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Conheça o pastor negro e gay que inspirou Lady Gaga em Born This Way

Carl Bean destacou-se pelo ativismo no acolhimento de minorias nos EUA

Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 01/05/2025 — 10:30
Rio de Janeiro
Ver­são em áudio
Brasília (DF), 30/04/2025 - Carl Bean foi um cantor e ativista afro-americano que foi o prelado fundador do Unity Fellowship Church Movement, uma denominação protestante liberal que acolhe particularmente lésbicas, gays e bissexuais afro-americanos. Frame Fellowship Unity Christ Church of Los Angeles
Repro­dução: © Fel­low­ship Uni­ty Christ Church of Los Ange­les

Um homem negro, gay e evangéli­co, intér­prete de um dos prin­ci­pais hinos do movi­men­to LGBTQIA+ dos Esta­dos Unidos, foi a inspi­ração de Lady Gaga para com­por um de seus tra­bal­hos mais mar­cantes: a músi­ca Born This Way, que dá nome ao álbum que con­soli­dou a diva pop como ali­a­da da luta por liber­dade sex­u­al e de diver­si­dade de gênero.

Nasci­do em Bal­ti­more, no esta­do amer­i­cano de Mary­land, Carl Bean foi o fun­dador e arce­bis­po do Uni­ty Fel­low­ship Church Move­ment, um movi­men­to evangéli­co de igre­jas pro­gres­sis­tas que surgiu em Los Ange­les, na Cal­ifór­nia, em 1982, e se espal­hou pelos Esta­dos Unidos, pre­gan­do como lema que “Deus é amor, e amor é para todos”.

Antes de se dedicar ao sac­erdó­cio, porém, ele foi um can­tor de suces­so na Broad­way, e o grande hit que mar­cou sua car­reira foi a músi­ca I Was Born This Way (Eu nasci assim), escri­ta por Chris Spier­er e Bun­ny Jones. Suces­so nas pis­tas de dança e rádios quan­do foi lança­da, em 1978, pela gravado­ra Motown Records, a músi­ca tam­bém se con­sagrou como uma das primeiras canções que falam aber­ta­mente sobre o orgul­ho de ser gay.

» Con­fi­ra a tradução da músi­ca:

I was born this way (Eu nasci assim)

Eu estou andan­do pela vida
Dis­farça­do pela natureza, sim
Você ri de mim
E me crit­i­ca, sim
Porque eu sou feliz
Despre­ocu­pa­do e gay
Sim, eu sou gay
Isso não é um defeito, é um fato:
Eu nasci assim
Ago­ra, eu não vou te jul­gar
Então não me julgue
Somos todos do jeito
Como a natureza quis que fôsse­mos

[Refrão] Eu sou feliz
Sou despre­ocu­pa­do
Sou gay
Eu nasci assim

Qual­quer fã de Lady Gaga recon­hece ime­di­ata­mente que o hit Born This Way (Nasci assim, em inglês), lança­do em 2011, bebeu dessa fonte. E é algo que a can­to­ra faz questão de afir­mar.

Born This Way, músi­ca e álbum, foram inspi­ra­dos em Carl Bean, um ativista gay e negro que pre­gou, can­tou e escreveu sobre ter nasci­do assim. Seu tra­bal­ho vem des­de 1975, e 11 anos depois eu nasci. Obri­ga­do por décadas de amor e bravu­ra incan­sáveis, e por uma razão para can­tar. Nós todos podemos sen­tir ale­gria, porque mere­ce­mos ale­gria. Porque mere­ce­mos o dire­ito de inspi­rar tol­erân­cia, aceitação e liber­dade para todos”, hom­e­na­geou Lady Gaga.

Cantor, ativista e arcebispo

Bean foi cri­a­do por uma família evangéli­ca em uma comu­nidade batista negra de Bal­ti­more. “Ao desco­brir que sen­tia atração por pes­soas do mes­mo sexo, não havia ninguém para lhe diz­er que ele dev­e­ria hon­rar e val­orizar sua homos­sex­u­al­i­dade, ninguém para afir­mar que ele não esta­va em erro, que o amor de Deus não tem fron­teiras”, descreve sua biografia na pági­na do movi­men­to Uni­ty Fel­low­ship Church.

Como muitos jovens LGBTQIA+, Carl Bean foi expul­so de casa e ten­tou tirar sua própria vida. “Com­ple­ta­mente dev­as­ta­do, Bean ten­tou suicí­dio aos 12 anos. Mas Deus o salvou, preparando‑o para aju­dar out­ros que são rejeita­dos e estigma­ti­za­dos, out­ros que sofre­ri­am dor, solidão e con­fusão ao serem infor­ma­dos de que não havia lugar para eles na igre­ja”, desta­ca a biografia.

Brasília (DF), 30/04/2025 - Capa do livro de Carl Bean, que foi um cantor e ativista afro-americano que foi o prelado fundador do Unity Fellowship Church Movement, uma denominação protestante liberal que acolhe particularmente lésbicas, gays e bissexuais afro-americanos. Foto: Simon & Schuster/Divulgação
Repro­dução: Capa da auto­bi­ografia de Carl Bean — Foto: Simon & Schuster/Divulgação

Após a ten­ta­ti­va de suicí­dio, Bean con­ta em sua auto­bi­ografia, escri­ta em parce­ria com David Ritz, e tam­bém em entre­vis­tas con­ce­di­das ao lon­go dos anos que o trata­men­to com psi­coter­apia per­mi­tiu que ele enx­er­gasse a pos­si­bil­i­dade de viv­er como um homem gay em vez de cor­re­spon­der às expec­ta­ti­vas da família.

Aos 16 anos, o meni­no que can­ta­va na igre­ja batista se mudou para Nova York e entrou em um grupo de músi­ca gospel do Harlem, ini­cian­do uma car­reira musi­cal que só seria inter­romp­i­da anos depois, jus­ta­mente após o lança­men­to da músi­ca que inspirou Lady Gaga. Mes­mo ten­do se declar­a­do gay e orgul­hoso na canção, Bean con­ta que foi pres­sion­a­do pela gravado­ra Motown a can­tar músi­cas de amor het­eros­sex­u­ais, para mul­heres, por serem mais com­er­ci­ais.

Foi nesse momen­to que ele deixou a vida de músi­co para trás e mer­gul­hou de vez na de pas­tor e ativista pelos dire­itos dos homos­sex­u­ais e de pes­soas com HIV. Seu enga­ja­men­to em pre­gar para gays negros e out­ras mino­rias foi o que cul­mi­nou na fun­dação do movi­men­to de igre­jas pro­gres­sis­tas.

“Inde­pen­den­te­mente de como você se iden­ti­fi­ca sex­ual­mente den­tro do arco-íris da sex­u­al­i­dade de Deus, sai­ba que você não está em erro. Homos­sex­u­al, lés­bi­ca, bis­sex­u­al, het­eros­sex­u­al, tran­sex­u­al… você não é um erro. Deus te fez do jeito que você é e Deus te ama exata­mente assim. Então ame a si mes­mo e sai­ba que você é muito espe­cial!”, pre­ga­va Bean.

Proteção de minorias

Tam­bém foi sob a lid­er­ança de Bean que foi cri­a­do o Minor­i­ty Aids Project (Pro­je­to sobre Aids para Mino­rias), o prin­ci­pal min­istério de alcance da Uni­ty Fel­low­ship of Christ Church. O MAP foi a primeira agên­cia de serviço comu­nitário, sem fins lucra­tivos, dos Esta­dos Unidos, a ser fun­da­da e geri­da por pes­soas negras, com o obje­ti­vo de edu­car e servir comu­nidades raci­ais que con­tin­u­am sendo despro­por­cional­mente infec­tadas e afe­tadas pelo vírus HIV/aids.

Segun­do a biografia do arce­bis­po, Bean con­sid­er­a­va que seu min­istério sem­pre será um con­tín­uo atendi­men­to às pes­soas com HIV e aids, aos estigma­ti­za­dos por sua ori­en­tação sex­u­al, aos mar­gin­al­iza­dos, aos pobres, aos imi­grantes sem doc­u­men­tos, aos que entram e saem do sis­tema pri­sion­al e aos jovens que estão den­tro e fora de gangues.

O ativis­mo e a lid­er­ança no acol­hi­men­to de mino­rias fiz­er­am com que Bean e os pro­je­tos cri­a­dos por ele recebessem prêmios e cer­ti­fi­ca­dos de difer­entes enti­dades e insti­tu­ições públi­cas e da sociedade civ­il. Carl Bean mor­reu aos 77 anos, em 2011.

Ao noti­ciar a morte do arce­bis­po, a BBC res­ga­tou declar­ações em que Bean se diz hon­ra­do por ter inspi­ra­do Lady Gaga.

Rio de Janeiro (RJ) 30/04/2025 - Capa do álbum Born This Way, da cantora Lady Gaga. Foto: Universal/Divulgação
Repro­dução: Capa do álbum Born This Way, da can­to­ra Lady Gaga — Foto: Universal/Divulgação

“Eu sen­ti que foi uma grande hom­e­nagem e a con­tin­u­ação do tra­bal­ho de sal­var vidas. Vocês sabem, I Was Born This Way foi uma benção na min­ha vida. E está sendo uma benção, mais uma vez, para a vida de uma out­ra ger­ação por meio do que a Gaga fez.”

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