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Quem foi São Jorge, celebrado por católicos como santo guerreiro

Outras igrejas cristãs e religiões afro-brasileiras também festejam

Rafael Car­doso — repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 23/04/2025 — 06:30
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 23/04/2024 – Fiéis participam de celebração em homenagem ao Dia de São Jorge no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Uma hora antes do sol nascer no hor­i­zonte car­i­o­ca, às cin­co horas da man­hã, um grupo de fiéis católi­cos começa o dia em Quinti­no, bair­ro da Zona Norte da cap­i­tal flu­mi­nense, para pres­ti­giar a tradi­cional queima de fogos em hom­e­nagem a São Jorge. É o iní­cio ofi­cial do dia ded­i­ca­do ao per­son­agem, feri­ado em alguns locais do país, como é o caso do esta­do do Rio de Janeiro.

Na crença católi­ca, São Jorge é con­sid­er­a­do padroeiro dos cav­aleiros, sol­da­dos, escoteiros, esgrim­is­tas e arqueiros. Ou, de for­ma mais pop­u­lar, como o san­to guer­reiro. Para os devo­tos, sim­boliza um guia con­tra as difi­cul­dades da existên­cia humana, aque­le que aju­da na luta con­tra o mal, ou con­tra os difer­entes prob­le­mas do plano ter­reno e sobre­nat­ur­al.

Essa ideia é explic­i­ta­da no site do Vat­i­cano, em ver­bete que se ref­ere ao san­to.

“Como acon­tece com out­ros san­tos, envolvi­dos por lendas, poder-se-ia con­cluir que tam­bém a função históri­ca de São Jorge é recor­dar ao mun­do uma úni­ca ideia fun­da­men­tal: que o bem, com o pas­sar do tem­po, vence sem­pre o mal. A luta con­tra o mal é uma dimen­são sem­pre pre­sente na história humana, mas esta batal­ha não se vence soz­in­hos: São Jorge matou o dragão porque Deus agiu por meio dele”, diz o tex­to.

Ape­sar da força no catoli­cis­mo, há out­ras ver­tentes do cris­tian­is­mo que o con­sid­er­am san­to, como a Igre­ja Angli­cana e a Igre­ja Orto­doxa. Tam­bém para alguns seguidores de religiões de matriz africana, como a umban­da e o can­domblé, há um com­por­ta­men­to de respeito.

O per­fil de guer­reiro, daque­le que supera todas as difi­cul­dades, é uma das expli­cações para a pop­u­lar­i­dade de Jorge, segun­do o escritor, pro­fes­sor e his­to­ri­ador Luiz Antônio Simas. No ano pas­sa­do, ele pub­li­cou o livro infan­til O cav­aleiro da lua: Cordel para São Jorge.

“São Jorge per­tence ao rol do que eu chamo de san­tos do cotid­i­ano. Aque­les dos mila­gres diários. Exis­tem san­tos que você não evo­ca para os per­rengues do dia a dia. Existe uma cat­e­go­ria que é invo­ca­da para resolver prob­le­mas ime­di­atos. Como San­to Expe­d­i­to, das causas urgentes. São Jorge é um san­to da rua”, diz Simas.

Fiéis lotam a igreja de São Jorge, em Quintino, na zona zorte do Rio de Janeiro em comemoração ao dia do Santo.
Repro­dução: Fiéis lotam a igre­ja de São Jorge, em Quinti­no, na zona zorte do Rio de Janeiro em comem­o­ração ao dia do San­to Foto de Arquivo/Tomaz Silva/Agência Brasil

Origens da fé

A his­to­ri­ografia não iden­ti­fi­ca um con­jun­to de doc­u­men­tos que ateste, de for­ma incon­teste, a existên­cia de São Jorge. Muito do que é con­heci­do hoje se deu através da tradição oral e literária. O próprio Vat­i­cano expli­ca, em seu site ofi­cial, que sur­gi­ram várias histórias fan­ta­siosas ao lon­go do tem­po em torno de São Jorge.

Segun­do a ver­são mais con­heci­da, Jorge, nome de origem gre­ga que sig­nifi­ca “agricul­tor”, nasceu na Capadó­cia, atu­al Turquia, por vol­ta do ano 280, em uma família cristã. Mudou-se para a Palesti­na e se alis­tou no exérci­to de Dio­cle­ciano, imper­ador romano. Em 303, o imper­ador ini­ciou uma perseguição aos cristãos, e Jorge teria se colo­ca­do de for­ma con­tun­dente con­tra o imper­ador, o que o lev­ou a sofr­er tor­turas e a ser decap­i­ta­do.

Um reg­istro anti­go, epí­grafe gre­ga do ano 368, descober­ta em Era­clea de Betâ­nia, teria uma das raras refer­ên­cias ao san­to, ao falar da “casa ou igre­ja dos san­tos e tri­un­fantes már­tires, Jorge e com­pan­heiros”.

Rio de Janeiro - Durante os festejos de São Jorge em Quintino, na zona norte, na sede da paróquia dedicada ao santo, fiéis se reúnem para missas e procissões.
Repro­dução: Fiéis são ben­zi­dos durante fes­te­jos de São Jorge em Quinti­no, na zona norte do Rio Foto de Arquivo/Tânia Rêgo/Agência Brasil

O perío­do das Cruzadas acres­cen­tou out­ros ele­men­tos à mitolo­gia. As Cruzadas eram expe­dições mil­itares, reli­giosas e com­er­ci­ais, ocor­ri­das entre os sécu­los XI e XIII, em que cristãos europeus via­javam até a Palesti­na para der­ro­tar os muçul­manos e con­quis­tar Jerusalém.

A nar­ra­ti­va mais famosa é a de que havia um grande pân­tano na cidade de Selém, na Líbia, onde vivia um dragão. Uma das for­mas de acalmá-lo era ofer­e­cer um(a) jovem. Um dia, chegou a vez da fil­ha do rei. Mas Jorge se levan­tou con­tra o dragão e o matou com uma espa­da, imagem que até hoje é a mais rep­re­sen­ta­ti­va do san­to. Os cruza­dos com­para­ram a morte do dragão com a der­ro­ta do Islamis­mo.

“O dragão sin­te­ti­za a ideia da mal­dade, do inimi­go, que está à espre­i­ta, no plano espir­i­tu­al ou mate­r­i­al, que te acos­sa no cotid­i­ano. Acho que São Jorge gan­ha essa pop­u­lar­i­dade jus­ta­mente por causa da sim­bolo­gia guer­reira, béli­ca, por ser um san­to muito artic­u­la­do com o imag­inário de batal­has”, expli­ca Luiz Anto­nio Simas.

O curioso é que, mes­mo entre os muçul­manos, Jorge é uma figu­ra de respeito, e muitos enx­ergam indí­cios de que ele este­ja pre­sente no livro sagra­do do Islão, como expli­ca o his­to­ri­ador.

“Há quem diga que ele é um per­son­agem que aparece no Alcorão, chama­do Al-Khidr. Ele seria São Jorge. Tem essa mul­ti­pli­ci­dade por ter esse per­fil guer­reiro, é o vence­dor de deman­das”, diz Simas.

O cul­to a Jorge se apro­fun­dou na Inglater­ra com os nor­man­dos. Em 1348, o Rei Eduar­do III insti­tu­iu a “Ordem dos Cav­aleiros de São Jorge”. E, durante a Idade Média, a figu­ra foi tema de lit­er­atu­ra épi­ca. Segun­do o Vat­i­cano, na fal­ta de notí­cias mais conc­re­tas sobre ele, em 1969, hou­ve uma mudança de sta­tus da cel­e­bração ao san­to: pas­sou de fes­ta litúr­gi­ca para memória fac­ul­ta­ti­va.

São Jorge é Ogum?

Uma das afir­mações fre­quentes no sen­so comum é o de que São Jorge e Ogum, orixá lig­a­do às religiões de matriz africana, são o mes­mo per­son­agem, com nomes difer­entes. A sociólo­ga Flávia Pin­to, que tam­bém é escrito­ra, mãe de san­to e matri­ar­ca da Casa do Perdão, expli­ca que esse é um erro.

“Para nós do can­domblé e da umban­da, já temos con­sciên­cia hoje que São Jorge não é Ogum. Por um moti­vo históri­co e cronológi­co. São Jorge exis­tiu na Capadó­cia há dois mil anos. Já Ogum existe há mais de 10 mil anos na cidade de Ire, na Nigéria. Nat­u­ral­mente, São Jorge é um fil­ho pródi­go de Ogum, mas não é o próprio Ogum”, diz Flávia.

Out­ra ideia comum é a de val­orizar o sin­cretismo cul­tur­al quan­do se fala em São Jorge, por ele ter sido apro­pri­a­do e ressig­nifi­ca­do pelos afrode­scen­dentes, lig­a­dos à diás­po­ra negra, como for­ma de resistên­cia e manutenção das crenças africanas. Flávia Pin­to defende que esse cenário não pode ser vis­to de maneira roman­ti­za­da, por ter envolvi­do proces­sos vio­len­tos.

Rio de Janeiro (RJ), 23/04/2024 – Fiéis participam de celebração em homenagem ao Dia de São Jorge no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução:  Fiéis de religiões de matrizes africanas par­tic­i­pam de cel­e­bração em hom­e­nagem ao Dia de São Jorge no cen­tro do Rio de Janeiro. Foto de Arquivo/Tomaz Silva/Agência Brasil

“A aceitação de um san­to católi­co é mais palatáv­el porque a gente tem uma dom­i­nação euro-cristã em nos­so proces­so de social­iza­ção chama­do de col­o­niza­ção. Não podemos chamar de maneira român­ti­ca um com­por­ta­men­to geno­ci­da e tor­tu­rador, que foi a imposição da fé de um povo dom­i­nador sobre out­ro povos, que tin­ham as próprias reli­giosi­dades, como os indí­ge­nas e os africanos. Mas, ain­da assim, a sabedo­ria mile­nar dess­es povos foi taman­ha, que con­seguimos estu­dar min­i­ma­mente a história daque­le san­to e asso­ciar ele aos nos­sos orixás”, diz a sociólo­ga.

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