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Dispersão da Cracolândia aumentou tensão e violência no centro de SP

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Operação Caronte foi feita há um ano


Pub­li­ca­do em 11/05/2023 — 07:25 Por Daniel Mel­lo — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Um ano depois da oper­ação que dis­per­sou a con­cen­tração de pes­soas em situ­ação de rua e que usam dro­gas, con­heci­da como Cra­colân­dia, na Praça Prince­sa Isabel, o cen­tro da cap­i­tal paulista vive um aumen­to do medo e das ten­sões por todos os lados. As pes­soas que dormem nas calçadas e mil­i­tantes recla­mam do aumen­to da vio­lên­cia poli­cial e desmonte de políti­cas públi­cas. Moradores e com­er­ciantes dizem sofr­er com o aumen­to da inse­gu­rança na região cen­tral da cidade.

Logo após ação poli­cial, à época como parte da chama­da Oper­ação Caronte, coman­da­da pela Polí­cia Civ­il, a con­cen­tração de pes­soas se espal­hou por diver­sos pon­tos dos bair­ros da Repúbli­ca, San­ta Ifigê­nia, San­ta Cecília e Cam­pos Elíseos. Lev­an­ta­men­to real­iza­do em jul­ho de 2022, pelo Lab­o­ratório Espaço Públi­co e Dire­ito à Cidade (Lab­Ci­dade), da Uni­ver­si­dade de São Paulo, apon­tou 16 locais de con­cen­tração de pes­soas. Atual­mente, exis­tem duas maiores con­cen­trações, em cada lado da Aveni­da Rio Bran­co, uma mais próx­i­ma à San­ta Ifigê­nia e a out­ra na região da Repúbli­ca, além de alguns gru­pos menores.

Pior momento

A Guar­da Civ­il Met­ro­pol­i­tana (GCM) força a movi­men­tação con­stante das pes­soas para que a con­cen­tração não per­maneça por muito tem­po em um úni­co lugar. Tam­bém são feitas ações per­iódi­cas de limpeza das ruas. Nesse momen­to, os guardas munic­i­pais tam­bém pro­movem a abor­dagem e revista das pes­soas que estão no local. São for­madas lon­gas filas para que sejam sub­meti­das a bus­ca pes­soal. Alguns obje­tos, con­sid­er­a­dos proibidos pela prefeitu­ra, são con­fis­ca­dos.

“Quan­do a gente pen­sa sobre a situ­ação das pes­soas, é uma condição muito, mas muito deses­per­ado­ra. Elas estão há um ano cir­cu­lan­do sem parar e geran­do uma série de con­fli­tos com out­ros atores da Cra­colân­dia, que antes não havia”, diz a antropólo­ga Aman­da Amparo, que pesquisa a Cra­colân­dia pelo pon­to de vista das relações raci­ais.

A par­tir dos dados pre­lim­inares de um lev­an­ta­men­to que ouviu 100 pes­soas em situ­ação de rua, Aman­da afir­ma que a pop­u­lação que dorme nas calçadas da região, em sua grande maio­r­ia vê a situ­ação atu­al como um dos piores momen­tos. “É o mais vio­len­to, a polí­cia é a mais vio­len­ta e essa estraté­gia, de faz­er as pes­soas cir­cu­larem, não vai fun­cionar do pon­to de vista de acabar com a Cra­colân­dia”.

Histórico de violência

A defen­so­ra públi­ca Fer­nan­da Balera vê uma con­tinuidade de políti­cas que já se provaram inefi­cazes no sen­ti­do de mel­ho­rar as condições de vida da pop­u­lação. “E, mais uma vez, a gente está ven­do a GCM na lin­ha de frente da Cra­colân­dia, o que já cau­sou inúmeros prob­le­mas. Esse históri­co da atu­ação da guar­da civ­il no ter­ritório da Luz está, inclu­sive, na Justiça, em uma ação civ­il públi­ca que dis­cute o que ocorre por causa dessa práti­ca. E isso voltou”, diz em refer­ên­cia a uma ação movi­da pelo Min­istério Públi­co de São Paulo ques­tio­nan­do a atu­ação da guar­da na região.

Segun­do Balera, além de inúmeros relatos col­hi­dos pela defen­so­ria, a ação está embasa­da pela série de vídeos feitos com câmera escon­di­da pelo movi­men­to A Cra­co Resiste, que mostram agentes da GCM pro­moven­do agressões com bom­bas de gás lac­rimogê­neo e spray de pimen­ta de sur­pre­sa, con­tra pes­soas em situ­ação de rua dis­traí­das ou até sen­tadas. Na últi­ma segun­da-feira (8), a TV Brasil fla­grou o momen­to em que um homem foi sufo­ca­do por qua­tro guardas até ficar desacor­da­do e ser lev­a­do em uma viatu­ra.

Desmonte dos serviços

Para Fer­nan­da, o gov­er­no do esta­do e a prefeitu­ra fiz­er­am “uma ação com­ple­ta­mente ine­fi­ciente, super vio­len­ta” e não demon­stram pre­ocu­pação real em traz­er soluções. “Porque a questão con­tin­ua lá da mes­ma for­ma que era antes”, enfa­ti­za. A defen­so­ra aler­ta ain­da para uma deses­tru­tu­ração dos serviços de atendi­men­to de saúde men­tal.

“Uma com­ple­ta deses­tru­tu­ração dos Caps [Cen­tros de Atenção Psi­cos­so­cial] e serviços que estão den­tro da pre­visão legal da rede de atenção psi­cos­so­cial. A cri­ação de novos serviços e novas estraté­gias com­ple­ta­mente à margem da leg­is­lação e sem nen­hu­ma evidên­cia cien­tí­fi­ca de que essa seja a mel­hor abor­dagem”, diz. A críti­ca de Fer­nan­da diz respeito aos novos serviços cri­a­dos pelo gov­er­no estad­ual, o HUB, inau­gu­ra­do em abril, e o Cen­tro de Cuida­do Pro­lon­ga­do, cri­a­do em fevereiro.

Moradores em conflito

O cli­ma ten­so afe­ta tam­bém quem vive sob um teto na região. “Com a dis­per­são [da Cra­colân­dia], acho que aumen­ta muito mais a sen­sação de inse­gu­rança, prin­ci­pal­mente quan­do tem ação da polí­cia, seja da GCM ou da Polí­cia Civ­il”, diz Pâmela Vaz, estu­dante que mora com os pais em um aparta­men­to na San­ta Ifigê­nia. “Se eles [poli­ci­ais] não tratam o usuário de uma for­ma digna e com respeito, eles tam­bém não tratam os moradores aqui dessa for­ma. É sem­pre muito cha­to e des­gas­tante ter que pedir à polí­cia para a gente poder pas­sar. Ter que mostrar doc­u­men­to, falar para onde vai”, con­ta sobre a situ­ação quan­do as ruas ficam fechadas pelas oper­ações poli­ci­ais.

Por out­ro lado, Pâmela enfrenta difi­cul­dades por ter em parte do dia uma aglom­er­ação com cen­te­nas de pes­soas na por­ta de casa. “Após a dis­per­são da Praça Prince­sa Isabel, aqui é toma­do pelo fluxo. E não vou falar que não atra­pal­ha a gente de dormir ou  des­cansar”, desabafa. Mes­mo assim, a jovem diz que ten­ta man­ter boa relação com as pes­soas social­mente despro­te­gi­das. “Eu ten­to não cri­ar nen­hum tipo de con­fli­to com essas pes­soas, até porque são as nos­sas viz­in­has”, comen­ta.

Mas não são todos os moradores da região que têm essa visão do prob­le­ma. Na sex­ta-feira da sem­ana pas­sa­da (5), foi orga­ni­za­da uma man­i­fes­tação em frente à del­e­ga­cia dos Cam­pos Elíseos. “Bom, como todos sabem, a situ­ação da nos­sa rua está cada dia pior”, dizia um dos tex­tos que chama­va para o ato pelas redes soci­ais. “Só quer­e­mos dire­ito a uma rua segu­ra e limpa!”, acres­cen­ta­va a con­vo­cação.

Mais crimes

A revol­ta de parte das pes­soas que vive e tra­bal­ha na região está lig­a­da a um sig­ni­fica­ti­vo aumen­to dos fur­tos e rou­bos e dos even­tu­ais casos em que lojas são inva­di­das em arrastões. Segun­do dados da Sec­re­taria de Esta­do da Segu­rança Públi­ca, em maio de 2022 as del­e­ga­cias de Cam­pos Elíseos e San­ta Cecília reg­is­traram aumen­to de 110% no número de rou­bos. Em todos os meses seguintes, os índices con­tin­uaram em alta, com cresci­men­to de 74% nos fur­tos em fevereiro deste ano e 38% nos rou­bos, na com­para­ção com o mes­mo mês de 2022. Em abril, entre­tan­to, foi divul­ga­da que­da de 24% nos fur­tos e 13% nos rou­bos, em relação ao ano pas­sa­do.

Na opinião do artista e edu­cador social Raphael Esco­bar, as oper­ações acir­ram esse con­fli­to. “Tem que ver o que está acon­te­cen­do antes [dos arrastões], que está ten­do ação poli­cial todo san­to dia, tiran­do tudo das pes­soas, as úni­cas coisas que elas têm com val­or afe­ti­vo. Então, [a vio­lên­cia] é uma respos­ta do fluxo para essa situ­ação. O que está acon­te­cen­do ali é cri­ar um caos social”, diz.

A cir­cu­lação con­stante tam­bém difi­cul­ta, segun­do Esco­bar, ação dos pro­je­tos da sociedade civ­il que prestam atendi­men­to a essa pop­u­lação. “Com ação poli­cial diária, essas pes­soas ficam mudan­do e fica muito difí­cil para a gente, tra­bal­hador do ter­ritório, con­seguir achar o pes­soal com quem a gente tem vín­cu­lo. Ou seja, se você tem um pro­je­to de cuida­do, fica muito difí­cil encon­trar e con­tin­uar o pro­je­to”.

O psiquia­tra Flávio Fal­cone, que tam­bém atua em pro­je­tos soci­ais na região, acred­i­ta que há ação delib­er­a­da para instau­rar o con­fli­to entre pes­soas “com CEP e sem CEP”. “Depois da defla­gração da Oper­ação Caronte, a Cra­colân­dia pas­sou a inco­modar três bair­ros”, disse em entre­vista à TV Brasil. “Do pon­to de vista de saúde, essa oper­ação é com­ple­ta­mente inefi­caz. Não tem nada na ciên­cia que jus­ti­fique tor­tu­ra para faz­er com que as pes­soas se motivem para o trata­men­to. O que está em jogo é tirar essas pes­soas, a maior parte pre­tas e pobres, daqui. E a bur­gue­sia bran­ca não quer con­viv­er com elas”, acres­cen­ta.

São Paulo (SP), 22/04/2023 - O psiquiatra Flávio Falcone participa do seminário Cracolândia em Emergência, Caminhos e Ações, no Teatro de Contêiner Mugunzá, em Campos Elísios. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: O psiquia­tra Flávio Fal­cone par­tic­i­pa do sem­i­nário Cra­colân­dia em Emergên­cia, Cam­in­hos e Ações, no dia 22 de abril, no Teatro de Con­têin­er Mugun­zá, em Cam­pos Elí­sios. Foto: Rove­na Rosa/Agência Brasil.

Governo do estado

A Sec­re­taria estad­ual de Saúde infor­mou que o Hub, serviço que ocupou o lugar do anti­go Cen­tro de Refer­ên­cia de Álcool, Taba­co e Out­ras Dro­gas, próx­i­mo ao Par­que da Luz, real­i­zou 3,5 mil atendi­men­tos e 535 encam­in­hamen­tos para trata­men­to entre 6 e 30 de abril. De acor­do com a pas­ta, o novo serviço “super­ou em 10,4% os atendi­men­tos que o anti­go Cra­tod prestou em todo mês de abril do ano pas­sa­do e em 254,3% os encam­in­hamen­tos de pacientes para a real­iza­ção do trata­men­to”.

A Sec­re­taria de Esta­do da Segu­rança Públi­ca disse que tem real­iza­do a inte­gração das polí­cias Civ­il e Mil­i­tar e vê, neste momen­to, “iní­cio de rever­são do cenário local que degradou, por décadas, a segu­rança local”. A pas­ta diz ain­da que tem agi­do para “sufo­car o trá­fi­co de entor­pe­centes” e coibir os crimes pat­ri­mo­ni­ais. De acor­do com a sec­re­taria, de janeiro a 7 de maio, foram pre­sas 142 pes­soas e apreen­di­dos 345 qui­los de dro­gas.

Edição: Graça Adju­to

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