­sagem, unidades habita­cionais de madeira, que estão sendo con­struí­das em São Sebastião. As pes­soas tam­bém serão alo­cadas tem­po­rari­a­mente em unidades habita­cionais já prontas na cidade viz­in­ha de Bertio­ga (SP).

A prefeitu­ra ori­en­tou que as famílias que estão enfrentan­do difi­cul­dades pro­curem o Cen­tro de Refer­ên­cia de Assistên­cia Social (Cras) mais próx­i­mo.

Edição: Maria Clau­dia

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