...
sexta-feira ,16 janeiro 2026
Home / Espaço / Entre microscópios e telescópios, brasileira descobre 25 asteroides

Entre microscópios e telescópios, brasileira descobre 25 asteroides

Repro­dução: © Neila Rocha (ASCOM/SEAPC/MCTI)

Um deles é considerado raro por sua rota diferenciada


Pub­li­ca­do em 22/01/2022 — 10:15 Por Pedro Peduzzi — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

É entre microscó­pios e telescó­pios que a estu­dante de med­i­c­i­na Ver­e­na Pac­co­la Menezes, de 22 anos, pas­sa boa parte de seu tem­po. Se, por um lado, o primeiro instru­men­to a aju­da nos cam­in­hos que tril­ha para se tornar uma neu­ro­cirurgiã, é pelo telescó­pio que ela ante­viu uma out­ra pos­si­bil­i­dade: a med­i­c­i­na espa­cial, paixão que surgiu após, nos momen­tos de hob­by, ter descober­to 25 aster­oides. Um deles, clas­si­fi­ca­do como raro pela órbi­ta difer­en­ci­a­da que poderá colocá-lo na direção da Ter­ra.

Nos momen­tos livres, Ver­e­na é uma “caçado­ra de aster­oides”. Mas a ver­dade é que ela, des­de cri­ança, sem­pre se con­sider­ou uma cien­tista.

“A ciên­cia sem­pre esteve pre­sente na min­ha vida. Nem lem­bro quan­do come­cei a me inter­es­sar. Brin­co que já nasci cien­tista porque, para mim, faz­er ciên­cia e ser cien­tista é faz­er per­gun­tas, ques­tionar o mun­do e ir atrás das respostas por con­ta própria, sem se con­tentar com o super­fi­cial. Sem­pre vivi dessa for­ma. Sem­pre fui uma cri­ança muito curiosa para desco­brir o mun­do”, disse a estu­dante de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), que é tam­bém téc­ni­ca de Enfer­magem.

Brinquedo na escola

Ver­e­na gan­hou o primeiro microscó­pio quan­do tin­ha ape­nas 4 anos de idade. “Eu o lev­a­va como brin­que­do para a esco­la, enquan­to min­has ami­gas lev­avam bonecas e jogos”, lem­bra. O telescó­pio veio um pouco depois, aos 8 anos. “Ten­ho ele até hoje no meu quar­to prin­ci­pal­mente para olhar a Lua”, disse a estu­dante, que há dois anos cur­sa a fac­ul­dade da USP em Ribeirão Pre­to, onde faz pesquisas sobre Alzheimer.

“Microscó­pio e telescó­pio rep­re­sen­tam coisas difer­entes na min­ha vida. O microscó­pio é mais volta­do para min­ha profis­são porque envolve o que quero tra­bal­har, que é a med­i­c­i­na e a área acadêmi­ca. O telescó­pio é mais um hob­by, dev­i­do à min­ha curiosi­dade – o que abrange tam­bém céu e espaço. Sem­pre tive curiosi­dade para saber o que existe para além do que a gente pode ver. Amo os dois instru­men­tos”, resume ela à Agên­cia Brasil.

O cur­so téc­ni­co de enfer­magem foi feito durante o ensi­no médio, na Uni­camp entre 2015 e 2017. Foi ali que ela começou a viv­er o ambi­ente hos­pi­ta­lar de for­ma mais profis­sion­al para, em segui­da, já for­ma­da e no Hos­pi­tal Albert Ein­stein (SP), faz­er pesquisas na área de neu­ro­ciên­cia com­puta­cional para cri­anças do espec­tro autista.

Em 2019, rep­re­sen­tou o Brasil na Assem­bleia da Juven­tude nas Nações Unidas (ONU) e se mudou para o Canadá, onde ini­ciou grad­u­ação em neu­ro­ciên­cia. “Só que sem­pre son­hei em faz­er med­i­c­i­na na USP, o que acabou voltan­do aos meus planos após ter de retornar ao Brasil porque, em ter­mos finan­ceiros, esta­va inviáv­el con­tin­uar no Canadá”.

Recomeço

O prob­le­ma é que a jovem, que já era uma pesquisado­ra, teve de começar tudo de novo, para entrar na USP. “Fazia muito tem­po que eu tin­ha feito o cur­so médio, e já não lem­bra­va bem do con­teú­do. Tive de reapren­der tudo do zero. Não foi uma fase legal, depois de faz­er tan­ta pesquisa, voltar a estu­dar as matérias do ensi­no médio. Vivi mui­ta pressão”.

E foi exata­mente a angús­tia de não praticar ciên­cia que a fez avançar em uma out­ra paixão: a astrono­mia. “Eu pre­cisa­va de algo cien­tí­fi­co para me estim­u­lar. Foi quan­do me deparei, em um grupo de what­sapp, com essa opor­tu­nidade de apren­der a caçar aster­oide”.

Ela fez então todo um treina­men­to que a capac­i­tou para o novo hob­by. “Gostei muito dis­so. Depois de capac­i­ta­da, come­cei a usar o soft­ware que eles usam para caçar aster­oides. Eu rece­bia ima­gens tiradas por um telescó­pio do Havaí. Cada pacote de ima­gens feitas pelo telescó­pio era com­pos­to de qua­tro ima­gens tiradas com difer­ença de segun­dos. Eu pega­va esse pacote de ima­gens e o joga­va no soft­ware que as pis­ca­va seguida­mente, em ordem. Como elas tin­ham difer­ença de tem­po, dava para perce­ber se algu­ma coisa se movia no espaço”.

Quan­do Ver­e­na encon­tra­va algum pon­tin­ho se movi­men­tan­do, fazia a análise numéri­ca do obje­to para ver se ele se encaix­a­va nos padrões de um aster­oide. Caso o resul­ta­do fos­se pos­i­ti­vo, ela ger­a­va um relatório e o envi­a­va para o cen­tro inter­na­cional que estu­da isso em Har­vard (EUA).

Foi dessa for­ma que ela desco­briu nada menos que 25 novos aster­oides. Diante do feito, foi con­vi­da­da, em dezem­bro do ano pas­sa­do, a rece­ber uma medal­ha de ordem ao méri­to, dada pelo Min­istério da Ciên­cia, Tec­nolo­gia e Ino­vações, em Brasília, durante a Sem­ana Nacional de Ciên­cia e Tec­nolo­gia.

Repro­dução:  Ver­e­na Pac­co­la recebe medal­ha de ordem ao méri­to do MCTI– Neila Rocha (ASCOM/SEAPC/MCTI)

Asteroide raro

“Acabei receben­do mais que uma medal­ha. Quan­do achei que a pre­mi­ação tin­ha acaba­do, me chama­ram nova­mente ao pal­co para rece­ber um troféu. Foi ali que me con­taram que eu havia descober­to um aster­oide impor­tante e raro, que segue uma órbi­ta difer­ente em torno do Sol”.

Nor­mal­mente os aster­oides do Sis­tema Solar estão local­iza­dos entre Marte e Júpiter, onde fica o chama­do Cin­turão Prin­ci­pal. Um dos aster­oides descober­tos por Ver­e­na seguia uma órbi­ta difer­ente da dos demais, o que aumen­ta as pos­si­bil­i­dades de sua rota coin­cidir com a do plan­e­ta Ter­ra.

“Ago­ra a gente tem de ver para onde ele está indo, de for­ma a pre­v­er pos­síveis impactos com a Ter­ra. Não sei se isso vai acon­te­cer. A pos­si­bil­i­dade existe, mas se a gente olhar para as dimen­sões do Uni­ver­so, vemos que a prob­a­bil­i­dade é muito peque­na”, diz ela, esper­ançosa de que sua descober­ta não seja algo apoc­alíp­ti­co semel­hante à história con­ta­da no filme Não Olhe para o Cima, na qual uma pesquisado­ra desco­bre um cometa com rota em direção a Ter­ra, que dará fim à vida no plan­e­ta.

“Fiquei choca­da com esse filme. Ele é muito bom até do pon­to de vista cien­tí­fi­co. É tam­bém o retra­to da sociedade e da mul­her na ciên­cia. Claro que me iden­ti­fiquei muito com a per­son­agem por tam­bém ser uma mul­her na ciên­cia. E, na ciên­cia, as mul­heres, além de não serem ouvi­das, vivem em um con­tex­to no qual é o homem quem leva a maio­r­ia dos crédi­tos. No filme, ela inclu­sive foi tacha­da de lou­ca”.

Na avali­ação da estu­dante caçado­ra de aster­oides, o filme vai além, abor­dan­do a humanidade atu­al como um todo. “Fala muito sobre essa onda nega­cionista que vive­mos no Brasil. Dá para rela­cionar a muitos assun­tos, além de um cometa ou um aster­oide. É tam­bém uma metá­fo­ra para a questão do aque­c­i­men­to glob­al, que os cien­tis­tas tan­to falam que está acon­te­cen­do e que ninguém ouve. Mostra tam­bém o peso da econo­mia em decisões”, argu­men­ta.

Futuro

As opor­tu­nidades aber­tas pela astrono­mia à estu­dante de med­i­c­i­na estão fazendo‑a repen­sar os planos para o futuro. “Ten­ho certeza de que realizarei o son­ho de me for­mar em med­i­c­i­na. Estou no segun­do ano do cur­so e tudo segue para que eu faça residên­cia em neu­ro­cirur­gia”, diz a caçado­ra de aster­oides. “Só que ago­ra eu ten­ho uma pul­ga atrás da orel­ha”, acres­cen­tou.

Essa “pul­ga” foi colo­ca­da pelo pres­i­dente da Agên­cia Espa­cial Brasileira, Car­los Moura. “Depois da pre­mi­ação em Brasília, vis­itei a agên­cia. Lá, ele me falou sobre med­i­c­i­na espa­cial, que até então eu não con­hecia porque não é uma área muito divul­ga­da aqui no Brasil como espe­cial­iza­ção”.

O assun­to des­per­tou o inter­esse de Ver­e­na. “Come­cei então a pesquis­ar e vi que tem médi­cos que estão no espaço ago­ra, fazen­do pesquisas em gravi­dade zero para ver como deter­mi­na­dos teci­dos se desen­volvem; como algu­mas célu­las se mul­ti­pli­cam. É muito legal. E tem médi­cos desen­vol­ven­do tec­nolo­gias para as pes­soas irem ao espaço. É uma área muito grande que eu nem imag­i­na­va exi­s­tir. Ago­ra, é uma nova área para explo­rar e con­sid­er­ar para o meu futuro. Mas vamos ver”.

“Por enquan­to, vou con­tin­uar caçan­do aster­oides e, se tudo der cer­to, ser tam­bém treinado­ra de caçadores de aster­oides para que out­ras pes­soas façam o mes­mo e formem­os equipes. Plane­jo faz­er isso pelo meu Insta­gram”, com­ple­tou.

Edição: Aline Leal

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

RJ: 47% das ações foram medidas protetivas para mulheres no fim do ano

Em 2024, país teve quase 20% de descumprimento das medidas Dou­glas Cor­rêa — Repórter da …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d