...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Cultura / Erveiras se atualizam para atender a novas tradições de religiões afro

Erveiras se atualizam para atender a novas tradições de religiões afro

No Mercadão de Madureira, irmãs mantêm vivo legado familiar

Isabela Vieira — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 31/12/2025 — 10:37
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Comércio de ervas para banhos energéticos e espirituais no Mercadão de Madureira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

O movi­men­to na bar­ra­ca de ervas de Elis­a­bete Mon­teiro, no Mer­cadão de Madureira, não para, e seu celu­lar toca sem parar. Dona do pon­to no cen­tro de comér­cio pop­u­lar na zona norte do Rio de Janeiro, ela atende, faz a ven­da por tele­fone e depois expli­ca à reportagem da Agên­cia Brasil:

“Essa aqui é uma cliente que acabou de sair e esque­ceu a fol­ha de bananeira. Quer que eu leve para o Uber lá na por­ta do mer­ca­do, mas eu não pos­so, estou com muito movi­men­to. Eu vou levar para min­ha casa, e ela vai bus­car lá, de noite”.

O pedi­do urgente da bananeira é para uma cel­e­bração pre­vista para aque­la noite mes­mo, em um ter­reiro de religião afro-brasileira. As fol­has, nes­sas crenças, rep­re­sen­tam o axé, a força vital que conec­ta o mun­do espir­i­tu­al ao mun­do real, sendo cada espé­cie usa­da para uma final­i­dade, como rit­u­ais, ofer­en­das e ban­hos.

Para aten­der a essas religiões, Dona Rosa, a erveira mais anti­ga do Mer­cadão, mãe de Bete, reori­en­tou a pro­dução de ver­duras e hor­tal­iças, há 50 anos. A agricul­to­ra, que veio de Por­tu­gal, apren­deu, no Brasil, com os pais e mães de san­to, a plan­tar e col­her as ervas que hoje abaste­cem feiras livres e ban­cas em toda a cidade. Hoje, a família cul­ti­va fol­has em três hor­tas, em Ira­já, per­to do Mer­cadão.

“Ini­ci­amos com umban­da e can­domblé [jeje], depois pas­samos a aten­der [can­domblé] Ketu e Ango­la, e hoje temos o Ifá, que vende bem”, con­ta Luiza de Fáti­ma Mon­teiro, a out­ra fil­ha de Rosa, que é católi­ca e coman­da out­ra bar­ra­ca da família.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Luísa de Fátima Monteiro trabalho com comércio de ervas para banhos energéticos e espirituais no Mercadão de Madureira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Luísa de Fáti­ma Mon­teiro tra­bal­ho com comér­cio de ervas para ban­hos energéti­cos e espir­i­tu­ais no Mer­cadão de Madureira. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Tradição que evolui

Refer­ên­cia para os ter­reiros, a família de Rosa bus­ca se atu­alizar para aten­der a novos pedi­dos. São as tradições reli­giosas que ori­en­tam, por exem­p­lo, a for­ma de plan­tar e col­her, de acor­do com os cic­los da lua, e a de secar, além da qual­i­dade das ervas – muitas uti­lizadas tam­bém em cuida­dos de saúde.

“Os rit­u­ais reli­giosos são como a tec­nolo­gia, evoluem”, desta­ca Bete, can­domblecista e fre­quen­ta­do­ra do Ifá. “Fol­ha é a mes­ma coisa. Toda hora, você aprende uma magia nova, um remé­dio novo, sai um estu­do, com­pro­va que faz bem para uma coisa, há uma evolução”, com­ple­ta.

Mais recen­te­mente, a família pas­sou a fornecer para o Ifá, uma filosofia que preser­va saberes e práti­cas do povo iorubá. Para isso, foi necessário encon­trar novas espé­cies, que não exis­ti­am no Brasil. O jeito foi com­prar de via­jantes vin­dos da Nigéria ou de Cuba.

“Nós ped­i­mos para traz­erem as mudas de lá, como as de orobô, obi, aridã e teté (caru­ru de man­cha), que vier­am com os reli­giosos ou de nos­sos clientes mes­mos”, rev­ela Elis­a­bete. “Hoje, elas já estão dan­do. Nós somos um dos úni­cos pro­du­tores dessas plan­tas no Rio”, o que tor­na as bar­ra­cas as mais procu­radas.

Há alguns anos, Bete lem­bra que era mais fácil con­seguir plan­tas exóti­cas, ou seja, de fora do Brasil, no Hor­to do Jardim Botâni­co, onde ela com­prou uma muda de baobá ─ árvore con­sid­era sagra­da pelas religiões afro ─ que plan­tou no quin­tal.

“Eu ten­ho um baobá na min­ha casa que é de lá [Nigéria], mas, hoje não têm mais para ven­da nem doação. Era impor­tante ter, para fornecer para essas práti­cas”, avalia Bete. “De baobá mes­mo, eu não ten­ho tem­po de faz­er, e as pes­soas pedem”.

O hor­to do JB existe há 120 anos, mas há dez não doa mais para o públi­co. Hoje, o órgão repas­sa mudas da Mata Atlân­ti­ca para o poder públi­co e ações de reflo­resta­men­to.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Elisabete Monteito trabalha com comércio de ervas para banhos energéticos e espirituais no Mercadão de Madureira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Elis­a­bete Mon­teito tra­bal­ha com comér­cio de ervas para ban­hos energéti­cos e espir­i­tu­ais no Mer­cadão de Madureira. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Uso requer cuidados

O con­hec­i­men­to ances­tral de erveiras, ben­zedeiras e curan­deiras está na base de avanços cien­tí­fi­cos e pre­sente no modo que os brasileiros cuidam da saúde. Mas, o uso de ele­men­tos da natureza, seja para fins med­i­c­i­nais ou rit­u­ais, deve ter acom­pan­hamen­to, aler­ta a pro­fes­so­ra de biotec­nolo­gia veg­e­tal, Andrea Fur­ta­do Mace­do, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Esta­do do Rio de Janeiro (Unirio). Ela lem­bra que algu­mas plan­tas, como a erva de guiné, usa­da em ban­hos de descar­rego, podem causar der­matites.

“Se tomar ban­ho de Guine, não pode se expor ao Sol, para evi­tar queimaduras”, aler­ta.

“O Brasil é um grande caldeirão quente em ter­mos de ino­vação, porque temos tan­to a diver­si­dade biológ­i­ca, quan­to social, fru­to do con­hec­i­men­to de imi­grantes [europeus], africanos, pop­u­lações indí­ge­nas, ribeir­in­has, caiçaras, então, sim, é pos­sív­el faz­er uso de plan­tas med­i­c­i­nais, mas com cuida­do”, reforça Andrea.

A pesquisado­ra desacon­sel­ha a automed­icação e desta­ca o risco de efeitos colat­erais e intox­i­cação.

“As plan­tas podem faz­er bem, como podem faz­er mal”, diz. “Elas podem  inter­a­gir com medica­men­tos que a pes­soa já faça uso, podem provo­car reações adver­sas e ser até fatais”, adverte.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Comércio de ervas para banhos energéticos e espirituais no Mercadão de Madureira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Comér­cio de ervas para ban­hos energéti­cos e espir­i­tu­ais no Mer­cadão de Madureira. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Para ela, acred­i­tar na ciên­cia é a mel­hor for­ma de se pro­te­ger dess­es prob­le­mas. “Muitas plan­tas med­i­c­i­nais ain­da não pas­saram por todas eta­pas da pesquisa cien­tí­fi­ca, incluin­do testes clíni­cos, ape­sar da importân­cia do con­hec­i­men­to etno­far­ma­cológi­co, ain­da há mui­ta adul­ter­ação”, infor­ma.

Andrea dá como exem­p­lo a erva espin­heira-san­ta. “O uso dela é com­pro­va­do para com­bat­er gas­trite, úlcera, mas é difí­cil encon­trar a espé­cie ver­dadeira à ven­da”.

As recomen­dações de uso, mes­mo rit­u­al, devem ser feitas por quem con­hece as plan­tas. Nos ter­reiros, por exem­p­lo, por ialorixás e babalorixás, expli­ca Mãe Nilce de Ian­sã, coor­de­nado­ra da Rede nacional de Religiões Afro-Brasileiras (Renafro).

A Renafro acres­cen­ta que os usos das fol­has para cuida­dos de saúde, como ban­hos, sejam recon­heci­dos como Práti­cas Inte­gra­ti­vas e Com­ple­mentares de Saúde (PIC), pelo Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS). As abor­da­gens ter­apêu­ti­cas incluí­das nas PIC têm obje­ti­vo de pre­venir e pro­mover a saúde. O Min­istério da Saúde já ofer­ece 29 dessas práti­cas. Entre elas, rei­ki, home­opa­tia, yoga e a acupun­tu­ra.

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d