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Dia da empregada doméstica: elas protestam também com poesia

Repro­dução: © Acer­vo pes­soal

Na internet ou no caderninho, arte rima com consciência


Pub­li­ca­do em 27/04/2023 — 08:02 Por Luiz Clau­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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No cader­no de Isaura, cabe o mun­do. Lá estão as casas em que tra­bal­hou, os cam­in­hos de fuga, os son­hos des­feitos, as esper­anças empil­hadas, os cômo­d­os desar­ru­ma­dos, as letras que se arru­maram, jun­to com a vida. De todos os espaços a serem limpos, se encan­tou mes­mo, em uma das casas em que tra­bal­hou, por um dos espaços, o da bib­liote­ca. Lá desco­briu, ao fol­hear os livros, que ela tam­bém, empre­ga­da domés­ti­ca, pode­ria expres­sar as angús­tias. A cuia­bana Isaura Bene­v­ides, hoje aos 40 anos, morado­ra de Goiâ­nia (GO), não pára de escr­ev­er.

“Eu sou Isaura, empre­ga­da fiel/

Des­de peque­na, fui ensi­na­da assim/

Min­ha mãe me guiou com seu papel/

Uma Casa Grande foi o que eu vi, onde o dono sem­pre tin­ha razão/

O salário, que pare­cia ilusão, era pos­to sem mui­ta consideração/

Mas hoje eu quero mais do que isso.

Quero ser dona do meu próprio chão, mostrar que a empre­ga­da domés­ti­ca tem dire­ito à sua própria ver­são”

Há mais de uma déca­da, os tex­tos pas­saram a cor­rer fácil, em ver­sos ou algo assim. “Eu nem sei o que é isso, se poe­sia ou out­ra coisa qual­quer. Não ten­ho estu­do para explicar o que faço. Ten­ho von­tade e escre­vo”. Tan­ta von­tade que, “nos últi­mos anos”, já lotou de tex­tos um cader­no de 80 pági­nas. Os ver­sos ain­da não vão para as redes soci­ais. Gos­ta mes­mo de ler para as cole­gas de tra­bal­ho. “Elas gostam. Como viram que eu gos­to de escr­ev­er sobre nos­sa vida de empre­ga­da, elas me procu­ram para saber dos nos­sos dire­itos”. Empoder­a­da pelas palavras, não acei­ta que patrões ven­ham diz­er que ela é trata­da como “se fos­se da família”.

Essa história começou na infân­cia, quan­do mora­va com a família na área rur­al de Cuiabá. Acom­pan­ha­va a mãe nas fax­i­nas e aju­da­va a cuidar das cri­anças das casas. Era difí­cil tem­po para estu­dar. Em bus­ca de opor­tu­nidades, a família foi morar em Camp­inas. Casou na ado­lescên­cia. Com 20 anos, já tin­ha três fil­hos. “A min­ha infân­cia e ado­lescên­cia foi de babá, diarista, limpar, lavar”. No inte­ri­or paulista, viu-se em um pesade­lo de mari­do agres­sor. Fugiu com as cri­anças e refez a vida. Mas sem deixar o serviço domés­ti­co.

Eu nun­ca tive medo do bicho-papão. Tin­ha medo era do patrão.
Ver min­ha mãe/ Me dá um pedaço de pão daque­le casarão

Isaura Bene­v­ides

Quan­do desco­briu que pode­ria escr­ev­er, em uma das casas, tran­ca­va-se no ban­heiro para escr­ev­er livre­mente. Uma das patroas jogou tudo fora quan­do viu aque­las palavras de protesto. Teve que encher out­ros cader­nos. “Não sou uma Clarice Lispec­tor, nem Car­los. Eu sou uma Isaura. Eu escre­vo erra­do e é dessa maneira que vou escr­ev­er. Um dia pre­tendo apren­der mel­hor… estu­dar, escr­ev­er um livro”. Na relação de livros que recebe de ami­gos e de anti­gas patroas, tem de tudo e lê de tudo: romance, ação e poe­sia. “Gos­to de história”.

Nos tex­tos, estão os desabafos con­tra a sociedade racista e elit­ista. “Colo­co quan­do as patroas me ofend­er­am. Mas tam­bém gos­to muito de con­to de fadas — o meu preferi­do é Alice no País das Mar­avil­has — e de tudo o que a per­son­agem pas­sa”. Tem as próprias histórias e das cole­gas: os rig­ores com os tal­heres na mesa, com a comi­da que não podem com­er, com o ban­heiro que não podem usar. Hoje, garante que a patroa a estim­u­la a escr­ev­er. Nas palavras, os dire­itos. “No par­quin­ho do con­domínio, out­ras empre­gadas me procu­ram para saber mais do mun­do”.

Imagem da página “Eu, Empregada Doméstica”, no Facebook
Imagem da pági­na “Eu, Empre­ga­da Domés­ti­ca”, no Face­book — Repro­dução Face­book

Evolução

Os dire­itos e a pro­teção cresce­r­am há dez anos com a aprovação da PEC das Domés­ti­casem abril de 2013, que foi reg­u­la­men­ta­da em jun­ho de 2015. “A empre­ga­da pas­sou a ter fun­do de garan­tia, auxílio desem­prego, hora extra, salário família. São quase todos os dire­itos, com exceção do abono do PIS (bene­fí­cio anu­al para tra­bal­hadores) que recebem em média até dois salários mín­i­mos de remu­ner­ação men­sal de empre­gadores con­tribuintes do PIS ou do Pasep)”, afir­ma o pres­i­dente do Insti­tu­to Domés­ti­ca Legal, Mário Aveli­no. A orga­ni­za­ção não gov­er­na­men­tal atua com cam­pan­has para mel­ho­rar as condições de tra­bal­ho da cat­e­go­ria.

Aveli­no entende que o avanço das leis não tem relação com a que­da de vagas de empre­gadas domés­ti­cas com reg­istro em carteira. A pro­teção não é a vilã da história. “Esti­ma-se 1,5 mil­hão de domés­ti­cos com carteira assi­na­da. E mais de 6 mil­hões de tra­bal­hado­ras na infor­mal­i­dade”. Para ele, tra­ta-se de uma ativi­dade ocu­pa­da em mais de 93% por mul­heres, e em mais de 70% por pes­soas negras.

Segun­do Aveli­no, o prob­le­ma tem mais relação com a con­jun­tu­ra econômi­ca e as difi­cul­dades pelas quais pas­sam os empre­gadores, como as famílias de classe média. Prob­le­mas que se agravaram nos tem­pos de pan­demia. Com o fim dos piores dias da covid-19, Aveli­no entende que a sociedade e os gov­er­nos devem aju­dar no esclarec­i­men­to de quem tra­bal­ha no serviço domés­ti­co e dos empre­gadores sobre a segu­rança que rep­re­sen­ta a pro­teção social.

Aveli­no defende que abu­sos e assé­dios sejam denun­ci­a­dos nas del­e­ga­cias region­ais do Tra­bal­ho diante das “demon­strações diárias de uma sociedade ain­da com olhar escrav­ocra­ta”. “Acho muito impor­tante que as tra­bal­hado­ras se man­i­festem. A poe­sia, como você citou, é um cam­in­ho para o qual bato pal­mas”.

Sobre a data, Dia da Empre­ga­da Domés­ti­ca, nes­ta quin­ta (27), ele entende que se tor­na impor­tante para garan­tir vis­i­bil­i­dade a uma cat­e­go­ria que não tem pri­or­i­dade na estru­tu­ra social dos dire­itos das profis­sões.

Arte que rima

Quem pas­sou a se acos­tu­mar com as pal­mas foi a ex-empre­ga­da domés­ti­ca Joyce Fer­nan­des, de 37 anos, que atende pelo nome artís­ti­co de “Pre­ta Rara”. Ela atu­ou por sete anos nesse tipo de serviço na cidade de San­tos (SP), onde nasceu. Desco­briu a poe­sia enquan­to tra­bal­ha­va. Hoje, a escrito­ra e rap­per denun­cia que o quar­t­in­ho da empre­ga­da é a mod­er­na sen­za­la.

Dia da Empregada Doméstica -
Repro­dução: Dia da Empre­ga­da Domés­ti­ca — “Pre­ta Rara” mora em Sal­vador (BA). Foto: Divul­gação

“Esse é um tra­bal­ho que dev­e­ria ser como qual­quer out­ro. Porém, aqui no Brasil nem é respeita­do. As relações não são human­izadas. Com a pan­demia, muitas tra­bal­hado­ras domés­ti­cas acabaram viran­do diaris­tas”. A poet­i­sa vê que esse tipo de tra­bal­ho é enraiza­do no perío­do colo­nial. “Na pan­demia, foram descober­tos diver­sos casos de tra­bal­ho anál­o­go à escravidão. Não dá mais para a gente chamar de anál­o­go, né?”.

Quan­do Pre­ta Rara começou a escr­ev­er ver­sos e até músi­cas, há mais de 15 anos, a ideia era sen­si­bi­lizar quem pas­sa­va a mes­ma situ­ação que ela. “Eu escrevia coisas que pen­sa­va e questões reais, e isso fez com que as pes­soas se iden­ti­fi­cas­sem com o que eu esta­va pas­san­do”.

Além das letras, Pre­ta Rara criou pági­nas em redes soci­ais “Eu, empre­ga­da domés­ti­ca”, para rece­ber denún­cias de abu­sos. Os relatos der­am origem tam­bém a um livro com o mes­mo nome. “Quan­do criei a pági­na, eu esta­va acos­tu­ma­da a ouvir histórias de jor­nadas muito duras. A maio­r­ia dos lugares não tem uma relação human­iza­da”. O incon­formis­mo diante dos abu­sos saiu do silên­cio e virou poe­sia. A arte que ela encon­trou faz lem­brar o pas­sa­do ain­da tão pre­sente. Escreveu há mais de dez anos. “Se fos­se por opção, tudo bem/ Ten­ho várias amigas/ Que já se conformaram/ Mas, eu não!”

Edição: Graça Adju­to

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