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Em espetáculo da Via Sacra no DF, Marias lembram os próprios calvários

Repro­dução: © Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil

Em cena, 1,1 mil atores da comunidade de Planaltina


Publicado em 29/03/2024 — 19:02 Por Luiz Claudio Ferreira — Repórter da Agência Brasil — Brasília

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No per­cur­so até os calvários, histórias de Marias tam­bém são pro­tag­o­nistas em dia de recor­dar dos sac­ri­fí­cios de Jesus. A domés­ti­ca Maria Apare­ci­da dos San­tos, de 48 anos, chegou ao espetácu­lo da Via Sacra, de Planalti­na (DF), a pé, nes­ta sex­ta-feira (29). Que­ria ver de per­to a Ressur­reição do “Pai”, mas pre­tendia mes­mo agrade­cer pela sobre­vivên­cia do fil­ho. 

Brasília, 29/03/2024 Maria Aparecida dos Santos, doméstica, chega para assitir a apresentação da Via Sacra em Planaltina, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília, 29/03/2024 Maria Apare­ci­da dos San­tos, domés­ti­ca, chega para assi­tir a apre­sen­tação da Via Sacra em Planalti­na, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil

O rapaz, de 26 anos, lev­ou duas facadas no ano pas­sa­do, pas­sou um mês em uma unidade de ter­apia inten­si­va lutan­do pela vida. “Foi Deus que o salvou”, emo­ciona-se. A luta ain­da está em anda­men­to. O fil­ho está em uma clíni­ca públi­ca para ten­tar se livrar do vício das dro­gas e das con­se­quên­cias. “Por isso, a gente pre­cisa ter fé”. Quan­do Maria chegou, o espetácu­lo de teatro ain­da não havia começa­do, mas ela esta­va com pres­sa para con­seguir o mel­hor lugar.

A tradi­cional Via Sacra, do Mor­ro da Capelin­ha, em uma área de cer­ra­do a cer­ca de 60 quilômet­ros da cap­i­tal do país, chegou à sua 51ª edição, com entra­da gra­tui­ta e par­tic­i­pação de 1,4 mil pes­soas da própria comu­nidade. Pelo menos 1,1 mil são pes­soas que tro­cam seus afaz­eres diários para se tornarem atores.

De pro­tag­o­nistas a fig­u­rantes, todos maquia­dos e dev­i­da­mente vesti­dos com tra­jes que remon­tam à história da tradição cristã, na qual Jesus Cristo foi tor­tu­ra­do e assas­si­na­do em uma cruz. O coor­de­nador-ger­al do even­to, o dra­matur­go Pre­to Rezende, recon­hece que a respon­s­abil­i­dade é grande ao tra­bal­har com não-atores e se comu­nicar com o públi­co. “Tra­bal­hamos para pes­soas sim­ples. E saí­mos todos trans­for­ma­dos”, afir­ma o dire­tor.

Na estra­da do calvário de Maria Apare­ci­da, ela recor­da que, na próx­i­ma sem­ana, terá um dia para vis­i­tar o fil­ho que ela só pode ver uma vez por mês. Na luta con­tra o próprio vício, ele “fica ansioso”, lamen­ta a mãe. Mas está otimista tam­bém porque o fil­ho caçu­la tem fé como ela. Deu a ele o nome de Juan Jesus.

Brasília, 29/03/2024 Maria de Fátima Almeida, 69 anos, chega para assitir a apresentação da Via Sacra em Planaltina, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília, 29/03/2024 Maria de Fáti­ma Almei­da, 69 anos. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil

Logo depois de Maria Apare­ci­da aden­trar no espetácu­lo da Via Sacra,  chega out­ra Maria e sua família. Maria de Fáti­ma Almei­da, de 69 anos, 11 fil­hos e “muitas lutas”. Ela diz que, ape­sar das difi­cul­dades com empre­gos e fal­ta de recur­sos para todos, pre­cisa mostrar a eles sem­pre o exem­p­lo da própria história.

“Tra­bal­hei na roça des­de os oito anos de idade, mas só con­segui estu­dar mais recen­te­mente. Ago­ra estou na ter­ceira série”, con­ta. Já está em aulas que exced­er­am a alfa­bet­i­za­ção. Mas os próprios son­hos nun­ca foram pri­or­i­dades. Só o babaçu, arroz e fei­jão que ela pre­cisa­va col­her em cada aman­hecer.

Na primeira estação do sac­ri­fí­cio de Jesus, out­ra Maria se emo­ciona­va. Morado­ra do Núcleo Ban­deirante, Maria do Car­mo Alves, de 69 anos, veio pedir forças no espetácu­lo que, para ela, não tin­ha nada de ficção. Ela perdeu na últi­ma sem­ana um neto víti­ma de câncer. “Para mim, é o próprio Jesus que está aqui”.

 

Brasília, 29/03/2024 Apresentação da Via Sacra em Planaltina, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília, 29/03/2024 Apre­sen­tação da Via Sacra em Planalti­na, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil — Agên­cia Brasil

Emoção

Jesus esta­va lá. Aliás, era o planalti­nense Rafael Mor­eira, de 27 anos. Ator amador, o rapaz diz que se emo­ciona  tam­bém com cada cena. Foi con­vi­da­do no ano pas­sa­do e se lem­brou que, na comu­nidade, já tin­ha ence­na­do o per­son­agem quan­do era ado­les­cente. “Esta­mos muito con­cen­tra­dos e ensa­iamos bas­tante no últi­mo mês”,disse com as mar­cas cêni­cas de sangue na boca e nos braços.

Per­to de Jesus, Cris­tiano da Sil­va, de 42 anos, tam­bém esta­va pron­to para a próx­i­ma cena. Lá ela era o ladrão Dimas, cru­ci­fi­ca­do ao lado do pro­tag­o­nista. Na vida real, o motorista de frig­orí­fi­co diz que que­ria orgul­har os fil­hos com o per­son­agem. “Espero que as pes­soas tam­bém se comovam com as min­has cenas”. O son­ho do novo ator é ir além da séti­ma série e mel­ho­rar a vida da família.

Sob o sol de Planalti­na, out­ro homem com nome de san­to ven­dia água porque está desem­pre­ga­do. Anto­nio Mar­le dos San­tos, de 25 anos, mora no Vale do Aman­hecer e nun­ca tra­bal­hou com carteira de tra­bal­ho assi­na­da. “Tra­bal­ho em obras, ven­do comi­da… faço o que for pre­ciso. Que­ria estu­dar para ser bombeiro civ­il”. Enquan­to isso, que­ria vender todo o pro­du­to que lev­ou a tem­po de assi­s­tir à Ressur­reição. “Não tem quem não goste, né?”.

Brasília, 29/03/2024 Cristiano da Silva, ator que interpreta Dimas na apresentação da Via Sacra em Planaltina, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília, 29/03/2024 Cris­tiano da Sil­va, ator que inter­pre­ta Dimas na apre­sen­tação da Via Sacra em Planalti­na, DF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil

Edição: Sab­ri­na Craide

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