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Paraisópolis registra 15°C a mais do que Morumbi durante o verão em SP

Estudo da UFABC aponta relação entre mudanças climáticas e desigualdes

Cami­la Boehm — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 29/12/2025 — 15:47
São Paulo
Comunidade de Paraisópolis.
Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Um estu­do do Cen­tro de Estu­dos da Favela (Cefavela), da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do ABC (UFABC), mostrou que as mudanças climáti­cas acen­tu­am as desigual­dades na cap­i­tal paulista. As altas tem­per­at­uras rev­e­lam mais uma dimen­são da crise habita­cional da cidade, atingin­do sobre­tu­do os locais em que a situ­ação já era estru­tu­ral­mente mais precária e vul­neráv­el.

No últi­mo verão, entre o final de 2024 e iní­cio de 2025, a favela de Paraisópo­lis reg­istrou tem­per­at­uras de super­fí­cies — como tel­ha­dos, ruas e solo — de até 45°C. Enquan­to isso, no Morumbi, bair­ro viz­in­ho con­sid­er­a­do de alto padrão econômi­co, foram reg­istradas médias em torno de 30°C.

Os pesquisadores uti­lizaram dados de 19 ima­gens ter­mais de um satélite de obser­vação da Ter­ra, ref­er­entes ao perío­do de dezem­bro de 2024 a fevereiro de 2025. As ima­gens medem a tem­per­atu­ra das super­fí­cies, por­tan­to, os val­ores obti­dos são mais altos do que a tem­per­atu­ra do ar.

Pesquisador do Cefavela, Vic­tor Fer­nan­dez Nasci­men­to afir­mou que 30 °C já é um val­or absur­da­mente alto. “Nes­sa tem­per­atu­ra, aumen­ta em 50% os riscos de prob­le­mas de saúde, prin­ci­pal­mente para aque­las pes­soas que são mais vul­neráveis, como bebês, idosos e [por­ta­dores de] alguns tipos de doenças”, disse.

“Além dess­es aspec­tos biológi­cos, um dos fatores que influ­en­cia bas­tante [na vul­ner­a­bil­i­dade ao calor] são os aspec­tos soci­ais. Nor­mal­mente as regiões mais pobres do municí­pio de São Paulo são aque­las mais vul­neráveis a sofr­er com as os efeitos de ondas e ilhas de calor. Isso leva a vários prob­le­mas, como aumen­to do número de infar­tos”, acres­cen­tou o pesquisador.

Ele expli­cou que os prob­le­mas de saúde cau­sa­dos pelas ondas e ilhas de calor são chama­dos silent killers ou assas­si­nos silen­ciosos. “Mor­rem no Brasil hoje 21 vezes mais pes­soas por doenças cau­sadas por aumen­to da tem­per­atu­ra e ilhas de calor do que por desas­tres como o desliza­men­to de ter­ra”, aler­tou.

Desigualdades

Condições como a mor­folo­gia do ter­reno e a dis­posição de estru­turas pela cidade influ­en­ci­am dire­ta­mente as difer­enças nas tem­per­at­uras entre ter­ritórios tão próx­i­mos. “Esse fator [mor­fológi­co] é forte­mente expli­ca­do pela fal­ta ou abundân­cia de veg­e­tação nos bair­ros. Quan­to mais arboriza­do o bair­ro for, mais ame­na cos­tu­ma ser a tem­per­atu­ra”, men­cio­nou Nasci­men­to.

O inten­so aden­sa­men­to nas fave­las é um ele­men­to que tam­bém impacta nas tem­per­at­uras mais altas, reg­istradas pelo estu­do. Em Heliópo­lis, out­ra favela paulis­tana entre as mais pop­u­losas, os reg­istros ficaram aci­ma de 44 °C nos dias mais quentes.

Os pesquisadores desta­cam que é impor­tante sen­si­bi­lizar a sociedade para o fato de que o calor não se tra­ta ape­nas de um fenô­meno mete­o­rológi­co, mas resul­ta­do tam­bém do plane­ja­men­to ter­ri­to­r­i­al. Para diminuir o impacto das altas tem­per­at­uras na cidade, Nasci­men­to avalia que seria necessário uma com­bi­nação de ações em difer­entes escalas.

“Podemos pen­sar, por exem­p­lo, na escala da cidade, atu­al­izan­do a questão do plano dire­tor, favore­cen­do a arboriza­ção urbana, con­struções de jardins de chu­va, mel­ho­rar a drenagem como um todo”, disse.

Con­sideran­do as áreas de assen­ta­men­tos e fave­las, a mit­i­gação de danos inclui aumen­tar a quan­ti­dade de jardins cole­tivos e hor­tas urbanas, além de mel­ho­rar a questão da ven­ti­lação cruza­da. “Como são con­struções muito aden­sadas, uma gru­da­da na out­ra, aque­la ven­ti­lação cruza­da que traria um pouquin­ho mais de fres­cor, aca­ba não acon­te­cen­do, o que aumen­ta ain­da mais o descon­for­to tér­mi­co den­tro das residên­cias”, apon­tou.

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