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Cariocas comemoram o Dia de Iemanjá no Arpoador

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Festa é também realizada em Salvador há 100 anos


Pub­li­ca­do em 02/02/2023 — 06:10 Por Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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O músi­co Mar­cos André Car­val­ho, de família umban­dista e prat­i­cante do can­domblé, ide­al­i­zou e pro­move hoje (2), no Rio de Janeiro, o Dia de Ieman­já no Arpoador à semel­hança da fes­ta real­iza­da em Sal­vador (BA) há 100 anos em hom­e­nagem à orixá, ou divin­dade, africana fem­i­ni­na. Ieman­já é con­sid­er­a­da a mãe dos orixás e denom­i­na­da Rain­ha do Mar.

Com real­iza­ção do Insti­tu­to Flo­res­ta e da Rede de Patrimônio Ima­te­r­i­al do Esta­do do Rio de Janeiro, com patrocínio da prefeitu­ra car­i­o­ca, por meio da Sec­re­taria Munic­i­pal de Cul­tura, moradores da cap­i­tal flu­mi­nense e tur­is­tas gan­ham assim um Dia de Ieman­já no Arpoador, na pra­ia de Ipane­ma, zona sul da cidade.

A fes­ta será total­mente gra­tui­ta e reunirá dez grandes gru­pos, total­izan­do cer­ca de 140 líderes reli­giosos e artis­tas, além de fil­hos de san­to e rep­re­sen­tantes de out­ras religiões, como a católi­ca e a judaica. O rit­u­al começa às 15h. O corte­jo se con­cen­trará no calçadão da pra­ia de Ipane­ma, jun­to à está­tua do mae­stro e com­pos­i­tor Tom Jobim, ofer­e­cen­do ao públi­co apre­sen­tações dos gru­pos Tam­bores de Olokun, Afoxé Fil­has de Ghandy, Afoxé Oré Lailai e Ogan Koto­quin­ho.

Na Pedra

Às 17h, casas de umban­da e de can­domblé de ori­gens cen­tenárias e artis­tas de gru­pos de afoxé, jon­go, sam­ba e mara­catu seguirão com bal­aios con­tendo flo­res e fru­tas, pre­sentes para Ieman­já, em direção à Pedra do Arpoador, onde serão feitas as ofer­en­das. Em segui­da, será aber­ta uma Roda de Tam­bor na areia da pra­ia, com pon­tos de can­domblé can­ta­dos pelo Mestre Ogan Bang­bala, mais vel­ho Ogan do Brasil e padrin­ho da comem­o­ração, com 103 anos de idade, e pelo Pai Dário de Ossain, do Ilê Axé Onix­e­gun e mestre de jon­go do Mor­ro da Ser­rin­ha. Caberá ao can­tor de umban­da, Tião Casemiro, entoar pon­tos de umban­da acom­pan­hado por sua orques­tra de tam­bores.

O Jon­go do Pin­heiral, por sua vez, um dos mais anti­gos do país, vai rep­re­sen­tar na fes­ta mais de 100 anos de história do Vale do Café, região de quilom­bo­las e berço do jon­go, con­sid­er­a­do o pai do sam­ba car­i­o­ca. O Jon­go de Pin­heiral subirá ao pal­co ao lado dos jongueiros do Mor­ro da Ser­rin­ha, de Madureira, da Com­pan­hia de Aruan­da e de Mar­cos André. Para fechar a roda e a parte sagra­da da fes­ta, a Com­pan­hia de Aruan­da e o grupo Sam­ba Jon­go con­vi­darão o públi­co para dançar sam­ba de roda, coco, jon­go e ciran­das praieiras.

O apogeu da fes­ta será uma roda de sam­ba, com iní­cio pre­vis­to para as 20h, a ser real­iza­da em um pal­co mon­ta­do ao lado da Pedra do Arpoador, da qual par­tic­i­parão os sam­bis­tas Nina Rosa, Marcelin­ho Mor­eira, Hamil­ton Fofão, Car­lin­hos 7 Cor­das, PH Moci­dade, Nenê Brown, entre out­ros. Durante todo o even­to, a Feira Cres­pa, integra­da por afroem­preende­dores, ofer­e­cerá ao públi­co, no calçadão do Arpoador, pro­du­tos de gas­trono­mia e moda.

Visibilidade

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, Mar­cos André Car­val­ho desta­cou que enquan­to o mar­ket­ing de tur­is­mo de Sal­vador é a baiana do acara­jé, no Rio de Janeiro é a Garo­ta de Ipane­ma. “Não é a origem do sam­ba”, disse. “Tudo nasceu nos ter­reiros, como o sam­ba; a bossa-nova nasceu do sam­ba; a bati­da do funk nasceu dos tam­bores”.

O músi­co expli­cou que a umban­da e o can­domblé são a matriz do sam­ba, da bossa-nova e do funk car­i­o­ca. “E a gente tem essa dívi­da, porque não pegou a nos­sa matriz africana car­i­o­ca e deu vis­i­bil­i­dade para ela, como Sal­vador fez como estraté­gia de mar­ket­ing de tur­is­mo há décadas. Hoje, Sal­vador tem 500 mil tur­is­tas no dia 2 de fevereiro. Bate até o réveil­lon”, garan­tiu. Por isso, o Dia de Ieman­já no Arpoador “quer dar vis­i­bil­i­dade aos ter­reiros de umban­da e can­domblé e trazê-los para uma pra­ia da zona sul, no coração do tur­is­mo, em Ipane­ma”.

Mar­cos André infor­mou que as ofer­en­das con­terão somente flo­res biode­gradáveis, não sendo admi­ti­dos plás­ti­co, vidro nem madeira. “Porque é uma hom­e­nagem à Rain­ha do Mar e a gente tem que man­ter a casa dela limpa. Os orixás são a força da natureza e a gente tem que preser­var a natureza. Não faz sen­ti­do hom­e­nagear a orixá sujan­do o mar”.

Réveillon carioca

A Roda de Tam­bor na areia da pra­ia será um momen­to muito sim­bóli­co para as religiões de matriz africana porque vai relem­brar o que ocor­ria nos anos de 1940, quan­do os ter­reiros iam comem­o­rar o Dia de Ieman­já nas pra­ias. “Dali nasceu o réveil­lon car­i­o­ca, todo mun­do de bran­co, jogan­do flo­res no mar, pulan­do sete ondas. Pou­ca gente sabe que essa tradição nasceu da pre­sença dos ter­reiros no Dia de Ieman­já, em 31 de dezem­bro. Depois, a espetac­u­lar­iza­ção do réveil­lon acabou expul­san­do os que cri­aram a fes­ta nas pra­ias, que foram os ter­reiros”. Mar­cos André lamen­tou que, ago­ra, não dá mais para voltar, dev­i­do à inter­dição das ruas na vira­da de 31 de dezem­bro para o dia 1º de janeiro, pelas autori­dades munic­i­pais.

Daí, escol­heu-se o dia 2 de fevereiro para retomar esse espaço sagra­do das areias car­i­o­cas e, tam­bém res­gatar um pouco esse méri­to dos ter­reiros na história do réveil­lon car­i­o­ca que, hoje, “é a maior fes­ta do plan­e­ta, con­heci­da no mun­do todo”. Car­val­ho comen­tou que após as ofer­en­das, faz­er as rodas de can­domblé, umban­da e jon­go naque­las areias, 80 anos depois, é “faz­er justiça aos pre­tos vel­hos e às pre­tas vel­has que inven­taram o réveil­lon car­i­o­ca. Eu fico muito emo­ciona­do com isso”. O músi­co ressaltou que 30 anos após a espetac­u­lar­iza­ção do réveil­lon car­i­o­ca, ini­ci­a­da nos anos de 1990, os ter­reiros da Baix­a­da Flu­mi­nense, da zona norte e do Vale do Café, “onde tudo começou” vão con­tar essa história e tomar posse nova­mente dessas areias.

União e equilíbrio

A inspi­ração para real­iza­ção do Dia de Ieman­já no Arpoador veio para Mar­cos André durante a pan­demia da covid-19. A pro­pos­ta teve adesão total das mães e pais de san­to. Mar­cos André salien­tou que, além da parte históri­ca e cul­tur­al, Ieman­já “é de todos; de quem é da religião e de quem não é. Ela é muito forte, muito queri­da. Ela une. E neste momen­to, a gente está pre­cisan­do de união. Vamos nos dar as mãos na beira do mar, can­tar e agrade­cer por ter sobre­vivi­do a essa pan­demia”.

Dona das cabeças, Ieman­já dá equi­líbrio às pes­soas. “A gente está pedin­do isso para os car­i­o­cas e brasileiros: equi­líbrio, tem­per­ança, respeito mútuo”. O músi­co reit­er­ou que a orixá une a todos e dá equi­líbrio “para a gente poder ser mais pon­der­a­do, menos rad­i­cal”.

Economia

A cel­e­bração tem como par­ceiros a Rio­tur, Sec­re­taria Munic­i­pal de Desen­volvi­men­to Econômi­co, Sec­re­taria Munic­i­pal de Políti­cas da Mul­her, Coor­de­nado­ria Exec­u­ti­va de Diver­si­dade Reli­giosa, Sub­prefeitu­ra da Zona Sul, Ilê Axé Onix­e­gun, Com­pan­hia de Aruan­da, Alalaô Kiosk e Hotel Arpoador.

Mar­cos André Car­val­ho desta­cou o poten­cial da fes­ta para a ger­ação de recur­sos para a cidade. Segun­do infor­mou, a fes­ta de Ieman­já em Sal­vador, de acor­do com estu­do da Fun­dação Getulio Var­gas, arreca­da R$ 400 mil­hões para o municí­pio, em impos­tos. “Então, nós somos econo­mia tam­bém. Nós temos poten­cial turís­ti­co e quer­e­mos envolver os hotéis”.

Mutirão

Ao final do even­to, a equipe da pro­dução pro­moverá, jun­to com o públi­co, um mutirão de limpeza das pra­ias “para que as pes­soas enten­dam que areia e pedra são as moradas da sereia. Vamos limpar, deixar tudo limpo. Talvez essa seja a ofer­en­da que ela (Ieman­já) mais vai gostar”, man­i­festou o músi­co.

No ano pas­sa­do, no dia 2 de fevereiro, a cel­e­bração acon­te­ceu nas areias da Pra­ia do Fla­men­go, mar­can­do a aber­tu­ra do Fes­ti­val Mul­ti­pli­ci­dade, de Bat­man Zavareze, mas cresceu e, este ano, o axé para Ieman­já ocu­pará as pedras do Arpoador, em Ipane­ma. Além de ger­ar impacto pos­i­ti­vo na val­oriza­ção das tradições car­i­o­cas de matrizes africanas e seus faze­dores, o Dia de Ieman­já no Arpoador pode con­tribuir de modo favoráv­el para as cadeias pro­du­ti­vas do tur­is­mo e da econo­mia cria­ti­va do Rio de Janeiro.

Edição: Valéria Aguiar

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