...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Direitos Humanos / Eulália Lobo, 100 anos: o legado de uma doutora pioneira em história

Eulália Lobo, 100 anos: o legado de uma doutora pioneira em história

Repro­dução: © Divulgação/Arquivo pes­soal

Professora da UFRJ, ela inovou nos estudos sobre movimento operário


Publicado em 17/07/2024 — 07:52 Por Luiz Claudio Ferreira — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

ouvir:

Três mil­itares do Exérci­to arma­dos chegaram à casa da pro­fes­so­ra de história Eulália Maria Lobo, no Rio de Janeiro, em uma noite de jun­ho de 1969 e pedi­ram para falar com ela. Eles não a con­heci­am e per­gun­taram se ela era a docente procu­ra­da.

“Não digo quem sou enquan­to vocês não me dis­serem quem são. Vocês estão uni­formiza­dos, mas podem ter assalta­do um quar­tel e rou­ba­do as far­das. Quero saber quem são vocês”. O rela­to foi pub­li­ca­do na Revista Estu­dos Históri­cos em 1992 e cos­tu­ma ser relem­bra­do por quem con­viveu com a pro­fes­so­ra. Eulália nasceu há exatos 100 anos no Rio de Janeiro e mor­reu em 2011.

Entre as mar­cas de sua pesquisa, segun­do estu­diosos, uma visão para além dos números da história econômi­ca. Ela era aten­ta às trans­for­mações pelas quais as pes­soas pas­savam. Entre arti­gos, con­fer­ên­cia e livros, a pro­dução dela ultra­pas­sa 150 tex­tos e apre­sen­tações.

E essa car­ac­terís­ti­ca dela teria sido for­ja­da prin­ci­pal­mente após a ditadu­ra mil­i­tar. Naque­le episó­dio de 1969, segun­do o rela­to de Eulália, havia um temor que ela falasse sobre a situ­ação do Brasil com o gov­er­nador de Nova Iorque Nel­son Rock­e­feller, que rep­re­sen­ta­va o pres­i­dente dos EUA, Richard Nixon, em visi­ta ao Brasil. Eulália indi­cou que ficou pre­sa uma sem­ana.

E saiu porque o mari­do dela, Bruno Lobo, con­seguiu con­ta­to com um cun­hado almi­rante da Mar­in­ha. Antes de ser lib­er­a­da, ain­da se posi­cio­nou: “O Exérci­to que com­bat­eu a caça aos escravos, que proclam­ou a Repúbli­ca, vem ago­ra pren­der os cidadãos que não estão arma­dos. O Exérci­to, que tem tan­tas tradições glo­riosas, está reduzi­do a isso?”, reclam­ou Eulália.

Brasília (DF), 16.07.2024 - Historiadora Eulália Lobo. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Repro­dução: His­to­ri­ado­ra Eulália Lobo. Divulgação/Arquivo pes­soal

Revoluções

O pro­fes­sor de história Luiz Fer­nan­do Sarai­va, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense, defende que Eulália Lobo fazia parte de uma ger­ação que esta­va rev­olu­cio­nan­do a pro­dução his­to­ri­ográ­fi­ca brasileira, com novas questões e temas soci­ais. “Isso inco­mo­da­va. Exis­tia uma posição políti­ca pro­gres­sista dessas pes­soas, mas tam­bém exis­tia uma ren­o­vação dos estu­dos históri­cos que muitos pro­fes­sores anti­gos se sen­ti­am ameaça­dos. Era uma pro­fes­so­ra pro­gres­sista, na medi­da do pos­sív­el, que apoia­va pau­tas que a gente pode­ria diz­er mais human­istas, mes­mo não ten­do uma mil­itân­cia con­tra o regime”, afir­ma.

Ela teria defen­di­do a tese de doutora­do entre 1946 e 1953 e há quem defen­da que ela foi a primeira mul­her douto­ra em história no país. Há divergên­cias quan­to a isso porque a pro­fes­so­ra Alice Canabra­va rela­tou que foi douto­ra em 1942, con­forme obser­va o pro­fes­sor Luiz Sarai­va. Seja como for, segun­do pesquisadores da obra dela, os estu­dos de Eulália são mar­ca­dos por pio­neiris­mo e olhares difer­en­ci­a­dos.

Inclu­sive, nes­ta quar­ta, a Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense real­iza um even­to para debater o lega­do da pro­fes­so­ra. Na opor­tu­nidade, vai ser lança­da a segun­da edição do livro “História do Rio de Janeiro”, em for­ma­to eletrôni­co e gra­tu­ito, pub­li­ca­do pela primeira vez no ano de 1978, que teve orig­i­nal­mente mais de mil pági­nas. O even­to pode ser acom­pan­hado pelo Youtube.

Olhar econômico e social para o Rio

A pesquisa real­iza­da por Eulália foi pos­sív­el por uma bol­sa do Insti­tu­to Brasileiro de Mer­ca­dos de Cap­i­tais (Ibmec). “Foi uma das primeiras obras com uso da infor­máti­ca e tem con­teú­do grande de anex­os estatís­ti­cos, salários, preços, juros e indús­trias no Brasil inteiro. Até hoje, é uma obra uti­liza­da em larga escala pelos his­to­ri­adores”, diz Sarai­va.

Para a pro­fes­so­ra Fania Frid­man, do Insti­tu­to de Pesquisa e Plane­ja­men­to Urbano e Region­al da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa de Eulália Lobo é inspi­ração para ela des­de que era estag­iária do Ibmec. “Eulália foi uma des­bravado­ra. Ela já vin­ha estu­dan­do o movi­men­to operário. No livro sobre a história do Rio de Janeiro, ela coroa a tra­jetória dela. É um clás­si­co”.

Isso porque, no enten­der da pro­fes­so­ra da UFRJ, Eulália faz uma análise do proces­so econômi­co e social da cidade do Rio de Janeiro com detal­his­mo e bus­ca olhar para o oper­ari­a­do brasileiro. “Ela vai ver o quan­to eles gan­havam, o nív­el de vida. Ela vai diz­er quan­to que ess­es operários pagavam de aluguel”.

Anti­go aluno da pro­fes­so­ra Eulália Lobo, o pro­fes­sor Car­los Gabriel Guimarães, tam­bém da UFF, con­sid­era que ela foi uma das prin­ci­pais his­to­ri­ado­ras do país. “As pesquisas que ela pro­duz­iu foram fun­da­men­tais para a his­to­ri­ografia brasileira. Não é só a história econômi­ca, mas tam­bém a do tra­bal­ho que ela deixou de lega­do para nós”.

Ele tam­bém con­sid­era que o grande lega­do dela está na obra sobre a história do Rio de Janeiro. “É bom lem­brar que a cidade do Rio de Janeiro foi o primeiro cen­tro indus­tri­al do Brasil. Isso é algo que as pes­soas esque­cem”. O pro­fes­sor Car­los Gabriel apon­ta que, em out­ra obra, sobre operários do Rio de Janeiro, é mar­ca de sua tra­jetória. “Ela gosta­va de entrar nos arquiv­os e agre­gar pes­soas. A história quan­ti­ta­ti­va pode ficar reduzi­da a números. Ela foi além”.

Brasília (DF), 16.07.2024 - Historiadora Eulália Lobo. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
Repro­dução: His­to­ri­ado­ra Eulália Lobo. Divulgação/Arquivo pes­soal

Um google

Os pesquisadores ouvi­dos pela Agên­cia Brasil enten­dem que o país pro­duz­iu uma ger­ação de his­to­ri­adores entre os anos de 1940 e 1950 que rev­olu­cionaram o estu­do da história do Brasil var­reram arquiv­os, lev­an­taram dados, em uma época sem tele­visão ou inter­net. “O livro dela era uma espé­cie de Google sobre o Rio de Janeiro”, diz Sarai­va.

No caso de Eulália, ela apre­sen­ta estu­dos sobre história com­par­a­ti­va da admin­is­tração por­tugue­sa e espan­ho­la e, depois, por força da cas­sação dela enquan­to pro­fes­so­ra da Fac­ul­dade Nacional de Filosofia, na Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro, ela foi para os Esta­dos Unidos. “É como se fos­se uma segun­da vida dela”, avalia o pro­fes­sor Luiz Fer­nan­do Sarai­va .

Eulália pas­sou a olhar, segun­do os pesquisadores, para a história econômi­ca com maior viés social. Para o pro­fes­sor Car­los Gabriel, Eulália se pre­ocupou com o salário de tra­bal­hadores livres. Ela tin­ha um olhar novo sobre essa econo­mia. “E no final da vida dela, ela estu­da bas­tante a questão da migração por­tugue­sa e prin­ci­pal­mente dos operários no Rio de Janeiro”.

Os pro­fes­sores enten­dem que o pio­neiris­mo dela como mul­her enco­ra­jou out­ras pesquisado­ras a seguirem cam­in­hos na pesquisa. “Ela teve um papel muito impor­tante para as mul­heres na história. Por isso que eu acho pre­cisa ser lem­bra­da. Para mim, ela foi a primeira douto­ra em história no Brasil. E isso é muito impor­tante”, defende Guimarães.

A pro­fes­so­ra Ismê­nia Mar­tins, ami­ga de uma vida inteira de Eulália e docente eméri­ta da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense, não pôde aten­der à Agên­cia Brasil. Mas, em arti­go para a mais recente edição da obra históri­ca sobre o Rio de Janeiro, lem­brou que Eulália anda­va sem medo pela cidade que pesquisou e viveu.

Ismê­nia recor­reu a uma citação da ami­ga: “Eu não sin­to medo de sair no Rio de Janeiro, saio tarde, fre­quente­mente vou soz­in­ha a lugares que as pes­soas acham perigosos”. Ela anda­va pela cidade que con­hecia pelo que havia escrito e esta­va na pal­ma das mãos.

Edição: Valéria Aguiar

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

RJ: 47% das ações foram medidas protetivas para mulheres no fim do ano

Em 2024, país teve quase 20% de descumprimento das medidas Dou­glas Cor­rêa — Repórter da …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d