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Exposição promove diálogo entre Clarice Lispector e artistas plásticas

Repro­dução: © Acer­vo Literário de Eri­co Verissimo/Instituto Mor­eira Salles.

Obras abrangem as décadas de 40 e 70


Pub­li­ca­do em 21/05/2022 — 11:17 Por Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

O Insti­tu­to Mor­eira Salles do Rio de Janeiro (IMS Rio) inau­gu­ra hoje (21) a exposição Con­ste­lação Clarice, que pro­move um diál­o­go entre a pro­dução literária de Clarice Lispec­tor e obras de 26 artis­tas plás­ti­cas que atu­aram entre as décadas de 1940 e 1970 e foram con­tem­porâneas da escrito­ra.

Nasci­da na Ucrâ­nia em 1920, Clarice viveu no Brasil até sua morte, em 1977. Com entra­da gra­tui­ta, a mostra já pas­sou pelo IMS de São Paulo e tem curado­ria do poeta Eucanaã Fer­raz, con­sul­tor de lit­er­atu­ra do IMS, e da escrito­ra e críti­ca de arte Veron­i­ca Stig­ger. O IMS Rio fica na Rua Mar­quês de São Vicente, 476, Gávea, zona sul.

A exposição reúne cer­ca de 300 itens, incluin­do man­u­scritos, fotografias, car­tas, dis­cos e matérias de impren­sa, entre out­ros doc­u­men­tos do acer­vo pes­soal da auto­ra. No con­jun­to, há tra­bal­hos de Maria Mar­tins, Mira Schen­del, Fay­ga Ostrow­er, Lygia Clark, Letí­cia Par­ente, Djani­ra e Celei­da Tostes, entre out­ras. O públi­co poderá con­hecer 18 pin­turas de auto­ria da própria escrito­ra, pro­duzi­das entre 1975 e 1976, sem pre­ten­são profis­sion­al. Nos quadros, é pos­sív­el iden­ti­ficar recor­rên­cias, como o trata­men­to ges­tu­al e a predileção pela cir­cu­lar­i­dade, um traço definido como per­ten­cente ao sexo fem­i­ni­no.

Eucanaã Fer­raz deixou claro que não se tra­ta de uma exposição sobre a biografia de Clarice, mas que pas­sa por den­tro da obra da escrito­ra e sobre os temas de seus livros, com ênfase em suas crôni­cas, emb­o­ra ela própria não se con­sid­erasse uma cro­nista.

Nome fun­da­men­tal da lit­er­atu­ra brasileira, a auto­ra nutria grande inter­esse pelas artes visuais, expres­so tan­to em sua incursão pela pin­tu­ra, na déca­da de 1970, quan­to pela pre­sença de per­son­agens artis­tas em seus livros.

Diante dessa prox­im­i­dade, os curadores procu­raram iden­ti­ficar quais conexões seri­am pos­síveis de ser esta­b­ele­ci­das entre a pro­dução tex­tu­al de Clarice e as obras de mul­heres que mar­caram a história da arte brasileira no mes­mo perío­do para rev­e­lar como seus mod­os de cri­ação estão rela­ciona­dos.

Constelação

Com esse obje­ti­vo, a curado­ria ado­tou o con­ceito de con­ste­lação, que está pre­sente tan­to no títu­lo, como na expografia da mostra. Os tra­bal­hos são apre­sen­ta­dos em 11 núcleos, mesclan­do vários suportes, como escul­tura, pin­tu­ra, desen­ho, fotografia e vídeo. As obras das artis­tas estão sem­pre em diál­o­go com tre­chos de tex­tos de Clarice, for­man­do uma teia de novos sig­nifi­ca­dos, como indicam os curadores Fer­raz e Stig­ger: “Por meio da aprox­i­mação prop­i­ci­a­da por Clarice, gan­ha lugar uma com­preen­são ren­o­va­da e mais com­plexa daque­le momen­to da arte brasileira. Por out­ro lado, a par­tir dessa con­ste­lação entre os tra­bal­hos plás­ti­cos e a escri­ta, tam­bém a lit­er­atu­ra de Clarice aparece sob nova ópti­ca”, expli­cam.

A exposição ficará em car­taz até 9 de out­ubro. Não é pre­ciso agen­da­men­to prévio. As vis­i­tas podem ser real­izadas de terça a sex­ta-feira, das 12h às 18h. Aos sába­dos, domin­gos e feri­ados (exce­to às segun­das), o fun­ciona­men­to se estende das 10h às 18h. É recomen­da­do o uso de más­cara no inte­ri­or do cen­tro cul­tur­al.

O acer­vo de Clarice Lispec­tor está sob a guar­da do IMS des­de 2004, sendo for­ma­do por uma bib­liote­ca com cer­ca de mil itens, entre livros e per­iódi­cos, e um arqui­vo com doc­u­men­tos, entre os quais man­u­scritos com ver­sões inacabadas dos romances A hora da estrela e Um sopro de vida, cor­re­spondên­cias, fotos e um cader­no de notas, entre out­ros itens. Tam­bém fazem parte do acer­vo do IMS diver­sos títu­los da auto­ra traduzi­dos em mais de dez idiomas.

Destaques

Um destaque é a seção “Tudo no mun­do começou com um sim”, uti­lizan­do frase do romance A hora da estrela (1977) e abor­dan­do o tema da origem, que é recor­rente na obra da auto­ra, traduzi­do por ima­gens como a do ovo e da cav­er­na. Nesse núcleo, há obras de Maria Polo, Anna Maria Maioli­no, Celei­da Tostes e Wega Nery, por exem­p­lo.

Já o núcleo “Eu não cabia” inves­ti­ga o cenário da casa. Os curadores lem­bram que, em muitos romances de Clarice, a banal­i­dade do ambi­ente domés­ti­co é inter­romp­i­da por momen­tos de estran­hamen­to e descon­cer­to.

“Esse ques­tion­a­men­to do espaço do lar, tran­si­tan­do entre a segu­rança e o sufo­ca­men­to, aparece tam­bém em obras como Caixa de fós­foros, de Lygia Clark, no vídeo Eu armário de mim, de Letí­cia Par­ente, ou ain­da nas pin­turas col­ori­das de Wan­da Pimentel e Eleonore Koch, que apre­sen­tam uma casa estran­hamente vazia, por vezes vista pelas frestas”.

Em out­ra seção, denom­i­na­da “Ado­ração pelo que existe”, o destaque é a natureza, em espe­cial, os ani­mais e veg­e­tais encon­tra­dos na obra da auto­ra. Gal­in­has, cachor­ros, baratas, árvores e flo­res apare­cem com fre­quên­cia nos tex­tos de Clarice. As for­mas e enig­mas dos seres vivos são inves­ti­ga­dos ain­da nas escul­turas Pega­da de onça bra­va, de Amelia Tole­do, e Flo­res e tron­cos, de Wilma Mar­tins, entre out­ras.

Mística

Out­ra car­ac­terís­ti­ca cen­tral da pro­dução de Clarice é a mís­ti­ca. Seus tex­tos fazem refer­ên­cia a ele­men­tos das cul­turas judaica e cristã e tam­bém à astrolo­gia e  práti­ca da car­toman­cia. Nesse núcleo, inti­t­u­la­do “A vida é sobre­nat­ur­al”, desta­cam-se a escul­tura em bronze Anun­ci­ação, de Maria Mar­tins, e um áudio da escrito­ra Hil­da Hilst, no qual, em sua residên­cia na Casa do Sol, ela ten­ta esta­b­ele­cer con­ta­to com o espíri­to de Clarice.

A últi­ma seção abor­da o tema do inacaba­do. Os curadores obser­vam que, na pro­dução de Clarice, “os ques­tion­a­men­tos em relação ao começo da vida, do mun­do e da escri­ta con­fun­dem-se com a per­ma­nente dúvi­da em relação ao momen­to em que as coisas se acabam: a con­clusão dos tex­tos ou o fim da própria vida”. Obras como a xilo­gravu­ra Retorno, de Wilma Mar­tins, e os reg­istros da ação Cam­in­han­do, de Lygia Clark, foram incluí­dos nesse núcleo.

A mostra traz tam­bém um núcleo doc­u­men­tal, que reúne itens que per­tence­r­am à escrito­ra, como car­tas, máquinas de escr­ev­er e fotografias dos álbuns de família. Desta­cam-se os quadros de sua coleção, entre os quais, o famoso retra­to da auto­ra assi­na­do pelo artista Gior­gio de Chiri­co, e as primeiras edições de seus livros, além da entre­vista con­ce­di­da por Clarice à TV Cul­tura, meses antes de sua morte, em 1977. A maio­r­ia dos itens exibidos provém dos arquiv­os do IMS e da Fun­dação Casa de Rui Bar­bosa e, tam­bém, da coleção pes­soal de seu fil­ho, Paulo Gurgel Valente.

Um catál­o­go, com tex­tos críti­cos de espe­cial­is­tas na obra de Clarice, como Alexan­dre Nodari, Car­los Mendes de Sousa, Evan­dro Nasci­men­to, João Camil­lo Pen­na, José Miguel Wis­nik, Nádia Bat­tel­la Gotlib, Paulo Gurgel Valente, Yudith Rosen­baum e Vil­ma Arêas, estará à ven­da na loja do IMS e na loja online. Em 2020, o IMS lançou um site bilíngue sobre a escrito­ra.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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