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Piso histórico soterrado vira mistério no Palácio do Catete, no Rio

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Prédio abrigou a Presidência da República de 1896 a 1960


Pub­li­ca­do em 19/03/2023 — 12:35 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Cri­anças uni­formizadas de azul se sen­tam na gra­ma com pranchetas debaixo de enormes palmeiras. Com a ori­en­tação de uma pro­fes­so­ra, elas desen­ham o cenário: um jardim trop­i­cal de um palá­cio, com lagos, cha­fariz e um enorme core­to.

Idosos cam­in­ham e casais pas­seiam de mãos dadas no par­que. A poucos met­ros dali, out­ros desen­hos intrigam uma arqueólo­ga, uma museólo­ga e uma arquite­ta: ladrilhos hidráuli­cos com mais de 150 anos, pin­ta­dos à mão na Inglater­ra pelo mais nobre fab­ri­cante de pisos vito­ri­anos emer­gi­ram de um bura­co cava­do para a pas­sagem de tubu­lações de esgo­to.

Não há reg­istro dess­es ladrilhos em nen­hu­ma plan­ta daque­le palá­cio, mes­mo que ele já ten­ha sido o cen­tro do poder no Brasil, como a sede da Presidên­cia da Repúbli­ca e residên­cia ofi­cial de pres­i­dentes por mais de meio sécu­lo.

“Tem mui­ta cama­da de história nesse lugar”, disse a museólo­ga Isabel Portel­la, fig­u­ra­ti­va­mente. “Um perío­do vai suplan­tan­do um out­ro, e, além de a gente ter a história que acon­te­ceu aqui den­tro, abaixo tam­bém tem mui­ta história. Camadas de história para cima, e out­ras camadas históri­c­as para baixo”.

Sonho de JK

Isabel é servi­do­ra do Museu da Repúbli­ca, cri­a­do no Palá­cio do Catete depois que a cap­i­tal do Brasil foi trans­feri­da do Rio de Janeiro para Brasília em 1960. Enquan­to plane­ja­va a mudança, era nesse palá­cio que o ex-pres­i­dente Jusceli­no Kubitschek (JK) son­ha­va com a cap­i­tal do futuro.

Antes dis­so, Getúlio Var­gas morou e gov­ernou o país do palá­cio durante seu gov­er­no e tam­bém ter­mi­nou nele sua vida, ao se sui­ci­dar no dia 24 de agos­to de 1954, aos 72 anos. Tam­bém foi desse palá­cio que Vences­lau Brás declar­ou guer­ra à Ale­man­ha em 1917, já no fim da Primeira Guer­ra Mundi­al, depois que a Mar­in­ha Impe­r­i­al Alemã afun­dou navios mer­cantes brasileiros.

Diante de tan­ta história doc­u­men­ta­da, nen­hum reg­istro dá qual­quer pista de qual pos­sa ser a origem dos ladrilhos hidráuli­cos encon­tra­dos um dia antes do car­naval de 2023, no dia 16 de fevereiro. Isabel Portel­la é espe­cial­ista no assun­to, ten­do mapea­do todas as 47 padron­a­gens de ladrilhos que exis­tem no Palá­cio do Catete. Ela pode garan­tir que a descober­ta tem a mes­ma qual­i­dade que os pisos usa­dos no hall de entra­da e em out­ras áreas do museu, impor­ta­dos da Inglater­ra na época da con­strução, entre 1858 e 1867.

Chefe do núcleo de arquite­tu­ra e dire­to­ra sub­sti­tu­ta do Museu da Repúbli­ca, Ana Cecil­ia Lima San­tana con­tou que a pre­sença de descober­tas arque­ológ­i­cas nos sub­ter­râ­neos do Museu da Repúbli­ca na ver­dade não é tão sur­preen­dente. Mas algo da dimen­são do que foi acha­do dessa vez deixou todos os espe­cial­is­tas da casa sem respostas.

Escavações

“A gente sabe que, nos jardins do palá­cio, a gente pode encon­trar qual­quer coisa nas escav­ações. Por isso, sem­pre tem que ter um arqueól­o­go jun­to em qual­quer inter­fer­ên­cia que se faça, para qual­quer mín­i­ma pas­sagem de tubu­lação. É um jardim históri­co que pas­sou por muitas mod­i­fi­cações. A gente só não imag­i­nou que ia encon­trar algo desse taman­ho”, afir­mou.

“A gente não tem nen­hum rela­to do que pode ter sido isso. As plan­tas mais anti­gas que não mostram nada con­struí­do aqui. Os doc­u­men­tos mais anti­gos não mostram nada nes­sa área”, acres­cen­tou.

As escav­ações feitas no jardim para a pas­sagem das novas tubu­lações de esgo­to já havi­am se depara­do com pedaços de louça, vidro e cerâmi­cas, mas todos minús­cu­los, con­tou a arqueólo­ga Beth Mod­esti Simões, que foi quem encon­trou o ladrilho cavan­do com uma picare­ta.

“Perce­bi que tin­ha algu­ma coisa e disse: espera aí, vamos deva­gar”, lem­brou ela. “Quan­do achei esse ladrilho, reparei a qual­i­dade. Ele tem as ini­ci­ais do fab­ri­cante, então, não temos dúvi­das que é Minton. Esse fab­ri­cante era reno­madís­si­mo, ele fez um restau­ro na Cat­e­dral de West­min­ster [no Reino Unido]”, disse Beth.

A cat­e­dral em questão é famosa pelos casa­men­tos, coroações e funerais da família real britâni­ca. Beth ago­ra tra­bal­ha na con­fir­mação do que foi encon­tra­do, esca­v­an­do mais para desco­brir qual é a dimen­são real da área ladrilha­da, já que ape­nas pouco mais de um metro já foi rev­e­la­do. Depois que toda a área for aber­ta, ain­da fal­tará a respos­ta sobre qual estru­tu­ra havia rece­bido um ladrilho tão nobre no meio do jardim.

“É um tra­bal­ho de arque­olo­gia históri­ca, em que você cruza os artefatos que você encon­trou, a cul­tura mate­r­i­al dessa época, com os doc­u­men­tos que você desco­bre em arquiv­os e plan­tas”, detal­hou ela, que tra­bal­ha no Insti­tu­to de Arque­olo­gia do Brasil, acom­pan­ha­da pelo Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan).

As três pesquisado­ras têm suas próprias espec­u­lações. Elas vão des­de testes feitos para mostrar as padron­a­gens ao anti­go dono do casarão até a pos­si­bil­i­dade de um pór­ti­co, com uma entra­da alter­na­ti­va para o jardim, que já foi ampli­a­do diver­sas vezes. Há ain­da relatos pouco esclare­ce­dores de que pode ter havi­do ali uma casa con­struí­da para a sogra do Barão de Nova Fribur­go, o respon­sáv­el por con­stru­ir aque­le palá­cio lux­u­oso com um jardim que ter­mi­na­va na areia da pra­ia.

Nobreza escravocrata

Mas como um casarão tão sun­tu­oso a pon­to de ser um palá­cio pres­i­den­cial foi con­struí­do para ser a residên­cia de uma família nobre no sécu­lo 19? Entre ladrilhos hidráuli­cos ingle­ses, vit­rais alemães e col­u­nas de már­more, o luxo e o requinte da residên­cia exem­pli­fi­cam o poder econômi­co da elite cafe­icul­to­ra e escrav­ista, da qual o Barão de Nova Fribur­go, Antônio Clemente Pin­to, era um desta­ca­do rep­re­sen­tante.

Barão e Baronesa de Nova Friburgo ao lado de maquete do Palácio do Catete, em retrato em óleo sobre tela de Emil Bausch (1867)
Repro­dução: Barão e Barone­sa de Nova Fribur­go ao lado de maque­te do Palá­cio do Catete, em retra­to em óleo sobre tela de Emil Bausch (1867) — Arqui­vo

“Ele con­stru­iu a maior parte da for­tu­na dele com o trá­fi­co de pes­soas escrav­izadas”, definiu a arqueólo­ga Beth Mod­esti. “Era uma ativi­dade que ger­a­va uma for­tu­na enorme para todos eles”.

Um estu­do pub­li­ca­do na Revista Mara­canan, da Uni­ver­si­dade do Esta­do do Rio de Janeiro, pelo his­to­ri­ador Rodri­go Marins Mar­ret­to, con­tabi­liza que, em ape­nas qua­tro anos, de 1827 a 1830, o Barão de Nova Fribur­go foi respon­sáv­el pela vin­da força­da de mais de 3,3 mil pes­soas escrav­izadas da África para o Brasil, em oito via­gens.

Os prin­ci­pais por­tos em que o barão com­prou pes­soas escrav­izadas foram Quil­i­mane, Cabin­da, Luan­da e Inham­bane, e os desem­bar­ques eram sem­pre real­iza­dos no Rio de Janeiro.

Ao todo, 306 pes­soas mor­reram no per­cur­so pelo Oceano Atlân­ti­co, e as demais foram ven­di­das ou com­puser­am o enorme con­tin­gente de escrav­iza­dos, o que o trans­for­mou em um dos maiores cafe­icul­tores do inte­ri­or do Rio, garan­ti­n­do um títu­lo de nobreza a um homem que poucos anos antes tra­bal­ha­va no comér­cio.

“Era o trá­fi­co de escravos que per­mi­tia um primeiro ciclo de enriquec­i­men­to que, através dos cap­i­tais acu­mu­la­dos, trans­bor­da­va para as áreas agrí­co­las da Provín­cia flu­mi­nense e con­tribuía para a mon­tagem de um sis­tema agrário com­plexo e vari­a­do”, expli­cou  arti­go pub­li­ca­do pelo his­to­ri­ador.

Sob sua pro­priedade, o barão chegou a acu­mu­lar 2.180 pes­soas escrav­izadas e 15 fazen­das. Sua riqueza e influên­cia fiz­er­am com que bus­casse um lugar de destaque para morar na cap­i­tal, mais per­to da sede do Império Brasileiro, cuja sus­ten­tação políti­ca era insep­a­ráv­el da elite escrav­ista.

Foi, então, que ini­ciou a con­strução do Palá­cio do Catete, no qual o barão e a barone­sa residi­ram por pouco tem­po. A impo­nente con­strução neo­clás­si­ca de três andares ficou pronta em 1867, e o barão mor­reu em 1869. Sua esposa, a barone­sa, em 1870. O palá­cio per­maneceu na família até 1889, quan­do foi ven­di­do por um dos fil­hos do casal, o conde de São Clemente.

Nos sete anos seguintes, ele mudou de mãos até chegar ao Ban­co da Repúbli­ca do Brasil, em 1895, e ser req­ui­si­ta­do para ser sede da Presidên­cia da Repúbli­ca no ano seguinte.

O Palá­cio do Catete foi a sede do Poder Exec­u­ti­vo até 1960, quan­do a cap­i­tal fed­er­al foi trans­feri­da para Brasília. Hoje, ele está aber­to à vis­i­tação, como Museu da Repúbli­ca, e seu jardim de 12 mil met­ros quadra­dos é uma área de laz­er que fun­ciona como uma praça para os moradores do Catete, bair­ro car­ac­ter­i­za­do por ruas estre­itas e pré­dios anti­gos.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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