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Das ruas para um centro cultural, grafite invade São Paulo

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Trabalhos podem ser vistos até 30 de julho


Pub­li­ca­do em 28/05/2023 — 10:00 Por Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Das ruas do mun­do para den­tro de um espaço expos­i­ti­vo. A nova mostra em car­taz no Itaú Cul­tur­al, em São Paulo, leva para as pare­des a arte que surgiu nos muros e nos espaços públi­cos e está facil­mente ao alcance da pop­u­lação. Chama­da de Além das Ruas: Histórias do Graf­fi­ti, a exposição tem um panora­ma e um recorte históri­co da arte urbana (street art) e do grafite, esse tipo de cul­tura que car­rega um forte sen­ti­do de inter­venção da cena públi­ca.

“Entre out­ros grandes pro­je­tos, acred­i­to que essa ten­ha sido uma das maiores opor­tu­nidades que tive­mos para expor essa cul­tura”, diz Bin­ho Ribeiro, artista e curador da mostra. “Esse tra­bal­ho mostra o recon­hec­i­men­to de uma grande insti­tu­ição. Para mim, como curador e como par­tic­i­pante dessa cena toda, enten­do isso como parte de um proces­so. Isso vem sendo con­struí­do em diver­sas out­ras exposições como as Bien­ais de Grafite”, rev­ela.

Esse diál­o­go com a rua e com essa pro­dução já é algo que acon­tece em out­ras áreas da insti­tu­ição. A gente já tin­ha feito uma exposição sobre grafite, mas não nes­sa dimen­são. E quan­do retomamos o olhar para essa cul­tura, a gente quer traz­er um olhar históri­co para essa pro­dução, como ela chega e quais são suas influên­cias. O desafio para a exposição foi traz­er uma nar­ra­ti­va de olhar para essa pro­dução, que é recente”, acres­cen­ta Juliano Fer­reira, coor­de­nador de artes visuais do Itaú Cul­tur­al.

Com 76 obras de 51 artis­tas grafiteiros e sob o olhar cuida­doso de Bin­ho Ribeiro, um dos pre­cur­sores dessa arte no Brasil, a mostra gra­tui­ta ter­mi­nará no dia 30 de jul­ho. A maior parte das obras é de artis­tas brasileiros, mas a exposição recebe tam­bém tra­bal­hos de feitos em out­ros país­es, como T‑Kid, de Nova York; Farid Rue­da, do Méx­i­co; Sat­urno, da Espan­ha; e da chile­na-canadense Sha­lak Attack.

graf­fi­ti ou grafite é uma expressão fun­da­men­tal dos espaços urbanos. Sua origem remete às pin­turas rupestres e inscrições nas cav­er­nas, mas sua con­sol­i­dação se dá com os movi­men­tos de con­tra­cul­tura nos Esta­dos Unidos e na França, nos anos 60. É então que ele pas­sa a refle­tir uma expressão artís­ti­ca e políti­ca de jovens de todo o mun­do, ocu­pan­do os espaços públi­cos e col­orindo a pais­agem por vezes opres­so­ra das cidades.

Outras manifestações

O grafite com­põe o que se chama street art, que agre­ga tam­bém out­ras man­i­fes­tações como pin­tu­ra, per­for­mances, teatro e car­tazes. Seu surg­i­men­to veio como for­ma de protesto e com o obje­ti­vo de ser uma arte democráti­ca, inde­pen­dente e acessív­el.

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, Bin­ho con­ta que começou a ter con­ta­to com a arte urbana em sua juven­tude. “Sem­pre desen­hei, des­de cri­ança. Quan­do gan­hei um con­cur­so, aos 12 anos, ali tive a certeza que que­ria viv­er de arte. Aos 14 anos tra­bal­ha­va na Gale­ria do Rock [um espaço ded­i­ca­do ao rock no cen­tro da cap­i­tal paulista] fazen­do fotoli­tos e, nesse mes­mo perío­do, anda­va de skate, dança­va break e aí é que teve essa conexão com o uni­ver­so do grafite”, recor­da.

São Paulo (SP), 24/05/2023 - Exposição Além das ruas: histórias do graffiti, com curadoria de Binho Ribeiro, no Itaú Cultural da Avenida Paulista. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repo­dução: Exposição Além das ruas: histórias do graf­fi­ti fica em car­taz até 30 de jul­ho  Foto Rove­na Rosa/Agência Brasil

Nesse perío­do, diz Bin­ho, as infor­mações sobre o grafite ain­da eram difí­ceis de chegar ao Brasil. Mas essa arte começa a se fir­mar no país a par­tir dos anos 80, quan­do os brasileiros pas­sam a ter con­ta­to com o filme Beat Street [chama­do por aqui de A Lou­cu­ra do Rit­mo]. “Esse filme basi­ca­mente nos mostrou que havia uma cul­tura difer­ente no mun­do, que era o grafite, ao qual me apaixonei e nun­ca mais me dis­tan­ciei”, enfa­ti­za.

Des­de então, os artis­tas brasileiros começaram a se espe­cializar e hoje são recon­heci­dos em todo o mun­do. “Nos­sas próprias difi­cul­dades de infor­mação, nos­sa maneira de bus­car alter­na­ti­vas porque os mate­ri­ais eram muitos caros, todos ess­es ele­men­tos de difi­cul­dade fiz­er­am com que o grafite paulis­tano, ini­cial­mente, depois logi­ca­mente brasileiro, tivesse esse destaque no cenário inter­na­cional. É difí­cil ter hoje um even­to de grande impacto fora do Brasil que não ten­ha par­tic­i­pação de algum artista urbano brasileiro”, ressalta.

Nos andares do centro cultural

Dos artis­tas que inte­gram a mostra, 17 exe­cu­taram suas obras dire­ta­mente nas pare­des e out­ros suportes dos três andares do edifí­cio que foram reser­va­dos para a exposição.

Cada andar do Itaú Cul­tur­al se dedi­cou a um tema difer­ente desse uni­ver­so da arte de rua. No piso 1, por exem­p­lo, o públi­co vai encon­trar um recorte históri­co dessa arte.

Já no primeiro sub­so­lo (-1), o foco é a street art. Por fim, o segun­do sub­so­lo (-2) desta­ca a cul­tura hip hop. É nesse andar que, aos sába­dos, são feitas apre­sen­tações de break dance.

“Não queríamos uma exposição de painéis ape­nas, de murais. Queríamos traz­er um per­cur­so que pos­si­bil­i­tasse ao vis­i­tante ter essa exper­iên­cia históri­ca, enten­der um pouco sobre essa cul­tura, quais suas influên­cias e como está o cenário hoje”, expli­ca Juliano Fer­reira.

A exposição tem iní­cio no piso 1. Nesse andar o vis­i­tante é rece­bido com uma grande escul­tura col­ori­da de André Gon­za­ga Dala­ta. Depois, ele se depara com uma lin­ha do tem­po, que traça o tra­je­to da grafitagem, des­de os tem­pos das cav­er­nas até a chega­da ao Brasil. Neste piso, há artis­tas brasileiros com grande recon­hec­i­men­to inter­na­cional como o próprio curador da mostra, além de Kobra, OSGEMEOS e Kátia Suzue, con­sid­er­a­da uma das 10 mul­heres mais atu­antes da street art brasileira. Nesse andar há tam­bém obras do cal­i­for­ni­ano John Howard, que veio ao Brasil nos anos 70 e se tornou um pre­cur­sor do grafite no país.

“Para essa exposição, mon­tei uma história e um roteiro para ela. Busquei artis­tas que me aju­daram a con­tar essa história”, desta­ca o curador. “Acho que con­seguimos faz­er uma mostra bem abrangente de grafite e de arte de rua”, acres­cen­ta.

Neste primeiro piso, há tam­bém uma sala reser­va­da para abri­gar uma insta­lação de Wal­ter Nomu­ra, con­heci­do como Tin­ho. Para refle­tir sobre a tran­sição entre o grafite e a arte con­tem­porânea, a sala é com­pos­ta por espel­hos que sim­u­lam calei­doscó­pios e por grandes bichos de pelú­cia, que são lev­a­dos ao local pelo próprio públi­co — e que depois serão doa­d­os para insti­tu­ições.

“O Tin­ho tem um per­son­agem — um bich­in­ho de pelú­cia. Inclu­sive, há uma obra tátil que foi disponi­bi­liza­da para essa exposição. E quan­do ped­i­mos para ele esse boneco, por questões de aces­si­bil­i­dade, o tra­bal­ho dele já pre­via ess­es bichos de pelú­cia ali no espaço. Essa foi uma ideia do próprio artista de cole­tar essas doações para que depois fos­se fei­ta uma doação para uma insti­tu­ição. E as pes­soas estão trazen­do seus bich­in­hos”, rela­ta Fer­reira.

Os demais espaços são ded­i­ca­dos à street art e ao hip hop. “O piso‑1 traz uma pro­pos­ta mais urbana com refer­ên­cias de murais que estão em pré­dios”, acen­tua. “No andar sub­ter­râ­neo (-2) há um andar inteiro ded­i­ca­do ao grafite e ao hip hop. Tem um trem todo grafi­ta­do pro­duzi­do por um artista de Nova York, que par­ticipou dessa cena nos anos 70, no iní­cio da cul­tura do grafite”, acres­cen­ta Bin­ho.

Oficinas e acessibilidade

Em para­le­lo às obras, a exposição pro­move, tam­bém,  shows de hip hop, ofic­i­nas e out­ras ativi­dades educa­ti­vas. Em maio, as ofic­i­nas são dire­cionadas para o break dance, modal­i­dade que vai fig­u­rar pela primeira vez em uma Olimpía­da: em Paris, em 2024. Já em jun­ho, as ofic­i­nas se ocu­parão das rimas.

São Paulo (SP), 24/05/2023 - Exposição Além das ruas: histórias do graffiti, com curadoria de Binho Ribeiro, no Itaú Cultural da Avenida Paulista. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: Mostra é rica em traços e cores      Foto — Rove­na Rosa/Agência Brasil

“A ideia era ter uma pista de dança para que as pes­soas se apro­pri­assem do espaço”, asse­gurou Fer­reira. “Chamamos o cole­ti­vo Matéria Rima, que já tem esse tra­bal­ho nas per­ife­rias de São Paulo, para apre­sen­tar essas ações de grafite, de slam [batal­ha de rimas ou de poe­sias], de rima, de dança e de dis­cotecagem”, desta­ca Fer­reira.

O Núcleo de For­mação do Itaú Cul­tur­al tam­bém preparou uma pro­gra­mação espe­cial que pre­vê des­de pas­seios pela Aveni­da Paulista até a con­strução de um painel colab­o­ra­ti­vo a ser com­pos­to por cri­ações do públi­co.

Um dos destaques da mostra é que ela con­ta com recur­sos de aces­si­bil­i­dade. Há 11 obras táteis, além de piso, vídeogu­ias com inter­pre­tação em libras e audiode­scrição em todos os andares. “Nes­sa exposição, além da visi­ta das obras, tem tam­bém algu­mas insta­lações inter­a­ti­vas. Há diver­sas obras que são tam­bém acessíveis. Tem tam­bém uma parte de tec­nolo­gia e de real­i­dade aumen­ta­da”, final­iza Bin­ho.

Mais infor­mações sobre a exposição, que é gra­tui­ta, podem ser obti­das no site da insti­tu­ição.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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