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Sem celulares, desempenho escolar e socialização melhoram no Rio

Notas dos alunos aumentaram depois da proibição

Tâmara Freire — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 14/09/2025 — 10:02
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2025 – Alunos brincam de pular corda durante intervalo no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

“Era um vício. Dava von­tade de ficar mex­en­do o tem­po todo.” Assim a estu­dante Priscila Hen­riques Lopes da Sil­va, de 14 anos, define a relação que tin­ha com o celu­lar. A ami­ga Sophia Mag­a­l­haes de Lima, tam­bém com 14 anos, se iden­ti­fi­ca, mas diz que “hoje em dia não dá tan­ta von­tade. A gente percebe que não pre­cisa ficar mex­en­do no celu­lar para poder se diver­tir”.

O que sep­a­ra as duas real­i­dades é a decisão da prefeitu­ra do Rio de Janeiro de proibir o uso do celu­lar nas esco­las, apli­ca­da no iní­cio do ano leti­vo de 2024. A medi­da adiantou o que se tornar­ia regra em todo o ter­ritório nacional no começo deste ano, por força de uma lei fed­er­al.

O estu­dante Enzo Sabi­no Sil­va Cas­car­do, de 15 anos, con­ta que, antes da proibição, os perío­dos das aulas, na ver­dade, eram per­di­dos em jogos e redes soci­ais. “Ninguém presta­va atenção”, lem­bra. Os pro­fes­sores tam­bém per­diam pre­ciosos min­u­tos – e o bom humor – ten­tan­do angari­ar algu­ma audiên­cia. Mas, mes­mo nos momen­tos mais descon­traí­dos, o “vício” con­tin­u­a­va: “No recreio, era igual aque­les desen­hos: todo mun­do com a cabeça abaix­a­da olhan­do no celu­lar, ninguém brin­ca­va, ninguém con­ver­sa­va”, acres­cen­ta Enzo.

Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2025 – O aluno Enzo Sabino Silva Cascardo durante entrevista à Agência Brasil, no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Enzo Sabi­no Sil­va con­ta que a desatenção dos alunos era um prob­le­ma antes da proibição do celu­lar nas esco­las — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Logo de cara, a proibição não agradou: “Vamos diz­er que a gente ficou chatea­do, para não usar out­ra palavra”, brin­ca Enzo. Mas em pouco tem­po a vida nat­ur­al das esco­las “se regen­er­ou”, para usar out­ra brin­cadeira, fei­ta por usuários nas redes soci­ais. O recreio voltou a ser o espaço para brin­cadeiras e bate-papo. Den­tro de sala, os pro­fes­sores voltaram a ter mais prob­le­ma com as con­ver­sas para­le­las do que com os diál­o­gos via aplica­ti­vo.

De acor­do com a prefeitu­ra, os resul­ta­dos não são ape­nas visíveis, como tam­bém men­su­ráveis. Dados do desem­pen­ho dos alunos do ensi­no fun­da­men­tal, col­hi­dos peri­odica­mente pela Sec­re­taria Munic­i­pal de Edu­cação, mostram um avanço de 25,7% em matemáti­ca e 13,5% em por­tuguês, em 2024.

Essas pro­porções foram cal­cu­ladas por um pesquisador da Uni­ver­si­dade de Stan­ford, nos Esta­dos Unidos, após a apli­cação de méto­dos estatís­ti­cos para iso­lar out­ros fatores que podem influ­en­ciar nesse desem­pen­ho e iden­ti­ficar qual o gan­ho obti­do ape­nas com a proibição. Tam­bém foram ouvi­dos mais de 900 dire­tores, que cor­re­spon­dem a 90% dos profis­sion­ais da rede.

“Em matemáti­ca é como se os alunos tivessem apren­di­do um bimestre a mais den­tro do mes­mo espaço de tem­po. Out­ra coisa inter­es­sante é que o impacto no quar­to bimestre foi maior do que o impacto no ter­ceiro bimestre, que foi maior do que no segun­do… ou seja, hou­ve um gan­ho pro­gres­si­vo”, ressalta o secretário munic­i­pal de Edu­cação, Renan Fer­reir­in­ha.

Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2025 – A aluna Tauane Vitória Vidal Fonseca durante entrevista à Agência Brasil, no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Taua­na Vitória Vidal Fon­se­ca comem­o­ra mel­ho­ra das notas após proibição do celu­lar — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A alu­na Taua­na Vitória Vidal Fon­se­ca, de 15 anos, faz parte dessa estatís­ti­ca. “Quan­do a gente podia usar o tele­fone, eu fica­va o dia inteiro no celu­lar, ao invés de prestar atenção nas aulas. Depois que proibiu, min­ha nota subiu lá em cima! Matemáti­ca, prin­ci­pal­mente, mel­horou muito. Antes eu não sabia nada, mas acho tam­bém que é porque eu fica­va o tem­po todo com o celu­lar na aula, né?”

Todos os ado­les­centes ouvi­dos pela reportagem estu­dam no Giná­sio Edu­ca­cional Olímpi­co (GEO) Rev­eren­do Mar­tin Luther King, na Praça da Ban­deira, região cen­tral do Rio. A dire­to­ra Joana Posidônio Rosa con­ta que enfren­tou resistên­cia logo que a medi­da foi imple­men­ta­da. “Tin­ha aluno que se recusa­va, tin­ha aluno que briga­va comi­go…”.

Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2025 – A diretora Joana Possidônio Rosa durante entrevista à Agência Brasil, no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Dire­to­ra Joana Posidônio diz que famílias foram ali­adas na imple­men­tação da lei — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Um ali­a­do foi fun­da­men­tal: “Logo que a medi­da foi anun­ci­a­da, a gente começou a falar com as famílias, pelos gru­pos de What­sApp, nas reuniões de pais e a gente teve uma adesão de prati­ca­mente 100%. Inclu­sive recebe­mos relatos de famil­iares, con­tan­do que em casa a situ­ação tam­bém esta­va muito difí­cil, porque eles não saíam dos celu­lares. E foi muito impor­tante essa adesão das famílias, porque soz­in­hos a gente não con­seguiria”, con­ta a dire­to­ra.

O pro­fes­sor de história Aluí­sio Bar­reto da Sil­va lem­bra que alguns alunos chegavam a ter reações extremas, com gri­tos e choros, quan­do o celu­lar era apreen­di­do, taman­ho apego ao apar­el­ho. Ele vê uma her­ança da pan­demia nesse com­por­ta­men­to, já que, por quase dois anos, as cri­anças e ado­les­centes pre­cis­aram estu­dar de for­ma remo­ta, e prati­ca­mente só social­izavam via inter­net.

“Antes da proibição, eu tin­ha que ficar brig­an­do o tem­po inteiro, porque como é que o aluno vai prestar atenção, se ele está mex­en­do no celu­lar? E os alunos bons estavam sendo cap­tura­dos. Porque qual­quer tur­ma tem os alunos que con­ver­sam, que bagunçam, que dão mais tra­bal­ho, mas, mes­mo os bons alunos, que nor­mal­mente se dedicam, eu esta­va per­den­do para o celu­lar”, lem­bra.

Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2025 – O professor de história, Aluízio Barreto da Silva durante entrevista à Agência Brasil, no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Pro­fes­sor Aluí­sio Bar­reto da Sil­va apon­ta que “desin­tox­i­cação” pro­duz­iu resul­ta­dos em pou­cas sem­anas — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Ape­sar dis­so, Aluí­sio con­ta que em algu­mas sem­anas, a “desin­tox­i­cação” já pro­duz­iu resul­ta­dos e ele voltou a ser o emis­sor de men­sagens mais impor­tante da sala. Mas o pro­fes­sor diz que essa não é a real­i­dade de todos os docentes da rede, já que o cumpri­men­to da lei exige que toda a comu­nidade esco­lar este­ja enga­ja­da, des­de a direção das esco­las, pas­san­do por todos os fun­cionários, até as famílias.

A princí­pio, cada classe do GEO Rev­eren­do Mar­tin Luther King tin­ha uma caixa orga­ni­zado­ra, onde os apar­el­hos eram guarda­dos no iní­cio da aula. Hoje, bas­ta uma caixa para toda a esco­la, que fica na sala de direção, porque a maio­r­ia dos alunos já pref­ere nem levar os apar­el­hos.

Por ser um giná­sio edu­ca­cional olímpi­co, o colé­gio ofer­ece treina­men­tos em ativi­dades esporti­vas, além das aulas de edu­cação físi­ca. Mes­mo ness­es momen­tos, que nor­mal­mente são muito apre­ci­a­dos pelos alunos, o celu­lar atra­pal­ha­va e afe­ta­va o rendi­men­to. A proibição tam­bém foi apli­ca­da na hora dos treinos, aumen­tan­do ain­da mais o tem­po sem tela dos alunos e con­tribuin­do para a “desin­tox­i­cação”. 

Sophia Mag­a­l­hães de Lima, que cos­tu­ma­va assi­s­tir a vídeos no celu­lar até mes­mo enquan­to toma­va ban­ho, tem tro­ca­do o apar­el­ho por out­ras ativi­dades, como os treinos de xadrez, e hoje osten­ta o títu­lo de campeã estad­ual da modal­i­dade. Ela diz que a con­cen­tração, tão impor­tante para a práti­ca, aumen­tou após a proibição.

Já Ana Julia da Sil­va, de 14 anos, percebe uma mel­ho­ra que não foi medi­da pelo estu­do. “Antes, eu respon­dia todo mun­do, não esta­va nem aí pra nada, fazia mui­ta bagunça, toda hora era man­da­da para a direção. Um dia, eu esta­va com o tele­fone na esco­la, quan­do algu­mas cri­anças começaram a brigar. Aí eu filmei e postei nas redes. A mãe de uma das meni­nas viu, aí a esco­la chamou meu pais, con­ver­sou comi­go e hoje eu enten­do que eu não tin­ha dire­ito de gravar aque­las cri­anças. Eu sin­to que o que mais mel­horou foi o meu com­por­ta­men­to.”

 

Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2025 – Alunos jogam xadrez durante intervalo no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Alunos tro­caram celu­lar por out­ras ativi­dades, como apren­der xadrez — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Ape­sar de não ter números sobre esse impacto, o secretário munic­i­pal de Edu­cação con­fir­ma que ele tem sido perce­bido pelos profis­sion­ais.

“A esco­la tem que ser um espaço não só de apren­diza­gem, mas tam­bém de inter­ação social, de social­iza­ção, de rede de apoio. E a gente tam­bém tem obser­va­do que, com essa medi­da, você gera um ambi­ente mais acol­he­dor, diminui o bul­ly­ing e o cyber­bul­ly­ing”, desta­ca Renan Fer­reir­in­ha.

Para ele, os resul­ta­dos da lei são uma demon­stração de como decisões do poder públi­co podem aju­dar as famílias a lidarem com os desafios da tec­nolo­gia. “A ver­dade é que todo mun­do está ten­do difi­cul­dade nesse proces­so de cri­ar seus fil­hos e fil­has, cri­anças ou ado­les­centes, com esse exces­so de tela, de tec­nolo­gia, e muitas vezes a gente pre­cisa faz­er ess­es freios de arru­mação. Eu defen­do, por exem­p­lo, que a gente restrin­ja o uso de redes soci­ais, para aci­ma de 16 anos. Acho que é o próx­i­mo freio de arru­mação que a gente dev­e­ria encam­par no nos­so país.”

 

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