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CineOP debate uso pedagógico do cinema em tempo de aulas remotas

Mostra de Cinema de Ouro Preto - CineOP que celebra 15 anos em 2020
Repro­dução: © Leo Lara/Universo Pro­ducão

Mostra de Cinema de Ouro Preto começa nesta quarta-feira


Pub­li­ca­do em 23/06/2021 — 06:05 Por Léo Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Cri­anças falam sobre o pé de man­ga que fica no pátio de sua esco­la, estu­dantes retratam o cotid­i­ano em casa, salas de aulas vazias, um pro­fes­sor fala sobre solidão e a fal­ta de aces­so aos alunos, um pai mostra à fil­ha fil­ma­gens que fez da nova insti­tu­ição de ensi­no onde ela irá estu­dar quan­do forem retomadas as ativi­dades pres­en­ci­ais. Esse con­jun­to de cenas faz parte do que será apre­sen­ta­do na 16ª edição da Mostra de Cin­e­ma de Ouro Pre­to (CineOP). O fes­ti­val, que começa hoje (23) e vai até a próx­i­ma segun­da-feira (28), ofer­e­cerá um espaço para reflexão sobre o papel edu­ca­cional que o audio­vi­su­al vem exercendo em meio à pan­demia de covid-19.

Para­le­la­mente à exibição de filmes, haverá momen­tos para o com­par­til­hamen­to de pro­je­tos e exper­iên­cias de metodolo­gias que ten­ham a imagem e o som como fer­ra­men­tas. Algu­mas delas foram desen­volvi­das durante a real­iza­ção de aulas remo­tas durante a pan­demia, expli­ca a cineas­ta e ped­a­goga Clarisse Alvaren­ga. pro­fes­so­ra da Fac­ul­dade de Edu­cação da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (UFMG). Ela é respon­sáv­el pela curado­ria do eixo de edu­cação da CineOP ao lado de Adri­ana Fres­quet, pesquisado­ra e docente da Fac­ul­dade de Edu­cação da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ).

“A edu­cação é um lugar de encon­tro físi­co, de socia­bil­i­dade pres­en­cial. O con­ta­to face a face é fun­da­men­tal, sobre­tu­do na edu­cação bási­ca. Mas, neste momen­to em espe­cial, enten­demos que as esco­las devem se man­ter fechadas até que as condições san­itárias sejam seguras. Ape­sar dis­so, é impor­tante que o vín­cu­lo entre pro­fes­sor e aluno acon­teça de algum modo. O fes­ti­val reuniu tra­bal­hos que são amostras dessa ten­ta­ti­va de esta­b­ele­cer vín­cu­los neste momen­to tão desafi­ador”, afir­ma Clarisse.

Há des­de ini­cia­ti­vas onde os alunos são insti­ga­dos a desen­volver tra­bal­hos audio­vi­suais até as cine-con­ver­sas, isto é, o debate sobre os filmes e seus con­teú­dos. Há tam­bém exper­iên­cias focadas no desen­volvi­men­to de sub­je­tivi­dades, usan­do o cin­e­ma não den­tro do mod­e­lo infor­ma­ti­vo, mas sim para fomen­tar exper­iên­cias sen­so­ri­ais em cri­anças e jovens.

“O fechamen­to das esco­las criou uma grande inter­ro­gação para o pro­fes­sor: o que eu faço e como eu faço? Cineas­tas tam­bém pas­saram por esse ques­tion­a­men­to. Tan­to na edu­cação quan­to no cin­e­ma, às vezes parece que tudo que se sabia pre­cisou ser rein­ven­ta­do. E o que temos nota­do é uma pre­sença trans­ver­sal da imagem e do som em todo o cur­rícu­lo, não ape­nas nas dis­ci­plinas artís­ti­cas. Neste momen­to, não há como tra­bal­har nen­hum con­teú­do sem lançar mão do audio­vi­su­al”, obser­va Clarisse.

Refer­ên­cia no cal­endário cin­e­matográ­fi­co nacional, a CineOP é orga­ni­za­da pela Uni­ver­so Pro­dução, que tam­bém responde pela tradi­cional Mostra de Cin­e­ma de Tiradentes. O even­to, apoia­do pela Sec­re­taria Espe­cial da Cul­tura do Min­istério do Tur­is­mo e pela Sec­re­taria de Cul­tura e Tur­is­mo de Minas Gerais, surgiu em 2006 e tem como difer­en­cial a estru­tu­ração em três eixos: patrimônio, edu­cação e história. Para cada um deles, há uma vas­ta pro­gra­mação que mobi­liza cineas­tas, pesquisadores, restau­radores, pro­fes­sores, críti­cos, estu­dantes e ciné­fi­los em ger­al.

Todo os filmes poderão ser assis­ti­dos gra­tuita­mente por meio do site da CineOP, onde tam­bém é pos­sív­el con­ferir as datas de exibição e as sinopses. Em decor­rên­cia da pan­demia de covid-19, esta edição será real­iza­da de for­ma online, assim como já havia ocor­ri­do no ano pas­sa­do. Não é uma exper­iên­cia iso­la­da. O setor apos­tou nos fes­ti­vais vir­tu­ais como for­ma de estim­u­lar a cir­cu­lação da pro­dução cin­e­matográ­fi­ca e de dis­cu­tir os desafios decor­rentes da crise san­itária glob­al.

Serão exibidos 118 filmes entre cur­tas, médias e lon­gas-metra­gens prove­nientes de 14 esta­dos brasileiros e out­ros três país­es. Out­ras ativi­dades estão pre­vis­tas como debates, ofic­i­nas, exposições, lança­men­tos de pub­li­cações, per­for­mances e shows. Na aber­tu­ra, que ocorre hoje às 20h, o ator Chico Diaz será hom­e­nagea­do e rece­berá o Troféu Vila Rica, pre­mian­do uma car­reira de mais de qua­tro décadas.

Dos 118 filmes, 27 cor­re­spon­dem ao eixo edu­cação. A escol­ha da maio­r­ia deles coube a uma equipe indi­ca­da pela Rede Kino, que foi cri­a­da em 2009. Seu obje­ti­vo é con­gre­gar pes­soas e insti­tu­ições inter­es­sadas em via­bi­lizar ações que envolvam cin­e­ma e edu­cação. Par­ceira da CineOP, a Rede Kino tam­bém real­iza durante o even­to seu fórum anu­al, que chega à 13ª edição e dis­cute as ini­cia­ti­vas e per­spec­ti­vas para o próx­i­mo perío­do.

Há tam­bém oito filmes vin­cu­la­dos aos pro­je­tos Cero en Con­duc­ta e Escuela al Cine. São ini­cia­ti­vas desen­volvi­das no Chile, país que tem se tor­na­do uma refer­ên­cia em proces­sos envol­ven­do cin­e­ma e edu­cação. Isso tem ocor­ri­do, entre out­ras razões, dev­i­do à ampla dig­i­tal­iza­ção do patrimônio cin­e­matográ­fi­co pela sua Cinete­ca Nacional, à refor­ma cur­ric­u­lar da edu­cação bás­cia, que abriu espaço para novas pos­si­bil­i­dades de uso do audio­vi­su­al, e ao suces­so de pro­je­tos que foram cri­a­dos por ini­cia­ti­va da própria sociedade.

A pro­gra­mação tam­bém dará destaque ao tra­bal­ho da chile­na Ali­cia Vega Durán, de 89 anos. Pro­fes­so­ra e pesquisao­ra de cin­e­ma, ela é respon­sáv­el por diver­sos pro­je­tos de inclusão edu­ca­cional. Um deles, no final da déca­da de 80, con­sis­tiu em ofic­i­nas de cin­e­ma infan­til para cri­anças que nun­ca foram ao cin­e­ma. A ini­cia­ti­va foi reg­istra­da no doc­u­men­tário Cien niños esperan­do un tren, de Igna­cio Agüero. O filme, pre­mi­a­do na época em fes­ti­vais de qua­tro país­es, inte­gra a pro­gra­mação da CineOP, e seu dire­tor par­tic­i­pará de uma mesa de debate.

Disparidade

Clarisse obser­va que as exper­iên­cias que serão apre­sen­tadas envolvem majori­tari­a­mente a edu­cação públi­ca. Para ela, a pan­demia deixa ain­da mais expos­ta e per­cep­tív­el a dis­pari­dade exis­tente no Brasil entre o ensi­no públi­co e pri­va­do, o que abre tam­bém uma chance para se pen­sar em políti­cas públi­cas que busquem equi­li­brar as difer­enças. A ped­a­goga tam­bém defende que o poten­cial educa­ti­vo do cin­e­ma deve ser vis­to de for­ma mais ampla, con­sideran­do espaços de for­mação além da esco­la. Out­ra pre­ocu­pação que ela lev­an­ta envolve a relação que as novas ger­ações que crescem com aces­so a diver­sas novas tec­nolo­gias vêm esta­b­ele­cen­do com a imagem e o som.

“O audio­vi­su­al deve entrar como exper­iên­cia sen­sív­el e cria­ti­va. Não pode ser ape­nas mais um perío­do do dia em que o jovem vai estar sub­meti­do a horas de tela. É impor­tante faz­er essa dis­tinção. É uma lin­guagem que faz parte das práti­cas cul­tur­ais das cri­anças e dos jovens, mas é pre­ciso ter sem­pre em mente que ela deve ser lev­a­da para out­ro lugar: o lugar da pro­dução sub­je­ti­va, da críti­ca, do estí­mu­lo à argu­men­tação. Essa é a difer­ença de você colo­car a imagem den­tro da esco­la. Essa relação deve ser medi­a­da pelo ensi­no”.

A temáti­ca ger­al des­ta edição da CineOP é “memórias entre difer­entes tem­pos”. O fes­ti­val dará maior evidên­cia à déca­da de 90, perío­do que abrange a extinção da Embrafilme, a crise do cin­e­ma nacional, os esforços da chama­da “retoma­da” após 1995 e a cri­ação da Agên­cia Nacional do Cin­e­ma (Ancine) já em 2001. Os orga­ni­zadores enten­dem que olhar para esse pas­sa­do per­mite com­preen­der mel­hor o pre­sente. “Há muitas camadas do país e do cin­e­ma, hoje reposi­cionadas, que foram semeadas como espé­cie de gênese des­de 1990”, reg­is­tra car­ta assi­na­da por Cle­ber Eduar­do e Fran­cis Vogn­er dos Reis, curadores do eixo históri­co.

Para Clarisse, o recuo até os anos 90 tam­bém con­tribui para o debate edu­ca­cional, pois foi nes­sa déca­da que a inter­ação entre cin­e­ma e esco­la começou a gan­har fôlego. A dis­sem­i­nação de video­cas­setes e a chega­da ao mer­ca­do de fil­mado­ras rel­a­ti­va­mente acessíveis, pos­si­bil­i­taram o desen­volvi­men­to de pro­postas for­ma­ti­vas envol­ven­do o cin­e­ma.

Acervo

Den­tro do eixo patrimônio, a pro­gra­mação da CineOP inclui o Encon­tro Nacional de Arquiv­os e Acer­vos Audio­vi­suais Brasileiros. Tra­ta-se de um espaço que dis­cute a importân­cia da preser­vação dos filmes nacionais. Atual­mente, ele está con­sol­i­da­do como um dos prin­ci­pais fóruns para dis­cussão de políti­cas públi­cas voltadas à sal­va­guar­da desse patrimônio cin­e­matográ­fi­co. A pau­ta envolve temas como pri­or­i­dades para a restau­ração, proces­sos de dig­i­tal­iza­ção, aces­so da pop­u­lação aos filmes e orga­ni­za­ção de ban­cos de dados que reú­nam infor­mações vari­adas das obras como local­iza­ção, deten­tor dos dire­itos autorais, esta­do da cópia, entre out­ras.

Um mar­co desse debate ocor­reu na CineOP de 2016, quan­do um Plano Nacional de Preser­vação Audio­vi­su­al foi elab­o­ra­do e entregue ao extin­to Min­istério da Cul­tura (MinC). Ele propôs parâmet­ros para que insti­tu­ições públi­cas e pri­vadas con­stru­am suas políti­ca de acer­vo, incluin­do gestão, aquisição, con­ser­vação, restau­ração, dig­i­tal­iza­ção, descarte, difusão e aces­so.

A dis­cussão pro­pos­ta pelo even­to diz respeito não ape­nas a obras de cineas­tas com car­reiras con­sol­i­dadas, mas tam­bém a filmes que foram pro­duzi­dos para gale­rias de arte, que estão restri­tos a acer­vos pes­soais, ou ain­da de dire­tores que já mor­reram e deixaram mate­ri­ais rel­e­vantes com os herdeiros que descon­hecem o val­or dos tra­bal­hos. Pesquisadores acred­i­tam que pro­duções cuja existên­cia ain­da não é pub­li­ca­mente con­heci­da podem abrir novos cam­pos para estu­do.

Edição: Graça Adju­to

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