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Dia da Consciência Negra no Rio marca incentivo à “economia preta”

Cortejo ao redor do monumento de Zumbi mistura batuques e dança

Bruno de Fre­itas Moura — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 20/11/2025 — 16:37
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – Cortejo da Tia Ciata em comemoração do Dia da Consciência Negra percorre ruas do centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

No meio da Aveni­da Pres­i­dente Var­gas, uma das prin­ci­pais do cen­tro do Rio de Janeiro, o mon­u­men­to em hom­e­nagem ao líder negro Zumbi dos Pal­mares aman­heceu nes­ta quin­ta-feira (20) cer­ca­do de man­i­fes­tações pop­u­lares, como músi­ca e dança. O local é um dos pon­tos mais tradi­cionais da cel­e­bração do Dia da Con­sciên­cia Negra.

Em meio às atrações e dis­cur­sos de ativis­tas e per­son­al­i­dades do movi­men­to negro, um enorme buf­fet ven­dia pratos da culinária afro-brasileira. O pon­to de ven­da era uma expressão do que a empreende­do­ra Car­ol Paixão chama de “econo­mia pre­ta”.

O con­ceito, tam­bém con­heci­do como black mon­ey (em inglês, din­heiro negro), con­siste em um movi­men­to socioe­conômi­co de faz­er o cap­i­tal girar den­tro da comu­nidade negra.

“É uma econo­mia que bebe da africanidade”, diz a empreende­do­ra à Agên­cia Brasil.

“A gente está falan­do de uma econo­mia que visa à pop­u­lação pre­ta, que visa empre­gar mais pes­soas pre­tas”, com­ple­ta ela, em meio a pratos da África do Sul e Moçam­bique, além da fei­joa­da brasileira.

Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – Cortejo da Tia Ciata em comemoração do Dia da Consciência Negra percorre ruas do centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Man­i­fes­tações pop­u­lares no cen­tro do Rio de Janeiro no Dia da Con­sciên­cia Negra. Na foto, Corte­jo da Tia Cia­ta — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Car­ol é respon­sáv­el pelo Império Kush, esta­b­elec­i­men­to no cen­tro do Rio. O nome é refer­ên­cia a um anti­go império africano. Ela expli­ca que o con­ceito de black mon­ey tam­bém se estende à relação com out­ros empreendi­men­tos.

“Quan­do a gente fecha parce­ria de prestação de serviço, a gente tam­bém visa que sejam todos pre­tos”, enfa­ti­za.

De acor­do com o Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE), pes­soas pre­tas e par­das viven­ci­am mais o desem­prego do que as bran­cas, além de rece­berem salários menores e tra­bal­harem mais na infor­mal­i­dade.

Veja a galeria de fotos:

Reparação

À frente do bus­to gigante de Zumbi, o pres­i­dente do Con­sel­ho Estad­ual dos Dire­itos do Negro (Cedine), Luiz Eduar­do Oliveira, o Negro­gun, apon­ta que a pre­sença, ano após ano, no mon­u­men­to no dia do feri­ado é um sinal de per­sistên­cia.

“Nós temos que ter reparação já”, declar­ou à Agên­cia Brasil, em refer­ên­cia aos danos cau­sa­dos por mais de 300 anos de escravidão negra no país.

O Cedine é uma instân­cia que reúne rep­re­sen­tantes do gov­er­no estad­ual e ativis­tas, como Negro­gun.

Quilombolas

Zumbi lid­er­ou a resistên­cia con­tra a escravidão em um con­jun­to de quilom­bos que exis­tiu por cer­ca de um sécu­lo – onde hoje é a cidade alagoana de União dos Pal­mares. Ele foi mor­to em 1695.

» 20 de novem­bro: sai­ba a origem da data e quem foi Zumbi dos Pal­mares

Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – A presidente da Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), Bia Nunes fala durante ato do Dia da Consciência Negra no Monumento a Zumbi dos Palmares, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Negro­gun, Bia Nunes e Rose Cipri­ano par­tic­i­pam de ato no Dia da Con­sciên­cia Negra no mon­u­men­to a Zumbi — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Neces­si­dade de reparação é vocab­ulário pre­sente nas comu­nidades quilom­bo­las. De acor­do com o Cen­so do IBGE, em 2022, havia no Brasil 1,3 mil­hão de quilom­bo­las, cor­re­spon­den­do a 0,65% da pop­u­lação. Oito em cada dez vivem com sanea­men­to bási­co precário.

A pres­i­dente da Asso­ci­ação Estad­ual das Comu­nidades Quilom­bo­las do Esta­do do Rio de Janeiro (Acquil­erj), Bia Nunes, enfa­ti­zou a pressão exer­ci­da por descen­dentes de habi­tantes dos quilom­bos.

“As comu­nidades quilom­bo­las são refer­ên­cia de resistên­cia den­tro desse país. São home­ns e mul­heres que vêm, des­de a sua ger­ação, da sua ances­tral­i­dade, resistin­do den­tro dos seus ter­ritórios, mor­ren­do pelo ter­ritório, mas sus­ten­tan­do e os pro­te­gen­do”, disse Bia Nunes à Agên­cia Brasil.

“Se não fos­se a pop­u­lação orig­inária e a pop­u­lação quilom­bo­la, nós não teríamos a bio­di­ver­si­dade que temos nesse país. É isso que rep­re­sen­tam os ter­ritórios quilom­bo­las no Brasil”, com­ple­tou a líder que rep­re­sen­ta 54 comu­nidades quilom­bo­las flu­mi­nens­es.

Favelismo

O escritor, filó­so­fo e ativista Gê Coel­ho vê semel­hança entre a resistên­cia dos quilom­bos, no tem­po da escravidão, e as atu­ais fave­las.

“As fave­las, na ver­dade, são uma luta con­tra a opressão do Esta­do às pes­soas mais pobres, mais humildes, mais per­iféri­c­as”, afir­mou ele, que lançou este ano o livro Favelis­mo: A rev­olução que vem das fave­las.

Ele con­tex­tu­al­iza que o mon­u­men­to de Zumbi fica a cer­ca de 600 met­ros do Mor­ro da Providên­cia, con­sid­er­a­da a primeira favela do Brasil, surgi­da no final do sécu­lo 19, para abri­gar sol­da­dos que com­bat­er­am na Guer­ra de Canudos (1896–1897), na Bahia.

Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – O escritor Geraldo Coelho lança seu livro Favelismo, a revolução que vem das favelas durante ato do Dia da Consciência Negra no Monumento a Zumbi dos Palmares, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Reproução: Escritor Ger­al­do Coel­ho, autor do livro Favelis­mo, a rev­olução que vem das fave­las — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Gê Coel­ho con­sid­era que atual­mente a resistên­cia acon­tece por meio de “dis­putas no cam­po das ideias”. Ele defende que sejam cri­adas uni­ver­si­dades den­tro de fave­las brasileiras.

“A maio­r­ia das pes­soas que vão falar sobre nós vão con­tar uma história que não é a nos­sa história, que não é a nos­sa real­i­dade”, crit­i­ca.

“A gente pre­cisa ter uma uni­ver­si­dade, não é con­tan­do a história a par­tir deles, e sim a par­tir de nós, do nos­so con­hec­i­men­to”, acres­cen­ta.

De acor­do com o IBGE, pre­tos e par­dos são 55,5% da pop­u­lação do país, no entan­to for­mam 72,9% dos moradores de fave­las.

Luta de todos

No even­to, que tam­bém teve ação social como cam­pan­ha de vaci­nação, o dep­uta­do fed­er­al Rei­mont (PT-MG), pres­i­dente da Comis­são de Dire­itos Humanos, Mino­rias e Igual­dade Racial da Câmara dos Dep­uta­dos, defend­eu que “a luta do negro não é só do negro”.

“É claro que o negro tem o espaço de fala do racis­mo que sofre, mas nós, os bran­cos, que com­preen­demos que essa ter­ra é de todo mun­do, temos que ser solidários na luta e colo­car­mo-nos à dis­posição para faz­er essa luta, para que a humanidade acon­teça”, disse à Agên­cia Brasil.

Convite à marcha

O dia de cel­e­bração e cobrança tam­bém serviu para a coor­de­nado­ra do Comitê Estad­ual da Segun­da Mar­cha Nacional das Mul­heres Negra, Rose Cipri­ano, faz­er um con­vite para a man­i­fes­tação pop­u­lar que será real­iza­da, em Brasília, na próx­i­ma terça-feira (25).

“A gente sabe que até hoje a pop­u­lação negra sofre os impactos do racis­mo, as mul­heres em espe­cial. A gente sabe dos índices de vio­lên­cia, da pou­ca rep­re­sen­ta­tivi­dade e que hoje, sécu­lo 21, a gente ain­da está chegan­do pela primeira vez a alguns lugares”, con­sta­tou a coor­de­nado­ra.

“Angela Davis [ativista negra amer­i­cana] já diz, ‘mul­heres negras movi­men­tam a estru­tu­ra da sociedade’, é por isso que vamos para a mar­cha por reparação e bem-viv­er”, incen­ti­va.

A primeira edição do movi­men­to ocor­reu em 2015, tam­bém na cap­i­tal fed­er­al. São esper­adas 1 mil­hão de pes­soas na próx­i­ma sem­ana.

Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – Cortejo da Tia Ciata em comemoração do Dia da Consciência Negra percorre ruas do centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Corte­jo da Tia Cia­ta per­corre ruas do cen­tro do Rio de Janeiro — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Cortejo Tia Ciata

As ruas que cer­cam o mon­u­men­to de Zumbi foram espaço de apre­sen­tação do corte­jo de Tia Cia­ta (1854–1924), negra baiana con­sid­er­a­da a matri­ar­ca do sam­ba.

Mil­hares de pes­soas ─ de baianas car­navalescas a cri­anças de esco­las de sam­ba – for­mavam a man­i­fes­tação cul­tur­al reple­ta de refer­ên­cia à cul­tura afrode­scen­dente e mis­tu­ra de batuques, como sam­ba, mara­catu, afoxé e bate­ria de esco­la de sam­ba. O prefeito do Rio, Eduar­do Paes, acom­pan­hou a cel­e­bração.

Brasil — Angola

O côn­sul-ger­al de Ango­la no Rio de Janeiro, Mateus de Sá Miran­da Neto, deu tom inter­na­cional à cel­e­bração, lem­bran­do que o mês de novem­bro tam­bém é rep­re­sen­ta­ti­vo para Ango­la, nação africana origem de negros escrav­iza­dos que vier­am para o Brasil.

“Novem­bro para nós é um mês muito impor­tante. É o mês que resul­tou a grande luta que tive­mos de travar con­tra o colo­nial­is­mo, luta que nos con­duz­iu ao 11 de novem­bro de 1975, a nos­sa inde­pendên­cia”.

Assim como o Brasil, Ango­la foi col­o­niza­da por Por­tu­gal.

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