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Arte com atitude é o trabalho da grafiteira NeneSurreal

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Encarar a rua, para ela, é a própria essência do graffiti


Pub­li­ca­do em 27/03/2023 — 07:51 Por Daniel Mel­lo — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Mãe, avó, artista e “sap­atão” são algu­mas das palavras que descrevem mar­cos da tra­jetória da grafiteira NeneS­ur­re­al. O per­cur­so mis­tu­ra a car­reira artís­ti­ca ao lon­go de mais de 30 anos a uma história de vida cheia de descober­tas e obstácu­los. “Eu gostaria de falar só da min­ha arte. Mas, a min­ha arte é a min­ha luta. Elas estão muito interli­gadas”, diz, cer­ca­da de pin­turas e escul­turas que pro­duz­iu em sua casa em Diade­ma, na Grande São Paulo.

As primeiras exper­iên­cias com o graf­fi­ti foram ain­da no fim da ado­lescên­cia. “Hoje, a gente está em um momen­to muito bom em que as mul­heres estão con­seguin­do real­mente pin­tar. Mas, eu ven­ho de uma ger­ação em que pre­cisa­va provar que tin­ha capaci­dade para faz­er. Então, eu ia dar fun­do em muro [pin­tu­ra preparatória]. Ia olhar, para ver se não tin­ha polí­cia. Menos pin­tar de fato. E mes­mo quan­do eu esta­va pin­tan­do de fato, ele [o tra­bal­ho] era dire­ciona­do [pelos grafiteiros home­ns]”, con­ta sobre como era a cena da arte de rua à época em que começou.

Esculpir em aço

Nene esta­va crescen­do na cena do graf­fi­ti quan­do teve sua fil­ha Janine. “O pai da min­ha fil­ha fazia parte do movi­men­to, não do movi­men­to de cul­tura hip hop, mas do movi­men­to de gangues. Ele foi assas­si­na­do aqui. Min­ha fil­ha tin­ha 3 anos”. Nes­sa época, a artista tin­ha 19 anos e pre­cisou procu­rar um emprego estáv­el que garan­tisse o próprio sus­ten­to e a cri­ação da meni­na, que, hoje, tem 38 anos e é mãe dos três netos da grafiteira – Hele­na, Fer­nan­da e Hen­rique.

Começou tra­bal­han­do na copa de um grande hos­pi­tal da cap­i­tal paulista e chegou a se tornar instru­men­ta­do­ra cirúr­gi­ca, uma profis­são que per­mi­tiu esta­bil­i­dade finan­ceira e tam­bém trouxe ele­men­tos para sua pro­dução artís­ti­ca. Foram mais de 20 anos tra­bal­han­do na área da saúde. Nesse perío­do, o tra­bal­ho artís­ti­co se entre­laçou com o mun­do das próte­ses em aço cirúr­gi­co.

O próprio hos­pi­tal, ao perce­ber o tal­en­to de Nene, pas­sou a repas­sar alguns dess­es mate­ri­ais para com­por escul­turas. “Eles doaram muito. Eu fiz mui­ta coisa”, enfa­ti­za a artista sobre o mate­r­i­al difí­cil de ser tra­bal­ha­do por ser extrema­mente resistente a téc­ni­cas con­ven­cionais. “Eu não con­si­go sol­dar, porque é aço cirúr­gi­co. Então, elas [as escul­turas] são todas para­fu­sadas”, expli­ca a respeito das obras mon­tadas em bases de cimen­to.

São Paulo (SP), 10/03/2023, A grafiteira Nenesurreal fala sobre sua trajetória na casa ateliê em Diadema. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: A grafiteira Nenes­ur­re­al fala sobre sua tra­jetória na casa ateliê em Diade­ma — Rove­na Rosa/Agência Brasil

O proces­so de voltar a pro­duzir arte e mes­mo de se recon­hecer como artista não foi fácil. “As mul­heres, depois que são mães, acabou. É quase o fim de qual­quer son­ho. Mes­mo com tudo impedin­do esse son­ho, eu fiquei com esse bich­in­ho e acred­itei. Con­segui voltar. Porque não é só quer­er. Foram várias coisas que acon­te­ce­r­am, várias mul­heres pre­tas que estiver­am ali, me for­t­ale­cen­do, para eu voltar”, diz sobre como foi, aos poucos, deixan­do a profis­são estáv­el para voltar a ter a car­reira artís­ti­ca como foco prin­ci­pal da vida.

Reconhecer-se artista

Entre os cam­in­hos e desvios, Nene resolveu cur­sar artes visuais. “Achan­do que a fac­ul­dade me daria um cer­ti­fi­ca­do para legit­i­mar que eu era artista. Falar e sen­tir que sou artista vem ago­ra, há poucos anos. Não que eu não me sen­tia artista, mas pare­cia muito auda­cioso, muito pre­po­tente [me definir como artista]”, comen­ta. No entan­to, acabou aprovei­tan­do pouco do que estu­dou em sala de aula. “A acad­e­mia para mim acabou sendo no bote­co. Porque no bote­co era o rolê. No bote­co eu fiz cenografia, eu tro­quei ideia como manuse­ar um mate­r­i­al que eu não sabia mex­er. Eu tive ideias de pro­je­tos. A acad­e­mia é a rua para mim”.

Encar­ar a rua é, para a artista, a própria essên­cia do graf­fi­ti. “Pegar o meu cor­po, ir para a parede. A posição que eu fico na parede, não tem sal­va [guar­da], eu fico de costas para a rua. É pre­ciso ter ati­tude para isso. É pre­ciso ter cor­agem para isso”, diz sobre pon­tos que con­sid­era cen­trais nes­sa for­ma de expressão.

Questões que, segun­do ela, gan­ham ain­da mais peso em cor­pos como o seu. “A rua não é um lugar para nós mul­heres pre­tas, para nós pop­u­lação pre­ta, prin­ci­pal­mente se você tiv­er de frente para o muro fazen­do coisas que o sis­tema não entende”, diz ao difer­en­ciar essa práti­ca com out­ros tra­bal­hos que desen­volve. “Pin­tar em ateliê é out­ro tem­po. Não pre­cisa ficar pre­ocu­pa­da com as costas”, com­para.

Lutas

Ape­sar de destacar os riscos ofer­e­ci­dos pela expressão ao ar livre, Nene con­ta que tam­bém teve que travar lutas den­tro do movi­men­to hip hop. “Esse movi­men­to tam­bém é machista. É racista, por mais que seja um movi­men­to pre­to. Porque você vê que quem movi­men­ta esse movi­men­to são os bran­cos”, afir­ma

Não foi só no cam­po das artes que ela pre­cisou lidar com pre­con­ceitos. Hoje, com 56 anos de idade, rev­ela que a relação com a própria família se tornou tem­pes­tu­osa ao assumir nova ori­en­tação sex­u­al. “Eu me assu­mi sap­atão [lés­bi­ca] com 50 anos. E até hoje é megavi­o­len­to. Eu fui vio­len­ta­da muitas vezes com essa palavra. E quan­do eu me apre­sen­to, eu me apre­sen­to com essa palavra. Não é para as pes­soas me chamarem. É uma afir­mação do meu cor­po. Eu ven­ho há muitos anos tiran­do más­caras”.

Além da exper­iên­cia pes­soal, a artista trans­for­mou a própria casa em espaço de acol­hi­men­to para pes­soas LBGTQIA+. “Uma meni­na vem para São Paulo, pre­cisa de um lugar para ficar porque vai faz­er um tra­bal­ho. Ela pode ficar aqui”, expli­ca. Da família, man­tém a lem­brança car­in­hosa da avó, como pes­soa que a ini­ciou no con­ta­to com as artes e com o arte­sana­to. “O arte­sana­to vem por con­ta da min­ha vó, que era do macramê, do crochê”, con­ta ao apre­sen­tar as diver­sas lin­gua­gens que fazem parte do seu repertório.

Sonhar alto

Enquan­to isso, da laje da casa, Nene con­tin­ua son­han­do com novos pro­je­tos. Foi a par­tir dali, obser­van­do o bair­ro, que ela elaborou a série que chama de Cabeçu­das. “A gente esta­va no mês de jul­ho, época de pipa. Eu olhei para os mole­ques pret­inhos, você nem enx­er­ga­va eles, nada, só a sil­hue­ta. Todos com a cabeça olhan­do para o céu. Eu fiquei enlouque­ci­da com essa cena”, lem­bra.

Foram ess­es per­son­agens com a cabeça oval­a­da, inspi­ra­da na sil­hue­ta dos jovens que olham para o alto, que Nene escol­heu para o mur­al em grandes dimen­sões que pin­tou no teto do teatro da Fábri­ca de Cul­tura do Jardim São Luís, zona sul paulis­tana. O pro­je­to exigiu muito da artista e da equipe de mul­heres que pin­tou durante uma sem­ana, pen­dura­da em cor­das de rap­pel na empe­na em for­ma­to de ram­pa. “Foi um tra­bal­ho com mui­ta difi­cul­dade, por causa da questão do cor­po, do sol, do ven­to. Porque você está solto lá em cima”, con­ta.

As sete per­son­agens no teto do teatro têm ain­da os cabe­los em fios finos e encar­a­co­la­dos que Nene con­sid­era como uma de suas assi­nat­uras, assim como os “olhos tristes” de out­ras fig­uras que pin­ta pelas ruas.

O pro­je­to, con­tem­pla­do por um edi­tal que per­mi­tiu o mur­al na empe­na, inclui um doc­u­men­tário, lança­do no últi­mo mês de março, que cel­e­bra a tra­jetória de Nene como uma das pio­neiras do graf­fi­ti. Entre os recon­hec­i­men­tos que acu­mu­la na car­reira está a pas­sagem pelo Fes­ti­val Queer Wien Woch em Viena, na Aús­tria; o Prêmio Sab­o­tage, em 2016; e a hom­e­nagem con­ce­di­da pela orga­ni­za­ção não gov­er­na­men­tal Ação Educa­ti­va, em 2018. Em 2021, um de seus tra­bal­hos pas­sou a faz­er parte do acer­vo per­ma­nente da Pina­cote­ca Munic­i­pal de Mauá, na Grande São Paulo.

Edição: Graça Adju­to

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