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Tradição e fé impulsionam busca por banhos e ervas no fim de ano

Especialistas e erveiros alertam para cuidados e riscos de intoxicação

Isabela Vieira — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 31/12/2025 — 10:33
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Comércio de ervas para banhos energéticos e espirituais no Mercadão de Madureira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Aro­ma e con­hec­i­men­to pop­u­lar se mesclam em ban­quin­has de ervas espal­hadas pela cidade do Rio de Janeiro, em feiras livres ou nas esquinas, da zona norte à zona sul. Ness­es pon­tos de ven­da, saberes pas­sa­dos de ger­ação em ger­ação receitam chás, xaropes, escal­da pés, ban­hos e out­ras preparações. Mes­mo sem com­pro­vação med­i­c­i­nal para curar doenças, as preparações pro­movem o bem-estar e, por isso, no fim de ano, cresce a procu­ra por fol­has para ban­hos energéti­cos e rit­u­ais.

Em um pon­to da Rua da Car­i­o­ca, no Cen­tro, o erveiro José Adaíl­ton de Souza Fer­reira bor­ri­fa suas plan­tas, de tem­pos em tem­pos, para pro­tegê-las do calor. Empil­hadas em um car­rin­ho de mão esti­lo “bur­ro sem rabo”, estão ramos de macassá, lev­ante, man­jer­icão, arru­da, alfaze­ma, ale­crim e sálvia, “as mais procu­radas para ban­hos ener­gizantes ou de ‘descar­rego’, con­tra inve­ja e olho grande”, pre­screve.

“Tem tan­ta gente que chega car­rega­do aqui, toma um ban­ho de abre-cam­in­ho, desa­ta nó, vence deman­da, e a pes­soa mel­ho­ra muito”, con­ta o erveiro, que dá instruções sim­ples: “Coz­in­har ou esfre­gar, um dos dois, e depois jog­ar da cabeça aos pés”.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – O erveiro José Adaílton de Souza Ferreira mostra as ervas para banho energético e espiritual que vende em um ponto na Rua da Carioca, no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O erveiro José Adaíl­ton de Souza Fer­reira mostra as ervas para ban­ho energéti­co e espir­i­tu­al que vende em um pon­to na Rua da Car­i­o­ca, no cen­tro da cidade. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

As fol­has ain­da são procu­radas para cuida­dos de saúde, caso do saião, gua­co e assa-peixe, usadas para incre­men­tar xaropes caseiros, mas a maior deman­da dos erveiros é para o uso em ban­hos energéti­cos ou rit­u­ais.

As religiões indí­ge­nas e de matriz africana uti­lizam as plan­tas nas cel­e­brações. No can­domblé, por exem­p­lo, as fol­has, chamadas ewés, car­regam o axé, a força vital que conec­ta o mun­do espir­i­tu­al ao mun­do real, sendo cada espé­cie usa­da para uma final­i­dade, como ofer­en­das, ban­hos e curas. Nes­ta religião, as ervas purifi­cam, equi­li­bram e reen­er­gizam.

A Mãe Nilce de Ian­sã, refer­ên­cia do ter­reiro Ilê Omolu Oxum, na Baix­a­da Flu­mi­nense expli­ca: “Kò si ewé, kò si Orixá [dita­do iorubá], ou seja, sem fol­ha não tem orixá, porque o orixá é a natureza”.

Em um ter­reiro, ela rela­ta que as fol­has são para uso reli­gioso, ter­apêu­ti­co e ali­men­tar. “Muitas pes­soas chegam até nós sem saber o que faz­er, tomam um ban­ho de nos­sas ervas, bebem um chá e se sen­tem alivi­adas”.

Coor­de­nado­ra da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras, ela lem­bra que uma das ban­deiras da enti­dade é o recon­hec­i­men­to das ações ter­apêu­ti­cas nos ter­reiros como práti­cas de saúde. “Não estou falan­do de cura, mas de cuida­do”, frisou.

Conhecimento

No caso dos ban­hos, Mãe Nilce avisa que a pre­scrição varia de acor­do com cada pes­soa e a intenção de cada trata­men­to. Para dar con­ta dessas especi­fi­ci­dades, “ialorixás [sac­er­dotes mul­heres] e babalorixás [home­ns] estu­dam, se preparam e são guardiões de con­hec­i­men­to ances­tral”, expli­ca.

Por isso, ela diz que não há uma recei­ta uni­ver­sal, que sir­va para qual­quer pes­soa. Mes­mo assim, Nilce dá uma dica alter­na­ti­va que pode faz­er bem a qual­quer um no fim de ano:

“Tome um ban­ho de mar. Que delí­cia! Tome ban­ho de rio e de cachoeira. É ener­gia pura”.

Ape­sar das dúvi­das sobre a eficá­cia da fitoter­apia na cura de doenças, a ciên­cia já atestou que práti­cas religiosas/rituais podem ser bené­fi­cas para a saúde, é o que lem­bra Aline Saave­dra, douto­ra em biolo­gia veg­e­tal e pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­dade do Esta­do do Rio de Janeiro (Uerj).

“Não existe uma pesquisa para saber se, de fato, aque­le ban­ho vai te dar mais ener­gia ou te traz­er, pro­teção”, diz. “Porém, em relação ao bem estar, o fato de as pes­soas se sen­tirem mais pro­te­gi­das, obvi­a­mente, muda a quími­ca do nos­so cére­bro pos­i­ti­va­mente, e isso traz bene­fí­cios”, afir­ma.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Comércio de ervas para banhos energéticos e espirituais no Mercadão de Madureira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução:  Comér­cio de ervas para ban­hos energéti­cos e espir­i­tu­ais no Mer­cadão de Madureira. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Precaução

No caso de ingestão, Aline recomen­da cuida­do. “Já sabe­mos que, cer­tos chás podem traz­er tox­i­ci­dade, por exem­p­lo, se uti­liza­dos por um perío­do pro­lon­ga­do”, aler­tou.

Ela tam­bém chamou atenção para sim­i­lar­i­dades entre plan­tas, que podem pas­sar des­perce­bidas. “É pre­ciso que o erveiro demon­stre con­hec­i­men­to com a pro­cedên­cia das plan­tas. Fol­ha seca moí­da é difí­cil difer­en­ciar”.

Um uso seguro das fol­has, segun­do Aline, é de plan­tas já con­heci­das da culinária. “Todos os tem­per­os têm pro­priedade med­i­c­i­nais. Man­jer­icão, orégano, sálvia, ale­crim. Só dosar e não exager­ar na quan­ti­dade”, recomen­da.

Quem tiv­er dúvi­das, pode con­sul­tar o Hor­to Vir­tu­al da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de San­ta Cata­ri­na. O site per­mite iden­ti­ficar uma plan­ta pelo nome pop­u­lar e cien­tí­fi­co, fornecen­do infor­mações sobre origem, modo de usar e efeitos adver­sos.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Ponto de venda de ervas para banhos energéticos e espirituais numa rua do Bairro de Fátima. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Pon­to de ven­da de ervas para ban­hos energéti­cos e espir­i­tu­ais numa rua do Bair­ro de Fáti­ma. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Identidade

Aten­to aos riscos, João*, erveiro do Bair­ro de Fáti­ma, na região cen­tral do Rio, não faz pre­scrições.

“Eu só ven­do ervas para a pes­soa que sabe o que quer. Meu negó­cio é espir­i­tu­al, nada de chá”.

Ele con­hece bem as plan­tas, cul­ti­vadas por ele mes­mo sem agrotóx­i­cos, em um ter­reno em Ira­já, na zona norte, mas pref­ere não mis­tu­rar as funções.

João diz que “pode­ria estar fazen­do out­ra coisa”, mas que gos­ta do tra­bal­ho de erveiro. Orgul­hoso, ele exibe as mãos cheias de sinais do cuida­do com a ter­ra.

“As ervas de ban­ho, de tem­pero, tem tudo a ver comi­go, com a min­ha religião, com o que me iden­ti­fi­ca como pes­soa, e com a min­ha origem racial”.

 

Rio de Janeiro (RJ), 16/12/2025 – Detalhes das marcas nas mãos de um erveiro que vende ervas para banhos energéticos e espirituais numa rua do Bairro de Fátima. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Detal­h­es das mar­cas nas mãos de um erveiro que vende ervas para ban­hos energéti­cos e espir­i­tu­ais numa rua do Bair­ro de Fáti­ma. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

*O nome do erveiro foi alter­ado a pedi­do dele, por medo de repressão.

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